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Jovem sanitarista Oswaldo Cruz enfrentou três epidemias simultâneas

Repro­dução: © Casa de Oswal­do Cruz/Fundação Oswal­do Cruz

Meta era derrotar a peste bubônica, varíola e febre amarela


Pub­li­ca­do em 05/08/2022 — 09:35 Por Viní­cius Lis­boa — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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A Revol­ta da Vaci­na é um assun­to que faz parte do cur­rícu­lo esco­lar, mas um detal­he que nem sem­pre é lem­bra­do é que as trans­for­mações san­itárias que ocor­ri­am no Rio de Janeiro do iní­cio do Sécu­lo XX eram lid­er­adas por um jovem Oswal­do Cruz de pouco mais de 30 anos. Nes­ta sex­ta-feira (5), dia que mar­ca 150 anos de seu nasci­men­to, a Agên­cia Brasil relem­bra como esse auda­cioso san­i­tarista assum­iu o prin­ci­pal órgão de saúde públi­ca do país, em 1903, com a promes­sa de der­ro­tar três epi­demias simultâneas que assolavam a cap­i­tal fed­er­al: a peste bubôni­ca, varío­la e febre amarela.

Recém saí­do do Império, o Brasil que­ria mostrar ao mun­do uma imagem mod­er­na e promis­so­ra, mas traz­er vis­i­tantes e imi­grantes ao Rio de Janeiro, sua cap­i­tal, era uma tare­fa difí­cil, já que a cidade tin­ha fama de ser “túmu­lo dos estrangeiros”. O moti­vo eram as doenças infec­ciosas que assolavam a pop­u­lação car­i­o­ca, que vivia em pés­si­mas condições de higiene e sanea­men­to, com cor­tiços e ruelas que cres­ci­am em uma urban­iza­ção acel­er­a­da e des­or­de­na­da.

O pres­i­dente da Repúbli­ca da época, Rodrigues Alves, nomeou o engen­heiro Pereira Pas­sos prefeito do Rio de Janeiro para que real­izasse uma ampla refor­ma urbana que abrisse largas avenidas e per­mi­tisse a mel­ho­ria do sanea­men­to bási­co e da ven­ti­lação. Em uma frente com­ple­men­tar, coube à Oswal­do Cruz a elab­o­ração das estraté­gias para enfrentar as doenças infec­ciosas, e o jovem médi­co foi nomea­do dire­tor-ger­al de saúde públi­ca, car­go que, na época, pode­ria ser com­para­do ao que hoje é o min­istro da Saúde.

O his­to­ri­ador Bruno Mus­sa, do Museu da Vida da Fun­dação Oswal­do Cruz (Fiocruz), expli­ca que, ape­sar de novo, Oswal­do Cruz teve uma for­mação sól­i­da, ten­do sido o primeiro brasileiro a estu­dar no Insti­tu­to Pas­teur, cen­tro de pesquisa de Paris que era a maior refer­ên­cia da época no Oci­dente sobre micro­bi­olo­gia e saúde. Ao retornar ao Brasil, em 1899, ele par­ticipou de uma mis­são cien­tí­fi­ca que iden­ti­fi­cou um sur­to de peste bubôni­ca no Por­to de San­tos. Esse tra­bal­ho fez com que gan­has­se noto­riedade para assumir a dire­to­ria téc­ni­ca e depois a chefia do Insti­tu­to Soroterápi­co Fed­er­al, embrião do que seria a Fiocruz. O pas­so seguinte foi acu­mu­lar o car­go com a dire­to­ria em que se tornou céle­bre pelas políti­cas implan­tadas no país.

“A par­tir dali, a Dire­to­ria-Ger­al de Saúde Públi­ca vai assumir um espaço cada vez maior e mais sig­ni­fica­ti­vo, e a saúde públi­ca vai se tornar um pon­to cada vez mais rel­e­vante no Brasil”, avalia o his­to­ri­ador. “Em tudo que ele plane­ja­va, ele pen­sa­va na imple­men­tação de um pro­je­to de tra­bal­ho duradouro. Se a Fun­dação Oswal­do Cruz hoje em dia é uma insti­tu­ição estratég­i­ca, é uma con­se­quên­cia da visão de futuro desse per­son­agem”.

Febre Amarela

Maior prob­le­ma de saúde públi­ca da cidade, a febre amarela foi o primeiro foco de Oswal­do Cruz como dire­tor de saúde públi­ca. Sob descon­fi­ança da classe médi­ca da época, o san­i­tarista trouxe para o Rio de Janeiro a ideia de que a doença era trans­mi­ti­da por mos­qui­tos, enquan­to a tese mais acei­ta no Brasil era de que o con­tá­gio seria a par­tir de pes­soas já doentes.

