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Hélio Tremendani, da Aruc, testemunhou nascimento do samba em Brasília

Repro­dução: © Anto­nio Cruz/Agência Brasil

Ele diz que hoje trabalha para preservar histórias


Pub­li­ca­do em 26/02/2023 — 14:33 Por Daniel­la Almei­da — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

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No mês em que a ale­gria toma con­ta das ruas por causa do car­naval, a Agên­cia Brasil pub­li­ca a série de entre­vis­tas Patrimônios do Car­naval, com per­son­al­i­dades que expres­sam a história, a cul­tura e o espíri­to da fes­ta que mobi­liza comu­nidades de diver­sas partes do país.

Na últi­ma entre­vista da série, a história con­ta­da é de Helio Tremen­dani dos San­tos, que pre­sid­iu cin­co vezes a Asso­ci­ação Recre­ati­va Cul­tur­al Unidos do Cruzeiro (Aruc), a maior campeã dos car­navais de Brasília, com 31 títu­los con­quis­ta­dos.

Começo

Nasci­do em 1952, na Ilha do Gov­er­nador, no Rio de Janeiro, Hélio é o penúl­ti­mo de oito fil­hos. A família veio morar em Brasília em março de 1961, quan­do o pai dele foi trans­feri­do pela Câmara dos Dep­uta­dos.

O local de residên­cia escol­hi­do pelos pais foi o bair­ro do Gav­ião, como era chama­do, à época, o Cruzeiro. Foi ali que a história de Hélio começou a se entre­laçar à da Aruc. O bair­ro era redu­to de servi­dores públi­cos proce­dentes da anti­ga cap­i­tal fed­er­al. Aque­les que gostavam de sam­ba se reu­ni­am em rodas. Dos primeiros encon­tros daque­le grupo, saiu a ideia de fun­dar uma esco­la de sam­ba no Dis­tri­to Fed­er­al. Em 21 de out­ubro de 1961, sur­gia a Aruc, ape­nas 18 meses após a inau­gu­ração de Brasília. Meni­no, Helio esteve lá e se lem­bra dessa época.

Esporte e samba

Helio, que teste­munhou o nasci­men­to e cresci­men­to da Aruc, não teve sua primeira par­tic­i­pação lig­a­da ao sam­ba. Ele começou como atle­ta, em várias modal­i­dades, como bas­quete, fute­bol e han­de­bol. Em 1974, foi con­vi­da­do a cri­ar o Depar­ta­men­to Esporti­vo da asso­ci­ação e, por anos, con­tribuiu para for­t­ale­cer as práti­cas de esportes como han­de­bol, vôlei, fut­sal e fute­bol, nas cat­e­go­rias mas­culi­na e fem­i­ni­na, do juve­nil ao mas­ter.

Hoje, com mais de 70 anos, admite que não joga mais nada porque os joel­hos não per­mitem. Mas, fes­te­ja seu lega­do: as con­quis­tas nacionais e inter­na­cionais do clube. Ele mostra foto de 2021, em que as atle­tas mas­ter (+40) da Aruc lev­an­taram a taça da Copa do Mun­do de Han­de­bol, dis­puta­da na Croá­cia.

Helio rev­ela que des­filou com a esco­la uma úni­ca vez no chão, no car­naval de 1976, na Ala dos Boêmios da Aruc. Admite que não é sam­bista e não toca nen­hum instru­men­to. Mas, a relação com o car­naval se estre­itou quan­do se tornou o pres­i­dente da Aruc, em 1980, suce­den­do Nil­ton de Oliveira Sabi­no, que tam­bém foi pux­ador ofi­cial da esco­la. Nil­ton é exal­ta­do por Helio Tremen­dani como respon­sáv­el por faz­er da Aruc a mais tradi­cional esco­la de sam­ba do Dis­tri­to Fed­er­al. Sucedê-lo foi encar­a­do como um desafio, mis­são de mui­ta respon­s­abil­i­dade.

Presidência da Aruc

Helio Tremen­dani foi pres­i­dente da Aruc cin­co vezes. O primeiro campe­ona­to em sua gestão foi con­quis­ta­do em 1982, com o enre­do Da lou­cu­ra da vida à ilusão do car­naval. Em 1981, não hou­ve des­file ofi­cial. Naque­la época, cer­ca de mil pes­soas des­fi­la­ram, divi­di­das em seis alas, para defend­er a ban­deira da Aruc.

