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Mulheres são mais conectadas, mas acessam menos serviços na internet

Repro­dução: © Marce­lo Camargo/Agência Brasil

Dados são da pesquisa Mulheres e Tecnologia


Pub­li­ca­do em 08/03/2022 — 06:02 Por Mar­i­ana Tokar­nia — Repórter da Agên­cia Brasil  — Rio de Janeiro

A sem­ana começa e os clientes da doceira lida Ribeiro recebem, por meio de lista de trans­mis­são, men­sagem moti­va­cional. Foi essa a estraté­gia ado­ta­da quan­do ela começou a usar a inter­net nos negó­cios: “Todos os domin­gos man­da­va uma men­sagem para começarem a sem­ana bem, men­sagens com pos­i­tivi­dade. E daí vin­ham sem­pre três ou qua­tro encomen­das”, con­ta. 

A pro­pri­etária de A Mineira Doce­ria Gourmet con­sid­era a inter­net impor­tante ali­a­da nas ven­das. Ago­ra, as men­sagens moti­va­cionais deixaram a lista de trans­mis­são e são postadas no sta­tus. Pelas redes soci­ais, ela recebe atual­mente pelo menos 90% dos pedi­dos.

A inter­net tam­bém é o instru­men­to de tra­bal­ho da empreende­do­ra dig­i­tal Tayane Andrade, que chega a tra­bal­har até 14 horas por dia quan­do pre­cisa exe­cu­tar um pro­je­to. “É um mun­do muito rico em questão de con­teú­do. Um mun­do que dá para tra­bal­har e se sus­ten­tar”, defende.

Tan­to Eli­da quan­to Tayane não são regras entre as mul­heres brasileiras. Ape­sar de estarem mais conec­tadas à inter­net que os home­ns, as mul­heres ain­da usam menos a rede para tra­bal­har ou para estu­dar.

A pesquisa Mul­heres e Tec­nolo­gia — Dados sobre o aces­so fem­i­ni­no a Tec­nolo­gias da Infor­mação e Comu­ni­cação, da platafor­ma Mel­hor Plano, mostra que 85% das mul­heres de 10 anos ou mais são usuárias de inter­net. Esse per­centu­al entre os home­ns é menor, 77%.

Ape­sar dis­so, elas usam menos a inter­net para tra­bal­har. Em 2020, em meio à pan­demia de covid-19, 32,47%, prati­ca­mente uma em cada três mul­heres, usou a inter­net para realizar ativi­dades rela­cionadas ao tra­bal­ho. Entre os home­ns, 44,16% fiz­er­am esse uso.

estu­do foi feito a par­tir dos dados do Cen­tro Region­al de Estu­dos para o Desen­volvi­men­to da Sociedade da Infor­mação.

Rotina na rede

As redes soci­ais entraram na roti­na de Eli­da por causa de um cliente. Em Brasília, ela fazia doces e lev­a­va para vender nos bares da cidade. Foi quan­do um cliente a aju­dou a cri­ar per­fis nas redes soci­ais. Ela pas­sou então a postar onde estaria fazen­do as ven­das. Logo, pas­sou a rece­ber encomen­das online e a ampli­ar os negó­cios, con­tratan­do fun­cionárias para a empre­sa. Quan­do veio a pan­demia, já esta­va esta­b­ele­ci­da de for­ma online e isso, segun­do ela, foi fun­da­men­tal.

“A min­ha mãe depen­dia de as pes­soas com­prarem, com­erem e gostarem. Hoje, tem essa fer­ra­men­ta gra­tui­ta que é Insta­gram”, diz Eli­da, que apren­deu a faz­er bolos e doces com a mãe e a avó, que tin­ham o mes­mo ofí­cio.

Se não é pos­sív­el con­quis­tar os clientes pelo estô­ma­go, ela con­quista pelos olhos: só pos­ta aqui­lo “que dá von­tade de com­er com os olhos”, diz. “Os nos­sos doces são cem por cen­to arte­sanais e feitos diari­a­mente. A gente tira várias fotos. O cuida­do que temos é se olhamos a foto e temos von­tade de com­er. É a primeira coisa. Tem von­tade de com­er? Se sim, divul­go e, se não, nem divul­go”.

Muito trabalho

Para Tayane tam­bém foi fun­da­men­tal o tra­bal­ho online, sobre­tu­do na pan­demia. “Essa pan­demia não teve coisa boa, mas se ten­ho algu­ma coisa a agrade­cer desse tem­po que fiquei em casa é jus­ta­mente saber que mun­do dig­i­tal existe. É um priv­ilé­gio”, diz.

Tayane dava aulas de empreende­doris­mo para mul­heres. Com a neces­si­dade de dis­tan­ci­a­men­to social, as aulas pas­saram a ser online na pan­demia. Foi aí que ela perce­beu toda a difi­cul­dade enfrenta­da por out­ras mul­heres, que iam des­de a fal­ta de din­heiro para com­prar pacotes de conexão, fal­ta de equipa­men­tos a até fal­ta de tem­po e de pri­or­i­dade para se dedicar aos estu­dos. Como às vezes a família tin­ha um úni­co celu­lar, “a prefer­ên­cia era de quem tra­bal­ha­va na rua ou era do mari­do, nun­ca dela”, diz.

Quan­do con­seguiam pas­sar muito tem­po em frente às telas, se ded­i­can­do aos estu­dos, pare­cia que estavam fazen­do algo erra­do. “Elas se sen­ti­am um pouco descon­fortáveis de pas­sar tan­to tem­po ded­i­cadas ao negó­cio porque era estran­ho e pare­cia que não estavam fazen­do nada. No iní­cio, eu mes­ma me inco­mo­da­va com isso tam­bém e, se não cuidar, até hoje a gente se inco­mo­da porque parece que não está fazen­do nada. Mas é tão tra­bal­hosa quan­to qual­quer out­ra ativi­dade, às vezes até mais”.

