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Consumo de álcool antes de dormir pode prejudicar o sono

Repro­dução: © Mar­cel­lo Casal Jr / Agên­cia Brasil

O hábito pode aumentar ronco e causar apneia


Pub­li­ca­do em 09/07/2022 — 07:55 Por Lud­mil­la Souza — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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A cachac­in­ha antes do almoço e antes de dormir é uma tradição para o mineiro Gus­ta­vo Mot­ta, de 43 anos. “O prob­le­ma é que eu acabei trans­for­man­do isso em uma ‘ben­gala’ para con­seguir dormir, já que ten­ho sérios prob­le­mas para dormir. Ansiedade, TDAH e depressão fazem parte da min­ha real­i­dade. Diag­nos­ti­ca­do, mas não med­ica­do”, desabafa o jor­nal­ista que mora em Cabo Frio (RJ). 

Gus­ta­vo disse que bebe todas as noites nos últi­mos 20 anos. “Des­de 2001, quan­do tive um prob­le­ma no joel­ho que acabou com min­ha car­reira na dança, eu era dançari­no e ator na época, foi quan­do meus prob­le­mas psi­cológi­cos se tornaram mais fortes”. Ele con­ta que toma aprox­i­mada­mente meio litro de aguardente por dia.

Consumo de álcool ajuda a dormir, mas prejudica a qualidade do sono
Repro­dução: Con­sumo de álcool aju­da a dormir, mas prej­u­di­ca a qual­i­dade do sono — Gus­ta­vo Motta/Arquivo pes­soal

Emb­o­ra o álcool con­si­ga traz­er relax­am­en­to e acel­er­ar o adormec­i­men­to, o hábito de beber antes de dormir prej­u­di­ca a qual­i­dade do sono, aler­ta o bio­médi­co e pesquisador do Insti­tu­to do Sono, Gabriel Natan Pires.

“A cur­to pra­zo, o álcool altera a arquite­tu­ra do sono, frag­men­tan­do este sono, pio­ra o ron­co e a apneia, e ain­da a própria sen­sação de ter bebido demais e a ressaca pio­ram o sono tam­bém”.

Gus­ta­vo disse que sente as con­se­quên­cias do hábito no dia a dia. “Sin­to fal­ta de força físi­ca, cansaço, fora os out­ros prob­le­mas como pan­cre­atite, infla­mação no fíga­do e até uma trom­bose. Não ten­ho dores de cabeça. Ron­ca­va muito, mas fiz algu­mas cirur­gias no nar­iz para evi­tar o ron­co”.

Consequências

O espe­cial­ista expli­ca as con­se­quên­cias a cur­to pra­zo que o hábito de tomar umas dos­es para dormir causam, como por exem­p­lo, prej­u­dicar o sono REM. [últi­mo está­gio do ciclo do sono, dura cer­ca de 20 min­u­tos cada e é nele que os son­hos acon­te­cem.] e oca­sion­ar muitos des­pertares. Com isso, é comum acor­dar cansa­do na man­hã seguinte.

“O sono induzi­do por álcool não é nat­ur­al, não serve como um sono reparador, não serve para des­can­so. Se a pes­soa acor­da com a sen­sação de que está mais cansa­do do que quan­do foi dormir é a pro­va de que o sono não foi ade­qua­do. O álcool nun­ca é ade­qua­do para induzir sono”.

Pires expli­ca ain­da sobre out­ra con­se­quên­cia a cur­to pra­zo: a apneia do sono. “A apneia do sono é aque­la doença em que a pes­soa tem pausas recor­rentes na res­pi­ração durante a noite. O álcool relaxa a mus­cu­latu­ra da gar­gan­ta. Então a pes­soa que ron­ca quan­do está sob o efeito do álcool vai ron­car mais, porque a mus­cu­latu­ra da gar­gan­ta vai ficar mais flá­ci­da”. Para quem ron­ca, o álcool é muito muito pior, dev­i­do a apneia.

“A depen­der da quan­ti­dade de álcool que a pes­soa toma, a ressaca vai pio­rar o sono, já que, com ressaca e dor de cabeça ninguém con­segue dormir dire­ito, ain­da tem que lev­an­tar no meio da noite para uri­nar várias vezes. Então tem os efeitos do álcool agin­do sobre o metab­o­lis­mo do cor­po, afe­tan­do o sono”.

Segun­do o lev­an­ta­men­to Vig­ilân­cia de Fatores de Risco e Pro­teção para Doenças Crôni­cas por Inquéri­to Tele­fôni­co (Vig­i­tel), em 2021, con­sumo de álcool com fre­quên­cia foi de 18,3% para a pop­u­lação ger­al, indi­can­do que, após o aumen­to vis­to em 2020, com prevalên­cia de 20,9%, no primeiro ano da pan­demia, o con­sumo abu­si­vo retornou aos pata­mares perce­bidos des­de 2010.

