...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Cultura / Festival no Museu do Pontal busca fortalecer a cultura amazônica

Festival no Museu do Pontal busca fortalecer a cultura amazônica

Exposições no Rio mostram arte indígena e imagens da floresta

Cristi­na Indio do Brasil – Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 11/04/2025 — 07:28
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ) 07/04/2025 - fotógrafo indígena Paulo Desana - Festival Amazônico Museu do Pontal. Foto: Paulo Desana/Festival Amazônico Museu do Pontal/Divulgação
Repro­dução: © Paulo Desana/Festival Amazôni­co

O Museu do Pon­tal, que tem como car­ac­terís­ti­ca incen­ti­var o con­hec­i­men­to e a divul­gação da arte pop­u­lar do Brasil, apre­sen­ta, neste mês em que se comem­o­ra o Dia dos Povos Indí­ge­nas, uma pro­gra­mação com duas exposições ded­i­cadas à diver­si­dade da região amazôni­ca, com curado­ria da dire­to­ra da insti­tu­ição, Angela Masce­lani, e do dire­tor exec­u­ti­vo Lucas Van de Beuque. 

A sede do museu é na Bar­ra da Tiju­ca, zona oeste do Rio,

Uma das exposições é a indi­vid­ual Ima­gens da Intu­ição, que vai ocu­par as duas gale­rias do mezani­no com pin­turas do artista Jair Gabriel, nasci­do em Por­to Vel­ho, cap­i­tal de Rondô­nia. As obras refletem a sua vivên­cia na flo­res­ta até os 16 anos. “Para mim, está sendo um momen­to muito impor­tante. As pes­soas e o museu estão recon­hecen­do o meu tra­bal­ho”, disse Jair à Agên­cia Brasil.

A out­ra mostra é Cobra Canoa, que reúne tra­bal­hos dos indí­ge­nas Paulo Desana e Laris­sa Ye’Pa. As cri­ações dos dois artis­tas são inspi­radas na origem da humanidade e rep­re­sen­tam difer­entes povos. Nasci­da na região do Alto Rio Negro, Laris­sa Ye’­padi­ho Mota Duarte é indí­ge­na do povo Ye’­pa Mah­sã (Tukano). Viveu em comu­nidade de base até os 15 anos, quan­do se mudou para São Gabriel da Cachoeira, cidade onde nasceu Paulo Desana, da etnia Desana.

“O museu preser­va e edu­ca, tem um com­pro­mis­so com os temas que a gente traz. Este ano a gente quis traz­er, logo no iní­cio, o tema Amazô­nia, por con­ta da COP 30, mas trazen­do essa Amazô­nia diver­sa. Traz­er a Amazô­nia, que é indí­ge­na, mas tam­bém, o indí­ge­na que é da cidade, o seringueiro, com a lóg­i­ca de quem viveu na flo­res­ta”, disse Lucas Van de Beuque à Agên­cia Brasil. Ele infor­mou que qua­tro etnias estarão pre­sentes, inclu­sive com peças arte­sanais do inte­ri­or do Ama­zonas e que haverá con­tação de histórias para cri­anças.

“Ao mes­mo tem­po que será fes­ti­vo e mostrar essa cul­tura, será tam­bém um momen­to de reflexão”, ressaltou.

As mostras serão aber­tas neste sába­do (12), às 16h, durante o Fes­ti­val Amazôni­co, que vai até domin­go (13), em uma real­iza­ção do Museu do Pon­tal, por meio da Lei de Incen­ti­vo à Cul­tura, com patrocínio do Insti­tu­to Cul­tur­al Vale.

Toda a pro­gra­mação é gra­tui­ta. Para facil­i­tar o deslo­ca­men­to do públi­co, haverá serviço de vans partin­do do metrô da Bar­ra da Tiju­ca e do ter­mi­nal de ônibus Alvo­ra­da no fim de sem­ana do fes­ti­va.

“Quem é do Sud­este e do Sul tem uma impressão da Amazô­nia muito longe, muito dis­tante, e é muito mais per­to do que imag­i­namos. Essa dis­tân­cia tem um aspec­to sim­bóli­co e está colo­ca­da em algum lugar da gente como algo que não nos per­tence. De cer­ta for­ma, isso difi­cul­ta até o enga­ja­men­to da sociedade como um todo com a pau­ta de pro­teção da flo­res­ta. Um pouco desse fes­ti­val é a bus­ca dessa con­sci­en­ti­za­ção da cul­tura dos povos e da sua maneira de viv­er e que as pes­soas fiquem mais conec­tadas com a defe­sa da Amazô­nia”, disse Lucas Van de Beuque.

