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Livro lançado na Flipelô apresenta cartas trocadas entre escritores

Cartas: Dias Gomes – Jorge Amado é o primeiro livro do acervo

Elaine Patri­cia Cruz – Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 08/08/2025 — 09:57
*Sal­vador
São Paulo (SP) 13/03/2025 - Jorge Amado e Dias Gomes na Casa do Rio Vermelho, década de 1970 - Escritor e dramaturgo Dias Gomes será o homenageado da Flipelô neste ano. Foto: Acervo Fundação Casa de Jorge Amado/Divulgação
Repro­dução: © Acer­vo Fun­dação Casa de Jorge Amado/Divulgação

“Respon­der uma car­ta é um gesto de amizade”, era o que dizia o escritor baiano Jorge Ama­do à fil­ha, tam­bém escrito­ra, Palo­ma Jorge Ama­do. E como era ami­go de muitas pes­soas, Jorge Ama­do nun­ca deixou de respon­der a uma car­ta – e nem de guardar as mil­hares de cor­re­spondên­cias que rece­beu durante sua vida.

Todo o acer­vo de car­tas está sob a guar­da da Fun­dação Casa de Jorge Ama­do, em Sal­vador. É um mate­r­i­al vastís­si­mo, de quan­ti­dade total ain­da descon­heci­da. São caixas e caixas de cor­re­spondên­cias que o famoso escritor baiano tro­cou com escritores, políti­cos, artis­tas e com Zélia Gat­tai, com quem foi casa­do. Até bil­hetes eram guarda­dos por ele, que sabia do val­or que o mate­r­i­al car­rega­va. Inclu­sive, em muitas das car­tas há a inscrição “para guardar”, escri­ta pelo próprio Jorge Ama­do, como ori­en­tação para ser armazena­da em acer­vo.

Brasília (DF), 13/12/2024 - Jorge Amado. Foto: Fundação Casa de Jorge Amado/Divulgação
Repro­dução: Repro­dução: Jorge Ama­do. Foto: Fun­dação Casa de Jorge Amado/Divulgação

“Jorge Ama­do tin­ha uma pre­ocu­pação extra­ordinária em guardar. Tan­to que muitas car­tas trazem escrito, logo aci­ma, as palavras guardar ou arqui­var. Ele tin­ha cuida­do com o acer­vo, que  pas­sou para a fun­dação. A gente tra­bal­ha nele há muitos anos. E é um acer­vo del­i­ca­do, porque há coisas que não podem ser aber­tas, por serem [muito] pes­soais”, expli­cou Bete Cap­inan, coor­de­nado­ra edi­to­r­i­al da fun­dação.

“É uma cor­re­spondên­cia imen­sa e até hoje a gente não con­seguiu chegar ao fim.”

Parte do mate­r­i­al já foi trans­for­ma­do em livro, como as car­tas tro­cadas entre ele e o escritor por­tuguês José Sara­m­a­go e com o cineas­ta Glauber Rocha. Mas, ago­ra, a Fun­dação Casa de Jorge Ama­do resolveu se debruçar ain­da mais sobre o mate­r­i­al, e cri­ar uma coleção de livros que serão pub­li­ca­dos pela Casa de Palavras, braço edi­to­r­i­al da fun­dação.

Salvador (BA), 06/08/2025 - Abertura da Festa Literária Internacional do Pelourinho - Flipelô, que homenageia Dias Gomes, no Largo do Pelourinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­dução: Fes­ta Literária Inter­na­cional do Pelour­in­ho — Flipelô, que hom­e­nageia Dias Gomes.. Foto: Rove­na Rosa/Agência Brasil

O primeiro livro da coleção foi lança­do na noite de ontem (7), no Palacete Tira-Chapéu, durante a Fes­ta Literária Inter­na­cional do Pelour­in­ho (Flipelô), em Sal­vador. Com o títu­lo de Car­tas: Dias Gomes – Jorge Ama­do, o primeiro livro apre­sen­ta car­tas que foram tro­cadas entre Jorge Ama­do e o autor de telen­ov­e­las e escritor tam­bém baiano Dias Gomes, que é o hom­e­nagea­do des­ta edição da famosa fes­ta literária.

“Esse é o livro que dá iní­cio à Coleção Um Gesto de Amizade. A gente pre­tende pub­licar out­ros”, disse Angela Fra­ga, pres­i­dente da Fun­dação Casa de Jorge Ama­do, insti­tu­ição respon­sáv­el pela real­iza­ção da Flipelô.

Segun­do Ângela, o livro de Dias e Jorge apre­sen­ta uma cor­re­spondên­cia muito leve, porque é uma cor­re­spondên­cia real­mente entre ami­gos. “Numa época em que não exis­tia e‑mail e em que até o tele­fone era difí­cil, eles real­mente se cor­re­spon­di­am muito”, disse.

A seleção, orga­ni­za­ção e notas sobre as car­tas foram real­izadas por Bete Cap­inan, coor­de­nado­ra edi­to­r­i­al, e Palo­ma Jorge Ama­do, mem­bro do Con­sel­ho da Fun­dação Casa de Jorge Ama­do.

Segun­do Palo­ma, os próx­i­mos livros a serem pub­li­ca­dos, des­ta coleção, são as cor­re­spondên­cias tro­cadas entre seu pai e os escritores Éri­co Verís­si­mo, Car­los Drum­mond de Andrade e João Ubal­do Ribeiro. O livro com João Ubal­do pode ter cer­ca de 400 pági­nas, de tan­to mate­r­i­al que con­seguiram reunir, infor­mou.

