...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Noticias / Rubem Confete, o Griô do Samba, é memória viva do carnaval carioca

Rubem Confete, o Griô do Samba, é memória viva do carnaval carioca

Repro­dução: © Tânia Rêgo

Agência Brasil entrevistou radialista que conviveu com ícones do samba


Pub­li­ca­do em 12/02/2023 — 08:24 Por Vitor Abdala – Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

ouvir:

No mês em que a ale­gria toma con­ta das ruas por causa do car­naval, a Agên­cia Brasil pub­li­ca a série de entre­vis­tas Patrimônios do Car­naval, com per­son­al­i­dades que expres­sam a história, a cul­tura e o espíri­to da fes­ta que mobi­liza comu­nidades de Norte a Sul do país. Neste domin­go (11), a entre­vista é com o car­i­o­ca Rubem Con­fete.

Na cul­tura africana, griô (ou gri­ot) é aque­le que man­tém viva a memória do grupo, que con­ta as histórias e mitos daque­le povo. É exata­mente esse o papel que o radi­al­ista Rubem Con­fete tem em relação à comu­nidade do sam­ba e ao car­naval car­i­o­ca.

Rio de Janeiro, 09/02/2023 - Rubem Confete, compositor, jornalista, roteirista, teatrólogo, radialista, cantor, ativista e estudioso das questões afrobrasileiras; no Armazém do Senado, na Lapa, centro da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.
Repro­dução: Rubem Con­fete tam­bém é um estu­dioso das questões afro­brasileiras  — Tânia Rêgo/Agência Brasil

Não à toa, rece­beu a alcun­ha de Griô do Sam­ba. Aos 86 anos, con­viveu com pes­soas como Pixin­guin­ha, Dona Ivone Lara, Jamelão, Xangô da Mangueira e Can­deia, de quem ouviu vários relatos. Mas tam­bém viveu suas próprias histórias, que se con­fun­dem com a história do Rio de Janeiro e da mais famosa fes­ta cul­tur­al do país.

Sua memória não deixa lem­brar exata­mente quan­do o sam­ba entrou em sua vida, mas parece que o rit­mo esteve com ele des­de o nasci­men­to, na rua Dona Clara, em Madureira, na zona norte da cidade do Rio, em 7 de dezem­bro de 1936.

Con­fete viu nascer a tradi­cional Império Ser­ra­no; brin­cou no car­naval de rua de Madureira entre as décadas de 1940 e 1950; e par­ticipou de des­files na Rio Bran­co, na déca­da de 1960, quan­do as esco­las de sam­ba só con­tavam com um car­ro alegóri­co e não reu­ni­am nem 500 pes­soas na aveni­da.

Ele tam­bém viven­ciou a trans­for­mação do car­naval car­i­o­ca de uma sin­gela fes­ta pop­u­lar no “Maior Show da Ter­ra” — expressão que ele tira do refrão do con­sagra­do sam­ba É hoje (Didi e Mestrin­ho) — a par­tic­i­par de cober­turas por veícu­los como a Rádio Con­ti­nen­tal, a Rádio Nacional e a TV Globo.

Como com­pos­i­tor, nun­ca teve a sat­is­fação de assi­nar um sam­ba-enre­do em um des­file de car­naval car­i­o­ca, mas criou algu­mas canções de rel­a­ti­vo suces­so, como Pagode do Exorcista, que foi primeiro grava­do pelo par­ceiro Nei Lopes, em 1974, e regrava­do no mes­mo ano por Wil­son Simon­al em seu dis­co Dimen­são 75.

No ano seguinte, foi a vez de Xangô é de Baê, uma parce­ria com João Dona­to e Sid­ney da Con­ceição, grava­do ini­cial­mente por João Dona­to e depois regrava­do por Cae­tano Veloso e tam­bém por Joyce Moreno.

