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Sapucaí reúne historiografia e delírio no segundo dia de desfiles

Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Paraíso do Tuiutí abre os desfiles a partir das 22h


Pub­li­ca­do em 20/02/2023 — 07:44 Por Viní­cius Lis­boa — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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A segun­da noite de des­files da Mar­quês de Sapu­caí, nes­ta segun­da-feira (20) trará histórias reais e imag­i­nadas nos enre­dos das esco­las de sam­ba do Grupo Espe­cial, com fábu­las deli­rantes, his­to­ri­ografia e casos difí­ceis de acred­i­tar. Os des­files começam com a curiosa chega­da dos búfa­los à Ilha de Mara­jó, con­ta­da pela Paraí­so do Tuiu­ti, que entra na aveni­da às 22h.

A jor­na­da dos ani­mais con­ta­da pela esco­la começa na Índia e está rela­ciona­da ao comér­cio de espe­cia­rias para o Oci­dente. Um navio com búfa­los e tem­per­os via­ja­va do país asiáti­co para a Guiana France­sa, mas afun­dou bem diante da cos­ta brasileira, onde os bovi­nos con­seguiram chegar como náufra­gos e se tornaram sím­bo­lo cul­tur­al. Um dos car­navale­scos da Tuiu­ti, João Vitor Araújo jura que foi assim.

“A trip­u­lação humana mor­reu, mas os bichos con­seguiram nadar até a Ilha de Mara­jó. Se você me per­gun­tar como, não sei”, con­fes­sa. “Só sabe­mos que chegaram à cos­ta, se adap­taram ao cli­ma e vivem felizes até hoje. E hoje a Ilha de Mara­jó tem uma das maiores man­adas do mun­do”.

A par­tir dessa saga ina­cred­itáv­el, a esco­la descreve as belezas nat­u­rais da ilha e tam­bém a arte e o fol­clore mara­joaras, famosos inter­na­cional­mente. O enre­do hom­e­nageia ain­da o com­pos­i­tor Mestre Dam­a­s­ceno e o carim­bó.

Centenária

O des­file de 2023 vai mar­car o cen­tenário da Portela, a maior campeã da história do car­naval do Rio de Janeiro. A esco­la azul e bran­co de Madureira vai aproveitar a efeméride para vis­i­tar sua própria história, trazen­do de vol­ta cin­co fig­uras mar­cantes, que no car­naval recebem o títu­lo de balu­artes: o sam­bista históri­co Paulo da Portela; a por­ta-ban­deira Tia Dodô; o bicheiro e patrono Natal da Portela, e os can­tores e com­pos­i­tores David Cor­rêa e Monar­co.

Paulo da Portela será inter­pre­ta­do na aveni­da pelo ator Ícaro Sil­va, que con­sider­ou o con­vite uma grande hon­ra pela importân­cia históri­ca do sam­bista.

“Aju­dou a tirar o sam­ba da mar­gin­al­i­dade, inven­tou o sam­ba-enre­do e trouxe para a nos­sa cul­tura pop­u­lar o des­file de car­naval como a gente con­hece hoje. Então é uma grande hon­raria não só pra mim como amante da esco­la, mas como artista e pre­to, e brasileiro, rep­re­sen­tar esse homem que tan­to fez pela nos­sa pop­u­lação e pela tradição da cul­tura afro-brasileira”, disse o ator.

Tam­bém azul e bran­ca, a Vila Isabel vai falar das fes­tas reli­giosas de diver­sas crenças, desta­can­do não ape­nas a espir­i­tu­al­i­dade, mas a diver­são que elas pro­movem. Estão no enre­do fes­tas pagãs da antigu­idade, fes­tas dos padroeiros reli­giosos, fes­tas pop­u­lares como o São João e cel­e­brações com origem indí­ge­na como a de Par­intins. O car­naval, é claro, não fica de fora e será o grand finale do des­file.

O car­navale­sco Paulo Bar­ros lem­bra que o car­naval tam­bém é uma fes­ta com origem reli­giosa e adi­anta que o des­file será uma grande mis­celânea de cel­e­brações. “O enre­do está basea­do na ale­gria e na diver­são. Depois de um lon­go tem­po com a pan­demia, que nos deixou muito tristes, a gente estu­da­va um enre­do para a Vila e só pen­sa­va em ale­gria e diver­são”.

A lit­er­atu­ra de cordel é a grande inspi­ração da Imper­a­triz Leopoldinense para imag­i­nar a chega­da de Lampião à vida após a morte. Céu? Infer­no? A Imper­a­triz vai con­tar que o can­ga­ceiro não con­seguiu abri­go em nen­hum dos dois e voltou à Ter­ra.

