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Acidente com Fokker 100 da TAM completa 25 anos

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Aeronave saiu de Congonhas com destino ao Rio de Janeiro


Pub­li­ca­do em 31/10/2021 — 08:00 Por Elaine Patri­cia Cruz – Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

Em um dia como hoje (31), há 25 anos, o jor­nal­ista Jorge Tadeu da Sil­va, levan­tou cedo e saiu de sua casa, na rua Luís Orsi­ni de Cas­tro, no Jabaquara, zona sul de São Paulo, para dar aula de por­tuguês em um colé­gio par­tic­u­lar ali per­to. Mal chegou à esco­la, uma pes­soa da sec­re­taria o procurou dizen­do que seu irmão esta­va ao tele­fone.

“Achei estran­ho. Mas fui lá [aten­der]. Devia ter acon­te­ci­do algu­ma emergên­cia. Ele falou, com uma voz meio assus­ta­da, que um avião tin­ha caí­do em cima da min­ha casa e que eu pre­cisa­va ir para lá. Em princí­pio, achei que ele esta­va brin­can­do”, con­tou Sil­va, em entre­vista à Agên­cia Brasil.

O jor­nal­ista mora­va em um sobra­do gem­i­na­do: seus pais eram seus viz­in­hos de parede. E foi jus­ta­mente nes­sa casa que parte do avião Fokker 100, da TAM (empre­sa que foi fun­di­da com a Lan e se tornou a Latam) caiu, por vol­ta das 8h26 da man­hã do dia 31 de out­ubro de 1996. “Eles [meus pais] estavam na casa. Eles havi­am acaba­do de sair da cama e estavam no andar de cima, descen­do para tomar o café da man­hã, quan­do o avião caiu”, disse.

Sil­va mostra à reportagem uma foto da época, estam­pa­da em um jor­nal, que mostra um trem de pouso do avião den­tro da casa dos pais. Feliz­mente, todos da família sobre­viver­am. O pai teve ape­nas uma queimadu­ra no braço. Foi lev­a­do ao hos­pi­tal, mas no mes­mo dia foi lib­er­a­do. O aci­dente, no entan­to, jamais foi esque­ci­do pela família. E provo­cou trau­mas.

Repro­dução:  O jor­nal­ista Jorge Tadeu da Sil­va, um dos afe­ta­dos pelo aci­dente com o avião mod­e­lo Fokker 100 da TAM que viti­mou 99 pes­soas em 1996, segu­ra foto de como ficou a casa dele na rua Luís Orsi­ni de Cas­tro, no Jabaquara. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

 

“Para meus pais, que tin­ham mais idade, foi um perío­do muito difí­cil, que mar­cou muito a vida deles. Eles pas­saram a ter difi­cul­dade de dormir no escuro”, rela­tou. “Eu ten­ho memória olfa­ti­va, para você ter uma ideia. O cheiro era muito desagradáv­el e ficou mar­ca­do.”

No aeroporto

Pouco antes de o aci­dente acon­te­cer, San­dra Assali havia lev­a­do seu mari­do, o médi­co car­di­ol­o­gista José Rahal Abu Assali, para o aero­por­to de Con­gonhas. Naque­le mes­mo dia, ele daria aula em um con­gres­so no Rio de Janeiro e retornar­ia a São Paulo.

“Eu lev­ei meu mari­do ao aero­por­to. Tin­ha o hábito de levá-lo porque ele via­ja­va muito. Morá­va­mos per­to do aero­por­to, então, quan­do pos­sív­el, eu o lev­a­va. E naque­le dia não foi difer­ente. Eu deix­ei ele lá e, como ele via­ja­va muito, ele chega­va já bem próx­i­mo do horário de embar­que”, con­tou San­dra. “Era um dia nor­mal, de roti­na. Ele voltaria no mes­mo dia. Eu me des­pe­di dele e fui emb­o­ra. Meia hora depois tive a con­fir­mação do aci­dente, de que ele tin­ha mor­ri­do”, afir­mou.