Rio de Janeiro, 09/02/2023 - Rubem Confete, compositor, jornalista, roteirista, teatrólogo, radialista, cantor, ativista e estudioso das questões afrobrasileiras; no Armazém do Senado, na Lapa, centro da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.
Repro­dução: Rubem Con­fete no Armazém do Sena­do, na Lapa, cen­tro da cidade. — Tânia Rêgo/Agência Brasil

Con­fete é tam­bém uma refer­ên­cia na cul­tura afro-brasileira, ten­do par­tic­i­pa­do da cri­ação da esco­la de sam­ba Quilom­bo, com Can­deia, e do Cen­tro Cul­tur­al Peque­na África, que fun­ciona na zona por­tuária car­i­o­ca.

A reportagem da Agên­cia Brasil con­ver­sou com o Griô do Sam­ba. Con­fi­ra a entre­vista:

Agên­cia Brasil: Como você foi parar no sam­ba?
Rubem Con­fete: Na rua onde eu nasci tin­ha um blo­co chama­do Unidos de Dona Clara. Aliás, nesse blo­co tam­bém saía a nos­sa queri­da Vil­ma Nasci­men­to, o Cisne da Pas­sarela, por­ta-ban­deira. E eu via a par­tic­i­pação da min­ha pri­ma Juraci, lá no comecin­ho do Império Ser­ra­no. Eu tin­ha 11, 12 anos. Via meu pri­mo Anice­to de Menezes, o Anice­to do Império [fun­dador da esco­la de sam­ba]. E eu, cri­ança, ado­les­cente, gosta­va muito de car­naval. Pega­va um ter­no vel­ho do papai e ia lá pro cen­tro de Madureira, onde é hoje a aveni­da Edgard Romero, para um car­naval de rua, com blo­cos.

A primeira vez que eu fui a uma esco­la de sam­ba, foi na Paz e Amor, em Ben­to Ribeiro. Eu devia ter uns 15 anos. Era uma sala. O seu Galdino, mestre-sala, dançan­do, os com­pos­i­tores can­tan­do. Depois eu fui no Inde­pen­dente da Ser­ra, fun­da­da pelo sogro da dona Ivone Lara [Alfre­do Cos­ta]. Aí eu fui já na condição de poeta. Eu fazia lá umas letras e o Ernani Mon­teiro musi­ca­va. Eu con­heci a dona Ivone naque­la época, em 1954, 1955. Mas a esco­la não pros­per­ou. Chega­va um cara, dava dois tiros pro alto e acaba­va o sam­ba. Depois eu desco­bri que aque­la esco­la não podia vin­gar, porque quan­do foi fun­da­do o Império Ser­ra­no, em 1947, foi acor­da­do que a esco­la de sam­ba que mel­hor se colo­casse seria a esco­la de sam­ba do local. Mas era um negó­cio muito pequeno. Esco­la de sam­ba saía com 30, 40 pes­soas. Quan­do saía com 100 pes­soas, era um absur­do. Éramos um tan­to quan­to mar­gin­al­iza­dos. Para você ofi­cializar uma esco­la de sam­ba, você tin­ha que ir a uma del­e­ga­cia local. Era assim que fun­ciona­va.

Rio de Janeiro - O radialista Rubem Confete foi o homenageado da escola Golfinhos do Rio de Janeiro, no desfile das Escolas de Samba Mirins na Sapucaí ( Tânia Rêgo/Agência Brasil )
Repro­dução: O Griô do sam­ba foi o hom­e­nagea­do da esco­la Golfin­hos do Rio de Janeiro, em 2018, no des­file das Esco­las de Sam­ba Mirins na Sapu­caí — Tânia Rêgo/Agência Brasil

