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Entenda o que é o transtorno do espectro autista

Repro­dução: © Michal Parzuchowski/Pixabay

Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo é celebrado neste dia 2


Publicado em 01/04/2024 — 11:35 Por Vitor Abdala — Repórter da Agência Brasil — Rio de Janeiro

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A infân­cia e a ado­lescên­cia, em Vol­ta Redon­da, no sul flu­mi­nense, foram difí­ceis para Ricar­do. Ele não con­seguia con­ver­sar com out­ras pes­soas da sua idade e evi­ta­va ambi­entes muito cheios. Era incom­preen­di­do pelos cole­gas e, por não con­seguir se entur­mar, foi víti­ma de bul­ly­ing.

“Eu sem­pre tive a com­preen­são de que eu era difer­ente. Que eu não con­seguia faz­er as mes­mas coisas que as pes­soas fazi­am. Falavam que eu era cha­to, enjoa­do, anti­s­so­cial”, relem­bra ele. “Eu acha­va que era só isso. Não imag­i­na­va que tivesse um diag­nós­ti­co para isso”.

Ricar­do Ful­go­ni hoje é juiz de dire­ito e atua na Justiça estad­ual do Paraná, onde tomou posse em 2022, pouco depois de desco­brir o moti­vo de ter tan­ta difi­cul­dade para se rela­cionar com out­ras pes­soas.

“Os anos foram pas­san­do. Na vida adul­ta, eu, com a com­preen­são de que era difer­ente, fui seguin­do min­ha vida. Sabia que não con­seguia faz­er algu­mas coisas, mas fui seguin­do, crian­do estraté­gias para super­ar as min­has difi­cul­dades”.

Quan­do chegou a pan­demia de covid-19, ele ain­da era ofi­cial de Justiça e se prepar­a­va para o con­cur­so da mag­i­s­tratu­ra. A mudança de roti­nas, provo­ca­da pelo iso­la­men­to social, prej­u­di­cou seu crono­gra­ma de estu­dos e isso o afe­tou muito.

“Eu tin­ha provas já mar­cadas e eu esta­va com um crono­gra­ma de estu­dos muito bem desen­hado. Eu sem­pre fui muito ape­ga­do ao plane­ja­men­to, ao crono­gra­ma, à pro­gra­mação. Pre­ciso dis­so para me sen­tir con­fortáv­el. Impre­vis­tos sem­pre foram muito difí­ceis para mim. E a pan­demia foi uma que­bra de roti­na gigan­tesca. Eu tin­ha o roteiro todo traça­do, com as datas das provas que eu ia faz­er e aqui­lo me der­rubou”.

Afe­ta­do pelas grandes mudanças e sem von­tade de sair da cama, Ricar­do pen­sou que esta­va com depressão, procurou aju­da profis­sion­al e começou a se tratar com anti­de­pres­sivos. Mas isso não resolveu o prob­le­ma.

“Depois de vários meses, nes­sas idas e vin­das, ten­tan­do enten­der o que esta­va acon­te­cen­do comi­go, veio a sug­estão de que essas min­has crises de ficar de cama o dia inteiro pode­ri­am não ser decor­rentes da depressão, mas ser algo típi­co do autismo. Tem até um nome para isso: shut­down, que é o desliga­men­to. Quan­do você está num nív­el de sobre­car­ga sen­so­r­i­al muito forte, seu cor­po sim­ples­mente desli­ga”.

Diagnóstico

O diag­nós­ti­co foi um choque, ini­cial­mente, para Ricar­do. Ele tin­ha a visão de que o autista era uma pes­soa inca­paz, que não con­seguia tra­bal­har e que depen­dia da família. Não era o seu caso, ele tra­bal­ha­va des­de os 18 anos, quan­do se tornou servi­dor públi­co do INSS.

“Então pas­sei por uma avali­ação neu­rop­si­cológ­i­ca e veio a con­fir­mação. Nesse proces­so, eu pas­sei a estu­dar o tema e, quan­do eu come­cei a ler sobre o que era o autismo, os sin­tomas, as car­ac­terís­ti­cas, esta­va ali um man­u­al de instruções da min­ha vida. Estavam expli­cadas todas as difi­cul­dades que eu tive ao lon­go da vida. O diag­nós­ti­co foi lib­er­ta­dor porque tirou de mim toda a car­ga de cul­pa que eu car­rega­va, de ser anti­s­so­cial, ser cha­to, ser enjoa­do”, expli­cou.