Em sua primeira gestão como pres­i­dente, nos anos 80, criou o Depar­ta­men­to Cul­tur­al e pro­moveu o pro­je­to Con­cer­to Can­ta Gav­ião. Pelo pal­co cruzeirense, pas­saram artis­tas de renome nacional como Nel­son Cavaquin­ho, Mestre Monar­co, tia Suri­ca (primeira mul­her a ocu­par o pos­to de pres­i­dente de hon­ra da Portela), Dona Noca, Paulin­ho da Vio­la, entre out­ros inte­grantes da Vel­ha Guar­da da Portela, a esco­la madrin­ha da Aruc des­de 1962. Helio desta­ca que Clara Nunes esteve na sede da Aruc durante o dia para vis­i­tar. Não can­tou, porque já tin­ha out­ro show na mes­ma data, em Brasília.

Na gestão de Helio, além dos shows de per­son­al­i­dades do sam­ba-raiz par­tido-alto, o ex-pres­i­dente inovou e pro­moveu bailes de soul music, para atrair o públi­co jovem. A ideia surgiu, após ir a um baile do mes­mo gênero em Madureira, na zona norte do Rio.

Aruc anos 60
Repro­dução: Aruc anos 60 — Divul­gação Aruc

Até hoje, todas as grandes cel­e­brações ocor­rem na quadra bati­za­da de Nil­ton Sabi­no, uma hom­e­nagem ao anti­go pres­i­dente. O espaço tem capaci­dade para 2.200 pes­soas. Um show de Jamelão foi dis­puta­do pal­mo a pal­mo por 2.500 espec­ta­dores. Atual­mente, a quadra é des­ti­na­da tam­bém aos ensaios dos rit­mis­tas, even­tos e almoços para atrair a comu­nidade.

Mais que o samba

Helio se casou uma vez, se sep­a­rou e tem três fil­hos (Heloísa, Vic­tor e Viní­cius). O sobrenome ital­iano Tremen­dani foi her­da­do da mãe, que mor­reu em 2019, aos 103 anos. O nome mater­no só pôde ser reg­istra­do na carteira de iden­ti­dade no ano pas­sa­do, quan­do gan­hou o dire­ito na Justiça. A inclusão é jus­ti­fi­ca­da pela existên­cia de muitos homôn­i­mos de Helio dos San­tos.

O ex-pres­i­dente da agremi­ação nun­ca deixou de morar no Cruzeiro. O amor à esco­la azul e bran­co divid­iu espaço com out­ras ativi­dades, como o serviço públi­co na Com­pan­hia Energéti­ca de Brasília (CEB) por 18 anos, de onde saiu em 2005, em um Pro­gra­ma de Demis­são Vol­un­tária. Somam-se ao cur­rícu­lo dois mandatos como admin­istrador region­al do Cruzeiro, dire­tor do Depar­ta­men­to de Edu­cação Físi­ca, Esporte e Recreação (Defer) do Gov­er­no do Dis­tri­to Fed­er­al, cri­ação dos cen­tros Olímpi­co e Par­alímpi­co, pro­du­tor cul­tur­al do pro­je­to Tem­po­radas Pop­u­lares, no gov­er­no de Cristo­vam Buar­que (1995–1998). Nesse pro­je­to, pre­sen­teou o públi­co com espetácu­los de per­son­al­i­dades do sam­ba-raiz, como Beth Car­val­ho, Jamelão, Mar­t­in­ho da Vila, Zeca Pagod­in­ho, João Nogueira, Nel­son Sar­gen­to, Arlin­do Cruz, Zé Keti e Jorge Aragão, entre out­ros.

Preservando memórias

Hélio não pára. Todas as man­hãs de terça e quin­ta-feira, tra­bal­ha no Clube de Unidade de Viz­in­hança do Cruzeiro. Ele cos­tu­ma ir a pé, pois mora per­to. Há qua­tro anos, é respon­sáv­el pela con­ser­vação do acer­vo fotográ­fi­co e jor­nalís­ti­co, parte do Depar­ta­men­to Cul­tur­al da esco­la.