Hoje, Tayane deixou de dar aulas e se ded­i­ca ao próprio negó­cio, em que ofer­ece men­to­rias e tra­bal­ha com mar­ket­ing dig­i­tal.

Fora do mercado digital

Segun­do a pesquisa, a baixa pro­porção de mul­heres que tra­bal­ham na rede pode estar rela­ciona­da à alta con­cen­tração da pop­u­lação fem­i­ni­na em tra­bal­hos con­ven­cionais, que exigem pouco con­ta­to com os espaços online. “Talvez uma parte da pop­u­lação fem­i­ni­na ain­da este­ja con­cen­tra­da em ativi­dades que não exigem tra­bal­ho online, e sim mais pres­en­cial, físi­co, como domés­ti­cas ou mes­mo cuidan­do da própria casa”, diz uma das sócias do Mel­hor Plano, Mari­ah Julia Alves.

“Grande parte das mul­heres tem aces­so à inter­net e isso é bem pos­i­ti­vo”, com­ple­men­ta ela. “Mas, ess­es aces­sos têm sido usa­dos em funções cotid­i­anas — usam men­sagens, chamadas de voz, para assi­s­tir vídeos, aces­sar redes soci­ais, coisas muito pes­soais e que não são rela­cionadas à edu­cação, ao desen­volvi­men­to profis­sion­al”.

A desigual­dade está tam­bém na for­mação. O estu­do mostra que ape­nas 19,81% das mul­heres entre­vis­tadas rev­e­laram ter feito cur­sos a dis­tân­cia em 2020. Entre os home­ns, o per­centu­al foi 22,68%.

“Isso traduz muitas das desigual­dades, em todos os aspec­tos, que nos atingem”, anal­isa a pro­fes­so­ra da Uni­ver­si­dade de Brasília (UnB) Cata­ri­na de Almei­da San­tos.

“A gente enfren­tou grande difi­cul­dade para meni­nas e mul­heres faz­erem seus cur­sos de for­ma remo­ta, durante a pan­demia]. Quan­do estão em casa, ninguém entende que estão estu­dan­do. Muitas vezes, pre­cisam olhar o fil­ho ou são chamadas para faz­er out­ra ativi­dade. A própria infraestru­tu­ra domi­cil­iar não pos­si­bili­ta que as mul­heres ten­ham esse tem­po e esse espaço”, diz Cata­ri­na.

Outras desigualdades

Os dados do Cetic.br mostram que há uma série de desigual­dades no aces­so à inter­net no Brasil, entre elas o tipo de equipa­men­to pelo qual se aces­sa a rede. Home­ns têm mais aces­so a múlti­p­los dis­pos­i­tivos, enquan­to mul­heres aces­sam mais a inter­net pelo celu­lar, equipa­men­to que tende a lim­i­tar algu­mas funções da rede.

A pesquisa Uso das Tec­nolo­gias de Infor­mação e Comu­ni­cação nos Domicílios Brasileiros (TIC Domicílios) rev­ela que mul­heres negras aces­saram a inter­net exclu­si­va­mente pelo tele­fone celu­lar (67%) em maiores pro­porções que home­ns bran­cos (42%). Por out­ro lado, elas realizaram transações finan­ceiras (37%), serviços públi­cos (31%) e cur­sos (18%) pela inter­net em pro­porções bas­tante infe­ri­ores às de home­ns bran­cos (51%, 49% e 30%, respec­ti­va­mente).

“Essa questão de aces­so e uso das tec­nolo­gias de infor­mação e comu­ni­cação foi inseri­da em con­tex­to social cul­tur­al, ou seja, se se está em uma sociedade machista, em que mul­heres têm menos opor­tu­nidades no offline, isso tam­bém vai se traduzir no mun­do online”, diz o coor­de­nador da pesquisa TIC Domicílios, Fabio Stori­no.

Segun­do a anal­ista do Núcleo de Infor­mação e Coor­de­nação do Pon­to BR (NIC.br), órgão Cetic.br, Javiera Macaya, essa desigual­dade de aces­so e de opor­tu­nidades na inter­net começa des­de cedo. “É pre­ciso ter aces­si­bil­i­dade de gênero, ter aces­si­bil­i­dade con­sideran­do questões raci­ais. Sem­pre pen­sar em políti­ca públi­ca, em dados, não parar em uma primeira cama­da de análise, mas incluir out­ras var­iáveis que são  impor­tantes, ain­da mais no con­tex­to brasileiro”, diz.

Os pesquisadores enfa­ti­zam que é pre­ciso garan­tir o aces­so à inter­net, mas, além dis­so, a qual­i­dade desse uso para todos, o que inclui equipa­men­tos de qual­i­dade, alta veloci­dade de conexão.

“Pre­cisamos preparar nos­sa sociedade para esse mun­do cada vez mais dig­i­tal, pen­sar em políti­cas com as quais pos­samos tra­bal­har as habil­i­dades dig­i­tais necessárias para con­seguir a ativi­dade online”, afir­ma Stori­no. “Não adi­anta o gov­er­no e as empre­sas estarem dig­i­tais se há uma pop­u­lação que ain­da não é dig­i­tal, que ain­da é analóg­i­ca, que pre­cisa desen­volver cer­tas habil­i­dades. A gente pre­cisa tra­bal­har tudo isso jun­to”, acres­cen­ta.

Edição: Graça Adju­to

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