...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Cultura / Encontro virtual trata de arte feminina e tradição popular

Encontro virtual trata de arte feminina e tradição popular

socorrorodrigues

© Divul­gação

Debate é promovido pelo Museu do Pontal nesta segunda-feira


Pub­li­ca­do em 18/04/2021 — 19:21 Por Cristi­na Índio — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

A ceramista per­nam­bu­cana Socor­ro Rodrigues (foto destaque), 66 anos, com­ple­ta­dos na quar­ta-feira (14), car­rega a tradição da arte pop­u­lar da família. O inter­esse pelos tra­bal­hos feitos do bar­ro veio de acom­pan­har o pai Zé Cabo­clo, um dos primeiros seguidores de Mestre Vital­i­no, um sím­bo­lo dessa cul­tura pop­u­lar no Alto do Moura, em Caru­aru, Per­nam­bu­co. Socor­ro começou a esculpir peque­nas peças de brin­que­dos já aos seis anos e aos nove fazia peças para vender. Toda essa exper­iên­cia de vida, Socor­ro vai con­tar no encon­tro vir­tu­al que o Museu do Pon­tal, do Rio de Janeiro, vai faz­er nes­ta segun­da-feira (19), às 17h.

A arte pop­u­lar, no Alto do Moura, começou como uma tradição mas­culi­na a par­tir da obra do Mestre Vital­i­no, segui­do por nomes como o pai de Socor­ro, por Manuel Eudó­cio e por Manuel Galdino, entre out­ros. As ger­ações seguintes começaram a mudar este com­por­ta­men­to e as mul­heres pas­saram a ser recon­heci­das como artis­tas e ceramis­tas.

A prox­im­i­dade da par­tic­i­pação do encon­tro vir­tu­al, que ela vê como mais um incen­ti­vo para tornar a sua arte con­heci­da, a deixou ansiosa. “Com ess­es tem­pos difí­ceis e a situ­ação toda que está o nos­so país, mas que se Deus quis­er vai pas­sar, né? Aí é muito impor­tante. É mais uma divul­gação para a gente poder vender. A pes­soa fica mais con­heci­da, como eu estou venden­do na inter­net”, infor­mou, à Agên­cia Brasil, acres­cen­tan­do que o seu site foi feito pela neta.

Preservação

Na região do Vale do Jequit­in­hon­ha, em Minas, foram as mul­heres que começaram a tradição de arte cerâmi­ca, como dona Isabel Mendes da Cun­ha, da comu­nidade San­tana do Araçuaí; e Noemisa, de Caraí; entre out­ras. Há cer­ca de 20 anos o fotó­grafo mineiro Lori Figueiró tem feito reg­istros de ben­zedeiras e parteiras, como for­ma de preser­var a cul­tura pop­u­lar da região. Nesse tem­po, tem encon­tra­do muitas histórias, como a da dona Gene­r­i­na Isidório da Sil­va, uma ben­zedeira de 106 anos, que está com­ple­ta­mente lúci­da e tem tatarane­tos. Lori con­tou que a con­hece há mais de 10 anos e durante esse tem­po vem fazen­do reg­istros fotográ­fi­cos dela, de Bland­i­na Sil­va Souza, mais con­heci­da como dona Baran­da, que tem mais de 90 anos e não é pos­sív­el pre­cis­ar a idade porque perdeu os doc­u­men­tos e de Vera Lúcia Mar­ques de 72 anos. Todas as três moram em Araçuaí, no médio Jequit­in­hon­ha. “Eu ven­ho fotografan­do con­stan­te­mente com a ideia de faz­er um livro em hom­e­nagem a essas três ben­zedeiras. Nen­hu­ma delas está deixan­do seguidores. As três lamen­tam”, com­ple­tou Lori à reportagem da Agên­cia.

Tan­tos reg­istros depois de várias man­i­fes­tações artís­ti­cas, pela primeira vez Lori vai par­tic­i­par de uma live. Emb­o­ra seja sobre um assun­to que con­hece bas­tante, está com grande expec­ta­ti­va e com cer­ta ansiedade para falar dos con­hece­dores tradi­cionais, como cos­tu­ma chamar os artis­tas, espe­cial­mente, da região do alto e do médio Vale do Jequit­in­hon­ha. “Eu reg­istro ben­zedeiras, parteiras, artesãos de um modo ger­al, os gru­pos de con­ga­do, tam­bozeiros de Nos­sa Sen­ho­ra do Rosário, as pes­soas que ain­da fazem os saberes mais tradi­cionais mes­mo, a far­in­ha de man­dio­ca, a rapadu­ra. Tra­bal­ho com essas pes­soas”, disse.

Para Lori Figueiró, parte do tra­bal­ho que faz é o reg­istro do final de uma era, uma vez que alguns ofí­cios não estão sendo repas­sa­dos para novas ger­ações, como é o caso de quem pro­duz a far­in­ha e a man­dio­ca pelos méto­dos tradi­cionais. “Os mais jovens não querem mais este tipo de tra­bal­ho ou esse tipo de ofí­cio”, obser­vou.

