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Festival Latinidades começa em Brasília com bênçãos ancestrais

Repro­dução: © Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Projeto é pioneiro ao promover equidade de raça e gênero


Pub­li­ca­do em 06/07/2023 — 19:33 Por Daniel­la Almei­da — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

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“O mais vel­ho chegou, T’o­jú Labá pede agô, chama o povo pra ver o afoxé de Ogum Megê!” Este foi o can­to entoa­do pelos inte­grantes negros do Afoxé Ogum Pá, na bênção ances­tral que mar­cou a aber­tu­ra do 16º Fes­ti­val Latinidades, ded­i­ca­do a mul­heres negras, lati­no-amer­i­canas, do Caribe e diás­po­ra negra, nes­ta quin­ta-feira (6), em Brasília. O corte­jo espal­hou água de cheiro pelo per­cur­so, den­tro do Museu Nacional da Repúbli­ca, e fez a plateia dançar e orar. 

Em 2023, o lema é Bem Viv­er, que mar­ca a luta por um um futuro que respeite a ances­tral­i­dade, a Mãe Ter­ra e os dire­itos ances­trais de negros e indí­ge­nas. Nes­ta edição, pela primeira vez, o fes­ti­val ocor­rerá em qua­tro cap­i­tais: começa em Brasília e segue para o Rio de Janeiro, São Paulo e Sal­vador entre 6 e 30 de jul­ho. A ini­cia­ti­va con­ta com o apoio da Empre­sa Brasil de Comu­ni­cação — EBC.

A Mãe Dora de Oyá, líder de uma casa de can­domblé no Dis­tri­to Fed­er­al, abriu os cam­in­hos na cer­imô­nia de insta­lação do even­to e jogou água de cheiro em direção aos pre­sentes até chegar ao pal­co. A baiana, que mora em Brasília des­de a déca­da de 1970, quis pas­sar uma men­sagem com o rit­u­al. “Esta­mos falan­do de mul­heres negras, do empodera­men­to de mul­heres. Para a gente, é muito impor­tante, inter­es­sante, praze­roso e boni­to. O públi­co ouviu uma per­cussão boa, uma pes­soa com voz boni­ta e músi­cas mar­avil­hosas que falam da nos­sa reli­giosi­dade, de nos­sas lutas, do nos­so empodera­men­to”, desta­cou.

Brasília-DF - 06.07.2023 - Apresentações artísticas do grupo Afoxé Ogum Pá, durante abertura do Festival Latinidades 2023. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Repro­dução: Grupo Afoxé Ogum Pá par­ticipou da aber­tu­ra do Fes­ti­val Latinidades 2023, em Brasília. Foto Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Oração

Rep­re­sen­tan­do os povos orig­inários do con­ti­nente amer­i­cano, a lid­er­ança indí­ge­na do ter­ritório Araribóia, Cín­tia Gua­ja­jara, chamou os ances­trais em qua­tro can­tos de oração. Descalça no pal­co do fes­ti­val, empun­han­do um chocal­ho e enfeita­da com adornos col­ori­dos, Cín­tia pediu pro­teção na reza.

A lid­er­ança relem­brou que seus ances­trais já tin­ham conexão com o cri­ador de todas as coisas. “Antes da chega­da dos europeus, do cate­cis­mo, da chega­da do evan­ge­lis­mo nas comu­nidades indí­ge­nas, os povos indí­ge­nas já tin­ham religião própria, já tin­ham for­ma de conec­tar com o cri­ador, de pedir a pro­teção, de faz­er as rezas. E aqui eu fiz e pedi bênçãos a vocês”, expli­cou.

Cri­a­do em 2008, o fes­ti­val faz parte do chama­do Jul­ho das Pre­tas, que comem­o­ra o Dia Inter­na­cional da Mul­her Negra, Lati­na e Cariben­ha — 25 de jul­ho. No Brasil, a data tam­bém hom­e­nageia a resistên­cia da heroí­na negra Tereza de Benguela, lid­er­ança quilom­bo­la do Quar­iterê, local­iza­do na fron­teira entre Mato Grosso e Bolívia. Tereza de Benguela é con­sid­er­a­da exem­p­lo de força e de orga­ni­za­ção para mul­heres que sobre­vivem às seque­las da col­o­niza­ção europeia.

