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Do churrasquinho à coxinha: festival mostra diferentes sabores da Maré

Repro­d­u­ação: © Tânia Rêgo/Agência Brasil

Comida de Favela conecta gastronomia e cultura do Rio de Janeiro


Pub­li­ca­do em 22/11/2023 — 07:08 Por Rafael Car­doso — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio Janeiro

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Nas ruas e becos estre­itos da Maré, o calor parece mul­ti­plicar. Enquan­to uns impro­visam chu­veirões e pisci­nas cole­ti­vas, o cearense Jorge pas­sa o dia cola­do em uma chur­rasqueira. E não tem sen­sação tér­mi­ca de 60 graus Cel­sius (°C) que des­man­che o sor­riso no ros­to.

O sufo­co é rec­om­pen­sa­do pelos elo­gios con­stantes dos clientes que se encan­tam com os 15 tipos de espet­inhos que ele prepara. Carne, fran­go, por­co, pão de alho, quei­jo coal­ho. O cardá­pio é vari­a­do.

Rio de Janeiro (RJ), 16/11/2023 - Antônio Jorge Pereira, dono do Churrasquinho do Jorge, que concorre no
Repro­dução: Antônio Jorge Pereira, dono do Chur­rasquin­ho do Jorge, pre­tende abrir fran­quia do negó­cio– Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Estou há 18 anos aqui nesse mes­mo pon­to. Sem parar. E nun­ca esperei chegar no lugar que eu estou hoje. Eu não tin­ha nem um ban­quin­ho para sen­tar. E ago­ra pre­tendo abrir uma out­ra fran­quia o mais rápi­do pos­sív­el. Esse é um cam­in­ho bom para a gente crescer. Se você chegar aqui e per­gun­tar sobre o chur­ras­co do Jorge, todo mun­do vai saber onde fica”, garante.

Essa ale­gria tem um ingre­di­ente extra. É que ele está con­cor­ren­do na cat­e­go­ria Mel­hor Comi­da de Rua, do Comi­da de Favela, um fes­ti­val gas­tronômi­co orga­ni­za­do pela ONG Redes da Maré nas 16 fave­las que com­põem o bair­ro na Zona Norte do Rio de Janeiro.

A out­ra cat­e­go­ria é a de Mel­hor Comi­da de Bar, Restau­rante ou Pen­são. Entre maio e jun­ho desse ano, foram 110 esta­b­elec­i­men­tos inscritos. Um comitê curador escol­heu 17 deles para par­tic­i­par ofi­cial­mente do even­to.

Rio de Janeiro (RJ), 16/11/2023 -Churrasquinho do Jorge, estabelecimento que concorre no
Repro­dução: Chur­rasquin­ho do Jorge  con­corre na cat­e­go­ria Comi­da de Rua do fes­ti­val Comi­da de Favela — Tânia Rêgo/Agência Brasil

Até o dia 2 de dezem­bro, o públi­co pode con­hecer os par­tic­i­pantes, provar o pra­to prin­ci­pal de cada um deles e indicar o preferi­do. Os votos vão ser soma­dos aos de jura­dos espe­cial­iza­dos. Os três primeiros de cada cat­e­go­ria vão rece­ber prêmios em din­heiro entre R$ 3 mil e R$ 10 mil. Mas todos gan­ham de algu­ma for­ma: eles recebem con­sul­to­ria profis­sion­al para aper­feiçoar o empreendi­men­to, ori­en­tações sobre nor­mas de con­ser­vação dos ali­men­tos e atendi­men­to ao públi­co.

A primeira edição da feira foi em 2015. A segun­da está ocor­ren­do só ago­ra por fal­ta de parce­rias pri­vadas e de apoio do poder públi­co. A coor­de­nado­ra do fes­ti­val, Mar­i­ana Aleixo, diz esper­ar que o poten­cial econômi­co e social da Maré ten­ha maior recon­hec­i­men­to.

