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Ilha Grande, no RJ, recebe título de área de conservação de morcegos

Local paradisíacos tem 37 espécies registradas, algumas em extinção

Mar­i­ana Tokar­nia — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 06/04/2025 — 14:22
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ) 03/04/2025 - Platyrrhinus recifinus - Com 37 espécies reconhecidas, Ilha Grande se torna área de conservação de morcegos. Foto: Luciana M. Costa/Divulgação
Repro­dução: © Luciana M. Costa/Divulgação

Os fios bem finos e quase invisíveis das chamadas redes de nebli­na e a gravação de sons são os instru­men­tos dos pesquisadores da Uni­ver­si­dade do Esta­do do Rio de Janeiro (Uerj) para mon­i­torar os morce­gos que vivem em Ilha Grande, no municí­pio de Angra dos Reis, no litoral sul flu­mi­nense. A vig­ilân­cia, que já pos­si­bil­i­tou, inclu­sive, um novo reg­istro de espé­cie no esta­do, ago­ra aju­dou a ilha a rece­ber um títu­lo inter­na­cional: Área de Importân­cia para a Con­ser­vação dos Morce­gos (Aicom).

Con­ce­di­da pela Rede Lati­no-amer­i­cana e do Caribe para Con­ser­vação dos Morce­gos (Rel­com), a cer­ti­fi­cação fun­ciona como uma fer­ra­men­ta para a pro­teção de morce­gos ameaça­dos de extinção ou não, por meio da declar­ação de áreas pro­te­gi­das. 

A Rel­com recon­hece áreas que aten­dem a um ou mais dos seguintes critérios: abri­gar espé­cies de inter­esse nacional ou region­al para con­ser­vação; con­ter refú­gios usa­dos para uma ou mais espé­cies de inter­esse para con­ser­vação; e ter uma grande riqueza de espé­cies, inde­pen­den­te­mente do seu nív­el de ameaça.

Ilha Grande é uma das áreas com a maior var­iedade de morce­gos do esta­do do Rio de Janeiro. São 37 espé­cies recon­heci­das, o que rep­re­sen­ta 19,9% das espé­cies con­heci­das no Brasil; 37,8% das espé­cies da Mata Atlân­ti­ca e 46,8% das espé­cies reg­istradas no esta­do.

“Os morce­gos são ani­mais pouco con­heci­dos. As pes­soas têm muito medo deles e não sabem a importân­cia deles para o meio ambi­ente. Esse títu­lo inter­na­cional que a Ilha Grande gan­hou ago­ra é impor­tante porque os as pes­soas vão con­hecer mais os morce­gos”, diz a pesquisado­ra do Lab­o­ratório de Ecolo­gia de Mamífer­os da Uerj Luciana Cos­ta, que atua no local.

“Eles muito impor­tantes para a gente porque têm diver­sos hábitos ali­menta­res. Eles podem faz­er dis­per­são de semente, polin­iza­ção de plan­tas, con­t­role de inse­tos e pou­cas pes­soas sabem dis­so”, diz Cos­ta. “Se hou­vesse a extinção dos morce­gos, isso seria ter­rív­el para o mun­do”, acres­cen­ta.

Rio de Janeiro (RJ) 03/04/2025 - Pesquisadora do Laboratório de Ecologia de Mamíferos da Uerj Luciana Costa - Com 37 espécies reconhecidas, Ilha Grande se torna área de conservação de morcegos. Foto: Luciana Costa/Arquivo pessoal
Repro­dução: Pesquisado­ra do Lab­o­ratório de Ecolo­gia de Mamífer­os da Uerj Luciana Cos­ta Luciana Costa/Arquivo pes­soal

Conhecendo os morcegos

Os morce­gos são mamífer­os que pos­suem finas mem­branas conectan­do os dedos, que for­mam asas. Além de voar, eles se deslo­cam e caçam com a aju­da do som. Eles emitem ondas sono­ras que, ao atin­gir obstácu­los, retor­nam e são perce­bidas pelos ani­mais. Assim, eles traçam as próprias rotas e local­izam pre­sas e ali­men­tos.

Ess­es ani­mais, que inspi­raram fig­uras da ficção como vam­piros e o super-herói Bat­man, são ativos à noite, quan­do são mais avis­ta­dos e tam­bém mais ouvi­dos e pos­suem hábitos ali­menta­res diver­sos.

Cos­ta expli­ca que há os morce­gos frugívoros, que comem fru­tas e, até mes­mo sem quer­er, aju­dam na dis­per­são de sementes, no reflo­resta­men­to e na polin­iza­ção de flo­res, sobre­tu­do para as que só desabrocham à noite. Há tam­bém aque­les que se ali­men­tam de inse­tos, aju­dan­do a con­tro­lar tan­to pra­gas agrí­co­las quan­to mos­qui­tos que trans­mitem doenças. Há os que se ali­men­tam de pequenos ver­te­bra­dos, como lagar­tixas e pequenos ratos.

Os hematófa­gos, por fim, são os mais temi­dos. “É um morcego que se ali­men­ta de sangue. Esse é o mais temi­do por todo mun­do. Ele existe, mas é sem­pre bom lem­brar que eles exis­ti­am aqui sem os seres humanos. eles se ali­men­tam de grandes mamífer­os, podem se ali­men­tar de anta, de tatu, de grandes aves”, diz a pesquisado­ra.

