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Tuiuti defende respeito ao mostrar história da primeira mulher trans

Xica Manicongo mostra importância da figura LGBT na história do mundo

Cristi­na Indio do Brasil – Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 27/02/2025 — 08:17
Rio de Janeiro
São Paulo (SP), 24/02/2024 - A cantora carioca Hud Burk participa da escola de samba Paraíso do Tuiuti. Foto: lucasantosph/Instagram
Repro­dução: © lucasantosph/Instagram

Quem tem medo de Xica Man­i­con­go? A respos­ta a essa per­gun­ta vai ser dada pela esco­la de sam­ba Paraí­so do Tuiu­ti, a segun­da das qua­tro agremi­ações do Grupo Espe­cial do Rio a se apre­sen­tar na terça-feira (4), últi­mo dia de des­files no Sam­bó­dro­mo. As out­ras são: Moci­dade Inde­pen­dente de Padre Miguel, Grande Rio e Portela.

O enre­do da Tuiu­ti con­tará a vida de Xica, con­sid­er­a­da a primeira trav­es­ti do Brasil, e seus per­calços. Escrav­iza­da no Con­go foi trazi­da para Sal­vador, na Bahia. Lá, Xica foi obri­ga­da a se vestir com roupas iden­ti­fi­cadas como mas­culi­nas, foi persegui­da por suas man­i­fes­tações reli­giosas e não podia demon­strar o seu pen­sa­men­to. Mais do que con­tar a história, a intenção do car­navale­sco Jack Vas­con­ce­los é mostrar o ser humano por trás da per­son­agem.

São Paulo (SP), 24/02/2024 - Jack Vasconcelos, carnavalesco da escola de samba Paraíso do Tuiuti. Foto: Paraíso do Tuiuti/Divulgação
Repro­dução: Car­navale­sco Jack Vas­con­ce­los quer mostrar o ser humano por trás da per­son­agem Xica — Paraí­so do Tuiuti/Divulgação

“Além do car­navale­sco, da pes­soa que tra­bal­ha, tem alguém olhan­do para o ser humano. A escol­ha desse tema fala com a gente dessa for­ma, fala dire­to para o ser humano, e essa per­son­agem está trazen­do uma opor­tu­nidade de falar da tran­sces­tral­i­dade, da importân­cia. Fala-se muito da ances­tral­i­dade hoje em dia, dos fun­da­men­tos ances­trais de várias questões, inclu­sive raci­ais, mas esta­mos falan­do de uma figu­ra que traz essa importân­cia, inclu­sive reli­giosa, da figu­ra LBGBT e das pes­soas trans na história do mun­do”, expli­cou, em entre­vista para divul­gação do enre­do da Tuiu­ti.

Quan­do se negou a seguir o roteiro traça­do pelo sis­tema que escrav­iza­va pes­soas, as trazi­am de África e apa­ga­va sua iden­ti­dade, surgiu a figu­ra de Xica Man­i­con­go, que chama­va a atenção e, ao mes­mo tem­po, provo­ca­va temor por causa das suas man­i­fes­tações reli­giosas.

“E lá seguia Xica: temi­da, da cidade alta à cidade baixa com fama de bruxa, feiti­ceira, sac­er­do­ti­sa dos des­en­car­na­dos e das práti­cas “não cristãs”, envol­ta pela espir­i­tu­al­i­dade dos seus ances­trais, como se fazia na sua ter­ra, ao modo quim­ban­da. Quan­do a intol­erân­cia bradou con­tra ela em praça públi­ca a orde­nou rene­gar sua reli­giosi­dade e aban­donar sua fé para oprim­ir sua existên­cia, Xica disse: ‘não’. Recu­sou-se a renun­ciar sua ances­tral­i­dade, sua iden­ti­dade”, diz tex­to do enre­do divul­ga­do pela esco­la.

Inquisição

O car­navale­sco disse que a des­obe­diên­cia cus­tou caro a Xica e ela foi denun­ci­a­da à San­ta Inquisição em Sal­vador. O moti­vo era ter um com­por­ta­men­to con­sid­er­a­do inde­cente e ser uma figu­ra dis­si­dente, Xica Man­i­con­go seria uma crim­i­nosa de lesa-majes­tade aos olhos das Orde­nações Manueli­nas. “Ela chegou à Bahia e tra­bal­hou com um sap­ateiro. A gente foi brin­can­do com essa história até chegar na San­ta Inquisição, quan­do ela foi denun­ci­a­da, acu­sa­da de sodomia e de bruxaria, porque não enten­di­am a religião dela. Ela ten­tou praticar aqui os seus con­ceitos reli­giosos”, disse con­tou na entre­vista, indi­can­do mais uma parte do que a esco­la vai mostrar na aveni­da.

