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Inchaço nas pernas pode ser lipedema: veja outros sintomas

Doença crônica pode ser controlada com hábitos saudáveis

Tâmara Freire — repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 22/06/2025 — 09:50
Rio de Janeiro
Brasília (DF), 20/06/2025 - A professora Kallyne Cafuri Alves, fala sobre a matéria de Lipedema. Foto: Kallyne Cafuri Alves/Arquivo Pessoal
Repro­dução: © Kallyne Cafu­ri Alves/Arquivo Pes­soal

Como muitas pes­soas, a pro­fes­so­ra Kallyne Cafu­ri Alves acabou gan­han­do alguns qui­los durante o iso­la­men­to social da pan­demia de covid-19. Ela voltou a se ali­men­tar mel­hor e a faz­er exer­cí­cios depois que as medi­das san­itárias afrouxaram, mas o peso extra não ia emb­o­ra, espe­cial­mente nas per­nas.

“Elas ficavam sem­pre muito inchadas, com um aspec­to feio, e eu sen­tia mui­ta dor. É como se eu estivesse vestin­do uma calça jeans grossa, bem mol­ha­da”, lem­bra Kallyne, que mora em Vitória, no Espíri­to San­to.

Um dia, a pro­fes­so­ra pegou carona com uma alu­na que, casual­mente, comen­tou que pre­cisa­va ser muito cuida­dosa com os exer­cí­cios e a ali­men­tação, porque tin­ha lipede­ma, uma doença que causa exces­so de gor­du­ra nas per­nas, dor, inchaço e out­ros sin­tomas. “Ela falou tudo que eu sen­tia!”, recor­da Kallyne. Foi quan­do sua ficha caiu.

Depois de rece­ber o diag­nós­ti­co de um espe­cial­ista, ela reavaliou sua vida, e perce­beu que sem­pre sen­tiu dores estra­nhas nas per­nas. Além dis­so, final­mente enten­deu porque elas pas­saram a ter um aspec­to difer­ente, “como uma cas­ca de laran­ja”, con­forme Kallyne cres­cia. A pro­fes­so­ra tam­bém se deu con­ta de que não esta­va soz­in­ha:

“Min­ha mãe e min­ha avó, que já fale­ceu, sem­pre se queixaram da aparên­cia das per­nas delas e, anal­isan­do hoje, clara­mente elas tin­ham um ede­ma”.

Origem genética

De acor­do com o médi­co espe­cial­ista em Cirur­gia Vas­cu­lar e Endovas­cu­lar, Vitor Gor­nati, o lipede­ma foi descrito pela primeira vez na déca­da de 1940, mas só pas­sou a rece­ber mais atenção de pesquisadores e espe­cial­is­tas há cer­ca de 10 anos. Esti­ma-se que de 10% a 12% das mul­heres brasileiras ten­ham a doença em algum nív­el, com­ple­men­ta Gor­nati, que tam­bém é mem­bro da  Sociedade Brasileira de Angi­olo­gia e Cirur­gia Vas­cu­lar.

“Em 99% das vezes, o lipede­ma acomete mul­heres, porque é uma doença que está, de cer­ta for­ma, rela­ciona­da ao estrogênio, que é um hor­mônio fem­i­ni­no. Então, ela acomete lugares onde a pes­soa tem mais esse recep­tor especí­fi­co de estrogênio, o que faz a gor­du­ra crescer. E é uma doença de origem genéti­ca. Na grande maio­r­ia das vezes, a gente iden­ti­fi­ca que alguém na família tam­bém tem ou tin­ha lipede­ma”, expli­ca Gor­nati.

O espe­cial­ista tam­bém con­fir­ma a per­cepção de Kallyne e diz que o lipede­ma cos­tu­ma dar alguns sinais já na ado­lescên­cia, mas eles, geral­mente, pas­sam des­perce­bidos.

