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Fertilizante ecológico pode reduzir dependência de importação

Repro­dução: © Embra­pa

Pesquisador desenvolve técnica na Universidade Federal do Paraná


Pub­li­ca­do em 12/03/2022 — 09:50 Por Alana Gan­dra — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

Uma téc­ni­ca de pro­dução de fer­til­izante ecológi­co à base de cas­ca de ovos, desen­volvi­da pelo pesquisador Roger Borges na Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Paraná (UFPR), poderá con­tribuir para a redução da impor­tação de adu­bos e fer­til­izantes quími­cos pelo Brasil que, no ano pas­sa­do, somou US$ 15,2 bil­hões, um aumen­to de 90% em com­para­ção a 2020.

De acor­do com dados da bal­ança com­er­cial brasileira, da Sec­re­taria de Comér­cio Exte­ri­or (Secex), os fer­til­izantes foram os pro­du­tos mais impor­ta­dos pelo país, na indús­tria de trans­for­mação. Em ter­mos de quan­ti­dade, o Brasil impor­tou 41,5 mil­hões de toneladas de fer­til­izantes, com expan­são de 22%.

Pesquisador atual­mente da Embra­pa Instru­men­tação, Roger Borges disse à Agên­cia Brasil que a téc­ni­ca foi desen­volvi­da a par­tir da uti­liza­ção de tel­ha de amianto para pro­duzir fer­til­izante ecológi­co. “Uti­lizamos resí­du­os que não são usa­dos, como as cas­cas de ovos, ric­as em cál­cio, ou amianto, que é um resí­duo tóx­i­co”. Con­hecen­do os com­po­nentes quími­cos da cas­ca de ovo, os pesquisadores da UFPR pen­saram em pro­duzir um fer­til­izante que não prej­u­di­cas­se o meio ambi­ente e que, ao mes­mo tem­po, fos­se bené­fi­co para a agri­cul­tura.

O pro­je­to foi desen­volvi­do no Lab­o­ratório de Quími­ca de Mate­ri­ais Avança­dos (Laq­ma) da UFPR. A téc­ni­ca uti­liza um proces­so de moagem mecanoquími­co, em que os mate­ri­ais reagem para for­mar novos pro­du­tos por meio da ener­gia tér­mi­ca e de fricção da própria moagem. A cas­ca do ovo é colo­ca­da em um moin­ho de esferas de alta ener­gia, jun­ta­mente com fos­fatos de potás­sio, que reagem para for­mar novos com­pos­tos capazes de fornecer fós­foro, cál­cio e potás­sio, três com­po­nentes essen­ci­ais para o desen­volvi­men­to das lavouras, infor­mou a uni­ver­si­dade.

Mistura

A for­ma indus­tri­al pro­pos­ta pelos pesquisadores para pro­duzir fer­til­izante ecológi­co é usar mais de um com­po­nente. “A com­posição prin­ci­pal, tan­to do amianto, quan­to da cas­ca de ovos, é car­bon­a­to de cál­cio (CaCO3)”, expli­cou Borges. A pro­dução indus­tri­al pre­vê mis­tu­rar cas­ca de ovos com amianto e out­ros ele­men­tos, como fos­fa­to de potás­sio. “No final, a gente tem um fer­til­izante que poderá ser usa­do e não rep­re­sen­ta nen­hum peri­go, igual ao feito com amianto, por exem­p­lo”. Segun­do o pesquisador, para ser usa­do soz­in­ho, o amianto pre­cisa pas­sar por trata­men­to de moagem.

Os pesquisadores der­am entra­da no Insti­tu­to Nacional da Pro­priedade Indus­tri­al (Inpi) com dois pedi­dos de patentes envol­ven­do o trata­men­to do amianto e da cas­ca de ovos para a pro­dução de fer­til­izantes ecológi­cos. “A gente está desen­vol­ven­do o pro­du­to com o obje­ti­vo de ven­da no mer­ca­do”.

Na avali­ação de Roger Borges, a prin­ci­pal econo­mia na uti­liza­ção dess­es fer­til­izantes é que o aproveita­men­to é mel­hor, uma vez que vai se usar menor quan­ti­dade do pro­du­to e garan­tir a mes­ma pro­dução agrí­co­la, com­para­do com o fer­til­izante tradi­cional encon­tra­do no mer­ca­do. Há van­ta­gens tam­bém ambi­en­tais, que incluem a reuti­liza­ção de mate­ri­ais não descartáveis, como o amianto, que por sua tox­i­ci­dade requer ater­ros próprios para sua estocagem ou é joga­do em lixões, o que deman­da din­heiro para o fun­ciona­men­to dess­es locais. Reti­ran­do do lixo ess­es mate­ri­ais, Borges afir­mou que se con­segue con­vertê-los em val­ores pos­i­tivos.

