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Endometriose pode afetar 10% das mulheres brasileiras

Brasília - O metrô da cidade já conta com um vagão exclusivo para mulheres. Conhecido como Vagão Rosa, a maioria das usuárias disse se sentir mais segura contra abuso sexuais (Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
© Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil (Repro­dução)

Demora no diagnóstico é problema comum


Pub­li­ca­do em 06/03/2021 — 08:02 Por Alex Rodrigues — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

Após sofr­er por cer­ca de 34 anos com cóli­cas e out­ras dores que se inten­si­ficaram ao lon­go do tem­po, a jor­nal­ista Andrea Mel­lo Diniz, 46 anos, está prestes a pas­sar por uma cirur­gia para reti­ra­da do útero e do colo do útero, com­pro­meti­dos pela endometriose. Somente em 2019, 11.790 brasileiras pre­cis­aram de inter­nação por causa da doença.

A endometriose afe­ta cer­ca de 10% da pop­u­lação fem­i­ni­na brasileira, segun­do a Agên­cia Nacional de Vig­ilân­cia San­itária (Anvisa), sendo mais fre­quente entre mul­heres de 25 a 35 anos de idade. A doença é cau­sa­da por uma infecção ou lesão decor­rente do acú­mu­lo, em out­ras partes do cor­po, das célu­las que reco­brem a parte inter­na do útero (o endométrio) e que são elim­i­nadas com a men­stru­ação.

Como as chamadas célu­las endome­tri­ais são reg­u­lar­mente expel­i­das jun­to com o fluxo men­stru­al, seguem se acu­mu­lan­do fora da cavi­dade ute­ri­na, prin­ci­pal­mente nas regiões da bex­i­ga, ovários, tubas uteri­nas e intesti­no. Nos casos mais graves, como o de Andrea, podem for­mar nódu­los que, se não forem trata­dos a tem­po, ten­dem a afe­tar o fun­ciona­men­to de out­ros órgãos.

Andrea Mello Diniz sofreu com cólicas por 34 anos até ter a endometriose diagnosticada - Arquivo pessoal/Andrea Mello Diniz (Reprodução)
Andrea Mel­lo Diniz sofreu com cóli­cas por 34 anos até ter a endometriose diag­nos­ti­ca­da — Arqui­vo pessoal/Andrea Mel­lo Diniz (Repro­dução)

“A endometriose blo­queou min­ha tuba ute­ri­na dire­i­ta e meu ovário dire­ito, o que me causa­va dores hor­ríveis. A doença tam­bém atingiu out­ros pon­tos e, de acor­do com os médi­cos, pode­ria ter blo­quea­do meu intesti­no”, con­tou a jor­nal­ista que deve se sub­me­ter, em breve, a uma his­terec­to­mia total.

“É a cirur­gia para reti­ra­da de todo o apar­el­ho repro­du­ti­vo fem­i­ni­no. Um pro­ced­i­men­to extremo que, segun­do out­ra médi­ca espe­cial­ista em endometriose com quem con­ver­sei, é a mel­hor coisa a faz­er neste pon­to a que cheguei. Segun­do a médi­ca, se a doença tivesse sido diag­nos­ti­ca­da antes, isto talvez não tivesse sido necessário”, acres­cen­tou Andrea, em entre­vista à Agên­cia Brasil.

Segun­do a vice-pres­i­dente da Asso­ci­ação Brasileira de Endometriose e Gine­colo­gia Min­i­ma­mente Inva­si­va (SBE), Heliz­a­bet Salomão Ayrosa Ribeiro, a demo­ra do diag­nós­ti­co da doença é comum, mas cos­tu­ma estar asso­ci­a­da ao fato de muitas mul­heres, mes­mo sofren­do, pro­te­larem a ida ao médi­co, por acred­itarem que as cóli­cas men­stru­ais são nat­u­rais.

“Infe­liz­mente, casos assim são fre­quentes. No mun­do todo, a endometriose demo­ra, em média, de sete a dez anos para ser diag­nos­ti­ca­da. Prin­ci­pal­mente dev­i­do à tendên­cia das pes­soas nat­u­ralizarem a cóli­ca men­stru­al, o prin­ci­pal sin­toma e a prin­ci­pal queixa das pacientes”, afir­mou a médi­ca.