A ativi­dade não é recente. Começou despre­ten­siosa­mente, ain­da na ado­lescên­cia, quan­do pedia fotos aos primeiros inte­grantes da Aruc para cat­a­log­ar. Hoje, graças a ele, a memória viva da agremi­ação está preser­va­da. A essên­cia da esco­la está reg­istra­da em mais de 1.850 recortes de jor­nais e 7.500 fotos, todos dig­i­tal­iza­dos.

Há anos, tan­to mate­r­i­al não cabia mais em caixas guardadas na residên­cia do ex-pres­i­dente. Por isso, Helio defend­eu a con­strução de um espaço à altura para rece­ber as relíquias. Ago­ra, o galpão con­struí­do ao lado da quadra da esco­la abri­ga os troféus dos 31 títu­los car­navale­scos, mais os esportivos, com várias fotos col­orindo as pare­des.

Hélio se con­sid­era um memo­ri­al­ista, cole­ciona ima­gens raras, como a da reunião de fun­dação da Aruc e dos primeiros des­files. Tudo vem sendo cri­te­riosa­mente sep­a­ra­do, iden­ti­fi­ca­do, clas­si­fi­ca­do e cat­a­lo­ga­do, à medi­da que chegam novos doc­u­men­tos, reporta­gens anti­gas e ima­gens. Para isso, fez um cur­so rápi­do sobre arqui­vo. A riqueza do acer­vo con­ta histórias que sur­preen­dem o públi­co que visi­ta a sede da agremi­ação.

As pesquisas são com­par­til­hadas em gru­pos de memórias, em redes soci­ais. E se espal­ham para out­ros sites que con­tam as histórias do Cruzeiro, do esporte e da cul­tura no Dis­tri­to Fed­er­al. Algu­mas das redes soci­ais que ele geren­cia têm mais de 11 mil seguidores. A fil­ha mais vel­ha, Heloísa Cristal­do, jor­nal­ista de for­mação, revisa os tex­tos do pai, um a um, antes da postagem.

Des­de 2000, o atu­al pres­i­dente da Aruc, Rafael Fer­nan­des, é colab­o­rador assí­duo da memória do Cruzeiro.

Futuro do samba

Des­de 2021, Hélio ultra­pas­sou os muros da Aruc e foi escol­hi­do pres­i­dente da Liga de Esco­las de Sam­ba Tradi­cionais de Brasília (Lies­tra). O grupo reúne duas grandes esco­las do DF: a Aruc e a Asso­ci­ação Recre­ati­va e Cul­tur­al Acadêmi­cos da Asa Norte. A Lies­tra tem o obje­ti­vo de hom­e­nagear car­navale­scos, for­t­ale­cer vín­cu­los, ino­var as esco­las e cri­ar opor­tu­nidades para o setor. O tema da liga é Resi­s­tir para Exi­s­tir.

Mais recen­te­mente, Helio apos­ta no pro­je­to Esco­la de Car­naval, lança­do em 2021 pela Sec­re­taria de Cul­tura e Econo­mia Cria­ti­va do Dis­tri­to Fed­er­al para capac­i­tar e profis­sion­alizar a cadeia pro­du­ti­va das esco­las de sam­ba e reartic­u­lar o setor.

Local­iza­da no Eixo Cul­tur­al Ibero-amer­i­cano (anti­go Com­plexo Funarte Brasília), a esco­la tem foca­do na for­mação com­ple­ta de car­navale­scos. A habil­i­tação ocorre des­de o planejamento,a  prestação de con­tas, gestão do car­naval, pas­san­do pela parte artís­ti­ca, com treina­men­tos para desen­hos de fan­tasias e maquiagem de car­naval e chegan­do a aulas de dança aos pas­sis­tas, mestre-sala e por­ta-ban­deira e final­izan­do com a face musi­cal — a qual­i­fi­cação de rit­mis­tas, inte­grantes da bate­ria e per­cussão.