O Fes­ti­val Latinidades é real­iza­do pelo Insti­tu­to Afro-Lati­nas. A dire­to­ra do even­to, Jaque­line Fer­nan­des, reivin­di­cou o bem viv­er das mul­heres negras, lati­nas e cariben­has. “Enquan­to o bem viv­er não for para todas as pes­soas, não é viáv­el. O bem viv­er pres­supõe equidade de gênero, raça, luta antir­racista, a con­tra­posição ao mod­e­lo explo­ratório da natureza e dos seres humanos. Tam­bém é uma cos­mo­visão indí­ge­na, que se encon­tra com pen­sa­men­tos e com for­mu­lações de mul­heres negras. Cada vez mais o fes­ti­val toma a parte da Améri­ca Lati­na para se con­tra­por a esse sis­tema cap­i­tal­ista explo­ratório e pre­datório”, asse­gurou.

Em 2023, o fes­ti­val hom­e­nageia Verôni­ca Bra­ga, pop­u­lar­mente con­heci­da como Vera Verôni­ca, a primeira rap­per do Dis­tri­to Fed­er­al. Em meio às comem­o­rações dos 50 anos da cul­tura hip hop no mun­do e 44 anos no Brasil, a artista ressalta que sua músi­ca é voz ati­va con­tra o racis­mo e machis­mo há 31 anos. E que o Fes­ti­val Latinidades aju­da a ecoar os man­i­festos.

“O Fes­ti­val Latinidades surge na urgên­cia de nós, mul­heres negras, ter­mos voz, de poder falar, con­sumir nos­sas roupas, nos­sos cabe­los, nos­sa cul­tura, nos­sa ali­men­tação. Esse fes­ti­val traz a ances­tral­i­dadee a cul­tura de matriz africana. Hoje, o Fes­ti­val Latinidades é refer­ên­cia mundi­al”, frisou.

Contra o racismo

Na plateia do auditório do Museu da Repúbli­ca for­ma­da, prin­ci­pal­mente por mul­heres, sen­taram-se pes­soas de diver­sas idades. A ped­a­goga e mestre em Edu­cação, Janaí­na da Sil­va, lev­ou ao  even­to a fil­ha mais vel­ha, de 11 anos, Dan­dara Lua­na da Sil­va, e expli­ca o moti­vo de, como mãe negra, edu­car os dois fil­hos con­tra o racis­mo.

“Infe­liz­mente, como mãe negra, eu não ensi­no meus fil­hos somente sobre como esco­var os dentes, como se com­por­tar na sociedade e a importân­cia dos estu­dos. Eu tam­bém ten­ho que ensi­nar como que eles vão iden­ti­ficar e tam­bém se pro­te­ger con­tra o racis­mo e pre­con­ceito. Na min­ha casa, a gente fala sobre a questão racial o tem­po inteiro”, rev­ela.

A ped­a­goga desta­cou a importân­cia de con­hecer suas ori­gens e de estar entre as pes­soas que con­sid­era como suas. “Com respeito à ances­tral­i­dade, a gente tem que val­orizar os que vier­am antes porque eles abri­ram cam­in­hos. A gente, ago­ra, está per­pet­uan­do e con­tin­ua lutan­do para que os resul­ta­dos real­mente apareçam efe­ti­va­mente para a nos­sa pop­u­lação”, disse.

A fil­ha Dan­dara Lua­na com­preende a men­sagem repas­sa­da. “Pesquiso sobre a cul­tura negra com a min­ha família e na inter­net e eu acho isso muito impor­tante,” rela­tou.

A angolana Petra Percheiro, que há sete anos mora no Brasil, foi ao fes­ti­val com a fil­ha brasileira de um ano e um mês e jus­ti­fi­cou: “Eu quero que ela ten­ha, des­de peque­na, o con­ta­to com o nos­so povo, con­ta­to com as histórias, pois ela está aqui como ouvinte e obser­vado­ra.”

O Fes­ti­val Latinidades 2023 segue até domin­go, em Brasília. A pro­gra­mação com­ple­ta está disponív­el no site. São debates, palestras, ofic­i­nas, vivên­cias, painéis, con­fer­ên­cias, lança­men­tos literários, roda­da de negó­cios, des­files e apre­sen­tações de dança, teatro e músi­ca. As inscrições para as ativi­dades são gra­tu­itas.

Matéria alter­a­da às 8h56 de 7 de jul­ho para acrésci­mo de infor­mações.

Edição: Kle­ber Sam­paio

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