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Sob facções e operações, população de favelas vive traumas e adoece

Ações violentas têm custo alto para saúde de moradores

Mar­i­ana Tokar­nia — Repórter da Agên­cia Brasil*
Pub­li­ca­do em 01/11/2025 — 10:25
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 31/10/2025 - Moradores, familiares e representantes da sociedade civil se reúnem na comunidade da Vila Cruzeiro para manifestação de repúdio à Operação Contenção que deixou 121 mortos. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: © Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Uma bom­ba invisív­el”. É assim que o pro­fes­sor José Clau­dio Sousa Alves, do depar­ta­men­to de ciên­cias soci­ais da Uni­ver­si­dade Fed­er­al Rur­al do Rio de Janeiro (UFRRJ), descreve as con­se­quên­cias para a pop­u­lação de oper­ações poli­ci­ais como a Oper­ação Con­tenção, con­sid­er­a­da a maior e mais letal dos últi­mos anos no Rio de Janeiro.

A oper­ação, real­iza­da na últi­ma terça-feira (28), nos com­plex­os do Alemão e da Pen­ha, na zona norte do Rio de Janeiro, deixou ao menos 121 pes­soas mor­tas, ger­ou pâni­co com tiroteios, fechamen­to de comér­cio, esco­las e pos­tos de saúde, com inter­dição das prin­ci­pais vias da cidade, rotas de trans­porte públi­co alter­adas e ônibus queima­dos. Cor­pos foram esten­di­dos no meio da rua em meio a par­entes e a toda uma comu­nidade hor­ror­iza­da e em luto. As con­se­quên­cias seguirão sendo sen­ti­das, adverte Alves.

“As pes­soas ficam com dia­betes, hiperten­são, dis­túr­bios emo­cionais, dis­túr­bios men­tais, não dormem, têm AVCs [aci­dente vas­cu­lar cere­bral], inúmeras com­pli­cações de saúde, prob­le­mas de visão, glau­co­ma. É uma bom­ba invisív­el”, diz o pro­fes­sor, que é refer­ên­cia em vio­lên­cia urbana e segu­rança públi­ca.

Uma pesquisa con­duzi­da pelo Cen­tro de Estu­dos de Segu­rança e Cidada­nia (Cesec) ten­ta descr­ev­er esse cenário. O estu­do com­parou a situ­ação de saúde de moradores de fave­las expostas a um número maior de tiroteios envol­ven­do agentes do Esta­do com a de pes­soas que vivem em comu­nidades mais tran­quilas, com número menor de con­fron­tos arma­dos.

A pesquisa mostrou, por exem­p­lo, que o risco de moradores de fave­las mais expostas a tiroteios desen­volverem depressão e ansiedade é mais que duas vezes maior que o daque­les de out­ras comu­nidades. A prob­a­bil­i­dade tam­bém é maior de apre­sen­tar quadros de insô­nia (73%) e hiperten­são arte­r­i­al (42%). Um terço dos moradores dessas comu­nidades tam­bém rela­tou sudorese, fal­ta de sono, tremor e fal­ta de ar durante os tiroteios.

A diri­gente sindi­cal Raimun­da de Jesus foi uma das pes­soas que par­ticipou da man­i­fes­tação con­tra a Oper­ação Con­tenção, real­iza­da no Com­plexo da Pen­ha na últi­ma sex­ta-feira (31).

“A for­ma que acon­te­ceu aqui não acon­tece na Zona Sul, nas áreas mais ric­as, mas lá tam­bém tem ban­di­dos. Nós, que moramos na per­ife­ria, somos dis­crim­i­na­dos. Mas o Esta­do não pode nos ver como inimi­gos. O Esta­do tem que tratar e cuidar do seu povo, de toda a sua pop­u­lação”, afir­mou.

Lil­iane San­tos Rodrigues, morado­ra do Com­plexo do Alemão, tam­bém com­pare­ceu ao ato. Ela perdeu o fil­ho Gabriel San­tos Vieira, de 17 anos, há ape­nas seis meses. O jovem esta­va na garu­pa de uma moto por aplica­ti­vo, a cam­in­ho do tra­bal­ho, quan­do foi balea­do com cin­co tiros durante uma perseguição poli­cial.

