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Ação no RJ é cortina de fumaça e expõe população, dizem especialistas

Operação gerou grande impacto na capital fluminense

Mar­i­ana Tokar­nia – Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 28/10/2025 — 20:55
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 28/10/2025 - Durante operação policia contra o Comando Vermelho, agentes da polícia militar fazem guarda perto de filas nos pontos de ônibus e vans de transporte complementar na região da Central do Brasil, com trabalhadores sendo liberados mais cedo pela situação de violência. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Um dia de ter­ror para os mais de 150 mil habi­tantes dos com­plex­os da Pen­ha e do Alemão, que pas­saram horas debaixo de tiros e explosões em uma oper­ação poli­cial que afe­tou tam­bém todos aque­les que pre­cis­aram tran­si­tar pelas prin­ci­pais vias da cidade, em diver­sos bair­ros da cap­i­tal flu­mi­nense, que ain­da não acabou.

Oper­ação Con­tenção que se esten­deu por toda esta terça-feira (28), deixou pelo menos 64 pes­soas mor­tas – incluin­do qua­tro poli­ci­ais -, inter­rompeu o trân­si­to das prin­ci­pais vias da cidade, fechou esco­las, pos­tos de saúde e esta­b­elec­i­men­tos com­er­ci­ais. Segun­do o gov­er­no do esta­do, 81 pes­soas foram pre­sas e 93 fuzis apreen­di­dos, além de pis­to­las e granadas. Tra­ta-se da maior oper­ação dos últi­mos 15 anos e tam­bém da mais letal de toda a história do esta­do.

Para espe­cial­is­tas, a oper­ação ger­ou um grande impacto na cap­i­tal flu­mi­nense e não atingiu o obje­ti­vo de con­ter o crime orga­ni­za­do, pelo con­trário, ações como esta ape­nas for­t­ale­cem a vio­lên­cia.

“Essa lóg­i­ca de medir força arma­da béli­ca com estru­turas do trá­fi­co sem­pre resul­taram em mortes cada vez maiores, em sofri­men­to cada vez mais inten­so, per­da de aces­so a serviços públi­cos, per­da de mobil­i­dade urbana, os mais frágeis sem­pre vão sofr­er muito mais. A econo­mia é afe­ta­da dire­ta­mente e o prob­le­ma nun­ca foi sequer arran­hado”, diz o pro­fes­sor do Depar­ta­men­to de Ciên­cias Soci­ais da Uni­ver­si­dade Fed­er­al Rur­al do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláu­dio Souza Alves.

Segun­do o pro­fes­sor, com­bat­er o crime orga­ni­za­do exige out­ras estraté­gias, inclu­sive ofer­e­cer opor­tu­nidades e qual­i­dade de vida a pop­u­lação em situ­ação de vul­ner­a­bil­i­dade.

“Cri­ar novas for­mas de inter­cep­tar, de inves­ti­gar, de seguir din­heiro, de pren­der pes­soas, de colo­car lim­i­tações nesse fun­ciona­men­to, de dar alter­na­ti­va real para essa pop­u­lação. Você tem que dis­putar pal­ma a pal­mo ness­es ter­ritórios, essas pop­u­lações que são facil­mente con­ven­ci­das pela grana da dro­ga, da arma, pela grana dos ile­gal­is­mos, dos golpes. Se não pen­sar­mos isso, a gente está abso­lu­ta­mente com­pro­meti­do, não vamos con­seguir”, defende.

“Isso tudo que vocês estão ven­do aí hoje, arreben­tan­do no Rio de Janeiro todo, é ape­nas uma imen­sa e gigan­tesca corti­na de fumaça, um rolo gigan­tesco de fumaça cegan­do a todos”, diz, Alves.

Lambança político-operacional

Em entre­vista ao pro­gra­ma Revista Rio, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a pro­fes­so­ra do Depar­ta­men­to de Segu­rança Públi­ca da Uni­ver­si­dade Fed­er­al Flu­mi­nense (UFF), Jacque­line Muniz, clas­si­fi­cou a oper­ação como amado­ra e uma “lam­bança políti­co-opera­cional”.

Segun­do ela, foram cometi­dos erros táti­cos que vão ao encon­tro do que está pre­vis­to nas próprias instruções nor­ma­ti­vas de segu­rança públi­ca.