Ain­da segun­do ela, há alguns gine­col­o­gis­tas que tam­bém subes­ti­mam as queixas das pacientes e, assim, deix­am de encam­in­há-las para realizar exam­es mais detal­ha­dos, como indi­ca o caso de Andrea, que des­de os 12 anos vêm pas­san­do por difer­entes espe­cial­is­tas. A ressonân­cia mag­néti­ca pélvi­ca e o ultra­ssom trans­vagi­nal são os dois prin­ci­pais meios de iden­ti­ficar a endometriose.

Além da cóli­ca inten­sa que, em muitos casos, se tor­na debil­i­tante, a doença cos­tu­ma estar asso­ci­a­da a out­ros sin­tomas, como uma dor pro­fun­da na vagi­na ou na pelve, durante a relação sex­u­al, ou a uma dor pélvi­ca con­tínua, mes­mo que não rela­ciona­da à men­stru­ação. Out­ros sin­tomas comuns são a prisão de ven­tre ou a diar­reia durante o perío­do men­stru­al e a dor ao evac­uar ou uri­nar.

Con­tu­do, a maio­r­ia dos casos é diag­nos­ti­ca­da quan­do a paciente procu­ra um espe­cial­ista dev­i­do à difi­cul­dade de engravi­dar – o que pode ser uma das con­se­quên­cias da endometriose.

“A infer­til­i­dade, assim como a doença, pode ser rever­ti­da, mas isso vai depen­der da situ­ação. Qual­quer que seja o caso, é pre­ciso anal­isá-lo indi­vid­ual­mente, pois a eficá­cia do trata­men­to depende do local afe­ta­do, do grau de com­pro­me­ti­men­to e do históri­co da paciente”, expli­cou Heliz­a­bet.

Cólicas podem ser sinal de alerta

A vice-pres­i­dente da SBE aler­ta que muitas mul­heres que têm endometriose não apre­sen­tam qual­quer out­ro sin­toma que não uma cóli­ca men­stru­al mod­er­a­da. O que reforça a importân­cia de que todas con­sul­tem um  gine­col­o­gista ao menos uma vez por ano e que jamais nat­u­ral­izem a dor.

“A mul­her ouve que é nor­mal ter cóli­ca, que bas­ta tomar um remé­dio, e deixa o tem­po pas­sar. De fato, é nor­mal a mul­her ter cóli­cas nos primeiros dias da men­stru­ação, mas não que estas dores, quan­do fortes, não passem nem toman­do medica­men­tos. Não é nat­ur­al que as dores atra­pal­hem ativi­dades; o tra­bal­ho. Que impeçam a mul­her de praticar ativi­dades físi­cas. Aí, é o caso de procu­rar um espe­cial­ista”, frisou Heliz­a­bet.

Ansiosa pela cirur­gia que prom­ete reduzir seu sofri­men­to e lhe devolver um mín­i­mo de bem-estar após décadas de dores, pri­vações e desen­ganos, Andrea sabe que a recu­per­ação não será ime­di­a­ta, mas diz que con­hecer a causa de suas dores lhe deu esper­anças. E, prin­ci­pal­mente, tirou de seus ombros o peso da descon­fi­ança.

“Já na ado­lescên­cia eu me acos­tumei com meus pais me levan­do para tomar Bus­co­pan na veia. Ain­da assim, a vida toda eu ouvi tias, pri­mas, ami­gas, cole­gas de tra­bal­ho e até médi­cos min­i­mizarem min­ha dor, dizen­do que nun­ca tin­ham sen­ti­do o que eu dizia sen­tir, que eu esta­va super­es­ti­man­do a dor ou que, talvez, eu estivesse ape­nas estres­sa­da. Isto fazia com que eu me sen­tisse pior”, disse Andrea, apon­tan­do o “fator psi­cológi­co” como um agra­vante da doença.