“Eu estou sentin­do a dor dessas mães. Foi um baque muito grande ver que um rapaz foi mor­to no mes­mo lugar em que o meu fil­ho mor­reu. Tem três dias que eu não sei o que é dormir dire­ito””

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção. Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil
Repro­dução: Dezenas de cor­pos são trazi­dos por moradores para a Praça São Lucas, na Pen­ha, zona norte do Rio de Janeiro. Oper­ação Con­tenção. Foto: Tomaz Sil­va /Agência Brasil

Complexos de favelas

De acor­do com a Sec­re­taria de Segu­rança do Rio Janeiro, os com­plex­os do Alemão e da Pen­ha são con­sid­er­a­dos o quar­tel gen­er­al do Coman­do Ver­mel­ho, com lid­er­anças de diver­sos esta­dos.

“Ali, é o lugar onde vários donos de mor­ro, várias lid­er­anças de fir­mas locais do trá­fi­co de dro­gas acabam moran­do. Os poucos que se encon­tram em liber­dade ─ a maio­r­ia das lid­er­anças do trá­fi­co no Rio de Janeiro já se encon­tram pre­sas e lid­er­am trá­fi­co a par­tir da prisão ─ é muito comum que morem, que ten­ham casas den­tro do Com­plexo da Pen­ha, do Com­plexo Alemão, onde há uma con­tenção arma­da que ofer­ece maior resistên­cia. Ou seja, há mais tem­po para se escon­der, para fugir, para mudar de casa, des­de o iní­cio de uma oper­ação poli­cial até o seu final”, diz a coor­de­nado­ra do Grupo de Estu­dos dos Novos Ile­gal­is­mos da Uni­ver­si­dade Fed­er­al Flu­mi­nense (Geni/UFF), Car­oli­na Gril­lo.

Ess­es locais, no entan­to, não se restringem à crim­i­nal­i­dade. Ali vivem mais de 110 mil pes­soas, que são dire­ta­mente impactadas por oper­ações poli­ci­ais. Oper­ações como esta, mes­mo com as 113 prisões real­izadas, com as mortes e apreen­sões, não afe­tam a estru­tu­ra do Coman­do Ver­mel­ho, mas impactam enorme­mente a pop­u­lação, avalia a pesquisado­ra.

“Quem serão impacta­dos serão as famílias, as pes­soas assas­si­nadas, serão os moradores daque­le ter­ritório que ficaram trauma­ti­za­dos para sem­pre”, diz.

Rio de Janeiro (RJ), 30/10/2025 – Atendimento aos familiares durante o reconhecimento dos corpos dos mortos na Operação Contenção no Instituto Médico Legal. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Atendi­men­to aos famil­iares durante o recon­hec­i­men­to dos cor­pos dos mor­tos na Oper­ação Con­tenção no Insti­tu­to Médi­co Legal. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Comando Vermelho

A oper­ação mirou no Coman­do Ver­mel­ho, orga­ni­za­ção crim­i­nosa que nasceu no sis­tema pri­sion­al do Rio de Janeiro no final dos anos 1970. “Ele está asso­ci­a­do a condições do presí­dio no Caldeirão do Dia­bo, em Ilha Grande, a tor­tu­ra, morte, trata­men­to abso­lu­ta­mente avil­tante, como e não é difer­ente até os dias de hoje. O Coman­do Ver­mel­ho responde com uma capaci­dade orga­ni­za­ti­va que vai deslo­car o crime do mun­do do roubo a ban­cos para o mun­do do trá­fi­co de dro­gas, que é muito mais amp­lo e era uma for­ma orga­ni­za­ti­va. Esse Coman­do Ver­mel­ho, então, vem crescen­do”, diz José Clau­dio Sousa Alves.

Segun­do nota téc­ni­ca do Fórum Brasileiro de Segu­rança Públi­ca, o Coman­do Ver­mel­ho é apon­ta­do como a segun­da maior orga­ni­za­ção crim­i­nosa do país, tam­bém pre­sente em 24 esta­dos e no Dis­tri­to Fed­er­al, além de man­ter conexões inter­na­cionais para o comér­cio de dro­gas e out­ras ativi­dades.