Nes­sa situ­ação, acabou ten­do duas vidas. Enquan­to, durante o dia, se ves­tia com roupas mas­culi­nas e era Fran­cis­co, à noite dava vazão a parte com a qual mais se iden­ti­fi­ca­va: a Xica. “Diante de tal encruza, final­mente, Xica disse sim. Se viu obri­ga­da a aceitar a cru­el­dade da prisão inte­ri­or ofer­e­ci­da como acor­do. Con­tu­do, eles não iri­am vencer. Então, na luz do dia, lá se via Xica trav­es­ti­da daqui­lo que não era; enrusti­da no armário de Fran­cis­co. E quan­do o véu da noite cobria a cidade, lá se ia Xica rodan­do sua saia pelas bre­chas das ruas, esquinas, estradas e matos, encan­ta­da e zom­ban­do”, ressalta o tex­to do enre­do.

A amare­lo ouro e azul pavão do Mor­ro do Tuiu­ti, no bair­ro de São Cristóvão, na zona norte do Rio, tem cos­tume de levar a Sapu­caí enre­dos ques­tion­adores. Neste, ao apre­sen­tar a vida de Xica Man­i­con­go, espera que a vis­i­bil­i­dade do des­file for­t­aleça o com­bate ao pre­con­ceito con­tra as pes­soas trans e o dire­ito de que estas lev­em a vida da maneira que quis­erem.

“E aqui está Xica Man­i­con­go, sen­ho­ra do Con­go, rain­ha da nos­sa con­ga­da. Coroa­da e con­sagra­da rain­ha do Traviar­ca­do. Ela quer as ruas, as casas, as telas, os livros,as salas de aula, os diplo­mas, os con­sultórios, as forças armadas, os altares, os par­la­men­tos, as políti­cas, as presidên­cias… A vida, o amor. Ela não vai recuar. Eles não vão vencer. Nada há de ter sido em vão”, acres­cen­ta o tex­to do enre­do divul­ga­do pela esco­la.

Para o car­navale­sco, dar vis­i­bil­i­dade em um des­file de esco­la de sam­ba a uma figu­ra como Xica Man­i­con­go é uma questão de respeito ao que uma pes­soa quer ser. “A gente vem falan­do dessa per­son­agem  para ela servir de espel­ho para a ger­ação de hoje, com essa luta por vis­i­bil­i­dade, por respeito, de você ser respeita­do pelo que você é, pelo que acred­i­ta e pelo que prat­i­ca como cidadão e cidadã, inde­pen­dente do que seja. Isso é muito impor­tante para a gente e um reca­do para a sociedade muito grande”, disse Vas­con­ce­los na entre­vista.

Pesquisa

Segun­do o car­navale­sco, o enre­do foi escol­hi­do a par­tir de uma pesquisa do pro­fes­sor, antropól­o­go, his­to­ri­ador e pesquisador Luiz Mott, da Bahia, um dos prin­ci­pais ativis­tas da causa LGBTI no Brasil. Ele trouxe à luz a história da existên­cia de Fran­cis­co Man­i­con­go, que mais tarde pas­sou a ser chama­do de Xica Man­i­con­go. “Sabe­mos que era uma pes­soa iden­ti­fi­ca­da de um grupo chama­do Jim­ban­da e que tin­ha uma questão de que essas pes­soas usavam uma saia amar­ra­da na frente, então com­pun­ha uma figu­ra mais fem­i­ni­na tam­bém. Isso pode ter ger­a­do uma con­fusão na época”, rev­el­ou.

Além da pesquisa do pro­fes­sor Mott, o car­navale­sco teve aces­so a muitos tex­tos de uma ger­ação de pro­fes­sores e pro­fes­so­ras trans que pesquis­aram e escrever­am sobre a Xica. “É um mate­r­i­al muito impor­tante para mim porque é o fil­tro delas, falan­do do que é impor­tante para elas”, afir­mou.

“Estou ten­do a opor­tu­nidade de falar da min­ha comu­nidade, mas é uma parte da min­ha comu­nidade, e é uma parte da min­ha comu­nidade extrema­mente impor­tante, his­tori­ca­mente, nas lutas que elas encabeçaram e que ben­e­fi­cia­ram toda a comu­nidade e à sigla que mais enfrenta pre­con­ceito den­tro da nos­sa própria comu­nidade. Elas sofrem do lado de fora e sofrem den­tro da bol­ha. Ver esse mate­r­i­al acadêmi­co ger­a­do por essas pes­soas den­tro das uni­ver­si­dades é muito impor­tante e já ser usa­do em um enre­do de esco­la de sam­ba e para falar de uma coisa impor­tante para a gente, isso foi muito bacana para mim”, desta­cou.

Para apro­fun­dar a pesquisa, Jack con­heceu os con­ceitos da quim­ban­da, con­sid­er­a­da um con­ceito reli­gioso afro­brasileiro de origem na mitolo­gia ban­tu. O car­navale­sco disse que Xica prat­i­ca­va quim­ban­da em África e trouxe essas práti­cas reli­giosas para cá. Como já tin­ha infor­mações de escri­ta pen­sou em con­hecer ess­es con­ceitos reli­giosos. A respos­ta foi além do que esti­ma­va.