São Paulo (SP) 13/03/2025 - Dias Gomes na Academia Brasileira de Letras - Escritor e dramaturgo Dias Gomes será o homenageado da Flipelô neste ano.Foto: Acervo Dias Gomes/Divulgação
Repro­dução: Dias Gomes na Acad­e­mia Brasileira de Letras — Escritor e dra­matur­go Dias Gomes é o hom­e­nagea­do da Flipelô neste ano. Foto:  Acer­vo Dias Gomes/Divulgação

“A história do João Ubal­do é muito boa. Eu per­gun­tei para a Emília, a fil­ha mais vel­ha de João Ubal­do, se ela tin­ha as car­tas do papai para o João, porque a gente tin­ha as do João para o papai. E ela me disse: ‘Meni­na, papai não era orga­ni­za­do como Jorge, era uma bagunça, até hoje a gente não con­seguiu ver esse acer­vo e tal, mas eu ago­ra vou pas­sar o car­naval na ilha e vou dar uma olhad­in­ha lá, quem sabe eu acho algu­ma coisa’. E aí, quan­do ela chegou na ilha, tin­ha uma estante lá com várias coisas, inclu­sive tin­ha uma pas­ta grande, onde esta­va escrito ‘cor­re­spondên­cia de Jorge Ama­do’. E foi então que ela me disse: ‘Era a úni­ca coisa orga­ni­za­da lá’. O livro do João Ubal­do vai ser o mais difí­cil [de orga­ni­zar], porque é um livro de quase 400 pági­nas. Mas ele é diver­tidís­si­mo. É não só engraça­do, como é de chorar tam­bém de emoção. E é uma aula de escrit­u­ra”, con­tou Palo­ma Jorge Ama­do.

Cartas para Dias Gomes

“Caro com­padre. Você con­cedeu-me o mais eufóri­co des­per­tar de toda a min­ha vida, ao tele­fonar-me, há poucos dias, às 8h da mati­na, para elo­giar meu despre­ten­sioso romance, Decadên­cia. É bem ver­dade que, no gen­eroso propósi­to de me estim­u­lar, você pode estar fazen­do um grande mal à lit­er­atu­ra brasileira, inci­tan­do-me a come­ter out­ros”, escreveu Dias Gomes, em jun­ho de 1995, a Jorge Ama­do.

O pequeno tre­cho ini­cial da car­ta já apre­sen­ta um dos esti­los mais car­ac­terís­ti­cos de Dias Gomes: a iro­nia, que foi tam­bém muito uti­liza­da em várias de suas telen­ov­e­las exibidas na Rede Globo como Roque San­teiro e O Bem Ama­do.

Essa car­ac­terís­ti­ca pecu­liar de Dias Gomes é tam­bém uma grande lem­brança para sua neta, Tatiana Dias Gomes, que está par­tic­i­pan­do da hom­e­nagem ao avô na Flipelô.

Em entre­vista à Agên­cia Brasil, ela con­ta que leu as car­tas tro­cadas entre seu avô e Jorge Ama­do e que sua fina iro­nia e seu jeito brin­cal­hão estavam muito pre­sentes em várias  cor­re­spondên­cias.

“Eu achei o livro lin­do, que mostra uma amizade pro­fun­da. E a gente vai ven­do essa amizade se apro­fun­dan­do cada vez mais. Ao ler as car­tas do meu avô, isso me deu mui­ta saudade, porque vi ali o jeit­in­ho dele falar: seu humor e seu jeito irôni­co e debocha­do.”.

Tatiana era ain­da ado­les­cente quan­do seu famoso avô fale­ceu. Sua avó, a tam­bém telen­ov­el­ista Janete Clair, ela não chegou a con­hecer. Por isso, na leitu­ra dessas car­tas, ela se comoveu com uma delas, que foi assi­na­da por ambos. “Tem uma car­ta que eu achei bonit­in­ha, em que ele escreve jun­to com a min­ha avó. Essa me chamou a atenção por ver o jeit­in­ho dela jun­to com ele”, rev­el­ou.

Assuntos

Nas car­tas, Dias Gomes e Jorge Ama­do falavam sobre livros, nov­e­las, cen­sura de obras, via­gens e até indi­cação para a Acad­e­mia Brasileira de Letras. Mas um tema especí­fi­co chamou a atenção de quem leu: a Dis­ney.

“As con­ver­sas são deli­ciosas. Tem um tre­cho do Dias Gomes con­tan­do para Jorge Ama­do que ele esta­va indo para a Dis­ney levar a fil­ha Mayra e que ele nun­ca pen­sou que, como comu­nista, ele iria para a Dis­ney”, disse Bete Cap­inan, a coor­de­nado­ra edi­to­r­i­al da seleção dos doc­u­men­tos.

O tre­cho em que cita a viagem para a Dis­ney fez a neta Tatiana rir, já que seu avô era um fer­ren­ho comu­nista. “Eu lem­bro que ele gosta­va muito de ir para a Dis­ney e a gente acha­va isso engraça­do, porque ele se diver­tia muito. Ele fala­va: ‘nos­sa, lá eu viro cri­ança.”

E é exata­mente isso que Dias Gomes escreve na car­ta a Ama­do: “A ver­dade é que na Dis­ney, os pais se divertem muito mais que os fil­hos. Todos temos, afi­nal, uma cri­ança den­tro de nós”.

A Flipelô prossegue até domin­go (10), no cen­tro históri­co de Sal­vador, com pro­gra­mação inteira­mente gra­tui­ta. Mais infor­mações sobre a fes­ta podem ser obti­das no site.

*A equipe da Agên­cia Brasil via­jou a con­vite da Moti­va, patroci­nado­ra e par­ceira ofi­cial de mobil­i­dade da Flipelô 2025

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