Pesquisa em Ilha Grande

Segun­do Cos­ta, todos ess­es tipos são encon­tra­dos na Ilha Grande. Na região, a pesquisa é fei­ta pelo Lab­o­ratório de Ecolo­gia de Mamífer­os prin­ci­pal­mente de duas for­mas. Uma delas é usan­do as redes de nebli­na, men­cionadas no iní­cio da reportagem, para cap­turar os ani­mais. Os pesquisadores ficam aten­tos, checan­do a rede a cada 20 min­u­tos, para que os morce­gos não fiquem pre­sos por muito tem­po. Os ani­mais são iden­ti­fi­ca­dos e, logo em segui­da, lib­er­a­dos.

O out­ro méto­do é o mon­i­tora­men­to acús­ti­co. “A gente gra­va o som dos morce­gos, a ecolo­cal­iza­ção. E, depois, a gente leva ess­es sons para o lab­o­ratório e ten­ta iden­ti­ficar até o nív­el de espé­cie”, expli­ca Cos­ta. Segun­do ela, esse méto­do pos­si­bil­i­tou o reg­istro do morcego Pro­mops cen­tralis no Rio de Janeiro. A espé­cie já havia sido reg­istra­da no Brasil, mas ain­da não havia sido doc­u­men­ta­da no esta­do.

“Ele é um morcego insetívoro que voa muito alto, então, ele não cai na rede de nebli­na. Com esse méto­do do mon­i­tora­men­to acús­ti­co, a gente con­seguiu gravar essa espé­cie e esten­demos a dis­tribuição para o esta­do do Rio de Janeiro que ain­da não tin­ha”, diz.

Em Ilha Grande, tam­bém está a Furipterus hor­rens, clas­si­fi­ca­da como vul­neráv­el na lista brasileira de espé­cies ameaçadas de extinção; a Lon­chophyl­la per­ac­chii, recon­heci­da como nati­va da Mata Atlân­ti­ca; a Myotis nigri­cans e a Myotis izeck­sohni, tam­bém endêmi­cas da Mata Atlân­ti­ca; e a Tona­tia bidens, clas­si­fi­ca­da como “defi­ciente de dados” pela União Inter­na­cional para a Con­ser­vação da Natureza, ou seja, uma espé­cie sobre a qual não se tem infor­mações sufi­cientes para avaliar o risco de extinção.

Rio de Janeiro (RJ) 03/04/2025 - Sturnira lilium - Com 37 espécies reconhecidas, Ilha Grande se torna área de conservação de morcegos. Foto: Luciana M. Costa/Divulgação
Repro­dução: Morcego cat­a­lo­ga­do por pesquisadores em Ilha Grande Luciana M. Costa/Divulgação

Convivendo com pessoas

Com o des­mata­men­to e o cresci­men­to das cidades e das ocu­pações humanas, os morce­gos estão cada vez mais per­to das pes­soas. A pro­va dis­so é que, além de habitarem partes ocas de árvores e de ficarem escon­di­dos embaixo de fol­has, eles são cada vez mais encon­tra­dos em tel­ha­dos e con­struções na ilha.

Por vezes, as con­struções até aju­dam ess­es ani­mais. “De repente, con­stróem uma casa com tel­ha­do e com uma fres­ta e, então, os morce­gos veem aque­le tel­ha­do como sendo óti­mo para eles ficarem, porque é pro­te­gi­do de chu­va, é pro­te­gi­do de predador. E eles con­seguem se repro­duzir muito mel­hor naque­le tel­ha­do”, con­ta a pesquisado­ra.

Essa prox­im­i­dade traz tam­bém a neces­si­dade de uma maior con­sci­en­ti­za­ção da pop­u­lação. O pro­je­to Morce­gos na Praça, real­iza­do pelo Lab­o­ratório em parce­ria com a Uni­ver­si­dade Fed­er­al Rur­al do Rio de Janeiro (UFRRJ), tem o obje­ti­vo de levar edu­cação ambi­en­tal aos moradores da ilha.

Eles são ori­en­ta­dos a não tocar nos ani­mais, para não serem mor­di­dos, a tomarem cuida­do com os locais onde há acú­mu­lo de fezes, onde é perigoso inalar esporos de fun­gos que podem causar doenças como a histo­plas­mose, infecção que pode afe­tar os pul­mões e se espal­har pelo cor­po. Ness­es casos a ori­en­tação é usar más­caras e out­ros equipa­men­tos de pro­teção e umede­cer as fezes para difi­cul­tar a dis­per­são dos esporos no ar.

»> Sai­ba como se pro­te­ger da rai­va, doença grave que pode ser trans­mi­ti­da por morce­gos

Out­ra ori­en­tação impor­tante, de acor­do com Cos­ta, é não matar os ani­mais. “Os morce­gos são ani­mais sil­vestres e pro­te­gi­dos por lei [Lei 9605/98. Então, se matar um morcego, você está infringin­do a lei, já não pode”, reforça.

“Tem mui­ta gente que não gos­ta deles estarem per­to das áreas urbanas, mas é sem­pre bom lem­brar que é a gente que inva­diu o espaço deles”, defende a pesquisado­ra.

Rio de Janeiro (RJ) 03/04/2025 - Com 37 espécies reconhecidas, Ilha Grande se torna área de conservação de morcegos. Foto: Uerj/Divulgação
Repro­dução: Uni­ver­si­dade do Esta­do do Rio de Janeiro (Uerj) tem cen­tro de estu­dos em Ilha Grande Uerj/Divulgação
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