...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Efemérides, Meios de comunicação / Caminhos da Reportagem discute a cultura do cancelamento virtual

Caminhos da Reportagem discute a cultura do cancelamento virtual

Repro­dução: © Cam­in­hos da Reportagem /TV Brasil

Programa vai ao ar na noite deste domingo


Pub­li­ca­do em 05/09/2021 — 10:35 Por Agên­cia Brasil — Brasília

Todos os dias uma cele­bri­dade ou influ­en­ci­ador dig­i­tal é can­ce­la­do na inter­net. Cam­pan­has propõem que essas pes­soas sejam “anu­ladas” e per­cam fãs e seguidores. Mas, afi­nal, o que é a cul­tura do can­ce­la­men­to? O pro­gra­ma Cam­in­hos da Reportagem deste domin­go (5) vai dis­cu­tir e explicar esse assun­to que já foi tema até de pro­va de redação do Exame Nacional do Ensi­no Médio (Enem).

De acor­do com a espe­cial­ista em mar­ket­ing dig­i­tal Elis Mon­teiro, o can­ce­la­men­to é “um movi­men­to coor­de­na­do na maio­r­ia das vezes por pes­soas que estão na inter­net e se reúnem para odi­ar alguém jun­to, ou seja, eles deci­dem que aque­la pes­soa não merece exi­s­tir no mun­do dig­i­tal”.

O movi­men­to ini­ci­a­do em 2017 por atrizes estadunidens­es con­tra o assé­dio e abu­so sex­u­al, o #metoo — eu tam­bém, em por­tuguês — foi con­sid­er­a­do um mar­co para a cul­tura do can­ce­la­men­to. A ação gan­hou força nas redes soci­ais e prop­un­ha a exposição e o boicote de abu­sadores e asse­di­adores. Em pouco tem­po foi repli­ca­da em todo o mun­do.

Uma pesquisa pub­li­ca­da em 2020 pela agên­cia de pub­li­ci­dade dig­i­tal Muta­to anal­isou mais de 8 mil comen­tários pub­li­ca­dos na inter­net. O doc­u­men­to divid­iu as ações online em três: a primeira seria o boicote, que geral­mente está rela­ciona­do à políti­ca, mar­cas, pes­soas ou insti­tu­ições em posição de poder. Difi­cil­mente é efe­ti­va. A segun­da seria o ban, ou close erra­do, que seria um movi­men­to infor­mal que atinge cele­bri­dades e anôn­i­mos, mas é pon­tu­al. E, por fim, o lin­chamen­to vir­tu­al e can­ce­la­men­to. Boa parte dos entre­vis­ta­dos ouvi­dos, 79% deles, é con­trário ao can­ce­la­men­to.

Em um ano, de 2019 até 2020, a palavra can­ce­la­men­to foi cita­da quase 20 mil vezes na inter­net, segun­do a pesquisa. No ano pas­sa­do, ela foi men­ciona­da mais de 60 mil vezes, o que rep­re­sen­ta um cresci­men­to de mais de 200%.

Em vários casos, o can­ce­la­men­to ultra­pas­sa os lim­ites dig­i­tais e afe­ta tam­bém a vida off-line.

A youtu­ber Viih Tube con­ta que foi agre­di­da na rua depois de ser can­ce­la­da na inter­net por causa de um vídeo. “A primeira vez que eu saí de casa depois de mui­ta coisa que eu vivi den­tro de casa…dificuldade de com­er, de lev­an­tar, só chora­va. Eu fui agre­di­da por um homem na rua que eu nem con­hecia, porque me viu pelo can­ce­la­men­to ficou super irri­ta­do com o vídeo e lit­eral­mente me agrediu…foi uma coisa sur­re­al que eu vivi no primeiro momen­to que eu quis pis­ar fora de casa”, con­ta.

Cole­ga de Viih Tube em um real­i­ty show, a can­to­ra Karol Conká tam­bém teve suas ati­tudes con­de­nadas na inter­net e foi can­ce­la­da. Ela con­tou, em uma entre­vista con­ce­di­da ao influ­en­ci­ador dig­i­tal Spar­takus, que além de perder seguidores, rece­beu ameaças de morte e viu con­tratos serem can­ce­la­dos. Ape­sar de afir­mar que errou, a can­to­ra ain­da sofre com os efeitos do can­ce­la­men­to.