Ela não viu o aci­dente acon­te­cer. Mas quan­do já havia saí­do do aero­por­to e esta­va den­tro do car­ro, chegou a ouvir um barul­ho. “Ouvi um grande barul­ho e vi um grande clarão, ape­sar de ter sido de man­hã. Naque­le momen­to eu acha­va que era [algo] num pos­to de gasoli­na. Na ver­dade, você nun­ca imag­i­na que pode ser um avião”, desta­cou.

Ela só ficou saben­do do aci­dente depois. A lista dos pas­sageiros que mor­reram com a que­da e a explosão do avião, ela soube pela TV. Da com­pan­hia aérea, San­dra jamais rece­beu um tele­fone­ma sobre a morte do mari­do.

Cenário de guerra

Ao saber do aci­dente pelo irmão, Jorge Tadeu da Sil­va voltou cor­ren­do para casa. Ele lem­bra de estar tudo em chamas e de ter se jun­ta­do aos viz­in­hos na ten­ta­ti­va de abrir alguns portões e gri­tar por sobre­viventes. Segun­do ele, o avião destru­iu oito casas na sequên­cia.

“Ele pegou a min­ha na parte da frente. Na dos meus pais, um pouco mais a estru­tu­ra da frente. Na ter­ceira casa, a parte prin­ci­pal da fuse­lagem caiu. E o cock­pit do avião, a pon­ta do avião, per­cor­reu mais cin­co ou seis casas cor­tan­do elas pelo meio. Imag­ine um cenário de destru­ição, muito fogo. O avião havia acaba­do de deco­lar e esta­va com o tanque cheio. Esta­va abaste­ci­do para o voo até o Rio de Janeiro”, lem­brou.

“A primeira visão que eu tive foi essa: de uma cena clichê de um bom­bardeio de guer­ra ou algo assim. Era muito fogo, mui­ta fumaça pre­ta. Você via os destroços, mas não con­seguia ver o que que era, na hora”, com­ple­tou.

O avião havia acaba­do de sair de Con­gonhas, aero­por­to de São Paulo, com des­ti­no ao Rio de Janeiro. Mas ape­nas 24 segun­dos depois, de acor­do com relatório final elab­o­ra­do pelo Cen­tro de Inves­ti­gação e Pre­venção de Aci­dentes Aeronáu­ti­cos (Ceni­pa), a aeron­ave bateu em três pré­dios e caiu em cima de diver­sas casas na Rua Luis Orsi­ni de Cas­tro, a cer­ca de 2 quilômet­ros do aero­por­to. Com a que­da, o avião pegou fogo matan­do todos as 96 pes­soas a bor­do. Três pes­soas que estavam no solo tam­bém mor­reram.

Repro­dução: São Paulo — Rua Luís Orsi­ni de Cas­tro, no Jabaquara, onde há 25 anos caiu um avião mod­e­lo Fokker 100 da TAM que viti­mou 99 pes­soas. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

Uma das víti­mas em solo era um pedreiro que tra­bal­ha­va no tel­ha­do de uma casa, con­tou Sil­va. As duas out­ras víti­mas foram um pro­fes­sor, que esta­va em sua garagem no momen­to do aci­dente, e um par­ente dele, que sofreu queimaduras sev­eras, chegou a ser socor­ri­do, mas mor­reu 30 dias após o aci­dente.

“De maneira sur­preen­dente, ape­nas três pes­soas no solo fale­ce­r­am. Para um aci­dente desse porte, numa área urbana, foi real­mente um mila­gre. É uma rua em que muitas cri­anças usam para ir para a esco­la. Mas dev­i­do ao horário, tin­ha pou­ca gente na rua”, disse.

Após a tragé­dia, Sil­va teve uma grande von­tade de escr­ev­er sobre o aci­dente. Ele começou a pesquis­ar sobre desas­tres aére­os e criou um site para falar sobre o assun­to. “Mais para frente, vim a saber com uma psicólo­ga que eu esta­va usan­do uma maneira de lidar com o luto ou com o estresse pós-traumáti­co, que é escr­ev­er sobre o assun­to”.

