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Mostra em Inhotim revela caminhos de Abdias Nascimento no exílio

Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Intelectual descobriu-se artista aos 54 anos, nos Estados Unidos


Pub­li­ca­do em 18/06/2023 — 12:20 Por Viní­cius Lis­boa* – Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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Int­elec­tu­al de múlti­p­los tal­en­tos, Abdias Nasci­men­to havia feito suas primeiras exper­iên­cias nas artes plás­ti­cas meses antes de embar­car para os Esta­dos Unidos, em 1968, para ampli­ar as tro­cas entre os movi­men­tos negros brasileiro e norte-amer­i­cano. O con­tex­to era de resistên­cia con­tra a ditadu­ra mil­i­tar aqui, e de luta pelos dire­itos civis lá, com movi­men­tos como os Pan­teras Negras em ebu­lição.

Abdias Nascimento na convenção PDT no Congresso Nacional em 1982
Repro­dução: Abdias Nasci­men­to na con­venção PDT no Con­gres­so Nacional em 1982 — Elisa Larkin Nascimento/Divulgação

Com o decre­to do Ato Insti­tu­cional nº 5 ‚em dezem­bro daque­le ano, Abdias foi força­do a per­manecer em exílio, e, a par­tir daí, mer­gul­har na pin­tu­ra como mais uma frente de res­gate, exal­tação e inter­câm­bio de tudo o que expres­sa a ances­tral­i­dade africana, partin­do da espir­i­tu­al­i­dade para uma pro­pos­ta filosó­fi­ca com­ple­ta, com um entendi­men­to negro e afro­di­aspóri­co sobre estar no mun­do.

“É nos pon­tos risca­dos e can­ta­dos que nasce min­ha arte. Aí está a base de tudo. Nas encruzil­hadas, nes­sa coisa que vai e vem, as con­tradições da vida gan­ham sen­ti­do, e o nos­so retra­to vai gan­han­do for­ma”, definiu Abdias, que se desco­briu artista plás­ti­co aos 54 anos, na bus­ca por uma lin­guagem alter­na­ti­va ao inglês que inter­me­di­asse suas tro­cas com int­elec­tu­ais e ativis­tas dos Esta­dos Unidos, Caribe e África, nos 13 anos em que per­maneceu exi­la­do.

A história é con­ta­da por telas e doc­u­men­tos do Museu de Arte Negra, expos­tos em Inho­tim na mostra Ter­ceiro Ato: Sor­tilé­gio, que rece­beu apoio da Petro­bras, por meio do edi­tal Petro­bras Cul­tur­al – Múlti­plas Expressões, e con­ta com acer­vo do Insti­tu­to de Pesquisa e Estu­dos Afro-Brasileiros (Ipeafro). Local­iza­do em Bru­mad­in­ho, Minas Gerais, o Insti­tu­to Inho­tim é a sede de um dos mais impor­tantes acer­vos de arte con­tem­porânea do Brasil e con­sid­er­a­do o maior museu a céu aber­to do mun­do.

Quan­do se ini­ciou nas artes plás­ti­cas, Abdias já era um dos mais impor­tantes int­elec­tu­ais de seu tem­po, além de artic­u­lador da mobi­liza­ção negra e dra­matur­go, ator e jor­nal­ista de pro­dução exten­sa, ten­do fun­da­do o Teatro Exper­i­men­tal do Negro (1944), o jor­nal Quilom­bo: Vida, Prob­le­mas e Aspi­rações do Negro (1948) e o Museu de Arte Negra (1950). Pelo Teatro Exper­i­men­tal do Negro pas­saram atores e atrizes con­sagra­dos, como Ruth de Souza, Léa Gar­cia e Aguinal­do Camar­go.

“Jul­gá­va­mos que a viagem de Abdias Nasci­men­to aos Esta­dos Unidos fos­se opor­tu­nidade para ampli­ar o suces­so do homem de teatro e do escritor sem­pre bril­hante. Que igual­mente fos­se opor­tu­nidade para dilatação de sua cam­pan­ha em favor do homem de raça negra. Tudo isso está se suce­den­do nat­u­ral­mente. Nen­hum espan­to. Sur­pre­sa mes­mo é Abdias artista plás­ti­co”, escreveu em O Jor­nal o críti­co de arte Quiri­no Cam­pofior­i­to, em 1969, quan­do tomou con­hec­i­men­to de que o int­elec­tu­al havia estrea­do uma exposição no Harlem, em Nova York.