“Eu, recon­hecen­do meu erro, parece que eu estou mentin­do, parece que eu não sou mere­ce­do­ra de com­preen­são ou acol­hi­men­to. Então eu pen­so: todos ess­es anos eu tra­bal­han­do, eu me expon­do, aí tive um deslize, cometi um grande erro de não con­tro­lar as min­has emoções, não con­tro­lar a min­ha ansiedade, não saber lidar sob pressão. Aí é como se não pre­cisas­se mais de mim. Eu me sen­ti descartáv­el”, afir­ma.

Quadrin­ista Cami­la Padil­ha foi crit­i­ca­da nas redes por causa de um comen­tário racista, ape­sar de assumir o erro — Cam­in­hos da Reportagem /TV Brasil

Mas não só as cele­bri­dades são can­ce­ladas. A quadrin­ista Cami­la Padil­ha con­ta que um comen­tário racista feito por ela foi parar na inter­net.

No mes­mo perío­do ela tin­ha gan­hado um edi­tal para a pro­dução de um filme de ani­mação. A per­son­agem prin­ci­pal era negra, o que aumen­tou ain­da mais os ataques na inter­net.

“O fato de eu quer­er falar sobre o racis­mo sobre uma per­spec­ti­va negra eu acho que é erra­do da min­ha parte porque eu sou bran­ca, não ten­ho essa per­spec­ti­va e a min­ha per­spec­ti­va de falar sobre racis­mo dev­e­ria ser da per­spec­ti­va de uma pes­soa bran­ca”, afir­ma.

Ape­sar de assumir o erro pub­li­ca­mente, não teve jeito: Cami­la foi can­ce­la­da. Perdeu seguidores e até o emprego por causa da exposição nas redes soci­ais. Ela con­ta: “eu per­di o filme, eu per­di o emprego, tudo o que eu tin­ha con­struí­do assim… Tive que me afas­tar das min­has redes soci­ais porque eu não con­seguia falar…”

Para o coor­de­nador do Núcleo de Estu­dos em Éti­ca e Políti­ca da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Per­nam­bu­co e doutor em filosofia pela Uni­ver­si­dade de Frank­furt, Fil­ipe Campel­lo, a cul­tura do can­ce­la­men­to pode ter efeitos dev­as­ta­dores. “O can­ce­la­men­to é uma lóg­i­ca que não per­doa. Ela não quer edu­car. Às vezes uma coisa que você falou há muito tem­po e que foi encon­tra­do, res­gata­do nas redes, aqui­lo ali parece que diz quem é essa pes­soa hoje. Joga fora essa pos­si­bil­i­dade de que temos de mudar”, pon­dera.

Vivian Seixas fala do can­ce­la­men­to vir­tu­al do seu pai, Raul Seixas  /TV Brasil

E ninguém está a sal­vo de ser can­ce­la­do. Seja uma está­tua, como a de Cristóvão Colom­bo que foi der­ruba­da na Colôm­bia, até um ído­lo do rock nacional, como Raul Seixas.

Vivian Seixas é fil­ha de Raul e con­ta que uma postagem em rede social de um desen­ho do roqueiro usan­do más­cara, por causa da pan­demia do covid-19, deu o que falar: “Teve fã que ficou super bra­vo. Raul jamais usaria focin­heira, Raul jamais usaria más­cara. E quem tá admin­is­tran­do esse canal? Só se Raul fos­se um doi­do, né? Porque meu pai tin­ha dia­betes, meu pai sofria de muitas de doenças, e só se ele fos­se malu­co pra não usar más­cara.”  Ela con­clui dizen­do que é pre­ciso tomar muito cuida­do com o que se escreve nas redes soci­ais.

Cam­in­hos da Reportagem “Quem can­cela o can­ce­la­men­to” vai ao ar hoje (5), às 20h, na TV Brasil.

 

Edição: Lílian Beral­do

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d