Pesquisa do Geni e Insti­tu­to Fogo Cruza­do mostrou que o Coman­do Ver­mel­ho foi a úni­ca facção crim­i­nosa a expandir seu con­t­role ter­ri­to­r­i­al de 2022 para 2023 no Grande Rio. Com o aumen­to de 8,4%, a orga­ni­za­ção ultra­pas­sou as milí­cias e pas­sou a respon­der por 51,9% das áreas con­tro­ladas por crim­i­nosos na região.

De acor­do com o estu­do, as milí­cias reduzi­ram suas áreas em 19,3%, de 2022 para 2023, e pas­saram a respon­der por 38,9% dos ter­ritórios con­tro­la­dos por gru­pos crim­i­nosos. A pesquisa mostrou que o Coman­do Ver­mel­ho reto­mou a lid­er­ança de 242 km² que tin­ham sido per­di­dos para as milí­cias em 2021. Naque­le ano, 46,5% das áreas sob con­t­role crim­i­noso per­ten­ci­am às milí­cias e 42,9% ao Coman­do Ver­mel­ho.

Os lugares onde a facção mais cresceu foram a Baix­a­da Flu­mi­nense e o Leste Met­ro­pol­i­tano. Já as milí­cias tiver­am as maiores per­das na Baix­a­da e na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.

Não à toa, o crime orga­ni­za­do se insta­la e pros­pera em ter­ritórios de pop­u­lação vul­neráv­el. “Há uma ofer­ta quase ines­gotáv­el de mão de obra para o tra­bal­ho crim­i­noso, dev­i­do às muito precárias opor­tu­nidades ofer­e­ci­das aos jovens no Brasil hoje em dia, dev­i­do às ter­ríveis desigual­dades soci­ais, que são estru­tu­rais no país”,  diz Car­oli­na Gril­lo.

Rio de Janeiro (RJ), 30/10/2025 – Crianças brincam em praça da Vila Cruzeiro ao lado de barricadas que foram colocadas para conter avanço de policiais durante a Operação Contenção. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: Cri­anças brin­cam em praça da Vila Cruzeiro ao lado de bar­ri­cadas que foram colo­cadas para con­ter avanço de poli­ci­ais durante a Oper­ação Con­tenção. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

População é vítima

A for­ma de oper­ar do Coman­do Ver­mel­ho tam­bém mudou ao lon­go do tem­po, deixan­do de lucrar ape­nas com a ven­da de dro­gas. Segun­do José Clau­dio Sousa Alves, isso se deu prin­ci­pal­mente a par­tir do con­ta­to com modus operan­di das milí­cias no Rio de Janeiro, que explo­ram os moradores dos ter­ritórios con­tro­la­dos, cobran­do serviços e taxas.

Ape­sar de a oper­ação ter apreen­di­do toneladas de dro­gas – o total ain­da não foi pre­cisa­do –, o próprio secretário de Polí­cia Civ­il, Felipe Curi, recon­heceu que a dro­ga não é a prin­ci­pal fonte de finan­cia­men­to do crime orga­ni­za­do.

“A dro­ga hoje é cer­ca de 10% a 15% do fat­u­ra­men­to das facções. Ela enx­er­gou que o ter­ritório é sinôn­i­mo de recei­ta, de din­heiro, explo­ração econômi­ca. Jus­ta­mente explo­ran­do tudo que tem no inte­ri­or dele: inter­net, gás, ener­gia elétri­ca, água, con­struções irreg­u­lares, extorsão de com­er­ciantes no inte­ri­or de comu­nidade, de moradores e etc. Então, é isso que o coman­do ver­mel­ho quer, jus­ta­mente, explo­rar eco­nomi­ca­mente o ter­ritório”, disse o secretário.