“O lipede­ma é uma doença infla­matória crôni­ca e pro­gres­si­va. Então, às vezes, na ado­lescên­cia, a pes­soa já percebe que tem a per­na uma pouco mais gross­in­ha, com um aspec­to um pouco difer­ente. Ao lon­go da da vida, pas­sa uma ges­tação, tem um ciclo de gan­ho de peso ou de per­da de peso, e a doença aparece. Geral­mente, é como se você tivesse um cor­po em cima e out­ro cor­po embaixo. E, quan­do você ema­grece, perde gor­du­ra no ros­to, na cin­tu­ra… mas as per­nas, coxa, glú­teo e, muitas vezes, a parte supe­ri­or no braço não ema­gre­cem na mes­ma pro­porção”

Gor­nati acres­cen­ta que a pes­soa com lipede­ma tam­bém têm mais facil­i­dade de sofr­er lesões vas­cu­lares, ou seja, desen­volver hematomas à menor pressão. Uma pesquisa recente con­duzi­da pelo Cen­tro Médi­co da Uni­ver­si­dade de Van­der­bilt, nos Esta­dos Unidos, com mais de 900 pes­soas, mostrou que as mul­heres com lipede­ma têm 11 vezes mais prevalên­cia de varizes.

“É uma doença que acomete tudo o que a gente chama de teci­do con­jun­ti­vo frouxo. Isso inclui a gor­du­ra, mas tam­bém os vasos e as artic­u­lações. E a pes­soa com lipede­ma tem 30% mais difi­cul­dade de gan­har mas­sa mus­cu­lar, que é o que aju­da a pro­te­ger essas artic­u­lações. Então, ela tam­bém tende a ter hiper­mo­bil­i­dade, froux­idão lig­a­men­tal, e, quan­do gan­ha peso, aca­ba sobre­car­regan­do o joel­ho, o quadril. Com o tem­po, pode desen­volver artrose “, com­ple­men­ta o médi­co.

Por enquan­to, não há medica­men­to para o lipede­ma, e o trata­men­to cos­tu­ma envolver dieta, exer­cí­cios físi­cos, mas­sagens de drenagem lin­fáti­ca e lib­er­ação mio­fa­cial. Em casos extremos, é pos­sív­el lipoaspi­ração das partes mais afe­tadas. Kallyne desta­ca a difer­ença que essas mudanças podem faz­er:

“O meu descon­for­to só diminuiu por causa do trata­men­to que eu estou fazen­do, mas, quan­do eu não faço exer­cí­cio ou saio da min­ha dieta, a min­ha per­na incha ao pon­to de eu engor­dar 2 kg de um dia para o out­ro”.

Estigma

Após a mel­ho­ra pro­por­ciona­da pelo trata­men­to, Kallyne dese­ja faz­er uma cirur­gia plás­ti­ca para reti­rar a pele exces­si­va que ficou após a per­da de peso e a desin­fla­mação do teci­do adi­poso. Ela torce para que novas pesquisas encon­trem alter­na­ti­vas medica­men­tosas para tratar a doença.

“Eu acho que o desin­ter­esse em pesquisas sobre a doença nas décadas pas­sadas tem a ver com o machis­mo e a gord­o­fo­bia. Inclu­sive, até hoje, muitas pes­soas não procu­ram aju­da, porque ain­da existe essa ideia na sociedade de que a pes­soa está assim porque não se esforça o sufi­ciente, não faz dieta, não faz exer­cí­cio… Ain­da mais sendo uma doença de mul­heres”.

O médi­co Vitor Gor­nati, con­cor­da: “Eu ten­ho inúmeras pacientes que falam: ‘Nos­sa, eu sofro com essa per­na há 20 anos e ninguém nun­ca me disse que isso tin­ha um nome’. Tem paciente que chega a chorar no con­sultório, de alívio, porque, antes, elas real­mente achavam que estavam daque­le jeito por cul­pa delas, por estarem fazen­do algu­ma coisa de erra­do. Ain­da mais sendo uma condição rela­ciona­da à gor­du­ra, que tem todo um estig­ma”.

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