“Fui sur­preen­di­do por esta parte espir­i­tu­al, come­cei a rece­ber uma ten­ta­ti­va de comu­ni­cação. O que me fal­ta­va em ter­mos de pesquisa fria, foi preenchi­da pela boca da própria Xica Man­i­con­go. Tem pas­sagens no enre­do que não estão em livro nen­hum e que eu tive o priv­ilé­gio de ouvir da boca do próprio espíri­to, do que ela se tornou e ser ori­en­ta­do den­tro dessa história”, rev­el­ou, con­tan­do a sua exper­iên­cia espir­i­tu­al.

Xicas na avenida

São Paulo (SP) 24/01/2025 - A deputada Érika Hilton (PSOL-SP) e a rainha de bateria Mayara Lima durante festa de lançamento do samba-enredo do Tuiuti para o Carnaval 2025. Foto: Thais Brum/Divulgação
Repro­dução: Dep­uta­da Éri­ka Hilton e a rain­ha de bate­ria, Mayara Lima, no lança­men­to do sam­ba-enre­do — Thais Brum/Divulgação

Jack Vas­con­ce­los quis que a figu­ra cen­tral do enre­do fos­se apre­sen­ta­da no des­file em rep­re­sen­tações difer­entes. “No nos­so des­file ter­e­mos algu­mas rep­re­sen­tações da Xica Man­i­con­go fem­i­ni­nas e out­ras como escul­tura em uma for­ma da gente hom­e­nagear a Xica.

“Ter­e­mos qua­tro mul­heres trans e trav­es­tis que vão per­son­ificar a Xica Man­i­con­go no des­file. A primeira, na comis­são de frente a [dança­ri­na, coreó­grafa, pro­fes­so­ra e per­former] Daniela Raio Black, depois a can­to­ra Hud, rep­re­sen­tan­do a Xica no Reino do Con­go, ela como a sac­er­do­ti­sa quim­ban­da, depois a [can­to­ra trans] Pepi­ta no car­ro de Sal­vador, rep­re­sen­tan­do Xica escrav­iza­da, e depois em um tripé no meio de uma ala com core­ografia sobre a inquisição em Sal­vador, com a Bruna Maia rep­re­sen­tan­do a Xica e a fogueira da inquisição”, rev­el­ou à Agên­cia Brasil.

Hud

O con­vite da dire­to­ria e do car­navale­sco para a can­to­ra trans Hud Burk  rep­re­sen­tar Xica Man­i­con­go no des­file da Paraí­so do Tuiu­ti chegou depois que ela par­ticipou do primeiro ensaio de rua que a esco­la, fez na preparação do car­naval. “Me viram ali e no dia seguinte me fiz­er­am o con­vite, me chama­ram para viv­er Xica, faz­er essa rep­re­sen­tação de Xica Man­i­con­go na aveni­da”, lem­brou a can­to­ra.

Para Hud, a par­tic­i­pação ocorre em um momen­to muito históri­co com os 40 anos de car­naval no Sam­bó­dro­mo com­ple­ta­dos no ano pas­sa­do. “Quan­do que a gente ia imag­i­nar, que uma mul­her trans, que viveu vários per­calços na vida, que foi ameaça­da, foi mor­ta à queima-roupa, não teve nem opor­tu­nidade de se defend­er, nem de ser real­mente quem sem­pre foi, mas foi uma mul­her cora­josa e que abriu espaços e cam­in­hos para que hoje tan­tas out­ras estivésse­mos aqui [como enre­do de um des­file]”, desta­cou.

O con­vite ger­ou tam­bém uma iden­ti­fi­cação de Hud com a Tuiu­ti, e ela disse que será para o futuro tam­bém. “Estou par­tic­i­pan­do da Paraí­so do Tuiu­ti neste ano, não somente este ano, ago­ra eu já faço parte da esco­la, então, meu coração é Paraí­so do Tuiu­ti, e ten­ho certeza de que fare­mos um bril­hante car­naval.”

“Ter Xica Man­i­con­go como rep­re­sen­tante de uma esco­la de sam­ba de grande vis­i­bil­i­dade é um momen­to de total reparação históri­ca. É um momen­to de vitória , vitória pela nos­sa luta, pela nos­sa gar­ra, pelas nos­sas feri­das. É um ato de mui­ta cor­agem da Tuiu­ti. É um ato de mui­ta rep­re­sen­ta­tivi­dade e eu ten­ho de certeza que Xica está muito feliz.”

Mes­mo com esta vis­i­bil­i­dade, Hud disse que ain­da há muito o que faz­er con­tra o pre­con­ceito. “Nós temos muitos cam­in­hos ain­da para des­bravar nes­sa luta con­tra o pre­con­ceito. O Brasil é o país que mais mata pes­soas trans. É o país que mais con­some pornografia de mul­heres trans e trav­es­tis e esta­mos aqui para faz­er esta reparação. Chega, chega. Ped­i­mos amor, ped­i­mos paz, ped­i­mos respeito, ped­i­mos igual­dade, mais vida, quer­e­mos viv­er, quer­e­mos estar vivas e estare­mos, assim seja”, afir­mou.

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