...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Direitos Humanos / Neto de Mãe Bernadete vive sob escolta e sem emprego

Neto de Mãe Bernadete vive sob escolta e sem emprego

Desde assassinato da avó, Wellington tem a “vida fora dos trilhos”

Lety­cia Bond — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 25/01/2025 — 13:29
São Paulo
Salvador (BA), 17.08.2024 - Evento na casa de Dona Bernadete. Foto: Alberto Lima/Divulgação
Repro­dução: © Alber­to Lima/Divulgação

Des­de o assas­si­na­to de sua avó, a líder quilom­bo­la baiana Maria Bernadete Pací­fi­co, Welling­ton Gabriel de Jesus dos San­tos tem a vida fora dos tril­hos. Aos 24 anos, fase em que se começa a pavi­men­tar mais sol­i­da­mente os cam­in­hos que se dese­ja per­cor­rer, ele anda escolta­do 24 horas por dia por poli­ci­ais mil­itares e per­manece desem­pre­ga­do, depois de ter tido que aban­donar “o mel­hor emprego que já teve”.

Em entre­vista à Agên­cia Brasil, o jovem con­tou que, além de ter se sen­ti­do obri­ga­do a deixar o tra­bal­ho na indús­tria petro­quími­ca, parou de faz­er músi­ca. Tudo para evi­tar estar expos­to “e que se repi­ta esse der­ra­ma­men­to de sangue”. Mãe Bernadete foi assas­si­na­da em agos­to de 2023, no Quilom­bo Pitan­ga dos Pal­mares, situ­a­do na cidade de Simões Fil­ho, região met­ro­pol­i­tana de Sal­vador.

A yalorixá de can­domblé era pres­i­dente da Asso­ci­ação Etn­ode­sen­volvi­men­to Muzanzu, uma das enti­dades atu­antes no local. Ela foi exe­cu­ta­da com pelo menos 25 tiros, diante dos três netos. As autori­dades que inves­tigam e acom­pan­ham o caso, como o Min­istério Públi­co da Bahia, enten­dem que se tra­tou de um reca­do de vio­lên­cia deix­a­do por uma facção que pre­tendia se expandir pela região e quis silen­ciar Mãe Bernadete quan­do ela ques­tio­nou a aber­tu­ra de um pon­to de dro­gas na comu­nidade quilom­bo­la.

“Eu ten­tei tra­bal­har e acabou que, com a agen­da da comu­nidade soma­da ao proces­so crim­i­nal de min­ha avó, que esta­va em fase de audiên­cias de instrução, tive que sair daque­le emprego nova­mente. Então, enfren­to o desem­prego prati­ca­mente des­de que per­di min­ha avó. Nesse tem­po, tive que viv­er com apoio de ter­ceiros, com uma dependên­cia finan­ceira absur­da”, lamen­ta Welling­ton.

A ocu­pação profis­sion­al teve grande importân­cia para o jovem, que tam­bém lida com o luto pelo pai, o tam­bém líder Flávio Gabriel Pací­fi­co dos San­tos, con­heci­do como “Bin­ho do Quilom­bo”, no mes­mo con­tex­to de vio­lên­cia que mais tarde viria a recair nova­mente sobre a comu­nidade, com a exe­cução de sua avó. Por isso, quan­do a perdeu, ampliou-se a sen­sação de desam­paro. Jurandy Welling­ton Pací­fi­co dos San­tos, irmão de Bin­ho e tio de Welling­ton, tam­bém vive sob escol­ta da Polí­cia Mil­i­tar (PM).

Integridade mental

Ape­sar de val­orizar a disponi­bil­i­dade da PM em faz­er sua segu­rança, a inte­gri­dade men­tal de Welling­ton não tem esta­do tão preser­va­da quan­to a físi­ca, segun­do afir­ma. Até hoje, ape­sar de o quadro tornar cada vez maior a propen­são de os inte­grantes da comu­nidade desen­volverem transtornos psi­cológi­cos, como a depressão e a ansiedade, o Poder Públi­co nun­ca ofer­e­ceu atendi­men­to espe­cial­iza­do, nem mes­mo às víti­mas mais dire­tas, como os famil­iares da yalorixá.

Brasília (DF) 24/01/2025 - Legado de Mãe Bernadete cresce como raiz de luta no Quilombo Pitanga dos Palmares (BA). Foto: Ester Cezar/ISA
Repro­dução: Jurandy (de bran­co) e Welling­ton (no can­to dire­ito) enfrentam uma série de difi­cul­dades após a morte de Mãe Bernadete e vivem sob escol­ta poli­cial. Foto: Ester Cezar/ISA

“Na ver­dade, o Esta­do só fez uma coisa durante muito tem­po, que foi colo­car a pro­teção da Polí­cia Mil­i­tar. Ninguém nun­ca se impor­tou com nos­sa saúde men­tal, se tin­ha comi­da na nos­sa geladeira, como é que esta­va a nos­sa inde­pendên­cia finan­ceira, a nos­sa segu­rança ali­men­tar. Ninguém se pre­ocupou com esse aspec­to. Tan­to que chegou ao pon­to de min­ha irmã ten­tar suicí­dio,”

“A gente move essa ação no sen­ti­do de que seja repara­da pelo assas­si­na­to do meu pai, que já foi uma coisa que mudou nos­sa vida dras­ti­ca­mente, e pela fal­ha do PPDDH [Pro­gra­ma de Pro­teção aos Defen­sores de Dire­itos Humanos, Comu­ni­cadores e Ambi­en­tal­is­tas], que con­tribuiu para que a vida de min­ha avó fos­se ceifa­da. Ela mor­reu acred­i­tan­do que era pro­te­gi­da e mon­i­tora­da pela Sec­re­taria de Segu­rança Públi­ca.”