A história fan­tás­ti­ca é uma adap­tação de cordéis de José Pacheco, Guaipuan Vieira, Rodol­fo Coel­ho Cav­al­cante e Mor­eira de Acopi­ara. O car­navale­sco Lean­dro Vieira é o respon­sáv­el pela pesquisa e desen­volvi­men­to e imag­i­nou um Lampião arru­a­ceiro demais para ser aceito pelo Tin­hoso, e pecador demais para que São Pedro lhe abrisse as por­tas do céu. Nem a inter­cessão de Padre Ciço resolve, e Vir­guli­no ter­mi­na se espal­han­do por todo o Brasil, na arte de Luiz Gon­za­ga e Mestre Vital­i­no.

“Lampião é esse per­son­agem míti­co do fol­clore brasileiro que em diver­sas áreas foi abraça­do como uma figu­ra típi­ca da brasil­i­dade. Então, ao se debruçar, ness­es cordéis, a gente procu­ra encon­trar um des­ti­no deli­rante para essa figu­ra tão con­tra­ditória e fasci­nante da cul­tura brasileira”, expli­ca o car­navale­sco Lean­dro Vieira. “Meu inter­esse não é saber se ele é herói ou vilão, não é faz­er um jul­ga­men­to do Lampião nem apre­sen­tar sua biografia”.

Depois da jor­na­da de Lampião após a morte, a Bei­ja-Flor vai entrar na aveni­da falan­do de even­tos históri­cos reais, mas nem sem­pre lem­bra­dos. A esco­la de Nilópo­lis vai con­tar a “ver­dadeira inde­pendên­cia do Brasil”, em 2 de jul­ho de 1823, quan­do sol­da­dos brasileiros der­ro­taram tropas por­tugue­sas que ain­da estavam na Bahia, mes­mo após o gri­to de Dom Pedro I às mar­gens do Ipi­ran­ga.

A sinopse do enre­do, inti­t­u­la­da Con­vo­cação, propõe a revisão do que é con­sid­er­a­do o mar­co históri­co da Inde­pendên­cia, o 7 de setem­bro. “O tri­un­fo pop­u­lar de 1823 é muito mais sobre nós e sobre nos­sas dis­putas. O Dia da Inde­pendên­cia que quer­e­mos é comem­o­ra­do ao som dos batuques de cabo­clo, can­tan­do que até o sol é brasileiro. Pre­cisamos fes­te­jar os mar­cos pop­u­lares em fes­tas que ten­ham cheiro, cor e sabor de brasil­i­dade, recon­hecen­do o pro­tag­o­nis­mo fem­i­ni­no e afro-amerín­dio. Somos aque­les e aque­las que, excluí­dos dos espaços de poder, ousam ter esper­ança no aman­hã. O Brasil pre­cisa recon­hecer os muitos Bra­sis e suas ver­dadeiras batal­has”.

A par­tir dessa mudança, a esco­la propõe uma releitu­ra de toda a história brasileira, em um des­file que é tam­bém um “ato cívi­co pela con­strução de um Brasil livre, sober­a­no e ver­dadeira­mente inde­pen­dente. Faze­mos fes­ta porque esta é, tam­bém, man­i­fes­tação políti­ca e na fes­ta car­navalesca gri­ta­mos que out­ros Bra­sis são pos­síveis”, con­vo­ca a Bei­ja-Flor.

Os des­files do grupo espe­cial ter­mi­nam com uma hom­e­nagem da Viradouro a uma per­son­agem pouco con­heci­da da história brasileira, Rosa Maria Egipcía­ca, uma mul­her africana nasci­da no Benin e escrav­iza­da no Brasil, onde viveu uma vida mar­ca­da tam­bém por visões, pro­fe­cias e fé.

A esco­la de Niterói vai con­tar como a auto­ra de Sagra­da teolo­gia do amor de Deus luz bril­hante das almas pere­gri­nas, livro do qual pouco foi preser­va­do, cau­sou a ira da Igre­ja Católi­ca ao nar­rar exper­iên­cias extrasen­so­ri­ais com Jesus Cristo e mesclar suas raízes africanas aos ritos cristãos. Esse incô­mo­do ter­mi­nou em perseguição, e Rosa Maria foi pre­sa e lev­a­da pela Inquisição para Lis­boa, onde per­maneceu até sua morte, em 1771.

Con­fi­ra o horário em que cada des­file começa:

Paraí­so do Tuiutí: 22h

Portela: 23h

Vila Isabel: 0h

Imper­a­triz: 1h

Bei­ja-Flor: 2h

Viradouro: 3h

Edição: Fer­nan­do Fra­ga

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