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Fim de ano é armadilha para compradores compulsivos

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Conheça os sinais de que comprar se tornou compulsão


Pub­li­ca­do em 21/12/2021 — 06:32 Por Lud­mil­la Souza – Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

Um armário cheio de roupas ain­da sem usar, peças e pro­du­tos com­pra­dos sem neces­si­dade e a sen­sação de praz­er ime­di­a­to que desa­parece dias após a com­pra foram os sinais que fiz­er­am a jor­nal­ista Flávia Var­gas, 44 anos, perce­ber que esta­va com­pran­do por com­pul­são. 

“Come­cei a ter com­pul­são por com­pras durante a pan­demia. No iní­cio do iso­la­men­to social, desco­bri dois aplica­tivos de ven­das e não par­a­va de com­prar. Dava uma sen­sação de praz­er, de com­pen­sação pela ansiedade do momen­to. As com­pras se tornaram incon­troláveis. Meu armário ficou abar­ro­ta­do, inclu­sive com roupas que ain­da não usei”, con­ta.

Mes­mo com a flex­i­bi­liza­ção das medi­das de iso­la­men­to e a aber­tu­ra do comér­cio, ela con­tin­u­ou com­pran­do pelos aplica­tivos. “Eles ofer­e­cem tan­tos atra­tivos que se tornou um hábito entrar neles todos os dias, ain­da que fos­se ape­nas para dar uma olhad­in­ha e favoritar as peças que mais gostei. Não cheguei a me endi­vi­dar, mas os gas­tos prej­u­dicaram muito meu con­t­role orça­men­tário e meu fluxo de caixa, sendo que sem­pre fui bas­tante regra­da com din­heiro.”

Segun­do esti­ma­ti­vas da Orga­ni­za­ção Mundi­al da Saúde (OMS), cer­ca de 8% da pop­u­lação mundi­al sofre de onio­ma­nia, com­pul­são por com­pras, tam­bém chama­da de con­sum­is­mo com­pul­si­vo e Transtorno do Com­prar Com­pul­si­vo (TCC).

A patolo­gia é respon­sáv­el pelo giro de mais de US$ 4 bil­hões na Améri­ca do Norte. Entre 80% e 94% dos com­pradores com­pul­sivos são mul­heres, cujo transtorno cos­tu­ma sur­gir por vol­ta dos 18 anos, mostrou pesquisa pub­li­ca­da na Revista Brasileira de Psiquia­tria.

Para o psiquia­tra Adiel Rios, o iso­la­men­to social impos­to pela pan­demia de covid-19 con­tribuiu para o aumen­to no número de casos desse transtorno.

“Com as por­tas fechadas, muitas lojas migraram para o e‑commerce e quem já atu­a­va neste mod­e­lo, reforçou a atu­ação nas ven­das online. E os aplica­tivos de redes nacionais e inter­na­cionais são uma grande armadil­ha para os com­pradores com­pul­sivos: eles disponi­bi­lizam cupons de descon­tos, pon­tos para cada com­pra real­iza­da, que são rever­tidos em descon­to para novas com­pras, entre out­ros atra­tivos. Para quem pos­sui o transtorno, acabou sendo uma for­ma fácil de com­prar, e de maneira descon­tro­la­da”, detal­ha o médi­co que atua no Pro­gra­ma de Transtorno Bipo­lar do Insti­tu­to de Psiquia­tria do Hos­pi­tal das Clíni­cas da Fac­ul­dade de Med­i­c­i­na da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP).

Segun­do ele, mes­mo com a aber­tu­ra do comér­cio, o com­prador com­pul­si­vo con­tin­ua uti­lizan­do as fer­ra­men­tas disponíveis no ambi­ente online, pois bas­ta pegar o celu­lar, entrar no aplica­ti­vo e com­prar o que quis­er, a qual­quer hora e em qual­quer lugar.

“A úni­ca for­ma de inter­romper este ciclo vicioso seria uma uti­liza­ção racional ou até mes­mo um dis­tan­ci­a­men­to destes aplica­tivos. Enquan­to eles estiverem disponíveis no celu­lar, será muito difí­cil impedir as com­pras com­pul­si­vas, prin­ci­pal­mente se a pes­soa estiv­er ansiosa, pre­cisan­do preencher um vazio ou suprir algu­ma carên­cia”, afir­ma Rios, pesquisador no Insti­tu­to de Psiquia­tria da Fac­ul­dade de Med­i­c­i­na da USP.

Quan­do perce­beu que havia algo por trás da com­pul­são por com­pras, Flávia procurou aju­da médi­ca espe­cial­iza­da e, hoje, man­tém acom­pan­hamen­to com psiquia­tra e psicól­o­go. “Fui diag­nos­ti­ca­da com depressão e transtorno bipo­lar. Estes quadros ger­aram em mim sin­tomas como ansiedade e com­por­ta­men­tos impul­sivos. Estou me tratan­do com anti­de­pres­si­vo e lítio, que aju­da a con­ter as com­pul­sões, além de acom­pan­hamen­to psi­cológi­co.”

