...
sexta-feira ,16 janeiro 2026
Home / Cultura / UFMG confirma autoria de imagem sacra de São Francisco a Aleijadinho

UFMG confirma autoria de imagem sacra de São Francisco a Aleijadinho

Repro­dução: © Casa Fiat de Cultura/Divulgação

Peça sacra do século 18 foi devolvida a Cipotânea, no interior de MG


Pub­li­ca­do em 13/05/2023 — 09:25 Por Alana Gan­dra — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

ouvir:

O Cen­tro de Con­ser­vação e Restau­ração de Bens Cul­tur­ais (Cecor) da Esco­la de Belas Artes da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Minas Gerais (EBA/UFMG) atribuiu mais uma imagem sacra ao escul­tor, arquite­to e ental­hador Anto­nio Fran­cis­co Lis­boa, o Alei­jad­in­ho, artista de renome do bar­ro­co brasileiro.

A cabeça de São Fran­cis­co Pen­i­tente — um san­to de vestir, rep­re­sen­tação sacra que era uti­liza­da em pro­cis­sões — foi devolvi­da à Paróquia de São Cae­tano, em Cipotânea, inte­ri­or de Minas Gerais, em abril. “A gente não tem dúvi­das com relação a essa atribuição”, con­fir­mou à Agên­cia Brasil a pro­fes­so­ra do Depar­ta­men­to de Artes Plás­ti­cas da EBA/UFRJ e atu­al dire­to­ra do Cecor, Alessan­dra Rosa­do. Ela esclare­ceu, porém, que o Cecor não emite cer­ti­fi­ca­dos de aut­en­ti­ci­dade, mas con­fir­ma a auto­ria das peças a par­tir dos múlti­p­los exam­es efe­t­u­a­dos pela equipe do órgão.

Pro­duzi­da em madeira poli­cro­ma­da, a imagem de São Fran­cis­co Pen­i­tente foi encam­in­ha­da ao cen­tro para restau­ração e con­ser­vação, em 2016, jun­to com out­ras 23 obras, den­tro do Pro­je­to Extra­muros, finan­cia­do pelo Min­istério Públi­co de Minas Gerais (MPMG). O pro­je­to foi via­bi­liza­do por meio de con­vênio cel­e­bra­do entre o MPMG, o Insti­tu­to Estad­ual do Patrimônio Históri­co e Artís­ti­co de Minas Gerais (Iepha-MG), a UFMG e a Fun­dação de Desen­volvi­men­to da Pesquisa (Fun­dep), com o repasse de recur­sos advin­dos de medi­da com­pen­satória obti­da com a cel­e­bração de Ter­mo de Ajus­ta­men­to de Con­du­ta com empreendi­men­to min­erário.

Todas as obras já foram devolvi­das às suas paróquias como de autores descon­heci­dos, mas somente a de São Fran­cis­co Pen­i­tente teve a auto­ria recon­heci­da. A imagem tem 1,27 metro de altura e pesa aprox­i­mada­mente 16 qui­los (kg).

A primeira imagem cuja auto­ria foi con­fir­ma­da pelo Cecor como sendo de Alei­jad­in­ho foi a de Nos­sa Sen­ho­ra da Piedade, da cidade mineira de Felix­lan­dia, há mais de dez anos. A de São Fran­cis­co Pen­i­tente é a segun­da que teve a imagem con­fir­ma­da como sendo de Alei­jad­in­ho.

Estudos

Alessan­dra Rosa­do expli­cou que, por se tratar de uma imagem de vestir, ela é for­ma­da por vários blo­cos e, desse modo, não tem uma estru­tu­ra esculp­i­da de maneira artís­ti­ca. Os estu­dos ref­er­entes à atribuição a Alei­jad­in­ho foram feitos na cabeça da escul­tura.

“Porque as mãos e os pés não são do Alei­jad­in­ho”. Para com­pro­var a atribuição ao escul­tor bar­ro­co, foi feito um estu­do inter­dis­ci­pli­nar, envol­ven­do profis­sion­ais da área de história, con­ser­vadores e restau­radores e cien­tis­tas da con­ser­vação. Todas as anális­es doc­u­men­tais encon­tradas sobre a peça, históri­co, con­tex­to da obra e perío­do em que foi real­iza­da, além da ação de Alei­jad­in­ho na região con­fir­maram a auto­ria.

Os ele­men­tos foram alin­hados a anális­es físi­co-quími­cas, iden­ti­fi­cação da madeira, radi­ografias. “Essas radi­ografias são impor­tantes porque, como é uma imagem que esta­va com repin­tu­ra, isso difi­cul­ta­va a con­fir­mação de sua auto­ria”.

Foi efe­t­u­a­da, então, uma análise mais apu­ra­da dos estile­mas do artista, que são detal­h­es ou mar­cas próprias do escul­tor como, por exem­p­lo, a for­ma como ele faz as mechas dos cabe­los, o lacrimal dos olhos, o sul­co nasolabi­al, o for­ma­to do queixo, da bar­ba, das orel­has.