Mes­mo com dúvi­das sobre se con­seguiria tornar-se juiz depois do diag­nós­ti­co, ele seguiu em frente e foi aprova­do no con­cur­so. “Mui­ta gente me ques­tiona. Para que você quer saber esse diag­nós­ti­co ago­ra na vida adul­ta, colo­car esse rótu­lo de autista. Bem, rótu­los eu tive a vida inteira. Fui sem­pre rotu­la­do de cha­to, enjoa­do, anti­s­so­cial, rótu­los erra­dos que eu tive a vida inteira. Se eu falar aber­ta­mente que sou autista, pelo menos vão me colo­car o rótu­lo cor­re­to”.

Nes­ta terça-feira (2), cel­e­bra-se o Dia Mundi­al de Con­sci­en­ti­za­ção sobre o Autismo, cri­a­do em 2007 pela Orga­ni­za­ção das Nações Unidas (ONU), com o obje­ti­vo de levar infor­mação à pop­u­lação e reduzir o pre­con­ceito con­tra indi­ví­du­os que apre­sen­tam o transtorno do espec­tro autista (TEA).

“O transtorno do espec­tro do autismo é uma condição do desen­volvi­men­to neu­rológi­co atípi­co, que se man­i­fes­ta nos anos ini­ci­ais do desen­volvi­men­to e que acar­reta atipi­ci­dade nas áreas de inter­ação social e de comu­ni­cação social”, expli­ca o neu­rop­sicól­o­go May­ck Hartwig, que tra­bal­ha com o atendi­men­to clíni­co de adul­tos autis­tas.

O juiz Ricar­do Ful­go­ni é uma das pes­soas que tiver­am um diag­nós­ti­co tar­dio de TEA, mas é pos­sív­el saber se a pes­soa tem essa condição logo no iní­cio da infân­cia. Segun­do Hartwig, os primeiros sinais do autismo já podem ser perce­bidos a par­tir dos 18 meses de idade.

“O diag­nós­ti­co do autismo é feito de for­ma mul­ti­dis­ci­pli­nar. Envolve tan­to um médi­co espe­cial­ista, que é geral­mente um psiquia­tra ou um neu­rol­o­gista; o neu­rop­sicól­o­go, que vai faz­er tam­bém uma avali­ação do com­por­ta­men­to; e pode incluir tam­bém out­ros profis­sion­ais da área de saúde que têm uma capac­i­tação para iden­ti­fi­cação do autismo”, expli­ca. “Em alguns casos, já é pos­sív­el haver uma indi­cação diag­nós­ti­ca e o encam­in­hamen­to para ter­apia. Em out­ros casos é mais difí­cil con­seguir faz­er um diag­nós­ti­co pre­coce”.

Lucinete Andrade desco­briu que sua fil­ha, Mayara, era autista quan­do a meni­na tin­ha cer­ca de dois anos de idade.

“Quan­do você recebe esse diag­nós­ti­co, primeira­mente você tem mui­ta inse­gu­rança em relação ao futuro do seu fil­ho. Depois, você pas­sa a ter inse­gu­rança em relação ao desen­volvi­men­to dele, se ele vai con­seguir aces­sar um serviço, uma esco­la, uma profis­sion­al­iza­ção. Então é uma con­stante inse­gu­rança”, con­ta. “Aque­la primeira expec­ta­ti­va que você tin­ha na mater­nidade não existe mais. Então é pre­ciso aceitar a situ­ação do seu fil­ho e enten­der que você pode ajudá-lo muito mais se enten­der e aceitar essas difer­enças”.

Depois de rece­ber o diag­nós­ti­co e aceitar a situ­ação da fil­ha, Lucinete Andrade pas­sou a ten­tar aju­dar não só a fil­ha como tam­bém out­ras pes­soas que não têm condições de pagar por trata­men­tos e ter­apias.

Hoje Mayara tem 20 anos e Lucinete pre­side a Asso­ci­ação Brasileira de Autismo, Com­por­ta­men­to e Inter­venção (Abraci-DF), que ofer­ece ter­apia ABA (Análise do Com­por­ta­men­to Apli­ca­da) para 130 cri­anças e ado­les­centes do Dis­tri­to Fed­er­al.