Quan­to ao sobra­do gem­i­na­do, ele foi refor­ma­do com o din­heiro que os pais tin­ham guarda­do antes do aci­dente. “A gente [recon­stru­iu uma das casas] com recur­sos próprios, recur­sos que meu pai tin­ha guarda­do. E, ao lon­go de dez anos, fomos recon­stru­in­do a out­ra, mas não no mes­mo padrão”, con­tou.

Da empre­sa, o din­heiro de ind­eniza­ção demor­ou a chegar. “Foi um proces­so lon­go para recu­per­ar [o que foi per­di­do no aci­dente] e sem rece­ber a ind­eniza­ção porque as pro­postas [da empre­sa] eram absur­das. Foi lev­a­do para a Justiça porque não hou­ve acor­do. Lev­ou muito tem­po para a gente con­seguir rece­ber algu­ma coisa. Lev­ou, na ver­dade, onze anos”, disse ele, relem­bran­do que rece­beu a ind­eniza­ção no ano em que um out­ro avião da TAM caiu em Con­gonhas, em 2007, matan­do 199 pes­soas.

Hoje, ele con­tin­ua viven­do na mes­ma rua, no imóv­el que antes era ocu­pa­do por seus pais.

Associação

San­dra tin­ha dois fil­hos à época do aci­dente: um meni­no, de 7 anos, e uma meni­na, de 4. Sem rece­ber o apoio necessário da empre­sa, ela e out­ros par­entes de víti­mas cri­aram a primeira asso­ci­ação de par­entes de víti­mas de aci­dente aéreo do Brasil, a Asso­ci­ação Brasileira de Par­entes e Ami­gos de Víti­mas de Aci­dentes Aére­os (Abra­pavaa), da qual ela é pres­i­dente. A asso­ci­ação aju­dou a mudar a avi­ação no Brasil, prin­ci­pal­mente em relação à ind­eniza­ção e ao trata­men­to dis­pen­sa­do aos famil­iares das víti­mas de aci­dentes com aeron­aves.

San­dra tam­bém pas­sou a escr­ev­er sobre o episó­dio, pub­li­can­do dois livros. O primeiro deles, O Dia que Mudou a Min­ha Vida, foi lança­do em 2017, quan­do a tragé­dia com­ple­tou 20 anos. O segun­do, Aci­dente Aéreo – O que Todo Famil­iar de Víti­ma Pode e Deve Saber, foi lança­do em março deste ano e pre­tende ser um guia para ori­en­tar famílias sobre dire­itos em caso de aci­dente aéreo.

O acidente

A que­da do avião foi provo­ca­da por uma fal­ha no rever­sor da turbina dire­i­ta (o freio aerod­inâmi­co), que abriu durante a deco­lagem. O rever­sor é um equipa­men­to que se abre para aju­dar a aeron­ave a desacel­er­ar, preparan­do o avião para o pouso. Mas, naque­le dia, o equipa­men­to abriu na deco­lagem, em pleno voo. Isso foi como acionar o freio no momen­to em que a aeron­ave pre­cisa­va acel­er­ar para gan­har mais sus­ten­tação. Um prob­le­ma para o qual o pilo­to e o co-pilo­to não havi­am sido treina­dos, já que as chances de que isso ocor­resse eram rarís­si­mas.

“O man­u­al da Fokker 100 dizia que não havia neces­si­dade desse tipo de treina­men­to porque a pos­si­bil­i­dade era de uma em um mil­hão do rever­so abrir em voo. Ou seja, os pilo­tos, den­tro do que tin­ham de treina­men­to, eles fiz­er­am o que sabi­am. Não eram treina­dos para essa even­tu­al­i­dade”, disse San­dra Assali.

“Um aci­dente aéreo, como eu sem­pre digo, acon­tece sem­pre por vários fatores. Nun­ca é um fator só”, desta­cou Mário Luiz Sar­rub­bo, procu­rador-ger­al de Justiça do esta­do de São Paulo, em entre­vista à Agên­cia Brasil. Sar­rub­bo foi o pro­mo­tor do caso à época.

