...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Efemérides, Meios de comunicação / Ivone Lara, 100 anos: como a enfermeira influenciou a sambista

Ivone Lara, 100 anos: como a enfermeira influenciou a sambista

Repro­dução: © Acer­vo Dona Ivone Lara

Artista foi a pioneira na utilização de musicoterapia para pacientes


Pub­li­ca­do em 13/04/2022 — 06:32 Por Luiz Clau­dio Fer­reira, repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

“Sonho meu, sonho meu

Vai buscar quem mora longe, sonho meu

Vai mostrar esta saudade, sonho meu

Com a sua liberdade, sonho meu (…)”

Liber­dade e son­ho. As palavras que se fundi­ram em ver­sos atrav­es­saram as “duas vidas” da enfer­meira-sam­bista Ivone Lara (1922 — 2018). Ou seria sam­bista-enfer­meira? A artista, que usou musi­coter­apia no cuida­do com pacientes psiquiátri­cos ou nas com­posições mar­cantes que a tornaram uma musicista sin­gu­lar, faria 100 anos de idade nes­ta quar­ta-feira (13). 

“Ela  é um caso úni­co na história da músi­ca brasileira. Isso porque, antes de lançar o primeiro dis­co, Dona Ivone dedi­cou 37 anos no tra­bal­ho como enfer­meira e assis­tente social no serviço de doenças men­tais”, afir­ma o bió­grafo Lucas Nobile. Ele é o autor de Ivone Lara: a Primeira-dama do Sam­ba, livro que con­ta uma das histórias mais com­plexas de uma per­son­agem longe­va da cul­tura brasileira. Ela mor­reu com 96 anos de idade.
Ouça pro­gra­ma Viva Maria sobre Ivone Lara

Clique no play­er aci­ma

“Feliz­mente, a gente tem pelo menos dez grandes suces­sos de Dona Ivone que são toca­dos até hoje em toda roda de sam­ba. Ela teve sua obra grava­da pelos maiores can­tores e can­toras do Brasil. Isso não é nen­hum exagero diz­er”, afir­ma o bió­grafo. A músi­ca Son­ho Meu, por exem­p­lo, inte­grou o históri­co dis­co Áli­bi, de Maria Bethâ­nia, o primeiro álbum de uma can­to­ra brasileira a ultra­pas­sar 1 mil­hão de cópias.

Assista ao especial produzido pela TV Brasil

A enfermeira

A primeira vida profis­sion­al de Ivone Lara (de 37 anos de serviços) é igual­mente mar­cante. Ela tra­bal­hou na equipe da médi­ca Nise da Sil­veira (ouça pro­gra­ma sobre a históri­ca brasileira), que rev­olu­cio­nou o trata­men­to psiquiátri­co no Brasil com ações human­izadas em con­traste aos pro­ced­i­men­tos agres­sivos como eletro­choques e lobot­o­mia. “A douto­ra Nise pas­sou a tratar aque­les pacientes com a uti­liza­ção das artes [como visuais e plás­ti­cas]. A Dona Ivone Lara chega pra ela e sug­ere que ela crie uma sal­in­ha com instru­men­tos musi­cais lá no Hos­pi­tal do Engen­ho de Den­tro”, afir­ma o bió­grafo.

Nise da Sil­veira aca­tou essa sug­estão da Dona Ivone e pas­sou a orga­ni­zar o “trata­men­to com músi­ca” tam­bém na déca­da de 1940, uma época em que mal se fala­va de musi­coter­apia.  A enfer­meira, de maneira intu­iti­va, começou a aplicar aque­le trata­men­to difer­ente ao lon­go de 37 anos.  A músi­ca não era ape­nas uma intu­ição para a enfer­meira.

Influências por todos os lados

Ivone Lara nasceu em um berço musi­cal. “Os pais eram músi­cos amadores. A mãe can­ta­va e o pai toca­va vio­lão. Dona Ivone rece­beu essas influên­cias musi­cais den­tro da família e não é exagero nen­hum a gente diz­er que tam­bém tem uma tra­jetória úni­ca na história da músi­ca brasileira”, afir­ma Nobile.

Dos pais, ela her­dou a melo­dia dos “ran­chos car­navale­scos”, agremi­ações de car­naval ante­ri­ores às esco­las de sam­ba. Da tia, Vovó Tereza, ícone do Mor­ro da Ser­rin­ha, rece­beu a her­ança das matrizes africanas. Tereza era mãe dos dois pri­mos sam­bis­tas, Hélio e Fuleiro.

“Com 12 anos de idade, ela com­pôs sua primeira músi­ca. Foram os pri­mos que a levaram para o ambi­ente de car­naval e para a esco­la de sam­ba Praz­er da Ser­rin­ha.” Lá, ela con­heceu o Oscar (fil­ho do dono da agremi­ação), com quem se casaria em 1947. “Assim ela entra no ambi­ente do car­naval, que ain­da era muito mas­culin­iza­do, machista e mis­ógi­no.” Para driblar os obstácu­los e par­tic­i­par com sua músi­ca, ela mostra­va as com­posições como se fos­sem feitas pelos pri­mos.

