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Trabalho e estudo: comerciantes em Via Sacra no DF buscam sonhos

Evento tradicional teve público de 100 mil pessoas e movimentou cidade

Luiz Clau­dio Fer­reira – Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 18/04/2025 — 19:13
Brasília
Brasília (DF), 18/04/2025.- Movimentação de atores antes da cerimonia da Via sacra do Morro da Capelinha. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Repro­dução: © Anto­nio Cruz/Agência Brasil

“Olha o sal­gad­in­ho… cin­co reais”. Matheus de Souza, de 27 anos, esper­a­va, nes­ta sex­ta-feira da Paixão (18), os momen­tos de silên­cio da mis­sa que abria o tradi­cional espetácu­lo da Via Sacra, em Planalti­na, a 50 quilômet­ros de Brasília, para ofer­e­cer ao públi­co os pro­du­tos que car­rega­va nos braços havia mais de três horas. 

Brasília (DF), 18/04/2025.- Matheus Souza, fala com a reportagem da Agência Brasil, antes da cerimonia da Via sacra do Morro da Capelinha. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Repro­dução: Matheus Souza, que son­ha com um emprego fixo e a vol­ta à esco­la, vende sal­gad­in­hos aos fiéis na Via Sacra — Anto­nio Cruz/Agência Brasil

Matheus se disse orgul­hoso de ter o nome de um dos após­to­los de Cristo. O rapaz que­ria garan­tir a ven­da, mas tam­bém pedir ao xará, São Matheus, e até a Jesus Cristo, que ressus­ci­taria lá na frente dele, no alto do Mor­ro da Capelin­ha, um emprego fixo e a chance de voltar a estu­dar para poder cuidar mel­hor das duas fil­has cri­anças. Matheus é pai solo e, mes­mo tão jovem, diz que os son­hos são como “mila­gre”.

“Estudei só até a quin­ta série. Nem sei ler dire­ito”.

Jus­to ele, que tra­bal­ha como aux­il­iar de limpeza em uma esco­la par­tic­u­lar, mas que não tem recur­so para entrar em uma sala de aula daque­las, de um preço tão sal­ga­do que ele nem sabe quan­tificar. A roti­na no batente, de todos os dias que não são san­tos, vai das 9h às 18h.

Assim que o expe­di­ente ter­mi­na, Matheus vai para o segun­do turno, até as 22h, venden­do em sinais de trân­si­to os sacos de sal­gad­in­hos que ten­ta­va ofer­e­cer na Via Sacra em Planalti­na. Assim que chega em casa, bus­ca as meni­nas na casa da avó para con­tar histórias a elas e começar tudo de novo no dia seguinte.

Letras decoradas

Brasília (DF), 18/04/2025.- José Elinton, fala com a reportagem da Agência Brasil, antes da cerimonia da Via sacra do Morro da Capelinha. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Repro­dução: O mila­gre que o cearense José Sil­va espera, enquan­to vende bata­ta fri­ta, é “se virar” e, quem sabe, retomar os estu­dos — Anto­nio Cruz/Agência Brasil

Out­ra espera de mila­gre tem o nome do pai de Jesus. Na Via Sacra de Planalti­na, o cearense José Sil­va, de 40 anos, ven­dia bata­ta fri­ta. Aliás, essa ativi­dade de comér­cio ele con­hece des­de cri­ança, em Juazeiro do Norte. Há 20 anos mudou para Brasília e, des­de então, bus­ca a sobre­vivên­cia em pequenos bicos de ven­da até no trans­porte públi­co. Hoje, mais que ele mes­mo, pre­cisa levar o sus­ten­to para os cin­co fil­hos em Águas Lin­das de Goiás.

O prob­le­ma é que José se con­sid­era anal­fa­beto. Estu­dou ape­nas até a segun­da série. Para embar­car no ônibus, deco­rou as primeiras duas letras ini­ci­ais e as últi­mas duas do letreiro. 

“Seria um mila­gre voltar a estu­dar, mas só se Deus quisesse mes­mo”. Neste sába­do, o per­cur­so, de 85 quilômet­ros até o tra­bal­ho, demor­ou mais de cin­co horas. “Quem está sem tra­bal­ho pre­cisa se virar mes­mo. Aman­hã será out­ro dia”, afir­mou.

Voluntários

A 52ª edição do espetácu­lo da Via Sacra de Planalti­na, uma das regiões admin­is­tra­ti­vas do Dis­tri­to Fed­er­al, foi dirigi­da pelo dra­matur­go Pre­to Rezende, o públi­co, que cos­tu­ma chegar a 100 mil pes­soas, e os com­er­ciantes, todos acom­pan­haram a cap­tura, o jul­ga­men­to, a tor­tu­ra, a morte e a ressur­reição de Jesus Cristo em 14 estações, com a par­tic­i­pação de 1,4 mil pes­soas, entre téc­ni­cos, atores e fig­u­rantes, que atu­am vol­un­tari­a­mente.

As pes­soas são recru­tadas na própria comu­nidade. Enquan­to a emoção toma con­ta dos pre­sentes, há gru­pos que pagam promes­sas, can­tam e rezam lem­bran­do de sua própria tra­jetória. 

Cocos e flores

Brasília (DF), 18/04/2025.- Artesã, Carlos Fabrício Silva, fala com a reportagem da Agência Brasil, antes da cerimonia da Via sacra do Morro da Capelinha. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Repro­dução: Flo­res e chapéus feitos com pal­ha de coco verde foram lev­a­dos pelo mineiro Car­los, que son­ha ter­mi­nar o ensi­no fun­da­men­tal — Anto­nio Cruz/Agência Brasil

Um dos fiéis, Car­los Sil­va, que tam­bém tem nome de san­to e é devo­to de Padre Cícero, optou por não entrar nas estações da Via Sacra. Car­los preferiu esper­ar no pór­ti­co de entra­da para ofer­e­cer pro­du­tos arte­sanais feitos com a pal­ha do coco verde. Chapéus, ces­tas de ali­men­tos, flo­res… Ele, tam­bém anal­fa­beto, diz que son­ha­va na infân­cia, em Montes Claros, Minas Gerais, estu­dar med­i­c­i­na. Mas “tudo deu erra­do”.

Viu-se soz­in­ho e sem a família. Virou pes­soa em situ­ação de rua por quase 10 anos. Pas­sou a puxar car­rin­ho de reci­clagem e nas ruas apren­deu com ami­gos como se dobra­va a pal­ha do fru­to. Apren­deu a escalar a árvore e a dormir debaixo dela. Hoje, aos 39 anos, mora de favor, em Planalti­na, com dois ami­gos, e sai pelas ruas para vender sua arte.

“Ter uma casa para morar, ter­mi­nar o cur­so de ensi­no fun­da­men­tal pelo EJA [Edu­cação de Jovens e Adul­tos] e alu­gar uma loja seri­am mila­gres para mim. Eu ficarei rezan­do e ouvin­do daqui”. E, enquan­to reza, suas mãos trans­for­mam o coco em mais uma flor.

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