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Famílias se juntam à multidão para festejar título do Flamengo no RJ

Centro do Rio para e reforça futebol como mobilizador das massas

Bruno de Fre­itas Moura e Marce­lo Brandão — Repórteres da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 30/11/2025 — 17:36
Rio de Janeiro e Brasília
Rio de Janeiro - 30/11/2025 - Flamengo chega no Rio e torcida faz festa para receber jogadores. Foto: @LibertadoresBR
Repro­dução: © Lib­er­ta­dores­BR

Em 1983, o baiano Moraes Mor­eira já can­ta­va: “ago­ra como é que eu me vin­go de toda der­ro­ta da vida, se a cada gol do Fla­men­go eu me sen­tia um vence­dor”. Na ocasião, ele lamen­ta­va a ida de Zico, o maior ído­lo do clube, para a Europa.

Hoje, 42 anos depois, mil­hões de pes­soas esque­ce­r­am as mágoas e frus­trações do dia a dia quan­do o zagueiro Dani­lo acer­tou uma cabeça­da e mar­cou o gol do quar­to títu­lo da Lib­er­ta­dores do Fla­men­go.

Neste domin­go (30), cen­te­nas de mil­hares dess­es vence­dores retrata­dos por Moraes Mor­eira se reuni­ram no Cen­tro do Rio de Janeiro para, jun­tos, mostrar ao time o taman­ho da importân­cia dessa vitória para eles.

Do alto de um cam­in­hão aber­to do Cor­po de Bombeiros, os jogadores comem­o­raram com parte da “Nação”, como a tor­ci­da do Fla­men­go se autoin­ti­t­u­la, a vitória do sába­do (29) no Está­dio Mon­u­men­tal de Lima, no Peru.

A mul­ti­dão que enfren­tou horas de espera sob o sol e lotou a Rua Primeiro de Março e a Aveni­da Pres­i­dente Antônio Car­los, duas das prin­ci­pais vias do cen­tro da cidade, é uma expressão do poder de mobi­liza­ção pelo fute­bol.

Agên­cia Brasil con­ver­sou com torce­dores sobre a moti­vação e coesão for­jadas pelo esporte, que fiz­er­am pes­soas acor­darem cedo e se deslo­carem de longe para acom­pan­har a cel­e­bração no Cen­tro do Rio, a 5,1 mil quilômet­ros do local da par­ti­da.

Vitória dupla

O casal Eduar­do Fer­reira Hen­rique e Valéria Nunes Domin­gos con­tou que a cel­e­bração de um títu­lo den­tro de cam­po é tam­bém uma for­ma de moti­vação para enfrentar as dores do cotid­i­ano.

No caso deles, que moram no Cosme Vel­ho, bair­ro da zona sul car­i­o­ca, o fim de sem­ana é de comem­o­ração dupla. No dia do jogo, veio uma óti­ma notí­cia.

“Ontem, a gente teve duas vitórias. Min­ha esposa esta­va com sus­pei­ta de câncer, deu resul­ta­do neg­a­ti­vo; e a vitória do Mengão. Foi um dia mar­avil­hoso, sen­sa­cional! Comem­o­ração dupla”, vibrou Eduar­do.

Para Valéria, vitórias como a do Fla­men­go são moti­vação para man­ter um sor­riso con­stante na vida. O casal tam­bém exal­ta a união que o fute­bol pro­por­ciona.

Rio de Janeiro (RJ), 30/11/2025 –Valéria Nunes Domingos e Eduardo Ferreira Henrique, torcedores do Flamengo, comemoram título da Copa Libertadores, no centro da cidade. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Valéria Nunes Domin­gos e Eduar­do Fer­reira Hen­rique tiver­am uma vitória dupla no sába­do: a con­quista do Fla­men­go e o resul­ta­do neg­a­ti­vo de uma sus­pei­ta de câncer em Valéria. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

“Na hora da eufo­ria, todo mun­do se abraça, todo mun­do demon­stra feli­ci­dade. Esse negó­cio de vio­lên­cia já foi do pas­sa­do, ago­ra a galera toda se une, todo mun­do jun­to”, acred­i­ta Eduar­do.

Família

Se Eduar­do e Valéria saíram de um bair­ro das redondezas, teve gente que saiu de bem mais longe. Foi o caso de Andres­sa Vitória, que mora em São Gonça­lo, municí­pio na região met­ro­pol­i­tana do Rio, a cer­ca de 30 quilômet­ros de dis­tân­cia, quase duas horas de deslo­ca­men­to.

Andres­sa foi acom­pan­ha­da da família e chegou por vol­ta das 9h, mais de três horas antes de os atle­tas pas­sarem pelo local. Ao lado da sogra, Rosane Rodrigues, ela disse à reportagem que a emoção com a vitória da véspera é um alívio para a vida pes­soal.

“Ain­da mais para quem tem uma crise de ansiedade”, rev­ela.

Ela tam­bém enx­er­ga no fute­bol uma for­ma de unir as pes­soas ao pon­to de, para ela, for­marem uma família.

“Se você estiv­er ven­do um jogo no bar, parece que todo mun­do se con­hece, começa a tro­car assun­to sobre isso. Você aca­ba fazen­do uma amizade porque sem­pre vê um jogo naque­le lugar, aca­ba se tor­nan­do uma família”, con­ta.