Oswal­do Cruz criou brigadas san­itárias que per­cor­ri­am a cidade com inseti­ci­das, em bus­ca de locais onde hou­vesse lar­vas de mos­qui­tos, incluin­do casas, cujos donos podi­am ser inti­ma­dos a realizar refor­mas ou até demolições se fos­sem con­sid­er­adas insalu­bres.

A estraté­gia teve suces­so, e a doença que mata­va cer­ca de mil pes­soas por ano em 1902 já não era mais uma epi­demia em 1907, o que ren­deu ao san­i­tarista o prêmio prin­ci­pal do 14º Con­gres­so de Higiene e Demografia de Berlim, real­iza­do na Ale­man­ha naque­le ano.

“Esse recon­hec­i­men­to inter­na­cional foi impor­tan­tís­si­mo para pro­duzir essa chancela que o Oswal­do Cruz pas­sou a ter a par­tir de então”, desta­ca Mus­sa. “Ele pas­sa a ser recon­heci­do no Brasil depois do recon­hec­i­men­to que ele teve no exte­ri­or”.

Uma das maiores provas desse recon­hec­i­men­to foi a mudança do nome do insti­tu­to que ele diri­gia para Insti­tu­to Oswal­do Cruz (IOC), que existe até hoje como parte da Fun­dação Oswal­do Cruz. O pesquisador tam­bém se tornou um imor­tal da Acad­e­mia Brasileira de Letras, em 1913.

Peste Bubônica

Orga­ni­za­do o com­bate à febre amarela, Oswal­do Cruz e sua dire­to­ria de saúde públi­ca se voltaram, em 1903, con­tra a peste bubôni­ca, doença trans­mi­ti­da pelas pul­gas de ratos con­t­a­m­i­na­dos.

Mus­sa expli­ca que, além de estar pre­sente na memória cole­ti­va pela trág­i­ca epi­demia que matou mil­hões na Europa, a doença tam­bém tem um forte impacto impacto econômi­co, já que a dis­sem­i­nação se dá muitas vezes por ratos em navios, de por­to em por­to, o que chega a obri­gar o fechamen­to de uma cidade com con­t­a­m­i­nações.

“A peste bubôni­ca não chegou a ser um prob­le­ma gigan­tesco no Rio de Janeiro, mas o diag­nós­ti­co gera uma série de ações para que ela não pros­perasse”. afir­ma. “Era uma doença que veio de fora e pode­ria ger­ar um impacto muito grande na econo­mia”.

Mais uma vez, Oswal­do Cruz ado­tou a estraté­gia de com­bate aos vetores, com uma caça­da aos ratos do Rio de Janeiro. Fun­cionários da dire­to­ria de saúde públi­ca rece­ber­am a meta de apre­sen­tar pelo menos 150 ratos por mês, sob ameaça de demis­são, e o gov­er­no pas­sou a com­prar ratos de qual­quer pes­soa que os matasse.

Além da desra­ti­za­ção, o san­i­tarista pro­moveu a vaci­nação da pop­u­lação nas áreas mais afe­tadas da cidade e o Insti­tu­to Soroterápi­co Fed­er­al pro­duz­iu o soro para o trata­men­to dos doentes, cujos casos pas­saram a ter noti­fi­cação com­pul­sória. Esse con­jun­to de ações impactou forte­mente a mor­tal­i­dade por peste bubôni­ca na cidade, que caiu mais de 20 vezes entre 1903 e 1909, segun­do a Fiocruz.

Varíola

As remoções da pop­u­lação pobre forçadas pela refor­ma urbana, a tru­culên­cia das brigadas san­itárias e as ten­sões políti­cas da repúbli­ca recém procla­ma­da cri­aram um cli­ma de ten­são cres­cente na cap­i­tal fed­er­al no gov­er­no Rodrigues Alves. Em meio a esse cenário, a varío­la teve um pico de casos em 1904, e cer­ca de 3,5 mil pes­soas mor­reram no Rio de Janeiro.

A tragé­dia lev­ou Oswal­do Cruz à drás­ti­ca pro­pos­ta de faz­er cumprir a vaci­nação obri­gatória, com exigên­cia de com­pro­vação até mes­mo para a real­iza­ção de casa­men­tos. Além dis­so, a lei aprova­da no Con­gres­so, apel­i­da­da pelos opos­i­tores de “Códi­go de Tor­turas”, pre­via que serviços san­itários pode­ri­am entrar nas residên­cias para vaci­nar os moradores.

