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Enem 2020 tem novidades em acessibilidade

braile

© Mar­cel­lo Casal Jr./Agência Brasil (Repro­dução)

Entre as novas medidas está a redação em braile


Pub­li­ca­do em 22/01/2021 — 05:45 Por Mar­i­ana Tokar­nia — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

Leitor de tela, redação em braile e cor­reção espe­cial das provas de par­tic­i­pantes autis­tas e sur­do­ce­gos são algu­mas das novi­dades do Exame Nacional do Ensi­no Médio (Enem) 2020 em ter­mos de aces­si­bil­i­dade. As medi­das somam-se a out­ras que vêm sendo ado­tadas pelo exame ao lon­go do anos, como video­pro­va em Lín­gua brasileira de Sinais (Libras) e provas com tex­tos e ima­gens ampli­a­dos. 

Ao todo, segun­do o Insti­tu­to Nacional de Estu­do e Pesquisas Edu­ca­cionais Aní­sio Teix­eira (Inep), cer­ca de 47 mil par­tic­i­pantes com algu­ma defi­ciên­cia ou transtorno fiz­er­am a inscrição no Enem 2020 e solic­i­taram atendi­men­to espe­cial­iza­do.

O leitor de tela e a redação em braile são deman­das anti­gas de pes­soas com algu­ma defi­ciên­cia visu­al, de acor­do com o inte­grante da Orga­ni­za­ção Nacional de Cegos do Brasil Lucas de Cas­tro Rodrigues. “O leitor de tela traz autono­mia. O can­dida­to mexe no com­puta­dor por si próprio. Escu­ta quan­tas vezes quis­er, con­tro­la veloci­dade e vol­ume de voz. O leitor dá total con­t­role da pro­va ao par­tic­i­pante”, diz.

Antes do leitor de tela, a opção para ess­es estu­dantes era con­tar com o auxílio para leitu­ra, opção que segue disponív­el para os can­didatos que assim solic­i­taram. A leitu­ra é fei­ta por profis­sion­ais capac­i­ta­dos para ler tex­tos e para descr­ev­er ima­gens. A desvan­tagem, segun­do Rodrigues, é que o can­dida­to depende desse profis­sion­al, que pode, por exem­p­lo, estar cansa­do no dia de apli­cação.

Out­ro recur­so novo é a redação escri­ta e cor­rigi­da no Sis­tema Braile. De acor­do com o Inep, na apli­cação, o par­tic­i­pante pode uti­lizar mate­r­i­al próprio, como máquina Perkins, reglete, punção, soroban ou cubar­it­mo e fol­has bran­cas para faz­er a redação. Rodrigues expli­ca que essa escri­ta tam­bém traz maior autono­mia. A alter­na­ti­va, que tam­bém segue disponív­el, é que o par­tic­i­pante dite a redação em voz alta para que seja tran­scri­ta em papel por um profis­sion­al capac­i­ta­do.

Para Rodrigues, a medi­da é pos­i­ti­va e aux­il­ia can­didatos que dom­i­nam o braile. Mas, como essa não é uma real­i­dade entre todas as pes­soas com defi­ciên­cia visu­al, para que a pro­va seja ain­da mais inclu­si­va ele defende que haja a pos­si­bil­i­dade que os can­didatos dig­item eles mes­mos a redação no com­puta­dor.

Banca especial

Out­ra mudança nes­ta edição é que par­tic­i­pantes autis­tas e sur­do­ce­gos terão ban­ca espe­cial para cor­reção de suas provas. De acor­do com o Inep, o exame rece­beu a inscrição de 1.676 can­didatos que solic­i­taram atendi­men­to espe­cial­iza­do por autismo e de 134, por sur­do­cegueira.

“Esse olhar per­mite que a sociedade ven­ha a enx­er­gar essa pop­u­lação da maneira como ela merece ser enx­er­ga­da, como pes­soas, cidadãos que pagam impos­tos e que estão ali para poder incluir e somar. O Enem é uma pro­va pela qual eles vão se capac­i­tar para uma fac­ul­dade e vão ser, na min­ha opinião, profis­sion­ais que só têm a somar para a sociedade inteira”, diz a  pres­i­dente da Asso­ci­ação Integra­da Mães de Autis­tas da Paraí­ba, Elaine Araújo.

Elaine expli­ca que cada indi­ví­duo com autismo é difer­ente e tem difer­ente grau de acome­ti­men­to. “Há aque­le indi­ví­duo que vai pre­cis­ar de mais tem­po. Há aque­le indi­ví­duo que vai pre­cis­ar de uma tradução mel­hor do que está pro­pon­do aque­la questão. Não é que sejam inca­pazes, mas há méto­dos para eles enten­derem. Vão pre­cis­ar dessa empa­tia da ban­ca para poder anal­is­ar e ver que cada um é difer­ente. Nós somos seres difer­entes e eles têm isso como um estig­ma. As pes­soas pre­cisam real­mente enten­der e averiguar cada situ­ação para poder sim dar a essa pes­soa a chance de realizar uma pro­va e de se sair bem nes­sa pro­va, para mim isso é pura empa­tia”, afir­ma.

Ela con­ta ain­da que se emo­cio­nou com o tema da redação deste anoO estig­ma asso­ci­a­do às doenças men­tais na sociedade brasileira. “É necessário que a sociedade e ess­es jovens que vão entrar em fac­ul­dades e em profis­sões tão difer­en­ci­adas ten­ham esse entendi­men­to de algo tão cotid­i­ano, de pes­soas que são estigma­ti­zadas por terem sín­dromes, transtornos, doenças men­tais. Tem que ter respeito e empa­tia. Achei de uma relevân­cia que me deixou emo­ciona­da”.

