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Dia do Choro marca nascimento do primeiro estilo urbano brasileiro

Repro­dução: © Flo­ra Pimentel/Casa do Choro

Referências incluem Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha e Jacob do Bandolim


Pub­li­ca­do em 23/04/2022 — 09:38 Por Jonas Valente – Repórter Agên­cia Brasil — Brasília

Neste sába­do (23), é lem­bra­do o Dia Nacional do Choro, primeiro esti­lo de músi­ca urbana do país, cri­a­do ain­da no sécu­lo 19. O choro, ou chor­in­ho, como é con­heci­do, é mar­ca­do por músi­cos notórios na história do Brasil, como Chiquin­ha Gon­za­ga, Pixin­guin­ha e Jacob do Ban­dolim.

Há inten­sos debates sobre a natureza e a origem do choro. Há debates se seria ape­nas um esti­lo de tocar ou um gênero musi­cal próprio. Um dos autores de refer­ên­cia sobre o tema, Alexan­dre Pin­to, escreveu no livro Choro — Rem­i­nis­cên­cias dos Chorões Anti­gos con­sid­er­ar o choro uma for­ma de tocar difer­entes gêneros musi­cais, inclu­sive de out­ros país­es.

O cavaquin­ista brasiliense Már­cio Mar­in­ho, que coman­da rodas e gru­pos na cap­i­tal, segue sen­ti­do semel­hante, enten­den­do que a especi­fi­ci­dade do choro é fei­ta pela foram como os instru­men­tos se com­ple­men­tam. “Tam­bém é impor­tante a tradição da roda, os músi­cos se encon­tran­do, baten­do um papo musi­cal e, de for­ma descon­traí­da — já que o choro per­mite o impro­vi­so. O choro se tornou uma lin­guagem”, anal­isa.

Já para Paula Valente, douto­ra pela Esco­la de Comu­ni­cação e Artes da Uni­ver­si­dade de São Paulo com tese sobre o tema, o chor­in­ho começou como esti­lo de tocar nos anos 187, mas se con­soli­dou como gênero no iní­cio do sécu­lo 20.  Foi nesse perío­do que, segun­do a pesquisado­ra, o choro teve definidas suas car­ac­terís­ti­cas próprias de melo­dias, har­mo­nias e rit­mos, assim como gru­pos de instru­men­tos e funções de cada um.

Na avali­ação de Luiz Araújo Amor­im, o Luiz­in­ho 7 Cor­das, o que car­ac­ter­i­za o choro é o con­hec­i­men­to dos músi­cos, a com­plex­i­dade do gênero e a estru­tu­ra.  “Cer­ca de 80% dos choros são for­ma­dos por três partes de tons dis­tin­tos. Na maio­r­ia dos demais esti­los, só há uma parte”, com­para.

Luiz­in­ho acres­cen­ta que o choro é car­ac­ter­i­za­do por uma base de har­mo­nia com dois vio­lões, seis e sete cor­das (baixaria) e um cavaquin­ho. Há ain­da solis­tas, que podem uti­lizar instru­men­tos como ban­dolim, flau­ta, clar­inete ou acordeom. A per­cussão é fei­ta por pan­deiro e, não obri­ga­to­ri­a­mente, um sur­do pequeno.

O músi­co, pro­du­tor e pesquisador car­i­o­ca Hen­rique Cazes acred­i­ta que, nas últi­mas décadas, o choro saiu de gue­tos e gan­hou pop­u­lar­i­dade, atrain­do novas ger­ações de músi­cos e inter­es­sa­dos. “Esta­mos diante de um momen­to muito rico. Os con­hec­i­men­tos nun­ca cir­cu­laram tan­to e isso está geran­do grandes resul­ta­dos”, comen­ta.

O pro­fes­sor de músi­ca da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Recôn­ca­vo Baiano (UFRB) Rodri­go Cos­ta desta­ca a importân­cia das esco­las de choro, como a Esco­la Portátil, e da inserção do gênero nas insti­tu­ições de ensi­no for­mais a par­tir dos anos 1990 e 2000. “Esse proces­so foi inten­si­fi­ca­do pelo surg­i­men­to dos cur­sos de músi­ca pop­u­lar den­tro dos depar­ta­men­tos de músi­ca em uni­ver­si­dades, como na Uni­camp [Uni­ver­si­dade Estad­ual de Camp­inas], UFMG [Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Minas Gerais], UFBA [Uni­ver­si­dade Fed­er­al da Bahia] e da UFRB [Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Recôn­ca­vo da Bahia]”, diz.