“Somos neg­li­gen­ci­a­dos. Se pen­sar­mos que a Maré tem 140 mil habi­tantes e 3.182 empreendi­men­tos com­er­ci­ais, a gente tem um poder econômi­co den­tro desse ter­ritório que existe a par­tir dos moradores. É uma econo­mia local que pre­cisa ser val­oriza­da, não ape­nas no sen­ti­do de obser­var que ela existe, mas de rece­ber políti­cas públi­cas, recur­sos e finan­cia­men­tos. Porque isso gera econo­mia para toda a cidade”.

Para con­seguir o prêmio, os espet­inhos do Jorge vão ter que super­ar con­cor­rentes fortes como as empadas feitas por Fil­ipe e Vera Lúcia. O casal começou o negó­cio há quase 3 anos venden­do sal­ga­dos na por­ta de casa e nas ruas da favela Nova Holan­da. As ven­das cresce­r­am, eles com­praram uma car­rocin­ha e hoje têm uma loja fixa, a Ki Empa­da Boa. O sabor de fran­go com cream cheese foi o escol­hi­do para par­tic­i­par da com­petição.

Rio de Janeiro (RJ), 16/11/2023 - Felipe Mariano Santos, um dos donos do Ki Empada Boa, que concorre no
Repro­dução: Felipe Mar­i­ano San­tos diz que o fes­ti­val é uma opor­tu­nidade até para os esta­b­elec­i­men­tos que não pud­er­am par­tic­i­par — Tânia Rêgo/Agência Brasil

“O fes­ti­val aca­ba sendo uma óti­ma opor­tu­nidade para a gente e até para os out­ros esta­b­elec­i­men­tos que não pud­er­am par­tic­i­par. Mais pes­soas ficam inter­es­sadas e pas­sam a fre­quen­tar a Maré. E aju­da a mudar aque­le olhar de pre­con­ceito sobre a favela. A gente tem muito a ofer­e­cer e esse even­to nos per­mite mostrar isso”, diz Fil­ipe Mar­i­ano.

Se existe um lado com­pet­i­ti­vo do fes­ti­val, tam­bém não fal­ta uma rede de apoio. Dos orga­ni­zadores, Felipe e Vera Lúcia rece­ber­am uma aju­da prov­i­den­cial para admin­is­trar as redes soci­ais e o mar­ket­ing do negó­cio. E da comu­nidade, vem novas ideias que ani­mam a pen­sar em pas­sos maiores no futuro.

Rio de Janeiro (RJ), 16/11/2023 - Empada do Ki Empada Boa, que concorre no
Repro­dução: Empa­da do Ki Empa­da Boa tam­bém con­corre no fes­ti­val– Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Já teve recheio aqui que a gente colo­cou porque as pes­soas sug­eri­ram e der­am dicas. A gente acred­i­ta que pos­sa expandir o negó­cio até para fora mais para a frente. É a nos­sa meta, mas tudo aos poucos. Antes, vamos incre­men­tan­do os sabores. Tem um bacal­hau que estou plane­jan­do há uns meses”, pro­je­ta Fil­ipe.

Gigante do Parque União

O Comi­da de Favela abrange negó­cios menores como os vis­tos aci­ma, mas tam­bém tem entre os par­tic­i­pantes aque­les que viram as ven­das mul­ti­pli­carem e se tornaram grandes empreendi­men­tos. Logo na entra­da da favela Par­que União, um pré­dio verde se desta­ca pelo taman­ho das demais casas. O Bar e Chope­ria Esper­ança tem quase 150 fun­cionários. Mais de 90% deles mora na Maré. E recebe, em média, 1,2 mil clientes por dia.

Para escol­her o pra­to que rep­re­sen­taria o esta­b­elec­i­men­to no fes­ti­val, eles fiz­er­am um con­cur­so inter­no com fun­cionários. E a vence­do­ra foi a Cox­in­ha Arreta­da. O sal­ga­do e os ingre­di­entes não foram escol­hi­dos à toa. Além do sabor, pesou o quan­to o sal­ga­do seria rep­re­sen­ta­ti­vo do encon­tro de cul­turas e tradições brasileiras.