Inclusão

Ape­sar das medi­das ado­tadas, de acor­do com Rodrigues, o Enem não é uma pro­va total­mente inclu­si­va, até mes­mo porque a exclusão vem des­de muito antes na vida das pes­soas com algu­ma defi­ciên­cia. “O Enem é uma pro­va bas­tante exclu­dente. Isso é bas­tante difun­di­do, não só entre as pes­soas com defi­ciên­cia, mas entre todas as mino­rias, porque a gente sofre defasagem em todo o ensi­no bási­co. Não só no ensi­no, mas em várias out­ras áreas”, acres­cen­ta.

A estu­dante Júlia Dias do Anjos, 18 anos, é uma das can­di­datas com baixa visão que está fazen­do o Enem. Ela solic­i­tou auxílio para leitu­ra e pro­va ampli­a­da e ficou sat­is­fei­ta com o atendi­men­to. Ela con­ta, no entan­to, que é exceção, que entre out­ros ami­gos cegos ou com baixa visão é uma das pou­cas que fez a pro­va. A fal­ta de disponi­bil­i­dade de mate­ri­ais de estu­do volta­do especi­fi­ca­mente para ess­es estu­dantes e a fal­ta de incen­ti­vo são, segun­do ela, alguns dos prin­ci­pais entrav­es.

“Ten­ho muitos ami­gos com baixa visão e cegueira. Eu não sei se eles têm medo de não ter os recur­sos [de aces­si­bil­i­dade]. Eu sem­pre falo para prestar­mos o exame e ninguém se man­i­fes­ta, sem­pre fala­va na esco­la e as pes­soas não se inter­es­savam. Isso me deixa muito triste”, diz, e acres­cen­ta: “Tem gente que não é incen­ti­va­da. A min­ha mãe sem­pre fala: se você acha que pode faz­er, você está apta a isso. Vá e faça. Não ten­ha medo. Se é uma coisa que tem von­tade, vá e faça”.

Júlia quer cur­sar bio­med­i­c­i­na ou matemáti­ca. “Infe­liz­mente, o que me deixa mais pre­ocu­pa­da é que falam que geral­mente os lab­o­ratórios das uni­ver­si­dades não são prepara­dos para quem tem baixa visão. Mas quem sabe isso não mudou? Ou, então, eu pas­so a faz­er a difer­ença porque o mun­do, a gente o adap­ta”.

Enem 2020

O Enem começou a ser apli­ca­do no últi­mo domin­go (17) e segue no próx­i­mo dia 24. No primeiro dia de apli­cação, o exame teve uma abstenção recorde de 51,5%. Do total de 5.523.029 inscritos para a ver­são impres­sa do Enem, 2.842.332 fal­taram às provas. Nes­ta edição, o Enem terá uma ver­são impres­sa e uma dig­i­tal, real­iza­da de for­ma pilo­to para 96 mil can­didatos, nos dias 31 de janeiro e 7 de fevereiro.

As medi­das de segu­rança, ado­tadas em relação à pan­demia do novo coro­n­avírus, serão as mes­mas tan­to no Enem impres­so quan­to no dig­i­tal. Haverá, por exem­p­lo, um número reduzi­do de estu­dantes por sala, para garan­tir o dis­tan­ci­a­men­to entre os par­tic­i­pantes. Durante todo o tem­po de real­iza­ção da pro­va, os can­didatos estarão obri­ga­dos a usar más­caras de pro­teção da for­ma cor­re­ta, tapan­do o nar­iz e a boca, sob pena de serem elim­i­na­dos do exame. Além dis­so, o álcool em gel estará disponív­el em todos os locais de apli­cação.

Os can­didatos que tiverem sin­tomas de covid-19 e de out­ras doenças infec­to­con­ta­giosas não devem com­pare­cer aos locais de pro­va. Devem comu­nicar ao Insti­tu­to Nacional de Estu­dos e Pesquisas Edu­ca­cionais Aní­sio Teix­eira (Inep) pela Pági­na do Par­tic­i­pante. Ess­es can­didatos terão dire­ito à reapli­cação nos dias 23 e 24 de fevereiro.

Veja as novi­dades do Enem 2020 em ter­mos de aces­si­bil­i­dade:

• Atendi­men­tos especí­fi­cos ago­ra fazem parte do atendi­men­to espe­cial­iza­do.

• Par­tic­i­pantes com cegueira, sur­do­cegueira, baixa visão ou visão monoc­u­lar poderão solic­i­tar recur­so para uso de leitor de tela.

• Três guias-intér­pretes farão atendi­men­to ao par­tic­i­pante sur­do­cego.

• Tem­po adi­cional de 60 min­u­tos para par­tic­i­pantes lac­tantes que solic­itarem atendi­men­to espe­cial­iza­do no sis­tema de inscrição, des­de que com­pro­vem a neces­si­dade, con­forme pre­vis­to em edi­tal, e lev­em o lactente e o acom­pan­hante no dia da apli­cação.

• Par­tic­i­pantes com doenças infec­to­con­ta­giosas dev­erão entrar em con­ta­to com o Inep para com­pro­vação de sua condição e não dev­erão com­pare­cer ao local de provas. Poderão realizar a pro­va na reapli­cação.

• Par­tic­i­pantes autis­tas e sur­do­ce­gos terão ban­ca espe­cial para cor­reção de suas provas.

• O par­tic­i­pante que escr­ev­er sua redação em braile terá suas provas cor­rigi­das no Sis­tema Braile.

• O par­tic­i­pante transexual/travesti que não solic­i­tou ou teve sua solic­i­tação pelo nome social inde­feri­da poderá escol­her o ban­heiro que dese­ja uti­lizar no dia da apli­cação.

Edição: Graça Adju­to


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