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Chuvas alertam para cuidado com a “casa comum”, diz presidente da CNBB

Repro­dução: © Vaticano/Divulgação

Dom Jaime também é arcebispo de Porto Alegre


Publicado em 12/05/2024 — 11:24 Por Alex Rodrigues — Agência Brasil — Brasília

 Da janela da Cúria Met­ro­pol­i­tana, sede admin­is­tra­ti­va da Arquid­io­cese de Por­to Ale­gre (RS), o arce­bis­po dom Jaime Spen­gler obser­va a chu­va voltar a cair com força sobre a cap­i­tal gaúcha.

“Ter­e­mos dias ain­da muito difí­ceis pela frente”, comen­tou o reli­gioso católi­co na últi­ma sex­ta-feira (10), quan­do as con­se­quên­cias dos tem­po­rais já tin­ham ceifa­do ao menos 116 vidas e deix­a­do 70.772 pes­soas desabri­gadas em todo o esta­do. No momen­to da pub­li­cação des­ta entre­vista, os números ofi­ci­ais já chegavam a 143 e 81.170, respec­ti­va­mente.

A dimen­são da tragé­dia fez com que o papa Fran­cis­co lig­asse para dom Jaime, às 11h37 do últi­mo sába­do. “Man­i­festo min­ha sol­i­dariedade em favor de todos que estão sofren­do esta catástrofe. Estou próx­i­mo a vocês e rezo por vocês”, afir­mou Fran­cis­co ao tele­fone, con­forme nota da CNBB.

Na condição de arce­bis­po met­ro­pol­i­tano de Por­to Ale­gre, dom Jaime está a frente de 158 paróquias dis­tribuí­das por 29 cidades gaúchas. Entre elas, algu­mas das mais sev­era­mente atingi­das pelos efeitos adver­sos das chu­vas que começaram no últi­mo dia 26 e se inten­si­ficaram a par­tir de 29 de abril, como Canoas e Eldo­ra­do do Sul.

O arce­bis­po de 63 anos de idade tam­bém pre­side a Con­fer­ên­cia Nacional dos Bis­pos do Brasil (CNBB) e o Con­sel­ho Epis­co­pal Lati­no-Amer­i­cano (Celam). No últi­mo dia 6, com o Rio Grande do Sul já em esta­do de calami­dade públi­ca, a orga­ni­za­ção que reúne bis­pos da Améri­ca Lati­na e Caribe divul­gou uma nota na qual pres­ta sol­i­dariedade à pop­u­lação. E con­vo­ca as pes­soas a, em meio à “dramáti­ca situ­ação”, trans­for­mar a sol­i­dariedade “em ações de sen­si­bi­liza­ção para ouvir os gri­tos da Ter­ra que se exprimem nestes fenô­menos climáti­cos”.

“Há tem­pos os cien­tis­tas vêm nos aler­tan­do para a neces­si­dade de uma espe­cial atenção ao plan­e­ta, à nos­sa casa comum”, comen­tou dom Jaime ao explicar o chama­men­to. Entre­vis­ta­do pela Agên­cia Brasil, o arce­bis­po lem­brou que muitas das cidades ora afe­tadas já tin­ham sido atingi­das em ao menos um dos episó­dios de chu­vas extremas reg­istra­dos ao lon­go do últi­mo ano no esta­do – só em setem­bro de 2023, quan­do um ciclone extra­t­rop­i­cal atingiu parte do ter­ritório gaú­cho, 54 pes­soas perder­am a vida.

“Esta­mos assistin­do com fre­quên­cia cada vez maior à ocor­rên­cia desse tipo de fenô­meno [climáti­co adver­so]. Cer­ta­mente, o que está acon­te­cen­do aqui no Rio Grande do Sul, as pro­porções dis­so, aler­tam para a neces­si­dade de ações urgentes para con­ter­mos as mudanças climáti­cas. Infe­liz­mente, ain­da há quem negue o aque­c­i­men­to glob­al e a urgên­cia da questão”, lamen­tou o arce­bis­po cujo brasão arquiepis­co­pal remete a dois impor­tantes cor­pos hídri­cos da região sul: o Guaí­ba, cujas águas trans­bor­daram, inun­dan­do parte da região met­ro­pol­i­tana de Por­to Ale­gre, e o rio Ita­jaí-Açu, que cor­ta a cidade natal de dom Jaime, Gas­par (SC), e que tam­bém apre­sen­ta um históri­co de recor­rentes cheias, cau­sado­ras de mortes e pre­juí­zos mate­ri­ais.

Exploração

Nas últi­mas décadas, a Igre­ja Católi­ca vem, fre­quente­mente, chaman­do a atenção de seus fieis para a crise climáti­ca. Em uma car­ta apos­tóli­ca (a Octo­ges­i­ma Adve­niens) de 1971, o Papa Paulo VI exor­tou os cristãos a assumirem a respon­s­abil­i­dade de faz­er frente às ameaças ao meio ambi­ente resul­tantes da “ativi­dade humana e da explo­ração incon­sid­er­a­da da natureza”.