Segun­do Angela Masce­lani, o fes­ti­val é muito com­ple­to, não só porque traz a arte amazôni­ca, mas a gas­trono­mia, shows, como o da can­to­ra Fafá de Belém, e a dis­cussão sobre a questão climáti­ca com o Obser­vatório do Cli­ma.

“É um con­jun­to de ações, e as exposições fazem parte dis­so. Escol­he­mos ess­es artis­tas porque são dois indí­ge­nas, o que é bem inter­es­sante, porque a arte indí­ge­na con­tem­porânea não é muito con­heci­da, e os artis­tas estão pro­duzin­do, disse Angela, em entre­vista à Agên­cia Brasil.

A exposição Cobra Canoa parte de uma nar­ra­ti­va pre­sente nas cul­turas de difer­entes povos indí­ge­nas do Brasil. Laris­sa Ye’pa apre­sen­ta o pon­to de vista de seu povo, o Ye’pa Mah­sã, e o fotó­grafo e cine­grafista Paulo Desana entra na mostra com uma pro­jeção em grandes for­matos de retratos de habi­tantes da Amazô­nia feitos por ele. A série reforça a ances­tral­i­dade e a como os con­hec­i­men­tos que são pas­sa­dos de ger­ação em ger­ação per­manecem vivos no pre­sente. Fun­dador da Pro­du­to­ra Dabukuri Entreten­i­men­to, Desana tra­bal­ha na cri­ação de con­teú­do audio­vi­su­al e arte visu­al basea­d­os na cul­tura indí­ge­na.

“Estou muito feliz porque é um even­to com vários indí­ge­nas e por nova­mente faz­er um tra­bal­ho com a Laris­sa, por poder­mos jun­tar a con­cepção, a téc­ni­ca que usamos. Estou feliz por ir para o Rio, pela primeira vez, com a série com­ple­ta de dez fotografias”, disse Paulo Desana (foto), ao comen­tar a arte que une os dois artis­tas.

“Ape­sar de eu ser urbano e ela, mais da comu­nidade, a gente se encon­tra porque é do movi­men­to indí­ge­na e defende a mes­ma causa. Como fotó­grafo e cineas­ta indí­ge­na, via­jo muito para as comu­nidades, e a gente aca­ba ten­do laços de amizade e de admi­ração pelo tra­bal­ho um do out­ro. Sou muito fã do tra­bal­ho dela, do con­hec­i­men­to incrív­el da arte da cerâmi­ca, de faz­er as pan­elas de bar­ro. Ago­ra ela está apli­can­do nas artes visuais o con­hec­i­men­to que her­dou da família, da mãe, das avós”, afir­mou.

Rio de Janeiro (RJ) 07/04/2025 - artista indígena Larissa Ye’Pa - Festival Amazônico Museu do Pontal. Foto: Paulo Desana/Festival Amazônico Museu do Pontal/Divulgação
Repro­dução: Laris­sa Ye’Pa bus­ca dar vis­i­bil­i­dade à arte indí­ge­na — Foto: Paulo Desana

Para Laris­sa Ye’pa par­tic­i­par do Fes­ti­val Amazôni­co com uma exposição ao lado de Paulo Desana é uma for­ma de dar vis­i­bil­i­dade à arte indí­ge­na.

“Indí­ge­na existe, sim, estou pre­sente ago­ra no Brasil, emb­o­ra com os ter­ritórios em diver­sas regiões e difer­entes cul­turas. Na visão dos não indí­ge­nas, os indí­ge­nas ficaram em 1500, lá atrás, são con­sid­er­a­dos seres do pas­sa­do. Ter espaço para expor nos­so tra­bal­ho, para mim, sig­nifi­ca que esta­mos reafir­man­do nos­sa pre­sença na atu­al­i­dade. Con­vi­dar um indí­ge­na para esse tipo de ativi­dade é impul­sion­ar a voz que ele já tem. Temos nos­sas próprias vozes e, quan­do nos chamam para expor, falar sobre nos­sa obra, ecoa mais a nos­sa voz”, enfa­ti­zou Laris­sa.

