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Minhocão de São Paulo faz 50 anos e ganha galeria de arte urbana

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Trabalhos foram feitos nas paredes laterais dos prédios


Pub­li­ca­do em 11/12/2021 — 13:38 Por Luiz Mala­vol­ta — repórter da TV Brasil — São Paulo

O “Min­hocão”  é uma via com 3,6 quilômet­ros (km) de exten­são, fei­ta de con­cre­to e asfal­to, encrava­da na região cen­tral da cidade de São Paulo. Neste ano, a obra com­ple­tou, sem fes­tas, meio sécu­lo de existên­cia, mas com uma novi­dade: se tornou um corre­dor de arte urbana, que col­oriu uma região deca­dente e cin­za da cap­i­tal paulista e está pos­si­bil­i­tan­do ao paulis­tano ver o ele­va­do de con­cre­to com out­ros olhos. 

A pre­sença do Min­hocão na vida da maior cidade do país nun­ca foi amis­tosa ao lon­go do tem­po. A ideia de desati­var o Ele­va­do João Goulart para o tráfego é uma decisão já ampla­mente dis­cu­ti­da, mas, ulti­ma­mente, em vez de der­rubar o ele­va­do, ago­ra já se admite trans­for­mar toda a área num imen­so boule­vard, com jardins, e suas pis­tas pas­sarem a ser ocu­padas por pedestres, ciclis­tas, por feiras de arte­sana­to e pequenos pon­tos de con­veniên­cia. Sai o car­ro e entra o paulis­tano para faz­er do espaço uma grande área de laz­er e de difusão cul­tur­al.

Recen­te­mente, os edifí­cios que já exis­ti­am ao lon­go do tra­je­to, antes da con­strução, pas­saram a abri­gar imen­sas obras de arte urbana. Os tra­bal­hos foram feitos nas pare­des lat­erais dos pré­dios. São tra­bal­hos quase da mes­ma altura dos próprios edifí­cios.

Ago­ra, todo mun­do que pas­sa ago­ra de car­ro por ali pode apre­ciar as 42 pin­turas como se estivesse em um museu aber­to.

Repro­dução: Minhocão_ obras de arte — João Mar­cos Barboza/TV Brasil

“É como se o paulis­tano tivesse gan­hado, durante a pan­demia, uma gale­ria de arte ao ar livre”, disse o pro­fes­sor de cursin­ho uni­ver­sitário Vini­cius Cos­ta, que sem­pre pas­sou pelo Min­hocão para ir ao emprego e retornar para casa.

São tra­bal­hos mul­ti­col­ori­dos, assi­na­dos por artis­tas como Kobra, @nosartivistas, Tek e Sap­at­in­tas. “É a redescober­ta de uma parte da cidade que tin­ha sido aban­don­a­da após o surg­i­men­to do Ele­va­do”, afir­mou Cos­ta.

Repro­dução: Minhocão_ obras de arte — João Mar­cos Barboza/TV Brasil

Grafite

As próprias col­u­nas de sus­ten­tação das pis­tas, encravadas no vão cen­tral da aveni­da Gen­er­al Olím­pio da Sil­veira, fre­quente­mente são usadas para tra­bal­hos de grafiteiros. No local, já ocor­reu até uma exposição de fotos, além de out­ras man­i­fes­tações artís­ti­cas.

No começo deste mês, o prefeito de São Paulo, Ricar­do Nunes, esteve em Nova York, nos Esta­dos Unidos, e aproveitou para con­hecer o par­que High Line, que já foi uma espé­cie de Min­hocão para os moradores de lá.  O High Line era um via fér­rea muito anti­ga, que cor­ta­va a cidade norte-amer­i­cana, pas­san­do entre edifí­cios e foi desati­va­da em 1980.

Mas em vez de der­rubar a lin­ha, a prefeitu­ra norte-amer­i­cana fez uma revi­tal­iza­ção de con­struções anti­gas. Com isso, pro­moveu uma restau­ração arquitetôni­ca e artís­ti­ca do espaço e trans­for­mou a área em um grande jardim, com a cri­ação de um pon­to de laz­er e vis­i­tação de moradores e tur­is­tas.

História

O Min­hocão foi con­struí­do no iní­cio da déca­da de 1970 para dar vazão ao cres­cente aumen­to do tráfego de veícu­los na cap­i­tal paulista, reduzin­do os con­ges­tion­a­men­tos nas ruas cen­trais de São Paulo.

A via aérea não con­seguiu acabar com os con­ges­tion­a­men­tos e teve um efeito colat­er­al: provo­cou a ráp­i­da dete­ri­o­ração urbana da região próx­i­ma do Ele­va­do e ao lon­go de toda a sua exten­são, entre os bair­ros Repúbli­ca, San­ta Cecília e Bar­ra Fun­da.

Os imóveis local­iza­dos no entorno sofr­eram grande desval­oriza­ção. Os moradores de classe média, que ali vivi­am nos anos 1960 e 1970, deixaram os edifí­cios, inco­moda­dos com o barul­ho dos veícu­los e com a poluição dos escapa­men­tos.