Em 2015, o papa Fran­cis­co escreveu a primeira car­ta encícli­ca (a Lauda­to Si´)  inte­gral­mente ded­i­ca­da ao assun­to. Nela, Fran­cis­co sus­ten­ta que a Ter­ra “cla­ma con­tra o mal que provo­camos ao plan­e­ta, à flo­ra e à fau­na  por causa do uso irre­spon­sáv­el e do abu­so” dos bens nat­u­rais.

“É para este aspec­to que está­va­mos chaman­do a atenção na nota da Celam”, admi­tiu Dom Jaime sobre o comu­ni­ca­do que o con­sel­ho divul­gou há poucos dias. “Pre­cisamos con­sci­en­ti­zar toda a sociedade de que, se cada um de nós lança na rua um papel de bala ou uma bitu­ca de cig­a­r­ro, o que parece insignif­i­cante aca­ba ten­do um grande impacto, mas mais que isso, neces­si­ta­mos con­sci­en­ti­zar amp­los setores do mun­do econômi­co, empre­sar­i­al e políti­co, que pre­cisam se con­vencer da neces­si­dade de inves­ti­men­tos pesa­dos para pro­por­cion­ar­mos um futuro e um mun­do mel­hor para as próx­i­mas ger­ações.”

A pre­ocu­pação papal com os aler­tas de espe­cial­is­tas que afir­mam que a ação humana já pro­duz­iu mudanças sig­ni­fica­ti­vas no cli­ma glob­al, como a ele­vação da tem­per­atu­ra média glob­al ecoa no Brasil, onde tem inspi­ra­do ini­cia­ti­vas como a Cam­pan­ha da Frater­nidade, que a CNBB pro­move anual­mente para, entre out­ras coisas, “des­per­tar o espíri­to comu­nitário e com­pro­m­e­ter os cristãos na bus­ca do bem comum”.

No próx­i­mo ano, o tema da cam­pan­ha terá relação com a ideia de frater­nidade e ecolo­gia inte­gral, con­ceito caro ao Papa Fran­cis­co, que o men­ciona várias vezes na car­ta encícli­ca de 2015. Em 2017, o tema foi Frater­nidade: bio­mas brasileiros e defe­sa da vida. Em 2016, Casa Comum, nos­sa respon­s­abil­i­dade. Em 2011, com o tema Frater­nidade e vida no plan­e­ta, a CNBB incen­tivou a uma mudança de men­tal­i­dades e de ati­tudes a fim de pro­te­ger a Ter­ra.

“As cam­pan­has sem­pre procu­ram traz­er à tona uma temáti­ca atu­al e desafi­ado­ra. São uma for­ma de dis­sem­i­nar essas questões que mere­cem a atenção de toda a sociedade e exigem que todos nós, de algu­ma for­ma, assumamos nos­sa respon­s­abil­i­dade de zelar pelo futuro de nos­sa casa comum”, afir­mou Dom Jaime, desta­can­do a Cam­pan­ha da Frater­nidade como uma impor­tante fer­ra­men­ta de mobi­liza­ção social e de con­sci­en­ti­za­ção sobre temas socioam­bi­en­tais.

“É uma ini­cia­ti­va que atinge às comu­nidades, chegan­do às bases da sociedade, das comu­nidades, das paróquias”, acres­cen­tou o arce­bis­po, frisan­do o poder de mobi­liza­ção da igre­ja.

“Ago­ra mes­mo, temos aqui, no Rio Grande do Sul, paróquias, capelas, sem­i­nários e colé­gios servin­do de espaço de acol­hi­men­to para parte dos desabri­ga­dos pelas chu­vas. Incluin­do duas exper­iên­cias muito dolorosas: um espaço nos­so que está receben­do cri­anças e em torno de 20 mul­heres que sofr­eram abu­sos sex­u­ais, e out­ro que está receben­do autis­tas, sobre­tu­do cri­anças, que pre­cisam de atenção espe­cial”, comen­tou o arce­bis­po,  acres­cen­tan­do que ao menos dois hos­pi­tais de cam­pan­ha fun­cionarão em pro­priedades da igre­ja.

“Ou seja, tam­bém a igre­ja está fazen­do o que pode, do jeito que podemos, e com uma disponi­bil­i­dade imen­sa. Como disse, o tra­bal­ho de recon­strução será muito duro, será muito difí­cil. Pre­cisamos de sol­i­dariedade, e isso não tem fal­ta­do. Pre­cisamos esper­ançar nos­so povo e, ao mes­mo tem­po man­tê-lo aten­to às neces­si­dades que con­tin­uarão a exi­gir muito de todos nós”, con­cluiu Dom Jaime.

Edição: Vini­cius Lis­boa

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