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Cafeteria em São Paulo é comandada por pessoas com síndrome de Down

Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Dia voltado para essa condição é celebrado mundialmente nesta terça


Pub­li­ca­do em 21/03/2023 — 07:56 Por Lud­mil­la Souza — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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O son­ho de Jés­si­ca Pereira da Sil­va, de 31 anos, era abrir um restau­rante. A ideia, no entan­to, se con­soli­dou com o Bel­latuc­ci Café, local­iza­do em Pin­heiros, na cap­i­tal paulista. Dessa for­ma, ela se tornou a primeira empreende­do­ra com sín­drome de Down a se for­malizar no Brasil. Nes­ta terça-feira (21) é cel­e­bra­do o Dia Mundi­al da Sín­drome de Down. A data é recon­heci­da pela Orga­ni­za­ção das Nações Unidas (ONU) des­de 2012 e faz refer­ên­cia aos três cro­mos­so­mos no par 21, que car­ac­ter­i­zam a condição genéti­ca. 

“Meu son­ho era abrir um restau­rante, mas min­ha irmã e min­ha mãe dis­ser­am que restau­rante era muito difí­cil e resolve­mos abrir um café. O café mudou min­ha vida. Fica­va muito em casa, assis­tia mui­ta tele­visão. Ago­ra chego em casa 7h da noite, tra­bal­ho de segun­da a sába­do”, con­tou Jés­si­ca.

O gos­to por coz­in­har veio ao obser­var a própria mãe e se tornou profis­são com o cur­so de Téc­ni­co em Gas­trono­mia no Serviço Nacional de Apren­diza­gem Com­er­cial (Senac). Já for­ma­da, Jés­si­ca teve a certeza de que que­ria ter um empreendi­men­to na área de ali­men­tação. Nas redes soci­ais, Jés­si­ca con­ta sua roti­na no café

“Gosta­va de ver a min­ha mãe mex­en­do com as pan­elas, as facas e come­cei a aju­dar a arru­mar a mesa, faz­er suco, sobreme­sa, sal­a­da e aí apaixonei”, disse. Na cafe­te­ria, Jés­si­ca serve doces, tor­tas e cafés. “Faço bolo de pote, brigadeiro, pão de mel, crepe. Coz­in­hamos todos os dias, vendemos tudo fres­co e tra­bal­hamos jun­tos, min­ha família toda me aju­da com o café”.

São Paulo (SP), 20/03/2023 - O barista Philippe Tavares, 31 anos, que tem síndrome de Down, trabalha na Bellatucci Café, uma cafeteria inclusiva. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: O barista Philippe Tavares, 31 anos, tra­bal­ha na Bel­latuc­ci Café, uma cafe­te­ria inclu­si­va. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

No local, tra­bal­ham out­ras pes­soas com sín­drome de Down, inclu­sive Philippe Tavares, de 31 anos, o barista. “Ele era meu ami­go e é barista aqui. E ago­ra, meu namora­do”, rev­el­ou Jés­si­ca.

O jovem fez cur­so de barista e de garçom. “Eu amo estar aqui. Sou barista e faço cafés, cap­puc­ci­no, café mocha. Sou um barista show. Con­heci a Jés­si­ca na Apae, aos 6 anos. Ago­ra, ela é min­ha namora­da”, con­tou orgul­hoso.

Confiança

A mãe da Jés­si­ca, Ivâ­nia Del­la Bel­la da Sil­va, é uma das facil­i­ta­do­ras do empreendi­men­to e está diari­a­mente com os tra­bal­hadores do café. Ela faz o treina­men­to e os acom­pan­ha, além de driblar os con­tratem­pos e a descon­fi­ança dos clientes.

“Os obstácu­los que a gente encon­tra, como pas­sar para as pes­soas a con­fi­ança que eles devem ter em con­tratar o serviço é árduo. É um tra­bal­ho de per­sistên­cia, mas ver­dadeiro”.

Além de servir o café no local, a cafe­te­ria tam­bém real­iza even­tos empre­sarias, ofer­e­cen­do cof­fee breaks e coquetéis.

“Des­de peque­na, a Jés­si­ca mostrou sinais de que que­ria tra­bal­har com comi­das. Ela fez cur­so de téc­ni­ca em gas­trono­mia e começou a gostar muito, a procu­rar receitas, então quis abrir um restau­rante. Sug­e­r­i­mos abrir um café e ela ficou super feliz”, con­tou.

A irmã de Jés­si­ca, Priscila, jun­to do mari­do, Dou­glas Bate­tuc­ci, inve­sti­ram no espaço. Com a pan­demia, o Café mudou de lugar. Ago­ra, fun­ciona anexo ao Restau­rante Como Assim?!, cujo o dono, um investi­dor social, apoiou o empreendi­men­to de impacto social da Jés­si­ca. “A família toda aju­da e a gente não quer parar, quer­e­mos ver o resul­ta­do dela que está sendo muito bacana”.

Ivâ­nia acon­sel­ha pais e mães a incen­ti­var e a estim­u­lar fil­hos com sín­drome de Down. Sua expec­ta­ti­va é que, assim, a sociedade se torne mais acol­he­do­ra e apren­da a con­viv­er mel­hor com pes­soas difer­entes.

“Os nos­sos fil­hos jovens estão abrindo cam­in­ho para ess­es bebês [pes­soas com Down] com um leque de pos­si­bil­i­dades. Dese­jo que as mães estim­ulem seus fil­hos e deix­em eles serem o que eles quis­erem porque eles podem, bas­ta você con­fi­ar. Se ele gos­ta de uma coisa, tra­bal­he em cima dis­so que ele vai dar cer­to e acred­i­tar. Ten­ho a exper­iên­cia viva e espero que um dia a sociedade deixe de falar inclusão e fale ape­nas em con­vivên­cia, que a gente sai­ba con­viv­er com os difer­entes”, argu­men­tou Ivâ­nia.

