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Conheça Onildo Almeida, o homem que levou a Feira de Caruaru ao mundo

Ele foi compositor da música imortalizada por Luiz Gonzaga

Cibelle Tenório — Envi­a­da Espe­cial
Pub­li­ca­do em 28/06/2025 — 10:34
Caru­aru
Caruaru (PE), 13/06/2025 – O músico Onildo Almeida em sua casa, durante entrevista à Agência Brasil, em Caruaru (PE). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Todos os domin­gos, Onil­do Almei­da tem um com­pro­mis­so inadiáv­el. Tra­ja­do ele­gan­te­mente com camisa de alfa­iataria e calça impecáv­el, ele deixa sua casa antes das 7h da man­hã acom­pan­hado da esposa, Leni­ta, para ir à Feira de Caru­aru. 

É comum que seu momen­to de com­pras seja inter­rompi­do por um pedi­do de foto, um abraço ou um con­vite para um papo. Algum desav­isa­do que pas­sa por ali pode não saber, mas Onil­do, aos 96 anos, é o maior vende­dor da Feira de Caru­aru. 

Emb­o­ra nun­ca ten­ha tido comér­cio no local, foi ele quem com­pôs os ver­sos que exal­tam a diver­si­dade de pro­du­tos da feira em que “de tudo que há no mun­do” tem para vender. Sua canção Feira de Caru­aru ficou imor­tal­iza­da na voz de Luiz Gon­za­ga e se tornou a primeira de muitas obras de Onil­do a serem gravadas pelo Rei do Baião.

Na déca­da de 1950, Onil­do Almei­da era um jovem apre­sen­ta­dor de pro­gra­mas de auditório na Rádio Difu­so­ra de Caru­aru, mas tam­bém se aven­tu­ra­va na músi­ca. Lançou seu primeiro dis­co, um álbum que con­tin­ha uma úni­ca canção, uma hom­e­nagem à Feira de Caru­aru, à cidade e à cul­tura nordes­ti­na. A músi­ca fez suces­so na região, mas não ultra­pas­sou as bar­reiras estad­u­ais.

Fil­ho de um com­er­ciante bem-suce­di­do na cidade, ele e seus seis irmãos cresce­r­am em uma família musi­cal. As irmãs se ded­i­cavam ao piano e os home­ns, ao vio­lão, ao vio­li­no e ao ban­dolim. Aos 13 anos, Onil­do já com­pun­ha suas primeiras canções e ado­les­cente já se apre­sen­ta­va com o quar­te­to vocal Vocal­is­tas Trop­i­cais.

Em uma de suas idas à Caru­aru em mea­d­os de 1950, Luiz Gon­za­ga, que já era um ído­lo na época, se apre­sen­tou na Difu­so­ra, a rádio onde Onil­do tra­bal­ha­va, e ouviu Feira de Caru­aru pela primeira vez. 

“Ele pegou o dis­co e per­gun­tou quem era o can­tor. Meu irmão, que tra­bal­ha­va na rádio como oper­ador, me apre­sen­tou”, relem­bra o com­pos­i­tor. “Ele me disse: ‘Como é que você tem um negó­cio desse que não me mostra?’ Eu respon­di: ‘Tá na sua mão!’ ”.

Nascia assim a parceria.

Em 21 de março de 1957, Gon­za­gão gravou pela primeira vez a canção que se tornou um grande suces­so. O LP de 78 rotações teve 100 mil cópias ven­di­das em dois meses. A mar­ca fez com que o Rei do Baião con­quis­tasse o primeiro dis­co de ouro da car­reira.

“Pelo sim­ples fato de Gon­za­ga gravar, já era uma um acon­tec­i­men­to, né? Um acon­tec­i­men­to raro. Ele pegar e gravar uma músi­ca do jeito que eu fiz e não alter­ou nada”, recor­dou Onil­do sobre a sen­sação de ouvir sua canção can­ta­da na voz de Seu Luiz.

Caruaru (PE), 13/06/2025 – O músico Onildo Almeida em sua casa, durante entrevista à Agência Brasil, em Caruaru (PE). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: O músi­co Onil­do Almei­da mostra letra da músi­ca A Hora do Adeus, escri­ta em 1967 Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Parcerias

Feira de Caru­aru foi regrava­da por out­ros artis­tas e em diver­sos idiomas, inclu­sive em out­ros país­es. O encon­tro do com­pos­i­tor caru­rarense com o fil­ho de Exu, no Sertão de Per­nam­bu­co, ren­deu uma amizade e uma parce­ria frutífera. Gon­za­ga gravaria ain­da Aprovei­ta GenteOnde o Nordeste GaroaZé Dan­tasSó XoteSan­foneiro Zé Tatu e muitas out­ras canções de Onil­do. Out­ros gigantes da músi­ca nordes­ti­na como Mar­inês, Jack­son do Pan­deiro, Trio Nordes­ti­no e Jorge de Alt­in­ho tam­bém recor­reram ao “poeta do agreste” para com­por seu repertório.