“São estile­mas que, no caso do Alei­jad­in­ho, são bem con­heci­dos, mas a repin­tu­ra difi­cul­ta­va essa leitu­ra”.

A pin­tu­ra foi removi­da, mas ficou uma repoli­cro­mia. Ou seja, como a car­nação orig­i­nal foi se per­den­do com o tem­po e, em um perío­do bem anti­go, foi fei­ta uma nova car­nação, ou repoli­cro­mia, ion­for­mou a dire­to­ra do Cecor. Por cima da car­nação, tin­ha out­ras repin­turas que foram removi­das. As radi­ografias per­mi­ti­ram visu­alizar mais detal­h­es para efeito de com­para­ção com out­ras obras do Alei­jad­in­ho. Ocor­reram tam­bém anális­es das tin­tas usadas, se eram com­patíveis com o perío­do anal­isa­do, a for­ma de uti­lizá-las.

“Tudo isso é tra­bal­ha­do de for­ma con­jun­ta com todos os mem­bros da equipe. Isso facili­ta o entendi­men­to mel­hor da obra e, tam­bém, a con­clusão de que é uma obra de auto­ria do Alei­jad­in­ho.”

Função devocional

A pro­fes­so­ra desta­cou que a imagem de São Fran­cis­co Pen­i­tente é inter­es­sante, porque há 40 anos tin­ha deix­a­do de cumprir sua função devo­cional e esta­va guarda­da na matriz. Foi Mar­cos Paulo Miran­da, que é procu­rador de Minas Gerais e pesquisador de Alei­jad­in­ho, quem viu a imagem e achou que pode­ria ser uma escul­tura do Alei­jad­in­ho. Ele incluiu a obra para restau­ração jun­to com as demais. O doc­u­men­to do Cecor con­clui que a imagem foi pro­duzi­da por Alei­jad­in­ho entre 1790 e 1792, na região de Rio Espera, situ­a­da a 13 quilômet­ros de dis­tân­cia de Cipotânea.

Segun­do Alessan­dra, a devolução demor­ou um pouco porque a peça entrou no Pro­je­to Extra­muros como uma obra sem auto­ria e, com todos os estu­dos, foi con­stata­da a auto­ria do Alei­jad­in­ho.

O Min­istério Públi­co de Minas Gerais (MPMG), em parce­ria com o Insti­tu­to Estad­ual do Patrimônio Históri­co e Artís­ti­co de Minas Gerais (IEPHA-MG) e o Insti­tu­to do Patrimônio Históri­co e Artís­ti­co Nacional (Iphan) acharam por bem aguardar até que hou­vesse maior segu­rança para a devolução da obra à matriz. A pro­fes­so­ra lem­brou que os estu­dos ficaram par­al­isa­dos durante dois anos da pan­demia da covid-19. Em segui­da, foram retomadas as trata­ti­vas para a avali­ação da obra e algu­mas adap­tações do espaço da igre­ja para onde a imagem retornou.

Boatos de que algu­ma das ima­gens da Paróquia de São Cae­tano pode­ria ser de auto­ria de Alei­jad­in­ho surgiu ain­da no iní­cio do dis­tri­to de São Cae­tano do Xopotó, ele­va­do à cat­e­go­ria de paróquia em 1857, e que rece­be­ria o nome de Cipotânea em 1938.

Iphan

Em nota envi­a­da à Agên­cia Brasil, o Iphan recon­heceu que o Cen­tro de Con­ser­vação e Restau­ração de Bens Cul­tur­ais (Cecor) da Esco­la de Belas Artes da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Minas Gerais (UFMG) real­i­zou um “rig­oroso tra­bal­ho téc­ni­co-cien­tí­fi­co e inter­dis­ci­pli­nar para iden­ti­ficar a auto­ria do ros­to da imagem como sendo de Antônio Fran­cis­co Lis­boa, o Alei­jad­in­ho”.

De acor­do com o Iphan, o tra­bal­ho exigiu um estu­do com­ple­to da mate­ri­al­i­dade da escul­tura, con­tem­p­lan­do des­de análise icono­grá­fi­ca e das car­ac­terís­ti­cas for­mais da peça até anális­es físi­co-quími­cas, radi­ografias X, análise botâni­ca da madeira, além da impor­tante pesquisa históri­ca sobre a pre­sença de Alei­jad­in­ho na região de Cipotânea ou Rio Espera.

“Assim, o Iphan entende que a atribuição de auto­ria de bens cul­tur­ais pro­duzi­dos em perío­dos remo­tos, espe­cial­mente antes do sécu­lo 19, é uma tare­fa com­plexa e requer um estu­do apro­fun­da­do e a apli­cação de diver­sas téc­ni­cas e méto­dos e, des­ta for­ma, não cabe à autar­quia, neste momen­to, con­fir­mar ou refu­tar a auto­ria da obra, recon­heci­da pelo Cecor e sim reforçar seu apoio e parce­ria na real­iza­ção dos tra­bal­hos.”

Edição: Maria Clau­dia

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d