A ação que cobra R$ 11,8 mil­hões de ind­eniza­ção por danos morais, que con­tém 940 pági­nas, desta­ca que, das sete câmeras que dev­e­ri­am cap­tar ima­gens, ape­nas qua­tro estavam fun­cio­nan­do e, segun­do Welling­ton, não eram trans­mi­ti­das às equipes de segu­rança do esta­do. Por saber dessa infor­mação, os crim­i­nosos aproveitaram a brecha para come­ter o assas­si­na­to de Mãe Bernadete.

“Ade­mais, a providên­cia toma­da pelo Pro­gra­ma de Pro­teção aos Defen­sores de Dire­itos Humanos (PPDDH) no tocante à “proteção”/”segurança” de Maria Bernadete Pací­fi­co Mor­eira con­sis­tia numa ron­da infor­mal e mera­mente sim­bóli­ca fei­ta pela Polí­cia Mil­i­tar do Esta­do da Bahia, que uma ou duas vezes por dia (aleato­ri­a­mente) disponi­bi­liza­va uma viatura/guarnição para ir até a sede da asso­ci­ação Muzanzu ver como esta­va Bernadete e per­gun­tar a ela se esta­va tudo bem. Algo que não chega­va a durar sequer 10 min­u­tos — cada ron­da infor­mal ora relata­da. Deixan­do, pois, Mãe Bernadete total­mente despro­te­gi­da e à mer­cê da própria sorte após o tér­mi­no dessas brevís­si­mas e mera­mente sim­bóli­cas vis­i­tas, donde os respec­tivos poli­ci­ais mil­itares na (grande) maio­r­ia das vezes sequer desci­am da viatu­ra”, detal­ha tre­cho da ação.

Cavalo de Troia

Um dos pon­tos mais impac­tantes da história recente do Quilom­bo Pitan­ga dos Pal­mares e que mais ilus­tra como as autori­dades têm lida­do com a comu­nidade é a insta­lação de um presí­dio den­tro do ter­ritório. A Colô­nia Penal de Simões Fil­ho foi anun­ci­a­da ini­cial­mente à comu­nidade como uma fábri­ca de sap­atos, algo que ger­aria empre­gos, ten­do rece­bido aceitação da comu­nidade. A unidade foi pro­je­ta­da para com­por­tar 250 pre­sos em regime semi­aber­to e inau­gu­ra­da em 2007.

Na ação, men­ciona-se que os quilom­bo­las esper­avam que a reg­u­lar­iza­ção fundiária garan­tisse a ina­ti­vação da unidade pri­sion­al. A defe­sa dos famil­iares de Mãe Bernadete pon­tu­am no doc­u­men­to que o gov­er­no estad­ual prom­e­teu for­mal­mente, por meio de um Ter­mo de Ajus­ta­men­to de Con­du­ta (TAC), a cumprir medi­das mit­i­gado­ras e com­pen­satórias no local e no entorno, sendo uma delas a trans­for­mação da colô­nia penal em uma esco­la téc­ni­ca profis­sion­al­izante e agrí­co­la ou uma Unidade de Pron­to Atendi­men­to (UPA), o que nun­ca se con­cretizou.

“Eu gos­to de uma frase que propa­go muito em várias reuniões: a juven­tude do Quilom­bo Pitan­ga dos Pal­mares está muito mais per­to de uma ficha crim­i­nal do que de um cer­ti­fi­ca­do de con­clusão de ensi­no médio, uma vez que o presí­dio está ali den­tro do ter­ritório, mas a esco­la de ensi­no médio, não, a fac­ul­dade, não”, diz Welling­ton.

“O presí­dio é um mon­u­men­to à vio­lên­cia e ao racis­mo insti­tu­cionais e veio com esse cav­a­lo de Troia que seria uma fábri­ca de sap­atos, que empre­garia as pes­soas, os moradores da comu­nidade.”

Procu­ra­da, a Advo­ca­cia-Ger­al da União (AGU) infor­mou que não foi inti­ma­da de que a referi­da ação foi ajuiza­da. O Min­istério dos Dire­itos Humanos e da Cidada­nia (MDHC) tam­bém foi procu­ra­do. O órgão afir­mou ter rece­bido na man­hã dessa sex­ta-feira (24) a ação movi­da por famil­iares da Mãe Bernadete. Por isso, afir­mou que ain­da não é pos­sív­el se man­i­fes­tar. A reportagem entrou em con­ta­to com o gov­er­no da Bahia e aguar­da retorno.

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Defensorias acionam Justiça por medidas para enfrentar calor no Rio

Órgão atenta para sofrimento da população de rua Mar­i­ana Tokar­nia — Repórter da Agên­cia Brasil* …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d