Onil­do tam­bém fez a cabeça dos trop­i­cal­is­tas. Em You Don’t Know Me, canção de Transa, álbum emblemáti­co de Cae­tano Veloso de 1972, grava­do quan­do o artista esta­va exi­la­do em Lon­dres, Cae­tano faz uma colagem de citações, entre elas um tre­cho de A Hora do Adeus, parce­ria de Onil­do Almei­da e Luiz Queiroga, grava­da por Luiz Gon­za­ga no álbum Olha Eu Aqui de Novo de 1967: “Eu agradeço ao povo brasileiro / Norte, Cen­tro, Sul inteiro / Onde reinou o baião”.

No mes­mo ano, Gilber­to Gil gravou o arras­ta-pé Sai do Sereno, com­posição de Onil­do, no álbum Expres­so 2222 — o primeiro que o músi­co baiano lançou após o retorno ao Brasil com o fim de seu exílio em Lon­dres.

Caruaru (PE), 13/06/2025 – Apresentação da banda Diablo Angel, com participação de Onildo Almeida, no Palco Azulão, no centro de Caruaru (PE). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Apre­sen­tação da ban­da Dia­blo Angel, com par­tic­i­pação de Onil­do Almei­da, no Pal­co Azulão, no cen­tro de Caru­aru (PE). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Referência musical

Ao lon­go de quase um sécu­lo de músi­ca, Onil­do Almei­da se tornou uma refer­ên­cia musi­cal e inspi­ração para novos artis­tas nordes­ti­nos. Isso fica evi­dente na maneira como é cel­e­bra­do durante os fes­te­jos juni­nos em Caru­aru. Este ano, durante a fes­ta, ele foi con­vi­da­do espe­cial da Orques­tra de Pífanos de Caru­aru e se apre­sen­tou em um dos pal­cos do São João de Caru­aru ded­i­ca­dos à músi­ca alter­na­ti­va, jun­to com a ban­da per­nam­bu­cana Dia­blo Angel.

A ban­da, que tem dez anos de estra­da, lançou neste mês de jun­ho uma ver­são com pega­da pop rock de Feira de Caru­aru com a par­tic­i­pação do próprio Onil­do.

“Estar com ele no pal­co, poder can­tar com ele estas músi­cas que fazem parte da nos­sa história é um priv­ilé­gio. Eu cresci com essas canções. Era aque­le desafio gos­toso, era quase como mem­o­rizar um repente, aque­la letra de ‘Feira de Caru­aru’ “, diz Kira Derne, vocal­ista da Dia­blo Angel, que tam­bém nasceu na cidade.

Entre encon­tros, ensaios e apre­sen­tações ao lado de Onil­do, ela aprovei­ta para apren­der com o mestre.

“Ele é muito gen­eroso. Eu estou sem­pre ten­tan­do escutá-lo, espe­cial­mente como uma jovem com­pos­i­to­ra. Você ter a opor­tu­nidade de estar com ele, de apren­der sobre proces­so cria­ti­vo, como ele abor­da a escri­ta de uma canção, as histórias de como foram escritas suas prin­ci­pais canções…Eu aproveito cada min­u­to ao lado dele”, acres­cen­ta.

Caruaru (PE), 13/06/2025 – A tradicional Feira de Caruaru, que ficou conhecida nacionalmente pela música do compositor Onildo Almeida. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: A tradi­cional Feira de Caru­aru, que ficou con­heci­da nacional­mente pela músi­ca do com­pos­i­tor Onil­do Almei­da. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Homenagens

Cel­e­bra­do como o homem que apre­sen­tou Caru­aru ao mun­do, Onil­do é uma figu­ra queri­da na cidade e cos­tu­ma ir às esco­las con­ver­sar com as cri­anças sobre músi­ca e cul­tura nordes­ti­na. Ele diz não recusar con­vites, mas não cos­tu­ma ultra­pas­sar os lim­ites da cidade: odeia via­jar.

As hom­e­na­gens chegam em sua casa e emoldu­ram as pare­des de sua sala, uma espé­cie de museu par­tic­u­lar que con­ta sua história de suces­so na músi­ca e as amizades que fez pelo cam­in­ho.

Quase sete décadas depois de ser inspi­ração para Onil­do, a Feira de Caru­aru segue sendo uma grande atração na cidade. Hoje, osten­ta o reg­istro de Patrimônio Ima­te­r­i­al Brasileiro con­ce­di­do pelo Insti­tu­to do Patrimônio Históri­co e Artís­ti­co Nacional (Iphan).

Emb­o­ra por lá ain­da se encon­trem os mais vari­a­dos tipos de fru­tas region­ais, arreios para cav­a­l­os e os bonecos de bar­ro dos dis­cípu­los do Mestre Vital­i­no, o espaço não ficou imune à invasão de pro­du­tos chi­ne­ses, como acon­tece em out­ros comér­cios locais no Brasil. Ain­da assim, para Onil­do, não há lugar igual:

“Eu cos­tu­mo diz­er que toda cidade tem feira e toda feira é igual. Mas, na ver­dade, não é. A de Caru­aru, quan­do você procu­ra uma coisa no comér­cio que não encon­tra, vai para a feira. É uma feira que tem tudo”.

 

*A equipe de reportagem via­jou a con­vite da Petro­bras

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