Além da med­icação, a jor­nal­ista tem procu­ra­do seguir as ori­en­tações dos espe­cial­is­tas em relação ao com­por­ta­men­to no dia a dia. “Quan­do estou no celu­lar, evi­to aces­sar os aplica­tivos [de com­pras], algo que era impos­sív­el antes do trata­men­to. Na época, eu sim­ples­mente olha­va as peças, gosta­va e com­pra­va. Hoje, nas pou­cas vezes que entro e gos­to de algu­ma coisa, con­si­go pen­sar com mais racional­i­dade e me ques­tiono: será que eu real­mente pre­ciso dis­so?”.

Compras de fim de ano

Com a prox­im­i­dade do fim do ano, quan­do há um maior ape­lo por com­pras dev­i­do ao Natal e ao déci­mo-ter­ceiro salário, o psiquia­tra afir­ma que há chances de o hábito de adquirir com­pul­si­va­mente se inten­si­ficar. Além dis­so, com o comér­cio aber­to em horário esten­di­do e sem restrições, aumen­tam-se os canais de aquisição de pro­du­tos.

“A par­tir do momen­to em que o com­prador com­pul­si­vo mer­gul­hou nas ven­das online durante a pan­demia, difi­cil­mente irá aban­donar o hábito que se tornou sua válvu­la de escape no iso­la­men­to. Com a reaber­tu­ra, a pes­soa vol­ta a com­prar na rua (quan­do sair) e tam­bém pelo celu­lar (quan­do estiv­er em casa). Ou seja, nun­ca hou­ve tem­po per­di­do, pois o com­pul­si­vo não deixou de com­prar. De cer­ta for­ma, essa descober­ta pelas com­pras online durante o iso­la­men­to inten­si­fi­cou a com­pul­são”.

Para Flávia, que está em trata­men­to, a estraté­gia para se con­tro­lar já foi traça­da: ela só com­prará pre­sentes para a família. “Não ten­ho nem mais cor­agem de com­prar nada para mim ago­ra. Tam­bém não me sin­to no dire­ito de gas­tar comi­go mes­ma, depois de tan­tas com­pras desnecessárias que fiz. Inclu­sive, já sep­a­rei muitas roupas para doar no Natal. O retorno à real­i­dade me fez enx­er­gar de novo que há pes­soas que real­mente pre­cisam muito mais do que eu.”

Transtornos associados

Famílias de com­pradores com­pul­sivos mostram maior tendên­cia a desen­volver out­ros transtornos como do humor, dependên­cia quími­ca e transtornos ali­menta­res. “Além dis­so, há uma relação bas­tante próx­i­ma entre a onio­ma­nia com o transtorno obses­si­vo com­pul­si­vo e o transtorno bipo­lar. A soma destas patolo­gias com as dis­torções sobre o ato de con­sumir moti­va o com­prador com­pul­si­vo a desen­volver uma supos­ta segu­rança por meio das com­pras”.

Ao ficar lon­gos perío­dos sem con­sumir, a pes­soa que tem com­pul­são por com­pras tam­bém pode sofr­er de abstinên­cia com sin­tomas sim­i­lares aos da dependên­cia do uso de sub­stân­cias quími­cas: irri­tabil­i­dade extrema, per­da de autoes­ti­ma, sin­tomas de humor deprim­i­do, ansiedade e oscilações de humor.

O psiquia­tra cin­ta ain­da out­ros sinais da doença:

- Descon­t­role finan­ceiro:  Além das “armadil­has vir­tu­ais”, o con­sumo gan­hou atra­tivi­dade por meio de maiores facil­i­dades de paga­men­to ou diver­sas ofer­tas pon­tu­ais. “Hoje, há várias for­mas de um com­prador com­pul­si­vo se enro­lar finan­ceira­mente, seja pagan­do o mín­i­mo do cartão de crédi­to, aderindo ao cheque espe­cial ou con­tratan­do crediários”.

- Com­pras escon­di­das:  Para o indi­ví­duo com onio­ma­nia, com­prar sem ninguém saber e escon­der os itens em casa já são parte do proces­so de com­pra. “Por ser con­sid­er­a­da uma pos­tu­ra social­mente reprováv­el, o medo da cen­sura e do jul­ga­men­to expli­cam o com­por­ta­men­to de nutrir a com­pul­são em seg­re­do”, diz Adiel Rios.

- Peças repeti­das, esque­ci­das ou nun­ca usadas: a pes­soa com­pra itens sem exper­i­men­tar ou prati­ca­mente iguais, pois nem se lem­bra do que tem no armário. “Em um deter­mi­na­do momen­to, o indi­ví­duo não tem nem mais espaço para guardar tan­ta coisa e aca­ba amon­toan­do tudo no fun­do do guar­da-roupa, fican­do esque­ci­do por lá”, com­ple­ta o psiquia­tra.