O his­to­ri­ador expli­ca que esse foi o estopim para o caldeirão de insat­is­fação explodir, e a Revol­ta da Vaci­na durou 10 dias, nos quais hou­ve protestos nas ruas e insur­reição de mil­itares. O resul­ta­do foram 30 mor­tos, 110 feri­dos e 945 pre­sos, sendo quase a metade exi­la­da no Acre, onde foram sub­meti­dos a tra­bal­hos força­dos.

Ape­sar de ter retoma­do o con­t­role da cap­i­tal, o gov­er­no decid­iu sus­pender a vaci­nação obri­gatória, o que rep­re­sen­tou uma der­ro­ta para a pre­venção da varío­la e pos­si­bil­i­tou uma epi­demia ain­da mais mor­tal em 1906, com mais de 6 mil víti­mas.

Mus­sa desta­ca que mes­mo que a vaci­na da varío­la já fos­se uti­liza­da mun­do afo­ra e fos­se com­pro­vada­mente efi­caz, o cli­ma de ten­são foi aproveita­do pela oposição ao gov­er­no enquan­to o anal­fa­betismo gen­er­al­iza­do e a escassez de canais de comu­ni­cação difi­cul­taram uma cam­pan­ha de con­sci­en­ti­za­ção.

“Esse proces­so todo apre­sen­ta na história do Brasil o momen­to em que se demon­stra a relevân­cia de se faz­er uma boa comu­ni­cação públi­ca da ciên­cia e um bom desen­volvi­men­to dos debates cien­tí­fi­cos com a sociedade, porque foi a ausên­cia dis­so e mui­ta apli­cação de deter­mi­nações por decre­to e pela força que con­tribuiu muito para a ani­mosi­dade e para a revol­ta que acon­te­ceu”.

Legado

Assim como seus grandes feitos, a morte chegou cedo para Oswal­do Cruz, que mor­reu aos 44 anos, em 1917. O san­i­tarista foi víti­ma de insu­fi­ciên­cia renal, cau­sa­da por uma nefrite, mes­ma doença que viti­mou seu pai.

Para a dire­to­ra do Insti­tu­to Oswal­do Cruz, Tania Araújo-Jorge, o maior lega­do do san­i­tarista foi incluir a pesquisa como ele­men­to fun­da­men­tal na políti­ca de saúde públi­ca. Ela lem­bra que, anos depois de assumir o Insti­tu­to Soroterápi­co Fed­er­al, o médi­co o trans­for­mou em um insti­tu­to de patolo­gia exper­i­men­tal, ded­i­ca­do à pesquisa médi­ca volta­da à saúde cole­ti­va.

“A saúde públi­ca tem um antes e um depois de Oswal­do Cruz. Sem pesquisa, você não con­segue faz­er um bom enfrenta­men­to de qual­quer desafio de saúde”, afir­ma ela. “Não só a gente do Insti­tu­to Oswal­do Cruz, mas todo pesquisador brasileiro se sente inspi­ra­do pela visão dele de que você tem que faz­er for­mação, tem que faz­er pesquisa e que isso tem que estar com­pro­meti­do com a mel­ho­ria da saúde do povo brasileiro”.

Tania avalia que, diante dos desafios na Dire­to­ria-Ger­al de Saúde Públi­ca, o jovem Oswal­do Cruz teve ener­gia para faz­er os enfrenta­men­tos da época, e à frente do insti­tu­to de pesquisa, colaborou para a trans­mis­são do con­hec­i­men­to que ocorre até hoje na fun­dação.

“O fato de ele implan­tar a pesquisa e a for­mação de novos pesquisadores foi muito impor­tante. Todos eles mor­ri­am muito jovens, e você tin­ha que pas­sar o lega­do adi­ante. Quem teve que enfrentar a epi­demia de gripe espan­ho­la no Brasil? Já não foi Oswal­do, ele mor­reu em 1917, e a epi­demia começou em 1918. Foi Car­los Cha­gas, que tin­ha apren­di­do tudo com ele. O Car­los Cha­gas foi aluno do Oswal­do Cruz, e ele foi for­man­do uma ger­ação de cien­tis­tas, e a gente tem 122 anos de for­mação de cien­tis­tas”.

Edição: Valéria Aguiar

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