Agên­cia Brasil: Mas mes­mo sendo de Madureira, redu­to do Império Ser­ra­no e da Portela, você acabou indo parar na Mangueira. Como isso acon­te­ceu?
Rubem Con­fete: Eu tin­ha um pouco receio de esco­la de sam­ba, porque era um pes­soal todo ele­gante. Eu não tin­ha esse poder aquis­i­ti­vo, então eu fica­va meio arredio. Eu era muito de fre­quen­tar bailes. E tin­ha um baile nas quar­tas-feiras no Clube Car­i­o­ca, que era no Está­cio. Eu esta­va lá dançan­do e chegou por lá o dire­tor de har­mo­nia Xangô da Mangueira, jun­to com o Galego e o Zam­be­ta. Eles me con­vi­daram pra sair na Mangueira. A Mangueira ensa­ia­va na Cerâmi­ca, numa quadra do lado de uma fábri­ca de cerâmi­ca, na rua Vis­conde de Niterói. O Ibrahim Sued, cro­nista social famoso, resolveu levar umas socialites para lá, inclu­sive a [então] primeira-dama Maria Tere­sa Goulart. Não tin­ha ban­heiros, então alu­garam dois bar­ra­cos, der­am um jeito, cri­aram um mic­tório pra home­ns e tam­bém um san­itário pra mul­heres. Era precário mes­mo. Daí eu des­filei na Mangueira. Foi o últi­mo des­file das esco­las no sen­ti­do da Pres­i­dente Wil­son, entra­va na Rio Bran­co, na Cinelân­dia e dis­per­sa­va na Almi­rante Bar­roso. Isso foi em 62. Eu dei lá um pas­so, fiz uma fir­u­la. Fui até fotografa­do pelo Wal­ter Fir­mo.

As esco­las de sam­ba eram peque­nas. Tin­ha só um car­ro alegóri­co, que rep­re­sen­ta­va o enre­do da esco­la. Era uma luta pra chegar no local do des­file. Saíam empurran­do aqui­lo des­de a Mangueira. Acho que, se tivessem 300 a 400 pes­soas, era muito. Mas tin­ha bate­ria, ala das baianas, mestre-sala e por­ta-ban­deira e algu­mas esco­las já começavam a ter algu­mas alas. Um dia, seu Natal­i­no José Nasci­men­to, o Natal da Portela, chegou pra mim e falou: “pois é. Não sei como você foi parar naque­la esco­la”.

Agên­cia Brasil: Ness­es primeiros des­files, você saiu como pas­sista. Mas você chegou a ter algum sam­ba seu na aveni­da?
Rubem Con­fete: Eu tive um bom sam­ba no Império da Tiju­ca, com o Dél­cio Car­val­ho, mas eu não enten­dia de políti­ca, então fomos cor­ta­dos.

Agên­cia Brasil: Mas já tin­ha dis­pu­ta de sam­ba-enre­do naque­la época?
Rubem Con­fete: Eles tin­ham as dis­putas deles lá. Tin­ha esco­la que não tin­ha dis­pu­ta, já chegavam com o sam­ba pron­to. Na Mangueira, os com­pos­i­tores ouvi­am os sam­bas um do out­ro e escol­hi­am um deles. Quem decidia eram os próprios com­pos­i­tores. Era algo muito democráti­co.

Rio de Janeiro, 09/02/2023 - Rubem Confete, compositor, jornalista, roteirista, teatrólogo, radialista, cantor, ativista e estudioso das questões afrobrasileiras; no Armazém do Senado, na Lapa, centro da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.
Repro­dução: Con­fete viven­ciou a trans­for­mação do car­naval car­i­o­ca de uma fes­ta pop­u­lar ao maior show da ter­ra Tânia Rêgo/Agência Brasil

Agên­cia Brasil: Você teve algu­mas com­posições que foram bem-suce­di­das. Como foi sua exper­iên­cia como com­pos­i­tor?
Rubem Con­fete: Eu fiz algu­mas com­posições, mas nun­ca me inter­es­sei muito, por causa de sociedade arrecadado­ra, de edi­tores. Pro sam­bista, era muito difí­cil. O Silas de Oliveira, do Império Ser­ra­no, autor de Aquarela Brasileira e out­ros suces­sos, saiu pelas ruas da cidade, per­cor­ren­do edi­toras, gravado­ras, para bus­car 500 cruzeiros pra com­prar os cader­nos de esco­la dos fil­hos. Todos dis­ser­am não. Quan­do o Silas fale­ceu, uma edi­to­ra musi­cal man­dou uma coroa de flo­res boni­ta, no val­or de 700 cruzeiros. Então, era muito difí­cil.

