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Zé Celso deixa legado de arte que revolucionou política e costumes

Repro­dução: © José Cel­so Martinez/Instagram

Dramaturgo encarou a ditadura e foi perseguido por suas montagens


Pub­li­ca­do em 06/07/2023 — 10:13 Por Flávia Albu­querque — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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O mais longe­vo dra­matur­go em ativi­dade, Zé Cel­so Mar­tinez, que mor­reu nes­ta quin­ta-feira (6), deixa o lega­do de uma arte que rev­olu­cio­nou a políti­ca e os cos­tumes. Ele encar­ou a ditadu­ra mil­i­tar e foi persegui­do por suas mon­ta­gens dion­isía­cas. Zé Cel­so foi pre­so, tor­tu­ra­do e exi­la­do, e pro­duz­iu doc­u­men­tários sobre as rev­oluções por­tugue­sa e moçam­bi­cana. O doc­u­men­tário Zé Cel­so: tupy or not tupy lem­bra que ele tra­bal­hou com grandes nomes das artes, como Augus­to Boal, Chico Buar­que, Sér­gio Brit­to, Raul Cortez e Pas­coal da Con­ceição.

José Cel­so Mar­tinez Cor­rêa  nasceu em Araraquara no ano de 1937. Em 1955 entrou para o cur­so da Fac­ul­dade de Dire­ito da Uni­ver­si­dade de São Paulo, profis­são que nun­ca exerceu. Entre­tan­to no perío­do em que esteve no Largo São Fran­cis­co for­mou o Teatro Ofic­i­na e foi ali  que seus primeiros tex­tos Ven­to Forte para Papa­gaio Subir (1958) e A Incubadeira (1959), foram ence­na­dos.

No iní­cio da déca­da de 60, ele se profis­sion­al­iza, e a sede do grupo é trans­feri­da para o teatro da Rua Jaceguai, onde três anos depois Zé Cel­so diri­gia Pequenos Bur­gue­ses, de Máx­i­mo Gor­ki, peça de suces­so que gan­hou diver­sos prêmios, mas que foi cen­sura­da no ano seguinte, quan­do o Brasil mer­gul­hou na ditadu­ra mil­i­tar. Após um incên­dio, o teatro da Rua Jaceguai foi refor­ma­do e a primeira mon­tagem dessa nova fase foi O Rei da Vela, em 1967, com base num tex­to escrito por Oswald de Andrade na déca­da de 30, tam­bém ence­na­da por Zé Cel­so.

A par­tir de 1968, o grupo mon­ta Roda VivaGalileu Galilei e Na sel­va das cidades. Depois dis­so, Zé Cel­so se dedi­cou ao filme O Rei da Vela e enfren­tou um perío­do de crise, sofren­do com a repressão. Em 1974, chegou a ser pre­so, sendo solto depois de 20 dias, e se exilou em Por­tu­gal, onde fez o filme O Par­to, por ocasião da Rev­olução dos Cravos. No ano seguinte, foi a Moçam­bique, onde fil­mou a inde­pendên­cia do país. Zé Cel­so voltou para São Paulo em 1978 e reto­mou o tra­bal­ho à frente do Ofic­i­na.

Nos anos 80, o ator e dire­tor fez um inter­va­lo nas pro­duções, mas pas­sou a lutar pela per­manên­cia da com­pan­hia no local, onde já havia se con­sol­i­da­do, já que, em 1982, o dono do quar­teirão onde o imóv­el está local­iza­do, o Grupo Sil­vio San­tos, anun­ciou a con­strução ali de um shop­ping cen­ter, geran­do mobi­liza­ção dos artis­tas jun­to à sociedade civ­il e autori­dades gov­er­na­men­tais. O tomba­men­to do espaço cêni­co do Ofic­i­na como patrimônio históri­co da cidade de São Paulo con­tribuiu para a resistên­cia con­tra os obje­tivos do grupo.

A par­tir de 1990, a com­pan­hia entra em nova fase com o nome de Com­pan­hia de Teatro Ofic­i­na Uzy­na Uzona, e real­iza espetácu­los como As bacantes (1996), de Eurípi­des, e Cacil­da! (1998), que rela­tou a vida da atriz Cacil­da Beck­er segun­do a visão de Zé Cel­so. De 2000 em diante Zé Cel­so se dedi­cou a recri­ar a obra Os sertões, de Euclides da Cun­ha, pub­li­ca­da em 1902, e fez com que o Ofic­i­na fos­se pal­co para assem­bleias de movi­men­tos artís­ti­cos (Arte Con­tra a Bar­bárie) e soci­ais (Movi­men­to dos Tra­bal­hadores Rurais Sem Ter­ra – MST).

O dire­tor trouxe ain­da a con­strução e descon­strução do Arra­ial de Canudos (BA), tomba­do pela guer­ra de 1897, embate do Exérci­to com os ser­tane­jos lid­er­a­dos por Antônio Con­sel­heiro. Fazem parte dessa epopeia musi­cal A ter­ra (2002), O homem – parte 1 – do pré-homem à re-vol­ta (2003), O homem – parte 2 – da re-vol­ta ao trans-homem (2003), A luta – parte 1 (2005) e A luta – parte 2 (2006), sem­pre com cer­ca de 50 artis­tas em cena, entre músi­cos, o núcleo de atores e as cri­anças e ado­les­centes do pro­je­to comu­nitário Bex­igão, refer­ên­cia ao bair­ro do Bex­i­ga, onde fica o Ofic­i­na.

Uma das car­ac­terís­ti­cas dos espetácu­los de Zé Cel­so é a ence­nação para o grande públi­co, de graça, ao ar livre ou em grandes espaços. Um exem­p­lo desse for­ma­to é As Dion­isía­cas, con­jun­to de qua­tro peças que per­cor­reu sete cap­i­tais ao lon­go de 2010. As apre­sen­tações ocor­ri­am sem­pre em está­dios, com entra­da fran­ca.

Edição: Graça Adju­to

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