Ivone Lara ficou órfã cedo (na infân­cia, perdeu o pai; na ado­lescên­cia, a mãe). Aliás, foi a mãe que, para garan­tir uma boa edu­cação for­mal para as fil­has (para Ivone e para a irmã, Elza), teve a ideia de matriculá-las em uma esco­la públi­ca que fun­ciona­va em regime de inter­na­to. Para isso, pre­cisou declarar que Ivone tin­ha um ano a mais. Está reg­istra­da como nasci­da em 1921. “Ela mes­ma, em depoi­men­to de viva voz, con­tou essa história de que a mãe dela aumen­tou a idade dela.”

Na esco­la, as alu­nas, naque­le tem­po, eram ensi­nadas a faz­er tra­bal­hos man­u­ais como arte­sana­to e cos­tu­ra. Mas foi lá tam­bém que ela apren­deu o can­to orfeôni­co com a práti­ca de can­to em grupo. Teve pro­fes­so­ras como a pianista Lucília Guimarães, que foi com­pan­heira de Heitor Vil­la-Lobos.

“Depois que Ivone perdeu a mãe, ela foi morar com o tio Dioní­sio, que toca­va trom­bone e vio­lão na sua esco­la e pro­movia saraus na casa dele”. Nos encon­tros, chegavam por lá músi­cos como Pixin­guin­haJacob do Ban­dolim e o Can­d­in­ho do Trom­bone. “Dona Ivone assis­tia a essas pes­soas no quin­tal da casa dela.”

Eram influên­cias por toda a parte que iri­am escr­ev­er a história da artista. Ela tra­bal­hou por 37 anos com enfer­magem em para­le­lo ao apren­der musi­cal, e cuidan­do dos doentes psiquiátri­cos. Em 1978, ela se aposen­toou. O mari­do, que era muito ciu­men­to, havia mor­ri­do. Ela tin­ha 56 anos de idade. “Aí final­mente ela gravou o seu primeiro dis­co. É um ano de estreia dela nes­sa car­reira exclu­si­va­mente artís­ti­ca de for­ma muito impres­sio­n­ante”. Com Dél­cio Car­val­ho, ela com­pôs o grande suces­so Son­ho Meu. “A estreia foi arrebata­do­ra”, detal­ha Nobile.

 

DONA IVONE 2 COM DELCIO CARVALHO
Repro­dução: Dona Ivone Lara com Del­cio Car­val­ho, par­ceiros da músi­ca Son­ho Meu, um dos maiores suces­sos da primeira dama do sam­ba — Acer­vo Dona Ivone Lara

Ouça entrevista com Dona Ivone Lara para o programa Nacional 80. A edição foi ao ar em 1981 e integra o acervo da Rádio Nacional.

Entrevista Dona Ivone Lara.mp3 — Rádio Nacional — Programa Rádio Memória Nacional 80

O desaguar

O escritor entende que a exper­iên­cia na área da saúde tem uma influên­cia cen­tral na músi­ca da Dona Ivone. “O tra­bal­ho de Dona Ivone era o da inclusão. Muitos pacientes ficavam aban­don­a­dos pela própria família. Então Dona Ivone tin­ha um papel de faz­er con­ta­to com essas famílias para quan­do eles saíssem dali. Esse olhar doce de cuidar de out­ra pes­soa sem­pre foi muito pre­sente. Então, pra mim, é muito nat­ur­al que quan­do ela par­tisse para a car­reira artís­ti­ca, todo esse human­is­mo fos­se desaguar na obra dela.”

Dona Ivone é respon­sáv­el por quase 200 com­posições. “Em uma quan­ti­dade con­sid­eráv­el de músi­cas, ela fala de son­ho e de imag­i­nação. O tra­bal­ho com aque­les pacientes era com o incon­sciente. Não é obra do aca­so que a músi­ca mais con­heci­da dela ten­ha no títu­lo a palavra son­ho”. As memórias fazi­am parte do enre­do de seus sam­bas…

Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho

Mas eu vim de lá pequenininho

Alguém me avisou

Pra pisar nesse chão devagarinho
(Alguém me Avisou)

Um dos prin­ci­pais suces­sos históri­cos da com­pos­i­to­ra é Cin­co Bailes da História do Rio, que a con­sagrou como a primeira mul­her a vencer uma dis­pu­ta de sam­ba enre­do. “Este sam­ba que ela fez em 1965 para a Império Ser­ra­no é con­sid­er­a­do por mui­ta gente como o mais boni­to de todos os tem­pos. É uma parce­ria com Silas de Oliveira e Bacal­hau”, afir­ma o escritor.

Era tam­bém a primeira mul­her a tocar um instru­men­to e a can­tar e a dançar de um jeito espe­cial. “Ela está em out­ro pata­mar no sen­ti­do de cri­ação artís­ti­ca”, diz. “Ela deve ser espel­ho e inspi­ração não só no cen­tenário e como refer­ên­cia do fem­i­nis­mo negro. Deve­mos cel­e­brar Dona Ivone todos os dias”, com­ple­ta.

Ouça tam­bém reportagem na Radioagên­cia Nacional


Biógrafo diz que trajetória de Ivone Lara é inigualável

Edição: Alessan­dra Esteves

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d