Vida mais leve

O torce­dor Eusébio Car­los André mora em Resende, cidade no sul do esta­do a 170 quilômet­ros do Rio. Otimista, ele tin­ha se pro­gra­ma­do para estar na cap­i­tal flu­mi­nense neste fim de sem­ana e par­tic­i­par de uma então even­tu­al comem­o­ração.

Para ele, as ale­grias no fute­bol aju­dam a deixar a vida mais leve. “O Fla­men­go gan­han­do deixa o pai de família feliz, todo mun­do feliz. O cara feliz no tra­bal­ho, feliz no amor, feliz com o fil­ho”, diz.

Ele ressalta tam­bém o que con­sid­era ser o lado democráti­co do fute­bol, em todas as tor­ci­das, inde­pen­den­te­mente de clube.

“Todas as tor­ci­das con­seguem reunir o pobre com o rico, o cara que gan­ha R$ 50 mil jun­to com o que gan­ha R$ 80 por dia. O fute­bol une tudo, todas as raças e etnias”, declara.

Fenômeno de massa

As paixões e a coesão social cau­sadas pelo fute­bol já foram tema de inúmeros estu­dos acadêmi­cos. Um deles é o do pro­fes­sor aposen­ta­do Mauri­cio Murad, da Uni­ver­si­dade do Esta­do do Rio de Janeiro (Uerj).

Rio de Janeiro (RJ), 30/11/2025 - Eusébio Carlos André Vicente, torcedor do Flamengo, comemora título da Copa Libertadores, no centro da cidade. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução:  Eusébio Car­los André Vicente foi para a cap­i­tal do esta­do com ante­cedên­cia, já pen­san­do na fes­ta da vitória. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

No arti­go Fute­bol no Brasil: reflexões soci­ológ­i­cas, o tam­bém doutor em soci­olo­gia do esporte pela Uni­ver­si­dade do Por­to, de Por­tu­gal, afir­ma que o fute­bol é um dos maiores even­tos da cul­tura da mas­sa no Brasil.

“Mobi­liza paixões cole­ti­vas, expres­sa os fun­da­men­tos antropológi­cos de nos­sa for­mação e rep­re­sen­ta o nos­so sis­tema sim­bóli­co, como poucos acon­tec­i­men­tos da estru­tu­ra social”, escreve.

Murad con­sid­era que “a mate­ri­al­i­dade maior do fute­bol, não se restringe ao esporte profis­sion­al”. Para ele, o val­or sim­bóli­co do fute­bol trans­bor­da para toda a vida social.

“O fute­bol é o mais sig­ni­fica­ti­vo fenô­meno da cul­tura das mul­ti­dões no Brasil, estim­u­lan­do corações e mentes, em regiões diver­sas, em class­es soci­ais dis­tin­tas, em difer­entes faixas etárias, níveis de esco­lar­i­dade e relações de gênero”.

O pro­fes­sor ressalta que esse efeito supera até o car­naval, por se espal­har por todo o país e se man­i­fes­tar o ano inte­ri­or. “Cos­tu­ma se diz­er que o reina­do do Rei Momo dura qua­tro dias e que o reina­do do Rei Pelé dura o ano todo”.

Paixão como herança

O casal Mau­rí­cio Braz e Flávia Tor­res saiu de Magé, municí­pio da região met­ro­pol­i­tana, para acom­pan­har a comem­o­ração. Eles levaram para fes­ta um dos rubro-negros mais novos por lá: João Vicente, de ape­nas 9 meses.

Com o bebê do colo, o pai expli­cou com orgul­ho como a tradição de torcer para o clube pas­sa de ger­ação em ger­ação. “É algo que pas­sa de pai para fil­ho. Igual aqui, essa camisa eu guar­do des­de novem­bro de 1995”, diz ele enquan­to apon­ta para a blusa ver­mel­ha e pre­ta no cor­po do bebê fla­men­guista.

“Estou pas­san­do para ele aqui hoje com o tetra da Lib­er­ta­dores”, com­ple­ta.

Rio de Janeiro (RJ), 30/11/2025 – Hélio Marcos Ferreira Chaves, torcedore do Flamengo, comemora título da Copa Libertadores, no centro da cidade. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Hélio Mar­cos Fer­reira Chaves espera comem­o­rar mais um títu­lo do Fla­men­go na próx­i­ma quar­ta (3), dessa vez acom­pan­hado do fil­ho. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

A ger­ação pode até pas­sar de família em família, mas para Hélio Mar­cos Fer­reira Chaves, a fes­ta deste domin­go foi um pouco mais desacom­pan­ha­da do que as de 2019 e 2022, quan­do o Fla­men­go tam­bém foi campeão.

“Em 2019 e em 2022, eu esta­va com os meus fil­hos. Ago­ra estou sem eles”, brin­ca, ao jus­ti­ficar que um deles esta­va tra­bal­han­do e não pôde com­pare­cer.

“Mas quar­ta-feira ele estará comi­go”, prom­e­teu para quar­ta-feira (3), quan­do o time enfrenta o Ceará pelo Campe­ona­to Brasileiro. O jogo pode dar ao clube mais um títu­lo de campeão.

O céle­bre sam­bista João Nogueira já dizia: “quan­do o Men­go perde eu não quero almoçar, eu não quero jan­tar”. Mas neste fim de sem­ana, a Nação almoçou, jan­tou e dormiu feliz.

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