Antes de deco­lar de Con­gonhas com des­ti­no ao Rio de Janeiro, naque­la man­hã de quin­ta-feira, o Fokker tin­ha feito uma viagem de Cax­i­as do Sul, na Ser­ra Gaúcha, para São Paulo. Quan­do o pilo­to desse voo chegou a Con­gonhas, ele rela­tou aos trip­u­lantes do voo seguinte que um alarme havia indi­ca­do um defeito no acel­er­ador automáti­co, o chama­do autothrot­tle, um mecan­is­mo que aju­da o pilo­to a con­tro­lar a veloci­dade da aeron­ave, mas que não é essen­cial para o voo. Durante a inves­ti­gação, se desco­briu que o prob­le­ma, na real­i­dade, não esta­va no autothrot­tle, mas no rever­sor de uma das turbinas.

“Inter­es­sante é que até hoje a gente não sabe se o rever­so abriu em voo ante­ri­or­mente em out­ros locais, porque a trip­u­lação que lev­ou o Fokker para Con­gonhas naque­le dia repor­tou para o pilo­to que assum­iu o voo [de São Paulo para o Rio de Janeiro] que o con­t­role de acel­er­ador automáti­co, chama­do de autothrot­tle, esta­va com defeito, que o manete [ala­van­ca que acel­era ou reduz a potên­cia do motor] esta­va voltan­do em algum momen­to. Por isso, o pilo­to [do voo que caiu] foi engana­do. Não era o acel­er­ador automáti­co. No caso dele, era o rever­so em voo, que acabou sendo o fio da tragé­dia”, disse o procu­rador-ger­al.

“Os fatores deter­mi­nantes para a que­da da aeron­ave: um relé [espé­cie de inter­rup­tor elétri­co] que entrou em cur­to, e o pilo­to ter sido induzi­do a erro em função da movi­men­tação do manete em decor­rên­cia desse cur­to”, expli­cou o pro­mo­tor. “A pos­si­bil­i­dade do rever­so abrir em voo era muito peque­na. Por isso, o pilo­to nem pen­sou em rever­so em voo”, acres­cen­tou.

Se o pilo­to tivesse con­hec­i­men­to de que o prob­le­ma no avião era o rever­so, seu pro­ced­i­men­to no voo teria sido out­ro, acred­i­ta Sar­rub­bo. “Ele desli­garia aque­le motor e alternar­ia para Cumbi­ca, pousaria ali, não iria para o Rio de Janeiro. Ele faria alternân­cia para Cumbi­ca, desli­garia aque­le motor — o rever­so pode ficar aber­to com o motor desli­ga­do, e ele pousaria em Cumbi­ca com toda a segu­rança e nada acon­te­ceria.”

Após a inves­ti­gação sobre as causas do aci­dente, nen­hu­ma pes­soa foi respon­s­abi­liza­da pela tragé­dia. “Na nos­sa man­i­fes­tação, arquiv­a­mos o inquéri­to poli­cial porque entendíamos que não dava para se atribuir cul­pa crim­i­nal a quem quer que fos­se. Foi real­mente uma situ­ação abso­lu­ta­mente inusi­ta­da”, disse Sar­rub­bo. “Não havia nen­hu­ma respon­s­abil­i­dade em nív­el pes­soal crim­i­nal que pudesse faz­er com que fizésse­mos um proces­so crim­i­nal. Fui o autor do arquiv­a­men­to porque real­mente, sob o pris­ma do crime, não havia nen­hum tipo de respon­s­abi­liza­ção. Foi mes­mo inusi­ta­do”, relem­brou.

Latam

Procu­ra­da pela Agên­cia Brasil, a Latam infor­mou não ter hes­i­ta­do em “dar assistên­cias às famílias das víti­mas, mes­mo não ten­do pro­to­co­los e nor­mas globais para assistên­cia human­itária”.

Segun­do a empre­sa, “todas as famílias das víti­mas envolvi­das [no aci­dente] foram ind­enizadas”.

A Latam disse ain­da que tem um plano robus­to, estru­tu­ra­do e detal­ha­do de respos­ta à emergên­cia cuja pre­mis­sa número um é a “segu­rança é val­or inego­ciáv­el”. Esse plano, de acor­do com a empre­sa, con­tem­pla dez pon­tos, que pre­vê, por exem­p­lo, atendi­men­to e assistên­cia às famílias envolvi­das.

Edição: Lílian Beral­do

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