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Orquestra em Brasília revive Pixinguinha pouco reconhecido

Repro­dução: © Foto Juliana Caribe

Músicos fazem releitura de clássicos e composições menos executadas


Publicado em 23/03/2024 — 10:15 Por Gilberto Costa – Repórter da Agência Brasil — Brasília

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Garan­tem os etimól­o­gos que a palavra orques­tra vem do grego orkhés­tra e na lín­gua por­tugue­sa foi usa­da pela primeira vez no sécu­lo 18. Muito antes, na Gré­cia anti­ga, o vocábu­lo nomea­va o espaço em frente ao pal­co, onde havia instru­men­tis­tas e coris­tas e bailar­i­nos dançavam. Des­de o berço da civ­i­liza­ção oci­den­tal, por­tan­to, as orques­tras cor­pori­fi­cam a músi­ca na dança.

Esse enlace helêni­co renasce toda vez que os 13 músi­cos da Orques­tra Pizindim, de Brasília, sobem aos pal­cos para reviv­er os arran­jos musi­cais elab­o­ra­dos por Alfre­do da Rocha Vian­na Fil­ho, o Pixin­guin­ha (1897–1973). Os músi­cos tocam, os ouvi­dos escu­tam, o coração sente e o cor­po quer dançar as 25 canções do repertório for­ma­do por com­posições autorais e arran­jos orig­i­nais de Pixin­guin­ha para sam­bas, choros e max­ix­es.

A orques­tra faz releitu­ra de clás­si­cos, com­posições menos con­heci­das e até de canções nun­ca gravadas, com a par­tic­i­pação de can­tores da cidade. “A pro­pos­ta é ren­o­var e atu­alizar os arran­jos geni­ais de Pixin­guin­ha e a for­mação quase extin­ta de orques­tra de choro dos anos [19]50 a par­tir da intro­dução de com­posições autorais e tam­bém da exe­cução deste repertório por músi­cos da nova ger­ação”, diz o sax­o­fon­ista Bruno Patrí­cio, dire­tor musi­cal da Orques­tra Pizindim, no por­tifólio da ban­da.

Pixinguinha, um dos maiores compositores brasileiros e um dos precursores do Chorinho. Foto: Arquivo Nacional
Repro­dução: Tra­bal­ho de Pixin­guin­ha como arran­jador é pouco con­heci­do — ARQUIVO NACIONAL/DOMÍNIO PÚBLICO

Bruno Patrí­cio con­heceu os arran­jos de Pixin­guin­ha no site do Insti­tu­to Mor­eira Salles, que detém o acer­vo do músi­co, inclu­sive par­ti­turas orig­i­nais em edições dig­i­tal­izadas de músi­cas gravadas para os dis­cos Car­naval Da Vel­ha Guar­da (1955) e Assim É que É (1957), com arran­jos de Pixin­guin­ha, e que fazem parte das apre­sen­tações de Orques­tra Pizindim – ini­ci­adas em 23 de abril do ano pas­sa­do, Dia Nacional do Choro e aniver­sário de Pixin­guin­ha.

A veia de arran­jador de Pixin­guin­ha é tão fun­da­men­tal para a músi­ca brasileira quan­to as suas canções Car­in­hosoRosaLamen­tos e Um a Zero, asse­gu­ra Bruno Patrí­cio. “O Pixin­guin­ha é muito con­heci­do como flautista, sax­o­fon­ista e com­pos­i­tor, mas esse lado de arran­jador, tão genial quan­to todas as out­ras coisas que ele fez, é pouco con­heci­do”, com­ple­men­ta o dire­tor musi­cal em entre­vista à Agên­cia Brasil.

“Essa história é pouco fal­a­da e pouco absorvi­da pelos músi­cos”, con­cor­da Fer­nan­do César, reno­ma­do vio­lonista da cena brasiliense e docente da Esco­la Brasileira de Choro Raphael Rabel­lo. “O tra­bal­ho de arran­jador de Pixin­guin­ha foi muito impor­tante para a músi­ca pop­u­lar brasileira.”

Segun­do o músi­co e pro­fes­sor, Pixin­guin­ha em seus arran­jos lev­ou para as par­ti­turas “a músi­ca de rua, a músi­ca do car­naval, a músi­ca da sala de con­cer­to e a músi­ca orquestra­da.”