Patrimônio Cultural

Brasília (DF), 09/02/2023 - Entrevista com o ex-presidente da ARUC, Hélio Tremendani dos Santos. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Repro­dução: Brasília (DF), 09/02/2023 — Entre­vista com o ex-pres­i­dente da ARUC, Hélio Tremen­dani dos San­tos. Foto: Anto­nio Cruz/Agência Brasil — Anto­nio Cruz/Agência Brasil

Na déca­da de 90, a super­cam­peã do Dis­tri­to Fed­er­al gan­hou o sta­tus de Clube de Unidade de Viz­in­hança do Cruzeiro, com quadras de esporte, giná­sio, pisci­nas e espaços para a comu­nidade.

Em 2009, a esco­la recordista de títu­los no DF rece­beu o mais rel­e­vante deles: o de Patrimônio Cul­tur­al Ima­te­r­i­al do Dis­tri­to Fed­er­al, por seu lega­do à cul­tura.

Em dezem­bro pas­sa­do (2022), a Aruc rece­beu a Escrit­u­ra Públi­ca de Dire­ito Real de Uso do ter­reno, ocu­pa­do des­de 1974. O doc­u­men­to faz parte da ini­cia­ti­va que reg­u­lar­iza ocu­pações históri­c­as de asso­ci­ações sem fins lucra­tivos em unidades da Com­pan­hia Imo­bil­iária de Brasília (Ter­ra­cap).

Cenário atual

Há oito anos, não há des­file ofi­cial das esco­las de sam­ba em Brasília. Neste ano, no entan­to, no domin­go de car­naval (19), a Aruc reuniu mais de 1.500 pes­soas nas ruas do Cruzeiro Vel­ho, que acom­pan­haram gra­tuita­mente o tra­je­to dos pas­sis­tas e do tradi­cional gav­ião azul e bran­co. No des­file de rua, a bate­ria da esco­la e os foliões can­taram os sam­bas-enre­do que fiz­er­am a história da Aruc.

O próx­i­mo grande com­pro­mis­so da agremi­ação será em abril deste ano, no Eixo Cul­tur­al Ibero-amer­i­cano , quan­do as esco­las voltam a des­fi­lar no 63º aniver­sário de Brasília. A Aruc deve con­tar com 100 inte­grantes na bate­ria para lev­an­tar o estandarte da esco­la.

Hélio con­ver­sou com a reportagem da Agên­cia Brasil, em uma cam­in­ha­da pelo galpão (que guar­da os troféus da Aruc) e pela quadra da esco­la. Con­fi­ra a entre­vista:

Agên­cia Brasil: Como começou sua relação com a Aruc?

Hélio Tremen­dani: Com uns 20 anos, eu era jogador. Em 1974, eu entro para cri­ar o Depar­ta­men­to de Esporte.

Agên­cia Brasil: Você esteve na inau­gu­ração da Aruc?

Hélio Tremen­dani: Eu lem­bro que esta­va lá [mostra a foto]. Nes­ta foto, eu rodea­va todos. Esta­va ten­tan­do ouvir o que eles estavam falan­do. Que­ria enten­der o que eles estavam artic­u­lan­do.

Agên­cia Brasil: Como começou a jun­tar os itens do acer­vo da Aruc?

Hélio Tremen­dani: Em 1974, fui atrás dess­es fun­dadores para me arru­mar fotos. Eu copi­a­va e devolvia. Então, fui con­stru­in­do o acer­vo. A maio­r­ia nem quis a devolução. Muitas dessas fotos foram doadas por quem não enx­er­ga­va tan­to val­or no mate­r­i­al. Eles não sabi­am o moti­vo pelo qual eu esta­va solic­i­tan­do essas ima­gens. Nada pas­sou em bran­co. E eu ven­ho fazen­do esse tipo de tra­bal­ho aqui. A min­ha função na Aruc, especi­fi­ca­mente, é cuidar desse espaço.

Os troféus mais anti­gos ficavam na min­ha casa, porque não tin­ha espaço ade­qua­do aqui. Mas, foi aumen­tan­do muito e começou a fal­tar lugar. Quan­do o pes­soal do Rio vem faz­er shows em Brasília, fica impres­sion­a­do com isso, porque nen­hu­ma esco­la de sam­ba do Rio con­seguiu res­gatar os primeiros troféus que eles con­quis­taram.

Agên­cia Brasil: E a relação com a esco­la de Madureira (RJ), a Portela, que apadrin­hou a Aruc em 1962?