“Eu fica­va de cama por causa das dores. Às vezes não saía de casa por medo de que nen­hum absorvente fos­se capaz de con­ter o fluxo de sangue – na esco­la, cheguei a man­char a roupa algu­mas vezes. Imag­i­na o peso dis­so para uma ado­les­cente. Já adul­ta, ouvi de uma chefe que men­stru­ação não é doença – como se eu estivesse fazen­do cor­po mole. E enquan­to eu me ques­tion­a­va se ninguém mais sen­tia o mes­mo que eu, pas­sa­va de médi­co em médi­co e toma­va remé­dios cada vez mais fortes para a dor. Até ansi­olíti­co me foi pre­scrito por gine­col­o­gis­tas”, relem­brou a jor­nal­ista.

“É necessário um olhar mais especí­fi­co para a saúde da mul­her. Um cuida­do que vá além do papan­i­co­lau e da col­po­scopia. É pre­ciso que as mul­heres con­heçam seus cor­pos. Que a sociedade não nos impon­ha padrões, porque o fato é que se a endometriose afe­ta a 10% da pop­u­lação fem­i­ni­na, parte dos out­ros 90% nos per­gun­tam se não esta­mos com fres­cu­ra, porque elas nun­ca sen­ti­ram esta dor. Isto serve tam­bém para os home­ns. Os com­pan­heiros pre­cisam ter sen­si­bil­i­dade para com­preen­der que nós, mul­heres, pas­samos por coisas que nos causam dores que eles descon­hecem. E não somos doidas ou histéri­c­as por isto. Eu não sou doi­da. Ape­nas ten­ho endometriose”, final­i­zou Andrea.

SUS

Con­sul­ta­do pela Agên­cia Brasil, o Min­istério da Saúde infor­mou que o número de casos da doença reg­istra­dos no ano pas­sa­do ain­da estão sendo apu­ra­dos – pre­lim­i­n­ar­mente, foram ao menos 6.531 inter­nações dev­i­do a prob­le­mas rela­ciona­dos à endometriose.

Des­de jul­ho de 2016, as sec­re­tarias de saúde dos esta­dos, municí­pios e do Dis­tri­to Fed­er­al devem ofer­e­cer os trata­men­tos médi­cos esta­b­ele­ci­dos no Pro­to­co­lo Clíni­co e Dire­trizes Ter­apêu­ti­cas – Endometriose, pub­li­ca­do pelo min­istério, com os critérios de diag­nós­ti­co e de trata­men­to, bem como os mecan­is­mos de reg­u­lação, con­t­role e avali­ação da doença em todo o país.

A pas­ta tam­bém acres­cen­tou que há, disponív­el no Sis­tema Úni­co de Saúde (SUS), dois tipos de trata­men­to. O trata­men­to clíni­co visa neu­tralizar o estí­mu­lo hor­mon­al estrogêni­co nos focos de endometriose, pro­por­cio­nan­do mel­ho­ra nos sin­tomas da doença, asso­ci­a­do a medica­men­tos para o con­t­role da dor. Em pacientes que não dese­jam engravi­dar, con­tra­cep­tivos hor­mon­ais são uti­liza­dos.

Já o trata­men­to cirúr­gi­co é indi­ca­do quan­do os sin­tomas são graves, inca­pac­i­tantes, quan­do não hou­ver mel­ho­ra com trata­men­to empíri­co com con­tra­cep­tivos orais ou prog­estágenos, em alguns casos de endometri­omas, de dis­torção da anato­mia das estru­turas pélvi­cas, de aderên­cias, de obstrução do tra­to intesti­nal ou urinário, e para pacientes com infer­til­i­dade asso­ci­a­da à endometriose.

“Nestes casos, a escol­ha do trata­men­to deve ser fei­ta pelo médi­co e com­par­til­ha­da com a usuária, avalian­do sem­pre a gravi­dade dos sin­tomas, a exten­são e a local­iza­ção da doença, a idade da mul­her e, prin­ci­pal­mente, o dese­jo de engravi­dar”, esclarece o min­istério.

Edição: Lílian Beral­do

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