Estágios do sono

O sono acon­tece em uma sequên­cia pré-deter­mi­na­da. A primeira fase é chama­da não REM [do inglês: rapid eye move­ment, ou movi­men­to rápi­do dos olhos em por­tuguês] e tem três está­gios. Em segui­da vem o sono REM, quan­do acon­te­cem os son­hos. “O sono não REM, que é esse que começa o sono, é mais pro­fun­do. Difer­ente­mente do que as pes­soas pen­sam, o sono ruim é um sono super­fi­cial, em que o cére­bro está muito ati­vo. Mas no sono não REM, o cére­bro está bem lento”.

O bio­médi­co expli­ca que durante o sono não REM existe um neu­ro­trans­mis­sor no cére­bro que pre­dom­i­na, chama­do GABA [sigla do inglês Gam­ma-AminoBu­tyric Acid — áci­do gama-aminobutíri­co]. Este neu­ro­trans­mis­sor reduz a ativi­dade dos neurônios de várias regiões do cére­bro, fazen­do que fun­cionem mais lenta­mente. Por isso, é lib­er­a­do pelo organ­is­mo no iní­cio do sono.

“Então quan­do o álcool entra no nos­so cor­po, ele aca­ba fazen­do o mes­mo efeito que o GABA faria. Por diminuir a função das regiões que pro­movem o des­per­tar, o álcool tam­bém pode pro­mover sono”.

Mas, não só no sono, mas em qual­quer função do nos­so cor­po, detal­ha o médi­co. “Quan­do alguém  toma qual­quer bebi­da alcoóli­ca, ela primeiro vai inibindo funções como a social, então a pes­soa fica desinibi­da. Depois vai per­den­do o con­t­role sobre a coor­de­nação moto­ra, depois da função da memória e até que pode chegar ao caso de intox­i­cação alcoóli­ca, quan­do perde o con­t­role da res­pi­ração, tudo isso porque o álcool vai inibindo essas funções”.

Tolerância perigosa

Além de prej­u­dicar a qual­i­dade do sono e aumen­tar o ron­co e a apneia, o hábito de beber para dormir pode pio­rar com o tem­po. “O sono vai fican­do cada vez menos reparador e quan­do começa a se esta­b­ele­cer a dependên­cia, a ansiedade de ter que beber antes de dormir, já pio­ra o sono”, aler­ta o médi­co.

Gabriel Natan Pires infor­mou que, com o tem­po, a tol­erân­cia à bebi­da aumen­ta, o que pode ser perigoso. “No começo, por exem­p­lo, de um padrão de uso de álcool, a pes­soa tin­ha que tomar uma taça de vin­ho para dormir. Depois de um tem­po, uma taça de vin­ho já não faz o efeito que a pes­soa pre­cisa. Ela pre­cisa tomar uma gar­rafa de vin­ho para dormir. Depois de um tem­po não fun­ciona mais. E esse padrão, de ter que aumen­tar a dose para con­seguir o mes­mo efeito é perigoso, porque a medi­da em que há o aumen­to, há o peri­go de coma ou mes­mo uma para­da res­pi­ratória e por aí vai”.

Gus­ta­vo con­ta que tam­bém começou com pou­cas dos­es. “Come­cei com pouco e fui aumen­tan­do. Acho que a capaci­dade de aguen­tar beber mais do que os out­ros, sem ter prob­le­mas com ressaca, fiz­er­am esse hábito se tornar tão perigoso”.

O jor­nal­ista rela­ta que já ten­tou mudar o hábito de beber para dormir. “Fiz trata­men­to psiquiátri­co, mas não con­segui dar seg­men­to. É muito com­pli­ca­do enten­der o que acon­tece com a cabeça da gente. Eu já ten­tei várias vezes, mas não con­segui. Hoje, sem per­spec­ti­va na vida e sem pen­sar em futuro, está ain­da pior. Mas acred­i­to que pos­so parar um dia”.

Mudança de hábito

Na visão do bio­médi­co Gabriel Natan Pires, a pes­soa que não con­segue dormir sem tomar álcool vive uma espé­cie de condi­ciona­men­to. De acor­do com o grau de dependên­cia, pode ter uma sín­drome de abstinên­cia, caso deci­da inter­romper esta roti­na. Nesse sen­ti­do, é necessário aju­da médi­ca e psi­cológ­i­ca para se livrar deste hábito.

“O uso de álcool é uma dependên­cia quími­ca. Então, é sem­pre muito mel­hor que a gente aposte na pre­venção”, final­i­zou.

Edição: Aline Leal

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