Brumadinho (MG), 16/06/2023 – Exposição Terceiro Ato: Sortilégio, com obras de Abdias Nascimento que ocupa a Galeria da Mata, no Museu Inhotim, em Brumadinho (MG). - CARROSSEL - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Exposição Ter­ceiro Ato: Sor­tilé­gio, com obras de Abdias Nasci­men­to que ocu­pa a Gale­ria da Mata, no Museu Inho­tim, em Bru­mad­in­ho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Durante sua per­manên­cia nos Esta­dos Unidos, Abdias lecio­nou em insti­tu­ições amer­i­canas, como a Uni­ver­si­dade de Nova York, onde fun­dou a cát­e­dra de Cul­turas Africanas no Novo Mun­do e se tornou pro­fes­sor eméri­to. Tam­bém atu­ou na artic­u­lação de debates dos povos africanos em diás­po­ra, orga­ni­zan­do e par­tic­i­pan­do de con­gres­sos e sem­i­nários nas Améri­c­as e na África, que tin­ham entre seus obje­tivos o enfrenta­men­to do apartheid na África do Sul. Mes­mo assim, o brasileiro con­sid­er­a­va que reduzir suas tro­cas com o movi­men­to negro amer­i­cano ao inglês seria ser col­o­niza­do uma segun­da vez, e, desse modo, a pin­tu­ra exerce um papel fun­da­men­tal, e, nela, os orixás são pro­tag­o­nistas.

Brumadinho (MG), 16/06/2023 – Exposição Terceiro Ato: Sortilégio, com obras de Abdias Nascimento que ocupa a Galeria da Mata, no Museu Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Exposição Ter­ceiro Ato: Sor­tilé­gio, com obras de Abdias Nasci­men­to que ocu­pa a Gale­ria da Mata, no Museu Inho­tim, em Bru­mad­in­ho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O títu­lo da exposição, Sor­tilé­gio, faz refer­ên­cia a uma peça escri­ta por Abdias, em 1951, e mon­ta­da pela primeira vez ape­nas em 1957, após perseguição e cen­sura. Críti­ca do mito da democ­ra­cia racial, a obra desta­ca ele­men­tos do can­domblé, denun­cia o racis­mo e com­bate a demo­niza­ção dos orixás, pro­pos­ta que rea­parece nas artes plás­ti­cas do int­elec­tu­al.

Em foto de José Medeiros incluí­da na exposição, Abdias, que tam­bém era ator, empun­ha­va o tri­dente de Exu no pal­co, ato em que o pro­tag­o­nista resis­tia à assim­i­lação e apaga­men­to cul­tur­al pela bran­qui­tude hegemôni­ca. Orixá da comu­ni­cação e das via­gens, a enti­dade é peça cen­tral para enten­der a pin­tu­ra de Abdias Nasci­men­to, afir­ma Deri Andrade, curador assis­tente da exposição Ter­ceiro Ato: Sor­tilé­gio, assi­na­da tam­bém pela curado­ra-chefe Júlia Rebouças.

Brumadinho (MG), 16/06/2023 – O curador assistente Deri Andrade fala sobre a exposição Terceiro Ato: Sortilégio, com obras de Abdias Nascimento que ocupa a Galeria da Mata, no Museu Inhotim, em Brumadinho. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: O curador assis­tente Deri Andrade fala sobre a exposição Ter­ceiro Ato: Sor­tilé­gio, com obras de Abdias Nasci­men­to que ocu­pa a Gale­ria da Mata, no Museu Inho­tim, em Bru­mad­in­ho. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

“Abdias trazia essas questões e com­ba­t­ia esse racis­mo reli­gioso há décadas. Percebe-se isso na pro­dução dele nos anos de 1960, 1970 e 1980, em que ele pen­sa essas religiões de matriz africana enquan­to for­mas de pen­sa­men­to, em que se tem cos­molo­gia, psi­colo­gia, soci­olo­gia. Ele encara essas religiões como uma for­ma de con­hec­i­men­to, para além de uma questão reli­giosa. Ele diz muito isso quan­do vai reivin­dicar o papel que as religiões tiver­am na con­strução de uma iden­ti­dade, de uma história e de uma cul­tura afro-brasileira”, expli­ca Deri.