Hélio Tremen­dani:  A Portela apadrin­ha esco­las em oito esta­dos. Com a Aruc, a relação com a Portela tem cresci­do muito nos últi­mos anos. O pre­cur­sor da relação com a Portela foi o dire­tor da Aruc Fer­nan­do de Car­val­ho, que des­fila­va na Portela. Ele con­seguia mobi­lizar pes­soas de Brasília, for­man­do uma ala com quase 100 pes­soas e fazia a con­strução com  a Portela. Troux­e­mos para se apre­sen­tar na Aruc a Vel­ha Guar­da do Rio. Havia um inter­câm­bio. O ex-pres­i­dente da Portela, que saiu no ano pas­sa­do, [Luis] Car­los Mag­a­l­hães, dava mui­ta atenção pra gente. Veio aqui várias vezes. E o dire­tor do Depar­ta­men­to Cul­tur­al da Portela, Rogério Rodrigues, igual­mente. Hoje, a nos­sa relação com a Portela se dá pelo ex-pres­i­dente da Aruc Moa­cyr de Oliveira, o Moa, que criou o Con­sula­do da Portela em Brasília e que fun­ciona na Aruc.

Agên­cia Brasil: Con­te uma história curiosa.

Hélio Tremen­dani: Em 1974, a dire­to­ria resolveu bus­car os qua­tro primeiros troféus na chá­cara de um ex-pres­i­dente. No dia, cheguei para treinar fute­bol de salão e o pres­i­dente me chamou para ir. Chegan­do lá, ess­es troféus estavam em um chiqueiro. Éramos qua­tro e um per­gun­tou para o out­ro quem iria pular. Eu pulei, entrei no chiqueiro e pen­sei: vou levar uma bron­ca da min­ha mãe quan­do chegar em casa. Hoje, os qua­tro primeiros troféus da Aruc estão expos­tos no galpão. São as relíquias de 1965, 1966, 1967 e 1969.

Agên­cia Brasil: Na gale­ria de troféus, tem algum preferi­do?

Hélio Tremen­dani: O meu queri­do é o títu­lo do car­naval de 1982. O primeiro em que fui pres­i­dente [da Aruc].  Eu era vis­to como um cara legal, um bom jogador de bas­quete, de fute­bol. Não era do car­naval. Então, era um desafio para mim. A roti­na da Aruc era gan­har. Tin­ha mui­ta importân­cia para a Aruc.

Agên­cia Brasil: Cite um per­son­agem do car­naval de Brasília.

Hélio Tremen­dani: Para mim, Nil­ton de Oliveira Sabi­no, pres­i­dente [da Aruc] de 1974 a 1980, é a maior per­son­al­i­dade do car­naval de Brasília. Primeiro, porque teve uma visão difer­en­ci­a­da. Pen­sou: vou assumir e respeitar a vel­ha guar­da, os fun­dadores, mas eu quero a jovem-guar­da, quero mon­tar o grupo de jovens. Foi quan­do eu entrei. Ele dizia: faz aí que assi­no embaixo.

Tem tam­bém o Brigadeiro (Manoel Fred­eri­co Soares, embaix­ador do sam­ba de Brasília); Seu Anadir [salgueirense fun­dador da Acadêmi­cos], da Asa Norte; e Dar­cy Gonçalves Dutra, da Capela Impe­r­i­al de Taguatin­ga.

Agên­cia Brasil: Você con­heceu muitas per­son­al­i­dades do sam­ba. Con­te algum basti­dor para a Agên­cia Brasil.

Hélio Tremen­dani: No [pro­je­to] Tem­po­radas Pop­u­lares, eu que­ria traz­er o Jamelão. Eu falei com Jorge Aragão e ele disse que era com­pli­ca­do. Depois de um tem­po, eu con­segui trazê-lo. No sába­do do show, que seria à noite, hou­ve uma cole­ti­va de man­hã. Eu pedi ao pes­soal da impren­sa que não usasse o ter­mo pux­ador de sam­ba com Jamelão, já que ele gosta­va de ser chama­do de intér­prete. Ele pode­ria dar uma respos­ta mal cri­a­da. Então, uma TV gosta­va de faz­er as cole­ti­vas ao vivo. Jun­taram-se ali uns oito jor­nal­is­tas. Logo que começou, uma repórter per­gun­tou como Jamelão se sen­tia sendo con­sid­er­a­do o maior pux­ador de sam­ba do Brasil. Um aper­to, viu? Mas, Jamelão esta­va de astral legal e deu uma respos­ta edu­ca­da: não sou pux­ador, sou intér­prete. Em segui­da, fui falar com a jor­nal­ista, pois eu tin­ha pedi­do para não faz­er aqui­lo. Ela quase aca­ba com tudo.