Ele lem­bra, entre­tan­to, que, no caso do choro, há um proces­so impor­tante de apren­diza­gem tam­bém nos espaços infor­mais, como a par­tic­i­pação de músi­cos das rodas, dinâmi­ca que, para o pro­fes­sor, colo­ca um desafio para o ensi­no do gênero.

Desafios

Ape­sar de sua história e relevân­cia, o choro enfrenta difi­cul­dades pra se man­ter. Nas platafor­mas dig­i­tais, como Spo­ti­fy e Deez­er, o esti­lo não aparece entre as músi­cas mais ouvi­das. Ele tam­bém não reg­is­tra espaço na pro­gra­mação das rádios, em ger­al, tomadas pelo pop dos Esta­dos Unidos, o ser­tane­jo, o funk e o rap.

As exceções são emis­so­ras públi­cas. Exem­p­lo dis­so é o pro­gra­ma Roda de Choro, da Rádio MEC FM. A pro­du­to­ra do pro­gra­ma, Brisa Evan­ge­lista, con­ta que o esforço tem sido res­gatar nomes históri­cos como Pixin­guin­ha e Chiquin­ha Gon­za­ga, e tam­bém abrir espaço para os gru­pos que movi­men­tam a cena atu­al, como Época de Ouro e Choro das 3.

“O pro­gra­ma pri­or­iza a seleção musi­cal e apre­sen­ta infor­mações e curiosi­dades sobre os artis­tas e o gênero. E, sem­pre que pos­sív­el, con­vi­damos os próprios autores ou intér­pretes para com­par­til­har suas histórias”, assi­nala a pro­du­to­ra.

Para Hen­rique Cazes, o desafio de con­seguir mais adep­tos é um prob­le­ma edu­ca­cional, não cul­tur­al. “Se tiver­mos uma dis­tribuição mel­hor da edu­cação e que ajude a diminuir as desigual­dades, o choro vai ter mais opor­tu­nidades. Na medi­da em que as pes­soas con­hecem o choro, elas gostam e começam a con­sumir. Mas a gente só chega a um públi­co restri­to ain­da”, obser­va.

Histórico

O Insti­tu­to Casa do Choro lançou uma espé­cie de lin­ha do tem­po vir­tu­al que con­ta a história do choro no Brasil. Na déca­da de 1830, por exem­p­lo, nasci­am músi­cos impor­tantes do gênero, como Hen­rique Alves de Mesqui­ta e Ton­i­co de Padre. Na déca­da seguinte, Hen­rique de Mesqui­ta tem suas primeiras aparições na impren­sa. Nascia tam­bém a pianista Chiquin­ha Gon­za­ga que, em 1867, se sep­a­raria do primeiro mari­do após pedi­do para escol­her entre ele e a músi­ca.

Nos anos 1860, nasci­am os músi­cos e com­pos­i­tores Ernesto Nazareth e Ana­cle­to de Medeiros. Nes­ta déca­da e na seguinte, gêneros pre­cur­sores como a pol­ca, a val­sa, o max­ixe e o tan­go gan­ham gravações. Músi­cos con­sid­er­a­dos chave do choro, como Chiquin­ha Gon­za­ga e Ernesto Nazareth, gravam suas primeiras músi­cas nos anos 1870.

Nos anos 1980, surgem novos nomes, como o vio­lonista João Per­nam­bu­co e Heitor Vil­la-Lobos. Na vira­da para o sécu­lo 20, Chiquin­ha Gon­za­ga começa a se apre­sen­tar e lança clás­si­cos, como Ó abre alas. Surge out­ro nome cru­cial do chor­in­ho brasileiro: Pixin­guin­ha, em 1897.

Segun­do o pro­je­to, o nome choro pas­sou a ser empre­ga­do para se referir a gru­pos de músi­cos pop­u­lares, com vio­lão, cavaquin­ho e flau­ta, que ani­mavam fes­tas. As primeiras duas décadas do sécu­lo 20 são mar­cadas pela checa­da do dis­co e das tec­nolo­gias de gravação, que per­mitem a repro­dução tam­bém de músi­cos lig­a­dos ao choro.