Combate ao crime

Tan­to José Clau­dio Sousa Alves quan­to Car­oli­na Gril­lo defen­d­em que as oper­ações poli­ci­ais não são a for­ma mais efe­ti­va de com­bat­er o crime orga­ni­za­do. Para eles, a pro­va dis­so é que mes­mo com as oper­ações real­izadas ao lon­go dos últi­mos anos, o crime orga­ni­za­do não perdeu ter­ritório.

Segun­do o estu­do do Geni e Fogo Cruza­do, 3.603.440 moradores da região met­ro­pol­i­tana do Rio de Janeiro estão em ter­ritórios sob domínio de milí­cias (29,2%). O Coman­do Ver­mel­ho tem hege­mo­nia em uma área habita­da por 2.981.982 moradores (24,2%); segui­do do Ter­ceiro Coman­do, com 445.626 (3,6%) e Ami­go dos Ami­gos, com 48.232 (0,4%). Pouco mais de 4,4 mil­hões de flu­mi­nens­es resi­dem em bair­ros que ain­da são alvo de dis­pu­ta (36,2%).

“Exis­tem out­ros elos estratégi­cos, cujo com­bate se dá de uma for­ma não vio­len­ta. Oper­ações que des­man­te­laram estru­turas, braços finan­ceiros do PCC [Primeiro Coman­do da Cap­i­tal], foram deflagradas sem nen­hum tiro fos­se dis­para­do”, diz Car­oli­na Gril­lo, citan­do a oper­ação Car­bono Ocul­to como exem­p­lo.

Out­ro exem­p­lo dado foi a oper­ação deflagra­da pela Polí­cia Fed­er­al que desar­tic­u­lou, no Rio de Janeiro, uma orga­ni­za­ção crim­i­nosa espe­cial­iza­da na pro­dução, mon­tagem e comér­cio ile­gal de armas de fogo de uso restri­to.

“Tem um efeito de desar­ma­men­to do crime orga­ni­za­do muito maior do que essas ações cen­tradas no con­fron­to, que têm um impacto gigan­tesco para a sociedade, trauma­ti­zam as cri­anças, vul­ner­a­bi­lizam uma série de famílias que ficam impe­di­das de tra­bal­har, impe­di­das de levar seus fil­hos para esco­la, sub­meti­das a trau­mas irreparáveis, sem que nen­hum resul­ta­do pos­i­ti­vo de lib­er­tação dessas famílias em relação ao jul­go dess­es gru­pos arma­dos pos­sa ser des­fru­ta­do”, diz a pesquisado­ra.

José Clau­dio Sousa Alves com­ple­men­ta: “Para onde vai essa grana toda do trá­fi­co? Quem tá operan­do? É o pé de chine­lo lá do Alemão? É o pobre vende­dor no vare­jo? Para onde vai essa grana toda? Tá com ele mes­mo? Não tá. É óbvio que não. Você tem estru­turas muito mais amplas. Você tem estru­tu­ra inter­na­cional, hoje, do trá­fi­co. Há condições de inves­ti­gar. A Car­bono Ocul­to nos mostra que isso é pos­sív­el”, diz.

Out­ra lin­ha de atu­ação pos­sív­el é ofer­tar opor­tu­nidades às pop­u­lações de fave­las e áreas vul­neráveis, sobre­tu­do aos jovens, para que não inte­grem o crime orga­ni­za­do e for­t­aleçam as facções. “Não há pro­postas nem do atu­al gov­er­no, muito menos dos ante­ri­ores, em relação a essa mas­sa de pes­soas que não con­seguem aces­sar mer­ca­do de tra­bal­ho, estão cada vez mais pre­cariza­dos, há uma pop­u­lação que vive sem salário”, diz o pro­fes­sor.

Car­oli­na Gril­lo desta­ca a importân­cia do Pronasci Juven­tude, do Min­istério da Justiça e Segu­rança Públi­ca, que tem por obje­ti­vo pre­venir as vio­lên­cias e a crim­i­nal­i­dade asso­ci­adas aos mer­ca­dos ile­gais de dro­gas. Os jovens recebem apoio para estu­dos, capac­i­tação e inserção no mer­ca­do de tra­bal­ho.

*Colaborou Tâmara Freire.

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