Agên­cia Brasil: Você teve crise com o car­naval?

Hélio Tremen­dani: Em deter­mi­na­do momen­to, eu não tin­ha tem­po. Não tin­ha cobrança dos famil­iares, mas eu ten­ho min­ha família, tin­ha o esporte, o tra­bal­ho. Fui me afa­s­tan­do do esporte. Na Aruc, pen­sei em parar várias vezes, mas não con­seguia. Por algum moti­vo, eu tin­ha que voltar e volta­va. Tin­ha sába­do que eu fica­va até meia noite e no domin­go, volta­va de novo. Qua­tro anos atrás, eu resolvi arru­mar uma sala den­tro da Aruc e me dediquei à memória da asso­ci­ação.

Agên­cia Brasil: Como man­ter o pes­soal moti­va­do?

Hélio Tremen­dani: Fazen­do ensaios. Tem que ter uma  boa bate­ria, um bom car­ro de som, que são os intér­pretes, e uma boa orga­ni­za­ção, a cerve­ja não pode fal­tar para o pes­soal que gos­ta. Chamar as pas­sis­tas, o mestre-sala e a por­ta-ban­deira.

Agên­cia Brasil: Você se con­sid­era sam­bista, car­navale­sco ou folião?

Hélio Tremen­dani: Eu gos­to de sam­ba, não toco instru­men­to, não fiz letra, não sou sam­bista autên­ti­co. Nun­ca me aven­turei. Eu sem­pre sobre­vivi estes anos porque soube respeitar os meus lim­ites. O car­naval tin­ha um car­navale­sco. Eu dava os poderes para ele e acom­pan­ha­va. Então, eu não inter­feriria no car­naval. Eu fazia artic­u­lação por fora, nos basti­dores. Eu fazia uma parte [do tra­bal­ho] e a out­ra equipe fazia a out­ra.

Agên­cia Brasil: E você pre­side uma nova liga, a das esco­las tradi­cionais. Como é o tra­bal­ho?

Hélio Tremen­dani: A liga de que hoje sou pres­i­dente é a tradi­cional. Ela foi cri­a­da em 2021, porque a Aruc e a Acadêmi­cos da Asa Norte não con­cor­davam com o número de esco­las de sam­ba que havia. Eram 21. De lá pra cá, dimin­uíram para 14. Mes­mo assim, a gente con­sid­era muito. O ide­al seria ter oito esco­las. Qua­tro no Grupo Espe­cial e qua­tro no grupo de Aces­so, para for­t­ale­cer as esco­las.

Agên­cia Brasil: Qual a maior rival da Aruc?

Hélio Tremen­dani: A Acadêmi­cos da Asa Norte [de 1969. A segun­da maior deten­to­ra de títu­los, sete ao todo].

Agên­cia Brasil: Há oito anos sem des­files de esco­las de sam­ba de Brasília. Quais são os desafios para retoma­da?

Depois de oito anos, é meio com­pli­ca­do porque perdeu a sequên­cia. Sur­gi­ram os blo­cos de rua. Tem públi­co deles. Mas, são coisas difer­entes. Então, o primeiro desafio é retornar. Em 2024, é out­ra real­i­dade. Recomeçar. Vai ser car­naval do recomeço. Fal­tou um inter­esse políti­co muito grande. Vai ser pre­ciso um bom mar­ket­ing para influ­en­ciar nas decisões dos gov­er­nantes.

Agên­cia Brasil: Como vê o futuro do car­naval de Brasília?