Experiência diferente

Assi­s­tir e ouvir a Orques­tra Pizindim pos­si­bili­ta con­hecer a orques­tração de choro, geral­mente exe­cu­ta­do por region­ais – gru­pos musi­cais menores e com menos instru­men­tos como vio­lão, ban­dolim, cavaquin­ho, pan­deiro e flau­ta.

A exper­iên­cia rea­v­i­va a memória de André Lin­dolpho, um dos músi­cos mais tarim­ba­dos da Orques­tra Pizindim. Ele era ado­les­cente e estu­dante de músi­ca e, no fim dos anos 1960, cos­tu­ma­va pas­sar na Rua da Assem­bleia, no cen­tro do Rio de Janeiro, para ver Pixin­guin­ha e out­ros artis­tas que se reu­ni­am sem­anal­mente em um restau­rante no local.

“Músi­cos vet­er­a­nos, pes­soas já reno­madas, tan­to de tele­visão como da rádio, ficavam por ali. Eu ouvia con­sel­hos como: ‘sem­pre vá pela cabeça dos mais anti­gos. Per­gunte a eles quan­do tiv­er dúvi­das’. Tudo isso serviu de apren­diza­gem”, lem­bra.

Nes­sas ocasiões, André Lin­dolpho via de per­to Pixin­guin­ha, mas nun­ca o abor­dou. Ele garante que Pixin­guin­ha “era humilde, sim­páti­co, mas na dele” e “geral­mente con­ver­sa­va com os músi­cos com quem toca­va. Àquela altura, Pixin­guin­ha toca­va sax­o­fone e André Lin­dolpho já toca­va tuba. Tími­do quan­do meni­no, ele nun­ca encon­trou assun­to para abor­dar o músi­co con­sagra­do.

Brasília (DF) 21/03/2024 – O músico André Lindolpho dos Santos posa para foto com seu instrumento musical Souza Fone, atualmente toca na Orquestra Pinzindim (homenagem a Pixinguinha) e na orquestra da Força Aérea Brasileira, fala sobre a importância do choro na música brasileira. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Repro­dução: Brasília (DF) 21/03/2024 – O músi­co André Lin­dolpho dos San­tos toca na Orques­tra Pinzindim e faz releituras de Pixin­guin­ha. No Rio, Lin­dolpho chegou a ver apre­sen­tações do grande com­pos­i­tor e mae­stro. Foto: Joéd­son Alves/Agência Brasil

Na orques­tra Pizindim, André Lin­dolpho toca um instru­men­to da família das tubas: o sousa­fone, paten­tea­do na segun­da metade do sécu­lo 19 nos Esta­dos Unidos pelo com­pos­i­tor de John Philip Sousa, de família de origem por­tugue­sa.

A peça fei­ta em acríli­co bran­co pesa cer­ca de dez qui­los, cin­co a menos do que a tuba tradi­cional de met­al. Con­forme André Lin­dolpho, o sousa­fone faz o papel do con­tra­baixo na orques­tra. “Se fos­se um time de fute­bol, seria o goleiro. Não pode vac­ilar, pois com­pro­m­ete o grupo.” Na mes­ma analo­gia, o papel do arran­jador exer­ci­do por Pixin­guin­ha é como de téc­ni­co de fute­bol que faz um esque­ma táti­co para “dis­tribuir as vozes dos instru­men­tos.”

O dire­tor musi­cal Bruno Patrí­cio toca sax tenor na Orques­tra Pizindim. A função pode ser com­para­da com a do volante, o meio camp­ista que defende mas leva a bola ao ataque, “cos­tu­ran­do a har­mo­nia, dan­do os cam­in­hos har­môni­cos.”

Para explicar o papel do arran­jador de Pixin­guin­ha para o repórter lei­go, Bruno Patrí­cio pref­ere falar em “pale­ta de cores”, que os pin­tores uti­lizam para com­bi­nar tin­tas enquan­to pin­tam. “Ele vai col­orindo aqui­lo ali aos poucos. Cada naipe de instru­men­tos tem o seu momen­to den­tro da músi­ca. Uma hora ele está acom­pan­han­do alguém, mas daqui a pouco ele vira o pro­tag­o­nista. Aí ele desce de cena e vem out­ro. É tudo muito bem con­struí­do, muito lin­do.”