Exis­tem duas clas­si­fi­cações bási­cas: rejeito e resí­duo. No caso do amianto, que é rejeito tóx­i­co, os pesquisadores con­seguem trans­for­má-lo em um sub­pro­du­to, depois que ele é trata­do. A cas­ca de ovos, por sua vez, é con­sid­er­a­da resí­duo. Emb­o­ra não rep­re­sente nen­hum peri­go, con­segue-se tam­bém dire­cionar o mate­r­i­al para ter um sub­pro­du­to. Além dis­so, o car­bon­a­to de cál­cio é uma fonte impor­tante de cál­cio que pode ser usa­da como sub­sti­tu­ição de cal­cário, tan­to no caso do amianto, como no da cas­ca de ovos. Borges reit­er­ou que fer­til­izantes pro­duzi­dos a par­tir de resí­du­os ou rejeitos apre­sen­tam maior eficá­cia agronômi­ca quan­do com­para­dos com fer­til­izantes con­ven­cionais.

Processo

A van­tagem de ser um proces­so a seco, sem neces­si­dade de uti­liza­ção de água, evi­ta a neces­si­dade de eta­pas dis­pendiosas de secagem, ao con­trário de out­ros proces­sos que usam a água como sol­vente. No pro­du­to final, todos os ele­men­tos quími­cos pre­sentes apre­sen­tam alto val­or agre­ga­do na agri­cul­tura, o que elim­i­na a neces­si­dade de purifi­cação. Borges acres­cen­tou que out­ra van­tagem é a econo­mia de pro­du­tos como o cal­cário, uti­liza­do na pro­dução de fer­til­izantes min­erais por ser rico em cál­cio, porque as reser­vas dess­es mate­ri­ais são fini­tas, sendo essen­cial uti­lizá-las de maneira sus­ten­táv­el. Em 2020, as lavouras brasileiras usaram mais de 45 mil toneladas de cal­cário agrí­co­la, boa parte dele resul­tante da explo­ração de reser­vas do país.

O pro­fes­sor Fer­nan­do Wypych, do Depar­ta­men­to de Quími­ca da UFPR, que ori­en­tou o pro­je­to, infor­mou que por ser menos solúv­el em água, o novo fer­til­izante é mais sus­ten­táv­el, porque sua lib­er­ação é con­tro­la­da. Ao con­trário dos fer­til­izantes con­ven­cionais, que lib­er­am os nutri­entes de uma só vez, os de lib­er­ação con­tro­la­da respon­dem aos estí­mu­los das plan­tas (estimunore­spon­sáveis) e man­têm os teo­res con­stantes ao lon­go do ciclo de pro­dução agrí­co­la.

Wypych disse que a menor sol­u­bil­i­dade do novo fer­til­izante feito à base de amianto ou de cas­ca de ovos com­bate o prob­le­ma da eutrofiza­ção ger­a­da por pro­du­tos con­ven­cionais, que deix­am as águas tur­vas, con­sumin­do o oxigênio de rios e lagos e provo­can­do a morte de peix­es e out­ros ani­mais aquáti­cos. A decom­posição de todo esse mate­r­i­al orgâni­co pro­duz mau cheiro, além de gás car­bôni­co e gás metano, prin­ci­pais gas­es do efeito est­u­fa (GEEs).

A téc­ni­ca cria ain­da um sub­pro­du­to que pode ser uti­liza­do para a pro­dução de hidrox­i­a­p­ati­ta, que é um mate­r­i­al à base de fós­foro e cál­cio, uti­liza­do para a pro­dução de próte­ses ósseas e den­tárias. Com maior val­or agre­ga­do, a sub­stân­cia tor­na a apli­cação mais atra­ti­va com­er­cial­mente. A esti­ma­ti­va é que, anual­mente, sejam pro­duzi­das quase 6 mil­hões de toneladas de cas­cas de ovos no mun­do, segun­do a uni­ver­si­dade.

Edição: Maria Clau­dia

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