“O nos­so restau­rante é nordes­ti­no. Carne seca e o nos­so jer­i­mum, ou abób­o­ra, são bem car­ac­terís­ti­cos do Nordeste. E a cox­in­ha é um sal­ga­do que você encon­tra em todas as comu­nidades. Então, a gente fez essa junção e ficou bem bacana. O retorno tem sido muito pos­i­ti­vo”, diz Mar­cos Salles, ger­ente ger­al do Bar Esper­ança.

A pre­sença nordes­ti­na no Comi­da de Favela é algo a ser desta­ca­do e reforça a her­ança trazi­da por migrantes que aju­daram a con­stru­ir não só a Maré, mas a cidade do Rio de Janeiro. Alguns números do fes­ti­val aju­dam a dar essa dimen­são: dos inscritos, 46,4% tin­ham donos de origem do Rio de Janeiro e 30,9% do Ceará.

O atu­al pro­pri­etário do Bar e Chope­ria Esper­ança, Rondinele, é um dess­es exem­p­lo. Ele veio de Hidrolân­dia, no Ceará, e tra­bal­hou durante 13 anos no barz­in­ho do sogro. Em 2006, her­dou o negó­cio e con­seguiu trans­for­mar no que é hoje. O que era um negó­cio pequeno virou um exem­p­lo para os out­ros esta­b­elec­i­men­tos que son­ham em crescer, atrair mais clientes e expandir os rendi­men­tos.

Boteco LGBTI+

A car­i­o­ca Edis­san­dra Oliveira e a paraibana Edi­nal­va Mon­tene­gro decidi­ram abrir um bar há 3 anos na favela Con­jun­to Pin­heiro. Era para ser um empreendi­men­to como qual­quer out­ro do tipo, mas o acol­hi­men­to e incen­ti­vo da pop­u­lação LGBTI+ trans­for­maram o local em um pon­to de encon­tro para além das comi­das e bebidas. As ban­deiras arco-íris dis­tribuí­das pelas pare­des deix­am claro que ali é um espaço de fes­ta, diver­si­dade e afe­to.

Rio de Janeiro (RJ), 16/11/2023 - Edissandra Batista de Oliveira, uma das donas do Boteco Tô Chegando, estabelecimento que concorre no
Repro­dução: Edis­san­dra Batista de Oliveira ressalta que o Bote­co Tô Chegan­do é local de diver­si­dade e de afe­to  — Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Aqui virou uma refer­ên­cia da comu­nidade. Até pen­sei que out­ras pes­soas iri­am implicar, mas todo mun­do respeitou. Os clientes falam que em out­ros esta­b­elec­i­men­tos não podem ficar à von­tade, con­ver­sar em paz e tro­car um car­in­ho, porque todo mun­do fica olhan­do feio. Aqui, podem ser eles mes­mos. Se tiv­er que namorar, se bei­jar, estão tran­qui­los”, con­ta Edis­san­dra.

O Bote­co Tô Chegan­do con­corre no fes­ti­val com o Gur­jão de Fran­go. Mes­mo que não gan­he o prêmio, os resul­ta­dos já estão apare­cen­do. Clientes de difer­entes bair­ros do Rio têm ido con­hecer o espaço e têm se sur­preen­di­do com o que veem.

Rio de Janeiro (RJ), 16/11/2023 - Detalhe do Boteco Tô Chegando, estabelecimento que concorre no
Repro­dução:  Detal­he do Bote­co Tô Chegan­do — Tânia Rêgo/Agência Brasil

“É bom que as pes­soas percebem que a favela não é só vio­lên­cia. Ela tem mui­ta coisa boa. Tem gente que vem com família, se sur­preende e fica muito feliz. Porque tam­bém tem essa imagem de que por rece­ber a pop­u­lação LGBT, é bagunça. E não. Aqui tem muito respeito por todos”, defende Edis­san­dra.

Serviço

Fes­ti­val Comi­da de Favela

Data: 03/11 a 02/12 na Maré

Preços dos pratos vari­am de R$ 2,50 a R$ 30,00

Roteiros guia­dos com mon­i­tores-moradores da Maré aos sába­dos e domin­gos, às 12h. Saí­das de dois pon­tos: Praça do Par­que União e pon­to de ônibus da Vila do João.

Infor­mações: (21) 99723–5681 ou no site.

Edição: Aline Leal

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