Paradigma musical

O pesquisador musi­cal Jairo Sev­e­ri­ano (1927–1922), em seu livro Uma História da Músi­ca Pop­u­lar Brasileira, afir­ma que Pixin­guin­ha, jun­to com Radamés Gnat­tali, definiu “os padrões bási­cos de arran­jo para a músi­ca pop­u­lar brasileira, servin­do seus tra­bal­hos de par­a­dig­mas para os músi­cos nacionais que pon­tif­icaram nas décadas de 1930 e 1940. Pixin­guin­ha mais chega­do aos metais; Radamés, às cor­das.”

“Ele [Pixin­guin­ha] apli­cou à arte do arran­jo a exper­iên­cia que gan­hou na esco­la do choro, resul­tan­do seu tra­bal­ho em orques­trações impreg­nadas de sabor brasileiro, que os arran­jadores da época – vários deles estrangeiros aqui rad­i­ca­dos – não podi­am ofer­e­cer”, opina o pesquisador no livro.

O jor­nal­ista Sér­gio Cabral, autor de Pixin­guin­ha: Vida e Obra, assi­nala que “Pixin­guin­ha abrasileirou as orques­tras de for­ma tão níti­da e rad­i­cal que se pode diz­er, sem qual­quer medo de errar, que foi ele o grande pio­neiro da orques­tração para a músi­ca pop­u­lar brasileira. A canção car­navalesca deve a ele uma boa parcela do seu êxi­to, ao escr­ev­er arran­jos com desta­ca­da par­tic­i­pação da orques­tra crian­do intro­duções que ficaram famosas (…) e encon­tran­do soluções inven­ti­vas para as músi­cas mais sim­ples, ao uti­lizar muito bem a per­cussão e ao vari­ar a base de mod­u­lações.”

Em seus livros, Sev­e­ri­ano e Cabral tratam da tra­jetória de Pixin­guin­ha em difer­entes orques­tras. Os autores desta­cam a pas­sagem do músi­co pela Orques­tra Vic­tor Brasileira entre jul­ho de 1929 a dezem­bro de 1940. A orques­tra per­ten­cia à gravado­ra Vic­tor Talkin Machine Com­pa­ny, sub­sidiária da Radio Cor­po­ra­tion of Amer­i­ca (RCA), que mais tarde se chamaria de RCA Vic­tor.

Naque­le perío­do de 11 anos na RCA Vic­tor, Pixin­guin­ha orga­ni­zou três orques­tras. Além da Orques­tra Vic­tor Brasileira, que gravou cer­ca de 200 dis­cos (geral­mente de duas faixas em 38 rpm) com canções mais lentas (sam­ba-canção); havia o Grupo Guar­da Vel­ha que par­ticipou de 50 dis­cos com choros, mar­chas e sam­bas de car­naval; e a orques­tra Dia­bos do Céu que tocou músi­cas car­navalescas em 240 dis­cos.

O con­tra­to com a RCA Vic­tor, assi­na­do quan­do Pixin­guin­ha tin­ha 32 anos, per­mi­tia uma cer­ta onipresença do músi­co. A gravado­ra tin­ha exclu­sivi­dade das orques­tras, “mas Pixin­guin­ha tin­ha liber­dade para atu­ar como instru­men­tista e arran­jador em out­ros lugares como as emis­so­ras de rádio Trans­mis­so­ra, Mayrink Veiga, Nacional e Tupi; em danc­ings da cidade do Rio de Janeiro, na Guar­da Munic­i­pal, e até em out­ras orques­tras e con­jun­tos como gru­pos musi­cais das gravado­ras Colum­bia e Odeon.

Neste sába­do (23), a Orques­tra Pinzindim se reúne pela nona vez para tocar músi­cas com arran­jos de Pixin­guin­ha. O espetácu­lo, com a par­tic­i­pação da can­to­ra Ana Reis e do can­tor Breno Alves será na Mun­do Vivo Gale­ria (413 Norte), a par­tir das 20h.

 

Edição: Nádia Fran­co

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