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Descoberta da insulina, o “hormônio da vida”, completa 100 anos

Canetas para aplicação de insulina,exame da curva glicêmica
Repro­dução:  © Mar­cel­lo Casal jr/Agência Brasil

Substância pode ser obtida a partir de animais ou em laboratório


Pub­li­ca­do em 07/08/2021 — 08:30 Por Pedro Peduzzi – Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

A descober­ta da insuli­na – e de sua eficá­cia para o trata­men­to do dia­betes – com­ple­ta, em 2021, um sécu­lo ten­do o méri­to de ter sal­vo mil­hões de vidas ao redor do mun­do. Retrata­da como “hor­mônio da vida”, essa sub­stân­cia pro­duzi­da pelo pân­creas pode ser obti­da, visan­do trata­men­tos médi­cos em larga escala, tan­to de ani­mais quan­to em lab­o­ratórios.

“A insuli­na é o hor­mônio da vida. É impor­tante para a saúde das pes­soas porque é ela que vai dar a entra­da do com­bustív­el prin­ci­pal do organ­is­mo, que é a gli­cose, para as célu­las. É como se fos­se a gasoli­na do motor. Se não tem gli­cose, o cor­po não tem com­bustív­el. E o inje­tor dessa gli­cose nas célu­las é a insuli­na”, expli­ca didati­ca­mente à Agên­cia Brasil o pres­i­dente da Fed­er­ação Inter­na­cional de Dia­betes para a Região da Améri­ca Cen­tral e Améri­ca do Sul, Fad­lo Fraige Fil­ho.

Segun­do o médi­co endocri­nol­o­gista, sem gli­cose, o cor­po se dete­ri­o­ra e sin­tomas de dia­betes, como ema­grec­i­men­to acen­tu­a­do e mui­ta neces­si­dade de uri­nar e de beber água, começam a sur­gir.

“Sem trata­men­to, as pes­soas podem entrar em coma, e o coma dia­béti­co é mor­tal, com altos índices de mor­tal­i­dade quan­do não trata­do ade­quada­mente”, acres­cen­tou Fraige, que é tam­bém espe­cial­ista da Sociedade Brasileira de Dia­betes e pres­i­dente tan­to da Asso­ci­ação Nacional de Atenção à Dia­betes como da Fed­er­ação Nacional de Enti­dades de Dia­betes do Brasil.

Exame da curva glicêmica; insulina,monitor de glicemia
Repro­dução:Cane­tas para apli­cação de insuli­na — Mar­cel­lo Casal jr/Agência Brasil

O pro­fes­sor da Fac­ul­dade de Med­i­c­i­na do ABC acres­cen­ta que o dia­betes atinge cer­ca de 400 mil­hões de pes­soas em todo o mun­do. “É preva­lente não ape­nas pelo número como tam­bém por suas comor­bidades, uma vez que é a primeira causa de cegueira e de amputações de mem­bros infe­ri­ores, bem como de doenças car­dio­vas­cu­lares.”

Ain­da segun­do ele, uma parte con­sid­eráv­el das hos­pi­tal­iza­ções está rela­ciona­da ao dia­betes. “A inter­nação não é fei­ta por dia­betes, mas por com­pli­cações dela decor­rentes, em casos clas­si­fi­ca­dos como AVC, infar­to, trom­bose, amputações, infecções, pneu­mo­nia e toda sorte de com­pli­cações. O dia­betes vem [ofi­cial­mente] na segun­da lin­ha de inter­nações, mas é a base de tudo isso”, acres­cen­tou.

Ten­do por base estu­dos feitos em sete hos­pi­tais gerais nos Esta­dos Unidos, bem como no Hos­pi­tal da Beneficên­cia Por­tugue­sa em São Paulo, Fraige rela­ta que o dia­betes ocu­pa, com suas com­pli­cações, 44% de todos os leitos em hos­pi­tais gerais. “Feliz­mente, hoje em dia, quan­do trata­da a tem­po e com pes­soal habil­i­ta­do, é pos­sív­el a reabil­i­tação das pes­soas, ain­da que seja uma doença que não tem cura”.

Tratamento

O médi­co não esconde a difi­cul­dade do trata­men­to do dia­betes, mas diz que é a úni­ca saí­da para evi­tar as várias com­pli­cações da doença.

“O grande desafio é faz­er com que as pes­soas con­trolem glicemia, coles­terol e pressão. Chamo atenção para o fato de que o diag­nós­ti­co de dia­betes não é um diag­nós­ti­co encer­ra­do como, às vezes, é, por exem­p­lo, o de câncer. É um diag­nos­ti­co que dá opções. Você pode ir para o cam­in­ho do con­t­role para ter uma vida saudáv­el e sem com­pli­cações. A coisa com­pli­ca para quem não a con­tro­la ou neg­li­gen­cia [o trata­men­to]”.

Em muitos casos, o trata­men­to envolve con­t­role por meio de dietas. Mas, em ger­al, são necessárias, no caso dos por­ta­dores de dia­betes tipo 1, pelo menos qua­tro apli­cações diárias de insuli­na, além da neces­si­dade de várias pic­a­das no dedo para faz­er a medição glicêmi­ca.

A fal­ta de famil­iari­dade com a insulinoter­apia entre uma parte con­sid­eráv­el de profis­sion­ais da saúde, entre­tan­to, pre­ocu­pa o médi­co endocri­nol­o­gista. “Infe­liz­mente, a insulinoter­apia é descon­heci­da da maio­r­ia dos profis­sion­ais não espe­cial­iza­dos, o que pode acar­retar em riscos de se ter uma hipoglicemia que, às vezes, pode ser fatal”, disse.