Hélio Tremen­dani: O futuro pas­sa pelo respeito das autori­dades de gov­er­no e dos políti­cos aos sam­bis­tas. Já existe uma políti­ca públi­ca volta­da para o car­naval. A par­tir do momen­to em que eles respeitarem essa lei, pode ter certeza de que o cenário do car­naval será out­ro, em qua­tro anos, em Brasília. Com­ple­ta­mente difer­ente. Vocês vão ver.

Agên­cia Brasil: Como atrair mais jovens para o car­naval?

Hélio Tremen­dani: Foi cri­a­do o pro­je­to Esco­la de Car­naval para o futuro do car­naval brasiliense. Pas­sa por aí a qual­i­fi­cação de pes­soas para tra­bal­har — cos­tureiras, aderecis­tas, per­cussão, para levar para as esco­las. O foco deve ser aque­le meni­no que tem 14 [anos] para que, com 16 [anos], ele já pos­sa des­fi­lar. Ou seja, cri­ar um públi­co para tra­bal­har na esco­la toda, crescer lá den­tro.

Agên­cia Brasil: Os des­files de esco­las de sam­ba mudaram de lugar, durante a história de Brasília. Onde dev­e­ri­am ser, em defin­i­ti­vo?

Hélio Tremen­dani: O auge dos car­navais foi entre 1970 e 1990. O car­naval saiu da Funarte [atu­al Eixo Cul­tur­al Ibero-amer­i­cano], foi para Ceilân­dia [Ceil­am­bó­dro­mo]. Voltou ao esta­ciona­men­to do giná­sio Nil­son Nel­son, onde per­maneceu por mais dois anos. Não era ruim, mas tin­ha que ser mais cen­tral, mais per­to da rodoviária, com uma pista que com­porte os 450 com­po­nentes de cada esco­la.

Agên­cia Brasil: E o pro­je­to do Sam­bó­dro­mo de Brasília?

Hélio Tremen­dani: Hoje, há esta­dos que têm um grande car­naval, como o Espíri­to San­to, que tem um sam­bó­dro­mo, San­ta Cata­ri­na, Por­to Ale­gre breve­mente vai con­stru­ir um sam­bó­dro­mo; Man­aus tem, São Paulo, Rio. Vários esta­dos têm espaço e nesse local abrigam out­ras man­i­fes­tações cul­tur­ais. Brasília tem o pro­je­to de ter um sam­bó­dro­mo. A gente está lutan­do de novo para con­stru­ir entre o Colé­gio Mil­i­tar [de Brasília) e o [Está­dio] Mané Gar­rin­cha, indo em direção ao autó­dro­mo. A par­tir dali, não seria só um espaço para as esco­las, mas tam­bém para shows, car­naval de rua. Enfim, para todas as man­i­fes­tações cul­tur­ais.

Agên­cia Brasil: O que sim­boliza a Escrit­u­ra Públi­ca de Dire­ito Real de Uso do ter­reno da Aruc?

Hélio Tremen­dani: Resistên­cia. Resi­s­tir para exi­s­tir nes­sa área, para que ela não fos­se cedi­da para espec­u­lação imo­bil­iária, e mais recen­te­mente para igre­ja. O que me movia, nos últi­mos anos, era não perder essa área. Uma dia a gente iria reg­u­larizar. E reg­u­lar­izamos no ano pas­sa­do.

Ten­taram mudar a des­ti­nação da área para con­stru­ir o maior tem­p­lo de Brasília nesse espaço. Out­ro empresário que­ria a mudança de des­ti­nação para con­stru­ir um con­domínio. A escrit­u­ra traz segu­rança jurídi­ca e per­mite a explo­ração com­er­cial da área do clube, como a ven­da de ingres­sos para as fei­joadas.

Agên­cia Brasil: Qual o seu lega­do?

Hélio Tremen­dani: Eu voltei à Aruc há qua­tro anos para preser­var a memória. As salas do acer­vo e dos troféus são san­tuários. Elas têm que ser preser­vadas. Se não tiv­er ninguém inter­es­sa­do, eu vou con­tin­uar, até quan­do eu estiv­er vivo. Foi uma mis­são que me der­am. Como é que o garo­to, que eu era, ia se pre­ocu­par em pegar foto para iden­ti­ficar, para guardar? Foi uma mis­são. Só pode ser. Eu sin­to o peso dessa respon­s­abil­i­dade.

Edição: Graça Adju­to

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