Barreiras

O empreendi­men­to da Jés­si­ca é um exem­p­lo da capaci­dade das pes­soas com sín­drome de Down. No entan­to, a inserção no mer­ca­do de tra­bal­ho ain­da enfrenta difi­cul­dades, expli­cou a psicólo­ga Paula Car­doso Tedeschi, que atua na Fun­dação Sín­drome de Down, com sede em Camp­inas (SP).

“As bar­reiras são alguns estig­mas e pre­con­ceitos, uma super­in­fan­tiliza­ção das pes­soas. Então há bar­reiras físi­cas, ati­tu­di­nais e comu­ni­ca­cionais que difi­cul­tam a inclusão. São ess­es pre­con­ceitos de imag­i­nar que [a pes­soa com Down] não pode faz­er e que não tem capaci­dade”, disse.

Para a psicólo­ga, mudanças nas pos­turas dos cole­gas e dos líderes de orga­ni­za­ções podem mel­ho­rar a inclusão das pes­soas com Down no mer­ca­do de tra­bal­ho.

“É pre­ciso mudar esse olhar muito infan­tiliza­do, de imag­i­nar que o cole­ga de tra­bal­ho é uma cri­ança, de não visu­al­izá-lo como uma pes­soa adul­ta que tem os seus dire­itos e os seus deveres. É uma pes­soa que está lá para faz­er um tipo de serviço e a pos­tu­ra do cole­ga ou do líder deve ser de apoiá-lo como a todos os fun­cionários. Há questões em que são necessárias de adap­tações, mas essas questões não impe­dem que essa pes­soa seja trata­da como um tra­bal­hador, que tem horários, deveres e dire­itos, assim como os demais”, afir­mou.

A Fun­dação Sín­drome de Down ofer­ece, des­de 1999, o Serviço de For­mação e Inclusão no Mer­ca­do de Tra­bal­ho. https://www.fsdown.org.br/o‑que-fazemos/formacao-e-inclusao-no-mercado-de-trabalho/ O cur­so é com­pos­to por qua­tro pro­gra­mas: Ini­ci­ação ao Tra­bal­ho, Vivên­cia Práti­ca Profis­sion­al, Con­tratação CLT e Sócio Lab­o­ral.

“Esse serviço é ofer­e­ci­do a pop­u­lação com sín­drome de Down e defi­ciên­cia int­elec­tu­al, através do Serviço Úni­co de Saúde (SUS). As famílias podem procu­rar os cen­tros de saúde, que encam­in­ham para a fun­dação”, expli­ca a psicólo­ga.

Legislação

A con­tratação desse públi­co está pre­vista na Lei de Cotas para Pes­soas com Defi­ciên­cia (8.213/91). A leg­is­lação deter­mi­na que a empre­sa com 100 e 200 empre­ga­dos está obri­ga­da a preencher 2% dos seus car­gos com pes­soas com defi­ciên­cia. Empre­sas com 201 a 500, são 3%; de 501 a 1000, são 4% e de 1001 em diante são 5%. A mul­ta para o des­cumpri­men­to pode chegar a mais de R$ 200 mil.

Já o Estatu­to da Pes­soa com Defi­ciên­cia veda a restrição ao tra­bal­ho da pes­soa com defi­ciên­cia e qual­quer dis­crim­i­nação em razão de sua condição, inclu­sive nas eta­pas de recru­ta­men­to, seleção, con­tratação, admis­são, exam­es admis­sion­al e per­iódi­co, per­manên­cia no emprego, ascen­são profis­sion­al e reabil­i­tação profis­sion­al, bem como exigên­cia de aptidão ple­na.

Na opinião da psicólo­ga, é necessário que a sociedade e as empre­sas sejam mais inclu­si­vas para que de fato as pes­soas com Down ten­ham opor­tu­nidades.

“Des­de a questão arquitetôni­ca para uma adap­tação e loco­moção até as questões das infor­mações para as mudanças nas bar­reiras ati­tu­di­nais. As empre­sas tam­bém pre­cisam estar mais dis­postas a con­hecer, a ter vivên­cias, para que ten­hamos mais pos­si­bil­i­dades de inclusão, inclu­sive com planos de car­reira nas empre­sas. É pre­ciso uma série de mudanças para que um tra­bal­ho de fato inclu­si­vo”, afir­mou Paula.

Inclusão

Na visão da fun­dado­ra da ONG Nos­so Olhar, Thais­sa Alvaren­ga, a social­iza­ção e inclusão dess­es indi­ví­du­os deve ser tra­bal­ha­da des­de o berço famil­iar até a vida adul­ta. E quem con­vive tam­bém deve apren­der mais sobre as pes­soas com Down.

“No Brasil, temos a Lei de Cotas. Porém, para várias pes­soas, essa real­i­dade ain­da é dis­tante. Pes­soas sem defi­ciên­cia tam­bém devem ter a dis­posição de apren­derem para que a diver­si­dade seja colo­ca­da em práti­ca, assim a inclusão pode ser de fato tra­bal­ha­da em todos os ambi­entes. Deve­mos pro­mover e ori­en­tar. Para inclusão acon­te­cer, deve­mos mobi­lizar o setor públi­co e pri­va­do, unido com o ter­ceiro setor”, avaliou. Thais­sa atua pela garan­tia da capac­i­tação, inserção no mer­ca­do de tra­bal­ho, inde­pendên­cia finan­ceira e autono­mia das pes­soas com defi­ciên­cia e respon­sáv­el pelo por­tal de con­teú­dos Chico e Suas Marias e Espaço Rede T21.

Edição: Heloisa Cristal­do

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