“Ele não foi ini­ci­a­do em nen­hu­ma religião, não ‘fez’ a cabeça, mas sem­pre esteve muito inter­es­sa­do por isso e enten­den­do a importân­cia dessas religiões na con­strução da sociedade brasileira a par­tir de um pro­tag­o­nis­mo de pes­soas negras e trân­si­tos de África e Brasil”.

Em declar­ação preser­va­da pelo Ipeafro, o próprio Abdias define essa relação espir­i­tu­al-artís­ti­ca: uma coisa sen­sa­cional acon­te­ceu comi­go. Blo­quea­do pelo inglês, desen­volvi uma nova for­ma de comu­ni­cação. Desco­bri que pos­suía uma out­ra for­ma de lin­guagem den­tro de mim mes­mo: desco­bri que podia pin­tar; e pin­tan­do eu seria capaz de mostrar o que palavrea­do nen­hum diria. Uma exper­iên­cia difí­cil de explicar. O mais apro­pri­a­do mes­mo é diz­er que os orixás baixaram e que pin­to em esta­do de comu­ni­cação ínti­ma com os orixás.”

O resul­ta­do dessa pro­pos­ta são cores vibrantes e orixás em ação, como parte das questões do pre­sente viven­ci­a­do por ele no exílio. Em Xangô Takes Over, o macha­do do orixá da Justiça se sobrepõe à ban­deira amer­i­cana. Nos quadros Xangô Cru­ci­fi­ca­do ou o Martírio de Mal­colm X e Liber­dade para Huey, o int­elec­tu­al une lid­er­anças pan­teras negras e orixás na resistên­cia por dire­itos civis.

Brumadinho (MG), 16/06/2023 – Exposição Terceiro Ato: Sortilégio, com obras de Abdias Nascimento que ocupa a Galeria da Mata, no Museu Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Exposição Ter­ceiro Ato: Sor­tilé­gio, com obras de Abdias Nasci­men­to que ocu­pa a Gale­ria da Mata, no Museu Inho­tim, em Bru­mad­in­ho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O exílio de Abdias Nasci­men­to tam­bém incluiu um perío­do na Nigéria, onde lecio­nou na Uni­ver­si­dade Obafe­mi Awolowo entre 1976 e 1977. Deri Andrade diz que, assim como as lutas por dire­itos civis nos Esta­dos Unidos e a reli­giosi­dade no Brasil, Caribe e Améri­ca Cen­tral, a encruzil­ha­da que o lev­ou ao con­ti­nente africano mod­i­fi­ca seu tra­bal­ho com toda uma nova gramáti­ca agre­ga­da pelos sím­bo­los adinkra, que rep­re­sen­tam provér­bios e sin­te­ti­zam ideias. Abdias teve con­ta­to com tais sím­bo­los em sua pas­sagem por Gana, e a pre­sença deles em sua pro­dução artís­ti­ca se man­tém daí em diante. Além dos quadros que usam a sim­bolo­gia, a exposição traz tam­bém doc­u­men­tos que expli­cam seu sig­nifi­ca­do.

“A pin­tu­ra de Abdias não tem uma lin­eari­dade e aces­sa vários perío­dos da vida dele, tan­to quan­do ele pin­ta no exílio quan­to quan­do retor­na para o Brasil. Mas, quan­do ele retor­na, envolve-se mais com a políti­ca, tor­na-se dep­uta­do e depois senador, cria o Ipeafro. E a pro­dução dele, enquan­to artista, tem uma baixa. É no exílio em que ele pro­duz mais”, expli­ca o curador, que, ape­sar dis­so, reuniu tam­bém obras das décadas de 1980 e 1990 na exposição, que con­tin­uará na Gale­ria Mata de Inho­tim até 6 de agos­to deste ano.

Abdias Nasci­men­to era neto de africanos escrav­iza­dos e paulista de Fran­ca, onde nasceu em 1914. Ao lon­go da vida, foi agra­ci­a­do por títu­los de doutor hon­oris causa no Brasil e no exte­ri­or, rece­beu prêmios de órgãos nacionais e inter­na­cionais, entre eles a mais alta hon­raria out­or­ga­da pelo Gov­er­no do Brasil, a Ordem do Rio Bran­co no grau de comen­dador. O int­elec­tu­al mor­reu em 2011.

 

*O repórter Vini­cius Lis­boa e o fotó­grafo Tomaz Sil­va via­jaram para Bru­mad­in­ho (MG) a con­vite da Petro­bras, apoiado­ra da exposição.

Edição: Nádia Fran­co

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