Vários pré­dios, ao lon­go do Ele­va­do, são con­sid­er­a­dos tesouros de esti­los arquitetôni­cos europeus, de uma época em que as con­struções eram feitas pelos imi­grantes, prin­ci­pal­mente os ital­ianos.

Com a degradação da região, sob o Ele­va­do, os espaços vazios pas­saram a ser ocu­pa­dos por moradores de rua. No começo dos anos 1980, surgiu ali o embrião da “cra­colân­dia”, que segue até hoje na área cen­tral de São Paulo.

Curiosidade

A escol­ha do Ele­va­do foi cenário do filme “Ensaio sobre a cegueira”, de 2007, basea­do em livro homôn­i­mo de José Sara­m­a­go, dirigi­do por Fer­nan­do Meirelles e que teve atores de Hol­ly­wood impor­tantes como Mark Ruf­fa­lo e Juliane Moore. No filme, as cenas no “Min­hocão” mostram uma metró­pole asso­la­da por uma pan­demia de cegueira. Meirelles afir­mou na época que o Ele­va­do era o pon­to ide­al para aque­las cenas fan­tas­magóri­c­as.

Minhocão_ obras de arte

O projeto

O pro­je­to do arquite­to Luiz Car­los Gomes Cardim San­gi­rar­di, que tra­bal­ha­va, em 1968, no Depar­ta­men­to de Urban­is­mo da Prefeitu­ra paulis­tana, foi apre­sen­ta­do primeira­mente ao então prefeito José Vicente de Faria Lima, que gov­ernou a cidade entre 1965 e 1969 e surgiu como “solução ao tráfego pesa­do da Aveni­da São João, dupli­can­do sua capaci­dade sem alargá-la, indo até a Praça Marechal Deodoro”.

Faria Lima, que hoje dá nome a uma das avenidas mais emblemáti­cas da cap­i­tal paulista, recu­sou o pro­je­to. Para o prefeito, trata­va-se de uma obra muito rad­i­cal e cara e que não garan­tia os resul­ta­dos pos­i­tivos no escoa­men­to do tráfego. Faria Lima prefe­ria dar pri­or­i­dade à con­strução do metrô, trans­porte públi­co capaz de reti­rar car­ros de cir­cu­lação e reduzir a poluição.

Em 1969 o brigadeiro pas­sou o coman­do de São Paulo para Paulo Maluf, então com 38 anos de idade. Maluf foi procu­ra­do pelo arquite­to San­gi­rar­di, que lhe apre­sen­tou o mes­mo pro­je­to. Por acred­i­tar que o ele­va­do mar­caria sua gestão, Paulo Maluf topou real­izá-lo, sem qual­quer estu­do de impacto urbano prévio. O Min­hocão foi con­struí­do em tem­po recorde – onze meses — por quase mil operários, que fazi­am jor­nadas diárias de 16 horas. Cus­tou 37 mil­hões de cruzeiros (equiv­a­lente a R$ 4,6 bil­hões em val­ores de hoje).

Repro­dução:  Minhocão_ obras de arte — João Mar­cos Barboza/TV Brasil

Via congestionada

Não demor­ou muito para que o Ele­va­do se tor­nasse na mais nova via con­ges­tion­a­da da cap­i­tal. É que na déca­da de 1970 o país vivia um “boom” na ven­da de car­ros. A fro­ta só cresceu nas últi­mas cin­co décadas.

Atual­mente, nos chama­dos perío­dos de pico no trân­si­to da cidade, 31 mil veícu­los pas­sam por dia no local.

Nos últi­mos anos, o ele­va­do pas­sou a ser fecha­do a par­tir das 21 horas toda noite, depois o mes­mo foi feito ao lon­go do dia nos fins de sem­ana, para per­mi­tir que os moradores usassem o local como pon­to de laz­er.

Denise Sil­veira, ciclo-ativista e defen­so­ra da ocu­pação dos espaços públi­cos pela pop­u­lação em ações cul­tur­ais, esporti­vas e de laz­er, é de opinião que o Min­hocão deixou de ser odi­a­do pelo paulis­tano, que enten­deu que se pode trans­for­mar a via. ”Hou­ve a intenção de faz­er ali um corre­dor verde, mas não deu cer­to porque a prefeitu­ra não con­seguiu via­bi­lizar a manutenção das empe­nas verdes”. As empe­nas, pare­des lat­erais de um edifí­cio, nor­mal­mente ter­mi­na­da em triân­gu­lo, as pare­des-fachadas, que são usadas ago­ra para abri­gar os grafites gigan­tescos.

Segun­do Denise, que par­tic­i­pa de ações cul­tur­ais como a “ciclovia musi­cal”, que reúne, num mes­mo even­to, músi­ca e pas­seios de bici­cle­tas pelas áreas cen­trais da cap­i­tal, a trans­for­mação do ele­va­do num “High Line” paulis­tano depen­derá da prefeitu­ra. “A ocu­pação do Ele­va­do pelo paulis­tano é uma das coisas mais democráti­cas da maior cidade do país, pois per­mi­tirá se praticar a liber­dade indi­vid­ual ou cole­ti­va em ativi­dades físi­cas, de laz­er ou artís­ti­cas”, afir­mou.

Edição: Bruna Saniele

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