É tam­bém nes­sa época que nomes como Ernesto Nazareth e Pixin­guin­ha começam a se apre­sen­tar indi­vid­ual­mente ou em gru­pos, como os Batu­tas do últi­mo. Gru­pos de choro surgem não só no Rio de Janeiro, como o Grupo de Caxangá, como em out­ras cidades, a exem­p­lo do Ter­ror dos Fal­cões, em Por­to Ale­gre.  Surgem out­ros nomes impor­tantes, como Jacob do Ban­dolim, Waldir Azeve­do, Radamés Gnat­tali, Dil­er­man­do Reis e Can­ho­to.

Entre os anos 1920 e 1940, o choro se expande no Brasil, com turnês de músi­cos e de gru­pos. O gênero pas­sa a ser con­heci­do inter­na­cional­mente, a exem­p­lo da turnê do grupo Os Batu­tas em Buenos Aires e Paris em 1922. Nos anos 1930 e 1940, o choro e os músi­cos do gênero tam­bém gan­ham vis­i­bil­i­dade jun­ta­mente à can­to­ra Car­men Miran­da em shows e em filmes.

Nos anos 1940 e 1950, mul­ti­pli­cam-se os dis­cos de choro e a pre­sença de gru­pos e orques­tras em rádios. Em 1944, a Rádio Tupi do Rio con­tra­tou toda a orques­tra Taba­jara. Em 1947, a emis­so­ra estreia o pro­gra­ma O Pes­soal da Vel­ha Guar­da, ded­i­ca­do ao gênero. Em 1949, é grava­do um dos grandes clás­si­cos do gênero, Brasileir­in­ho. Em 1951, out­ros dois clás­si­cos são lança­dos: Doce de coco e Pedac­in­ho do céu.

Em 1954, o choro aden­tra a tela da recém-chega­da tele­visão ao Brasil, com o Fes­ti­val da Vel­ha Guar­da na TV Record de São Paulo. Um ano depois, a emis­so­ra leva ao ar o pro­gra­ma Noite dos Cho­ris­tas.

Nos anos 1960, Jacob do Ban­dolim gra­va seus prin­ci­pais dis­cos, como Na Roda de Choro (1960), Chor­in­hos e Chorões (1961) e Retratos: Jacob e seu Ban­dolim, com Radamés Gnat­tali e Orques­tra (1964). A pre­sença do choro nas telas é ampli­a­da com um doc­u­men­tário de Pierre Barouh Sar­avah, de 1969, que traz Pixin­guin­ha, João da Baiana e Baden Pow­ell.

Nos anos 1970 a 1990, grandes nomes do choro mor­rem, como Jacob do Ban­dolim (1969), Pixin­guin­ha (1973), João da Baiana (1974), Don­ga (1974), Dil­er­man­do Reis (1977), Waldir Azeve­do (1980) e Tia Amélia (1983).

Mas o gênero tam­bém gan­ha espaço com gru­pos e espaços especí­fi­cos. Em 1975, é cri­a­do o Clube do Choro do Rio de Janeiro. Em 1977, a TV Ban­deirantes pro­move o 1º Fes­ti­val Nacional de Choro Brasileir­in­ho.  Em 1981, é real­iza­do o 5º Con­cur­so Con­jun­tos de Choro no Rio de Janeiro.

Novos músi­cos, como Raphael Rabel­lo, lançam seus primeiros dis­cos em 1983. São cri­adas a Orques­tra de Cor­das Brasileiras e a Orques­tra Brasília, em 1987. Zé da Vel­ha e Sil­vério Pontes tam­bém gravam seus primeiros dis­cos em 1995, enquan­to o Trio Madeira Brasil lança o seu em 1998.

No sécu­lo 21, surgem as esco­las de choro, com a pio­neira de Brasília, em 2001, e a do Pará, em 2006. Em 2002, é fun­da­do o Insti­tu­to Jacob do Ban­dolim. No Rio de Janeiro, é inau­gu­ra­da, em 2015, a Casa do Choro.

Edição: Paula Labois­sière

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