Assisti a mui­ta humil­hação de com­pos­i­tores. Isso me afas­tou muito desse negó­cio de com­por. Eu tin­ha muito receio das gravado­ras. Eu tin­ha uma col­u­na de músi­ca pop­u­lar no [jor­nal] A Tri­buna da Impren­sa. Eu vivia den­tro de gravado­ras. Eu ouvia o que eles falavam de sam­bis­tas. Era um pre­con­ceito tremen­do. Pen­sei: “não vou ficar nis­so, não”.

Agên­cia Brasil: Como foi que o sen­hor chegou ao João Dona­to e com­pôs Xangô é de Baê?
Rubem Con­fete: O Adel­zon [Alves] ia pro­duzir um dis­co com letras min­has e músi­ca do João Dona­to. Mas o Adel­zon aban­do­nou o dis­co. Então só ficou aque­la mostra [uma músi­ca]. Mas as 12 letras [do dis­co do João Dona­to] seri­am min­has e eu estaria em out­ro pata­mar ago­ra [risos].

Agên­cia Brasil: Teve tam­bém o Pagode do Exorcista, que foi regrava­da pelo Wil­son Simon­al…
Rubem Con­fete: O Pagode do Exorcista foi uma brin­cadeira min­ha com o Nei Lopes do tem­po do filme do Exorcista. Eu até gan­hei uma granin­ha. Eu tava com um sap­a­to fura­do e deu pra com­prar um tênis [risos]. Você gan­ha­va um advance [din­heiro ofer­e­ci­do na hora do con­tra­to] e depois não via mais nada. Tem exe­cução, vendagem de dis­co, mas você não par­tic­i­pa­va de nada.

Xangô é de Baê [grava­da por Cae­tano Veloso] a Joyce tam­bém gravou lá pro Japão. De vez em quan­do pin­ga um din­heir­in­ho. Rende pouco, mas ain­da rende. O com­pos­i­tor tin­ha que viv­er de pro­dução. Tin­ha que pro­duzir muito.

Agên­cia Brasil: O que o car­naval rep­re­sen­ta hoje pra você?
Rubem Con­fete: O car­naval hoje pra mim é ape­nas uma grande saudade, um encon­tro com os ami­gos. Aliás, a maio­r­ia se foi. Quase que todos [os ami­gos] se foram. [No últi­mo car­naval, de 2022], o Império da Tiju­ca, que des­filou no grupo de Ouro [o grupo de aces­so] prestou uma hom­e­nagem ao Grêmio Recre­ati­vo Esco­la de Sam­ba Quilom­bo, do Can­deia. O Can­deia me colo­cou como pres­i­dente da ala dos com­pos­i­tores e eu era mestre-sala. Então eu des­filei no Império da Tiju­ca por causa dessa hom­e­nagem. E des­filei no Salgueiro, lá no últi­mo car­ro, lá em cima, em um car­naval que fala­va sobre “resistên­cia”.

Ago­ra só des­fi­lo quan­do sou con­vi­da­do. Este ano, não fui con­vi­da­do, mas no car­naval de 2024, vou estar na Inten­dente Mag­a­l­hães. Porque sou pres­i­dente de hon­ra de uma esco­la que está surgin­do, Améri­ca Sam­ba e Paixão. Eu vou ser o pres­i­dente de hon­ra e o [tema do] enre­do.

Edição: Denise Griesinger

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d