Há, segun­do o neu­rop­sicól­o­go May­ck Hartwig, três níveis de autismo, que definem a neces­si­dade de suporte que o autista neces­si­tará ao lon­go da vida. Uma pes­soa com nív­el 1, por exem­p­lo, só pre­cisa de um leve suporte. Já uma diag­nos­ti­ca­da com o nív­el 3 pre­cisa de suporte sub­stan­cial.

“O autismo hoje é com­preen­di­do como um espec­tro de man­i­fes­tação fenotípi­ca bas­tante het­erogênea, ou seja, exis­tem várias man­i­fes­tações difer­entes do autismo. E essas man­i­fes­tações ocor­rem tam­bém com sinais mais ou menos evi­dentes em algu­mas pes­soas”, pon­tua Hartwig.

Além da difi­cul­dade para se comu­nicar e inter­a­gir com out­ras pes­soas, que é comum a todos os autis­tas, o TEA tam­bém pode ter out­ras man­i­fes­tações, como com­por­ta­men­tos repet­i­tivos, inter­ess­es restri­tos, prob­le­mas em lidar com estí­mu­los sen­so­ri­ais exces­sivos (som alto, cheiro forte, mul­ti­dões), difi­cul­dade de apren­diza­gem e adoção de roti­nas muito especí­fi­cas.

“É um transtorno que tem um impacto muito grande, porque ele afe­ta prin­ci­pal­mente a cog­nição social, os pilares da lin­guagem. Esse espec­tro tem diver­sas nuances que com­põem o quadro. E é um quadro het­erogê­neo. De um lado você tem autis­tas com altas habil­i­dades e out­ros com defi­ciên­cia int­elec­tu­al. Alguns com hiper­a­tivi­dade e out­ros mais cal­mos”, afir­ma Luciana Brites, espe­cial­ista em Dis­túr­bios do Desen­volvi­men­to e coau­to­ra do livro Mentes Úni­cas.

Luciana, que tam­bém é dire­to­ra do Insti­tu­to Neu­rosaber, volta­do para a dis­sem­i­nação de con­hec­i­men­to sobre neu­rode­sen­volvi­men­to na infân­cia e ado­lescên­cia, afir­ma que o dia 2 de abril é uma data impor­tante para se com­bat­er o pre­con­ceito e infor­mar a pop­u­lação sobre questões como o diag­nós­ti­co pre­coce. “Quan­do a gente con­segue faz­er a detecção antes dos três anos de vida, a gente con­segue, muitas vezes, mudar a real­i­dade dessa cri­ança, desse ado­les­cente, desse adul­to”.

Segun­do ela, a data é impor­tante tam­bém para ressaltar a importân­cia da inclusão das cri­anças com autismo nas esco­las e do aces­so delas ao trata­men­to. “As políti­cas públi­cas de edu­cação e saúde pre­cisam ser muito bem sus­ten­tadas para que a gente con­si­ga avançar no desen­volvi­men­to dessas cri­anças, que vão virar ado­les­centes e adul­tos”.

May­ck Hartwig desta­ca que, no Brasil, as pes­soas com autismo ain­da encon­tram desafios impor­tantes, não só em relação ao aces­so a trata­men­to e ter­apias, como tam­bém à sua inserção nas uni­ver­si­dades e no mer­ca­do de tra­bal­ho, quan­do adul­tas.

“Ain­da existe um desafio impor­tante em relação ao aces­so a ter­apias e trata­men­tos em equipa­men­tos públi­cos. Então boa parte das pes­soas vai recor­rer a trata­men­tos clíni­cos par­tic­u­lares. Aque­les que estão em situ­ação de vul­ner­a­bil­i­dade social e finan­ceira não con­seguem aces­sar esse trata­men­to. Tão impor­tante quan­to o diag­nós­ti­co é o aces­so ao suporte clíni­co, social, de inserção e per­manên­cia nas uni­ver­si­dades, de inserção e per­manên­cia no mer­ca­do de tra­bal­ho”.

Ain­da não se sabe o que causa o autismo. Pesquisas mostram, no entan­to, que essa condição do neu­rode­sen­volvi­men­to atípi­co é mul­tifa­to­r­i­al e ocorre pela inter­ação de com­po­nentes genéti­cos e ambi­en­tais.

Edição: Valéria Aguiar

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