De acor­do com o espe­cial­ista, na maio­r­ia das vezes, o dia­betes não é fatal, mas pode resul­tar em grandes com­pli­cações neu­rológ­i­cas quan­do a insulinoter­apia não é fei­ta da maneira ade­qua­da.

“É fun­da­men­tal que ela [insulinoter­apia] seja con­heci­da, estu­da­da e apri­mora­da pelos profis­sion­ais da saúde. No caso da dia­betes do tipo 1, não há out­ro trata­men­to. Já muitas pes­soas que têm a do tipo 2 pas­sam a ter de tomar insuli­na nas situ­ações em que os antidi­a­béti­cos orais deix­am de faz­er efeito.”

Fraige defende que o dia­betes deve ser trata­do de maneira mul­ti­dis­ci­pli­nar. “Não só o médi­co, mas far­ma­cêu­ti­cos e enfer­meiros têm de enten­der do assun­to. Nutri­cionistas, pro­fes­sores de edu­cação físi­ca e todos os profis­sion­ais de saúde têm de ampli­ar os con­hec­i­men­tos sobre dia­betes para min­i­mizá-lo e para mel­hor ori­en­tar as pes­soas”, enfa­ti­za.

Inovação

Graças a con­hec­i­men­tos mul­ti­dis­ci­pli­nares, foi pos­sív­el, inclu­sive, pro­duzir insuli­na em lab­o­ratório, o que acabou por sal­var tam­bém a vida de cen­te­nas de mil­hares de ani­mais que não pre­cis­aram mais ser abati­dos pela indús­tria far­ma­cêu­ti­ca. Para pro­duzir 1 qui­lo de insuli­na (visan­do o trata­men­to de humanos), era necessário cole­tar o pân­creas de 50 mil ani­mais.

Por meio da biotec­nolo­gia, o biól­o­go e pós-doutor em Engen­haria Genéti­ca Spar­ta­co Astolfi Fil­ho coor­de­nou estu­dos que resul­taram na pro­dução de insuli­na humana em lab­o­ratório, a par­tir de fer­men­tação bac­te­ri­ana. Essa tec­nolo­gia ino­vado­ra foi desen­volvi­da pela Uni­ver­si­dade de Brasília (UnB) em parce­ria com a empre­sa Bio­brás Bio­quími­ca do Brasil.

“O grupo da UnB ficou respon­sáv­el pela con­strução da bac­téria recom­bi­nante super­pro­du­to­ra de insuli­na humana. Todo o proces­so de desen­volvi­men­to tec­nológi­co da insuli­na humana recom­bi­nante foi con­cluí­do com suces­so resul­tan­do na con­strução do setor indus­tri­al de pro­dução de insuli­na humana em 1998 em Montes Claros. Em 2000, a patente foi con­ce­di­da nos Esta­dos Unidos”, disse à Agên­cia Brasil o pesquisador.

Ape­sar de a téc­ni­ca para a obtenção de insuli­na a par­tir de bac­térias ser brasileira, a pro­dução do insumo em ter­ritório nacional acabou sendo inter­romp­i­da após a aquisição da Bio­brás por uma empre­sa multi­na­cional, em 2001. Con­fi­ra a seguir os prin­ci­pais even­tos asso­ci­a­dos à descober­ta da insuli­na (clique nas datas para abrir a descrição):

Cronologia
da Insulina*

Os alemães Oskar Minkows­ki e Joseph von Mer­ing demon­straram que a reti­ra­da do pân­creas de cães causa­va dia­betes levan­do-os a óbito.

O estadunidense Eugene Opie descreve que, em casos de Dia­betes Mel­li­tus grave, ocor­ria a degen­er­ação das célu­las das ilho­tas de Langer­hans do pân­creas.

O inglês Edward Sharpey-Schafer levan­tou a hipótese de que o Dia­betes seria cau­sa­do pela defi­ciên­cia de uma sub­stân­cia, pro­duzi­da pelas célu­las das ilho­tas de Langer­hans do pân­creas, razão pela qual ele a denomi­nou de insuli­na, ter­mo deriva­do da palavra lati­na insu­la (ilha).

Con­fir­mação da hipótese, pelos canadens­es Fred­er­ick Bant­i­ng e Charles Best. Eles inje­taram, em cachor­ros dia­béti­cos, extratos ilho­tas de Langer­hans de pân­creas de cachor­ros saudáveis, rever­tendo o quadro de dia­betes. Tra­bal­han­do na Uni­ver­si­dade de Toron­to em colab­o­ração com o escocês John Mcleod, os dois pesquisadores purificaram a insuli­na de pân­creas bovi­no e foram os primeiros a tratar um humano dia­béti­co com suces­so: um jovem canadense ado­les­cente de 14 anos.

Bant­i­ng e Mcleod gan­haram o prêmio Nobel de Fisi­olo­gia e Med­i­c­i­na. A par­tir de então, a empre­sa far­ma­cêu­ti­ca estadunidense Eli Lil­ly & Co, e empre­sas far­ma­cêu­ti­cas da Europa pas­saram a pro­duzir insuli­na bov­ina e suí­na em larga escala para trata­men­to do Dia­betes Mel­li­tus.

 

*Fonte (das infor­mações na cronolo­gia):
Spar­ta­co Astolfi Fil­ho: Biól­o­go (UnB), Mestre em Biolo­gia Mol­e­c­u­lar (UnB), Doutor em Ciên­cias (UFRJ) e Pós-Doutor em Engen­haria Genéti­ca (UMIST – UK).

Edição: Lílian Beral­do

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