- Sen­sação de cul­pa após uma com­pra: como em out­ros transtornos, após efe­t­u­ar uma com­pra e viven­ciar a sen­sação de praz­er, vem depois o sen­ti­men­to de cul­pa e sofri­men­to. “Quan­do aca­ba aque­le bem-estar, ocorre uma sen­sação de impotên­cia diante do descon­t­role da com­pra. Logo, surge o ciclo de praz­er-luto, sendo con­se­quên­cia da visão dis­tor­ci­da sobre a final­i­dade do con­sumo em nos­sas vidas”.

- Origem famil­iar e genéti­ca: não há estu­dos definidos que com­pro­vem as causas da doença, mas a lit­er­atu­ra médi­ca rela­ciona o transtorno a alguns fatores. “Um deles está asso­ci­a­do com a história com­por­ta­men­tal da família do indi­ví­duo”, diz o espe­cial­ista.

Tratamento

Segun­do o psiquia­tra, há inúmeras abor­da­gens ter­apêu­ti­cas capazes de aux­il­iar quem sofre deste transtorno.

“Os trata­men­tos incluem o acom­pan­hamen­to por fár­ma­cos, como ansi­olíti­cos e anti­de­pres­sivos, psi­coter­apias e até con­sul­to­ria com um espe­cial­ista em finanças pes­soais. Os trata­men­tos têm como obje­ti­vo atribuir um novo sig­nifi­ca­do à relação grat­i­fi­cação-rec­om­pen­sa, mostran­do que há out­ros cam­in­hos para lidar com as dores e for­mas muito mais saudáveis de obter bem-estar e praz­er na vida”.

Há ain­da gru­pos de apoio, como o Deve­dores Anôn­i­mos, onde out­ros com­pul­sivos com­par­til­ham suas exper­iên­cias.

Controle dos gastos

Na opinião da edu­cado­ra finan­ceira Lore­lay Lopes, para o con­sum­i­dor sem ou com com­pul­são por com­pras, a regra é sim­ples: um orça­men­to bem estru­tu­ra­do. “Quan­do você tem, na pon­ta do lápis, todas as suas con­tas, inclu­sive os pequenos gas­tos, você pas­sa a ter clareza do quan­to ain­da pode gas­tar. O prob­le­ma não está em com­prar aque­le sap­a­to que vai com­bi­nar ape­nas com um vesti­do do seu guar­da-roupa. Nem naque­le descas­cador de aba­caxi que vai faz­er o serviço de qual­quer out­ra faca já disponív­el na gave­ta da coz­in­ha. O prob­le­ma está em gas­tar sem ter orça­men­to livre para pagar.”

Quem tem com­pul­são por com­pras con­vive todos os dias com a cul­pa. “Um orça­men­to bem feito elim­i­na este sen­ti­men­to a par­tir do momen­to que você tem certeza que todas as com­pras foram feitas de for­ma con­sciente. Se o orça­men­to per­mite, tudo bem em gas­tar. Claro que esse orça­men­to tam­bém tem que incluir seus inves­ti­men­tos a lon­go pra­zo, afi­nal ninguém vive somente do pre­sente. Não pen­sar no futuro tam­bém vai tirar aque­la sen­sação de tran­quil­i­dade ao deitar a cabeça no trav­es­seiro pela noite”.

A edu­cado­ra lista dicas práti­cas para cor­rer das com­pras por impul­so:

- Faça um orça­men­to bem elab­o­ra­do: entradas, gas­tos fixos, gas­tos var­iáveis e inves­ti­men­to;

- A par­tir do orça­men­to, crie teto de gas­tos em cat­e­go­rias: ves­tuário, tec­nolo­gia,  deliv­ery, etc. “Se eu pos­so gas­tar R$ 200 com ves­tuário, vou faz­er escol­has mel­hores”, desta­ca Lore­lay;

- Não com­pre con­tabi­lizan­do as parce­las, mas sim, o total da com­pra;

- Analise se você já tem algo que cumpre a mes­ma função daque­la com­pra. “Por exem­p­lo, um tênis bran­co, se eu já ten­ho um e estou com­pran­do out­ro ape­nas por con­ta da pro­moção ou porque acho mais boni­to que o que já pos­suo. Você vai aban­donar o tênis atu­al? Ele já merece ser aban­don­a­do?. Essas per­gun­tas aju­dam na reflexão sobre a com­pra”, diz a edu­cado­ra.

- Pense no impacto ambi­en­tal da sua com­pra: vou jog­ar algo no lixo a par­tir desse novo item? Se sim, essa com­pra é real­mente necessária?

- Equi­li­bre quan­ti­dade e qual­i­dade: pre­ciso de quan­tas calças jeans? De quan­tos jogos de jan­tar? Qual será a fre­quên­cia de uso?

“Enten­da que, quan­to mais con­sum­i­mos, mais nos tor­namos reféns da orga­ni­za­ção e manutenção de tudo isso. Com­prar nos ofer­ece um praz­er ime­di­a­to, mas diz­er não ao impul­so nos dá um praz­er ain­da maior. Acred­ite: tudo que envolve dis­ci­plina lib­era uma car­ga hor­mon­al de feli­ci­dade e real­iza­ção muito mais duradoura que o praz­er momen­tâ­neo da com­pra”, final­iza Lore­lay.

Edição: Lílian Beral­do

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