Essa situ­ação, con­forme o fotó­grafo, muda um pouco quan­do a man­i­fes­tação cul­tur­al é mais rela­ciona­da à cerâmi­ca e às escul­turas em madeira. “Acred­i­to que isso vai per­du­rar um pouco mais, mas as ben­zedeiras, as pes­soas que fazem algum tipo de culinária, isso vem se per­den­do muito. Os jovens não querem muito e os pais e avós não estão con­seguin­do repas­sar”, com­ple­tou, desta­can­do que uma das razões é o maior inter­esse pelas redes soci­ais.

Segun­do o fotó­grafo, em 2011, quan­do fez um tra­bal­ho em Jeni­pa­po de Minas, a asso­ci­ação da tecelãs do local tin­ha em torno de 60 mul­heres e hoje está prati­ca­mente fecha­da. Na mes­ma época a asso­ci­ação de tecelãs da cidade Beri­lo tin­ha 120 pes­soas e ago­ra em torno de 7 pes­soas entre home­ns e mul­heres tra­bal­han­do no tear. “Isso vem se per­den­do”, com­ple­tou.

“Emb­o­ra eu fale que ven­ho reg­is­tran­do o final de uma era, ain­da tem mui­ta coisa para reg­is­trar. É impres­sio­n­ante a força do povo, prin­ci­pal­mente, as mul­heres que são a força motriz do Vale”.

Para Joana Cor­rêa, que vai ser a medi­ado­ra do encon­tro, o apri­mora­men­to téc­ni­co dos artis­tas vem colab­o­ran­do para a preser­vação de parte da cul­tura pop­u­lar da região. Ela é car­i­o­ca, mas se mudou para o alto do Jequit­in­hon­ha de onde acom­pan­ha os tra­bal­hos de artis­tas locais. O encon­tro vir­tu­al, na visão dela, vai per­mi­tir tam­bém o debate de uma arte fei­ta por mul­heres, que orig­i­nal­mente era pro­duzi­da por home­ns. Como antropólo­ga, ela disse que a ação do tem­po não con­segue preser­var tudo e, cada ger­ação, traz uma nova con­tribuição. “Eu não ten­ho um olhar neg­a­ti­vo com relação a essas mudanças. Os jovens vão encon­trar os seus cam­in­hos. O que tem hoje de pro­dução cerâmi­ca no Vale do Jequit­in­hon­ha em relação há 20 anos, é infini­ta­mente mais amp­lo e com­plexo”, obser­vou, con­cor­dan­do com Lori, que no caso das ben­zedeiras isso é mais difí­cil.

Encontro

Além de Socor­ro Rodrigues e do o fotó­grafo Lori Figueiró o encon­tro vai ter a pre­sença da ceramista Ducar­mo Bar­bosa, de Minas Novas e Tur­ma­li­na, em Minas Gerais e da ativista cul­tur­al e con­gadeira quilom­bo­la Sanete Esteves de Sousa, do Quilom­bo Mocó dos Pre­tos, em Beri­lo, tam­bém em Minas. Sanete vai mostrar tam­bém os aspec­tos inter­secções soci­ais e raci­ais que se mis­tu­ram nos desafios de ser lid­er­ança e artista da cul­tura pop­u­lar. “O Vale sem­pre foi trata­do como muito cabo­clo, mas, na ver­dade, tem uma tradição negra, da região das Minas fun­da­da por uma pop­u­lação majori­tari­a­mente de origem africana. Essa tradição muitas vezes é apa­ga­da. A Sanete traz essa força e muito raiz do Vale”, disse Joana em entre­vista à Agên­cia Brasil.

Livro

O encon­tro vai cel­e­brar ain­da o lança­men­to da segun­da edição do livro Mul­heres do Vale, sub­stan­ti­vo fem­i­ni­no, de Lori Figueiró, pelo Cen­tro de Cul­tura Memo­r­i­al do Vale, no Ser­ro. |Além de fotos, a pub­li­cação traz depoi­men­tos das pes­soas que fazem algum tipo de tra­bal­ho, que segun­do o autor, deve ser preser­va­do e poe­mas sobre elas. “É uma seleção de imagem de um vale mais tradi­cional e mais preser­va­do. As casas com seus fogões de lenha, as pare­des revesti­das de ima­gens sacras mis­tu­radas com fotografias dos famil­iares, As ben­zedeiras, as mul­heres que foram parteiras, as artesãs. O livro tem esse con­jun­to de ima­gens mais tradi­cionais do vale”, rev­el­ou. A primeira edição foi em 2019.

livro_mulheres_2021

Repro­dução: Mul­heres do Vale está em sua segun­da edição — Lori Figueiró

 

Edição: Clau­dia Fel­czak

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d