Segun­do Laris­sa, a Cobra Canoa traz toda uma dis­cussão sobre ances­tral­i­dade, mas sob uma per­spec­ti­va estéti­ca que está na própria obra. “O Paulo faz fotografias com inter­fer­ên­cias de desen­hos da Laris­sa e de out­ros indí­ge­nas de difer­entes etnias. A ideia é mostrar como aque­le con­hec­i­men­to que está na ances­tral­i­dade está pre­sente hoje.”

A floresta como tema

Rio de Janeiro (RJ) 07/04/2025 - artista plástico Jair Gabriel - Festival Amazônico Museu do Pontal. Foto: Tarso FigueiraFestival Amazônico Museu do Pontal/Divulgação
Repro­dução: Inspi­ração de Jair Gabriel vem da flo­res­ta — Foto: Tar­so Figueira/Museu do Pon­tal

A mostra Ima­gens da Intu­ição, de Jair Gabriel, apre­sen­ta 35 pin­turas desen­volvi­das com a téc­ni­ca do pon­til­his­mo. O artista retra­ta a flo­res­ta, cel­e­bra sua cul­tura e mostra suas vivên­cias. Jair Gabriel viveu até os 16 anos na região entre o esta­do de Rondô­nia e a Bolívia. Depois, voltou para a cap­i­tal e somente após a aposen­ta­do­ria, em 1995, pas­sou a faz­er seus tra­bal­hos. Jair Gabriel é um dos líderes da União do Veg­e­tal, de origem espíri­ta, fun­da­da em 1961, que pre­ga o desen­volvi­men­to espir­i­tu­al dos seres humanos. Essa exposição mostra tam­bém terá um vídeo.

“As primeiras pin­turas, quan­do come­cei, eram meio cha­padas. E era a figu­ra de uma ave. Como eu não tin­ha con­hec­i­men­to da arte, não con­seguia a tonal­i­dade. Fui me lem­bran­do da flo­res­ta, do pin­go d’água que fica­va na fol­ha, ou do orval­ho que eu via quan­do saía cedo para tra­bal­har no serin­gal, que, com o nascer do sol, dá cores”, con­tou, ao lem­brar como apren­deu a desen­volver as cores nas suas pin­turas.

Jair disse que foi o artista baiano Edson Luz, do pre­mi­a­do grupo de van­guar­da Etsendron (Nordeste de trás para frente), que o incen­tivou a faz­er as pin­turas, durante uma viagem que fez a Sal­vador. Edson ofer­e­ceu a ele tin­tas, telas e pincéis.

“Quan­do encon­trei com ele, Edson esta­va em uma fase abstra­ta. Eu nun­ca gostei do abstra­to, e aí eu come­cei a faz­er min­has exper­iên­cias. Fiz um quar­to lá em casa de ateliê e não parei mais”, rela­tou.

O museu

Con­sid­er­a­do o maior e mais sig­ni­fica­ti­vo museu ded­i­ca­do à arte pop­u­lar do Brasil, tem um acer­vo com mais de 9 mil peças de 300 artis­tas brasileiros e foi for­ma­do em 45 anos de pesquisas e via­gens do design­er francês Jacques Van de Beuque, que se impres­sio­nou com as peças de arte pop­u­lar em suas andanças pelo país e pas­sou a cole­cionar as obras.

Ini­cial­mente, Van de Beuque con­cen­trou as peças em uma casa na região do Pon­tal, no Recreio dos Ban­deirantes, zona oeste do Rio. Com o tem­po, as inun­dações cau­sadas por chu­vas inten­sas colo­caram em risco o acer­vo.

Depois de mais de dez anos, final­mente, foi con­struí­da uma sede nova e mod­er­na para o museu na Bar­ra da Tiju­ca, onde fun­ciona atual­mente.

Os recur­sos para a con­strução foram obti­dos com colab­o­ração cole­ti­va que envolveu doações de mais de mil pes­soas e par­tic­i­pação do Ban­co Nacional de Desen­volvi­men­to Econômi­co e Social (BNDES) e de empre­sas como o Insti­tu­to Cul­tur­al Vale e o Itaú Cul­tura.

A ini­cia­ti­va teve ain­da recur­sos da Lei de Incen­ti­vo à Cul­tura do gov­er­no fed­er­al, além de apoio do Insti­tu­to Brasileiro de Museus (Ibram) e da prefeitu­ra do Rio de Janeiro.

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d