“Para colo­car 2,5 mil poli­ci­ais, tem que faz­er uma pre­visão de 7,5 mil a 10 mil poli­ci­ais, porque tem três turnos de tra­bal­ho e escala. Isso quer diz­er que para faz­er esta oper­ação, que eu chamei de uma lam­bança políti­co-opera­cional do gov­er­nador Cas­tro, teve que se reti­rar o poli­ci­a­men­to de 3 mil­hões a 5 mil­hões de pes­soas na região met­ro­pol­i­tana”, diz. “De um lado, esquen­tou-se a cha­pa numa área críti­ca, não reduz­iu a capaci­dade opera­cional do crime, por out­ro, via­bi­li­zou a morte de poli­ci­ais, o fer­i­men­to de poli­ci­ais, de cidadãos sem que isso sig­nifi­cas­se um avanço sobre o crime orga­ni­za­do”.

Ela acres­cen­ta:

“Isso é muito sério porque põe em risco a vida dos poli­ci­ais, põe em risco a vida da pop­u­lação, invi­a­bi­liza a cir­cu­lação de pes­soas, de mer­cado­rias. Nós esta­mos pro­duzin­do fechamen­to da Lin­ha Amarela, da Lin­ha Ver­mel­ha, da Aveni­da Brasil, dan­do um nó em toda a região met­ro­pol­i­tana. Ou seja, esquen­tan­do a cha­pa e mul­ti­pli­can­do a inse­gu­rança”, diz.

 

Ela expli­cou que a oper­ação tin­ha razão para exi­s­tir, mas foi mal con­ce­bi­da. “A final­i­dade dela foi poli­tiqueira, pon­do em risco a vida dos agentes da lei, da pop­u­lação, com resul­ta­dos que não se sus­ten­tam diante da dout­ri­na de oper­ações poli­ci­ais, que fique claro, porque há critérios téc­ni­cos sim, polí­cia não é amadoris­mo, a polí­cia é profis­são”.

Avanço do crime organizado

O obje­ti­vo da oper­ação, de acor­do com o gov­er­no do esta­do era cumprir man­da­dos de prisão e con­ter a expan­são ter­ri­to­r­i­al do Coman­do Ver­mel­ho. A ação con­jun­ta mobi­li­zou 2,5 mil poli­ci­ais civis e mil­itares, com a par­tic­i­pação do Min­istério Públi­co.

Segun­do pesquisa divul­ga­da no ano pas­sa­do pelo Grupo de Estu­dos dos Novos Ile­gal­is­mos da Uni­ver­si­dade Fed­er­al Flu­mi­nense (Geni/UFF) e pelo Insti­tu­to Fogo Cruza­do, o Coman­do Ver­mel­ho foi a úni­ca facção crim­i­nosa a expandir seu con­t­role ter­ri­to­r­i­al de 2022 para 2023, no Grande Rio. Com o aumen­to de 8,4%, a orga­ni­za­ção ultra­pas­sou as milí­cias e pas­sou a respon­der por 51,9% das áreas con­tro­ladas por crim­i­nosos na região. 

A pesquisa mostrou que o Coman­do Ver­mel­ho reto­mou a lid­er­ança de 242 km² que tin­ham sido per­di­dos para as milí­cias em 2021. Naque­le ano, 46,5% das áreas sob con­t­role crim­i­noso per­ten­ci­am às milí­cias e 42,9% ao Coman­do Ver­mel­ho.

População na linha de tiro

Para o Insti­tu­to Fogo Cruza­do, insti­tu­ição que pro­duz dados e infor­mações sobre vio­lên­cia arma­da, e que copi­lou infor­mações sobre a Oper­ação Con­tenção, ações como esta não com­bat­em de fato o crime orga­ni­za­do.

“Com­bat­er o crime orga­ni­za­do exige out­ra lóg­i­ca. É pre­ciso atacar flux­os finan­ceiros, inves­ti­gar lavagem de din­heiro, for­t­ale­cer cor­rege­do­rias inde­pen­dentes e com­bat­er a cor­rupção den­tro do Esta­do. Tudo que o Rio de Janeiro não faz há décadas”, afir­mou em nota.

 

“As polí­cias do Rio começaram o dia com a Oper­ação Con­tenção e o que se viu foi parte expres­si­va da pop­u­lação na lin­ha de tiro e uma cidade inteira para­da. Este é o plane­ja­men­to do gov­er­no do esta­do? Oper­ações como essa mostram a inca­paci­dade do gov­er­no estad­ual de faz­er políti­ca públi­ca de segu­rança públi­ca”, expli­cou a orga­ni­za­ção.

Insti­tu­to reforça que esta é a maior chaci­na poli­cial já reg­istra­da na história do esta­do do Rio de Janeiro, superan­do as tragé­dias do Jacarez­in­ho (2021) com 28 mor­tos, e da Vila Cruzeiro (2022) com 24 mor­tos, chaci­nas poli­ci­ais que tam­bém ocor­reram no gov­er­no de Cláu­dio Cas­tro.

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