...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Entretenimento / Viradouro aposta na história de Malunguinho para tentar bicampeonato

Viradouro aposta na história de Malunguinho para tentar bicampeonato

Escola apresenta na avenida trajetória de grande líder quilombola

Cristi­na Indio do Brasil – Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 21/02/2025 — 08:28
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 05/02/2025 - Detalhe de carro alegórico, no barracão da Escola de Samba Unidos do Viradouro, na Cidade do Samba, zona portuária. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: © Tânia Rêgo/Agência Brasil

Neste ano, em bus­ca do bicam­pe­ona­to, a esco­la de sam­ba Viradouro man­tém-se na lin­ha de bus­car temas de importân­cia na história, ou de reli­giosi­dade, para falar de uma parte da cul­tura brasileira que é pouco con­heci­da. O enre­do Malun­guin­ho: O Men­sageiro de Três Mun­dos, hom­e­nageia uma enti­dade que tem rep­re­sen­tações como cabo­clo indí­ge­na, mestre e Exu. O car­navale­sco Tar­cí­sio Zanon escol­heu o enre­do após uma exten­sa pesquisa, que teve origem ain­da no perío­do da pan­demia de covid-19, quan­do pre­cisou ficar mais recol­hi­do em casa.

Rio de Janeiro (RJ), 05/02/2025 - Tarcísio Zanon, carnavalesco e Alessandra Reis, diretora de Ateliê da Unidos do Viradouro, no barracão da escola, na Cidade do Samba, zona portuária. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: Car­navale­sco Tar­cí­sio Zanon e Alessan­dra Reis, dire­to­ra de Ateliê, preparam des­file em que a Viradouro ten­tará o bicam­pe­ona­to — Tânia Rêgo/Agência Brasil

“É um tema muito impor­tante, porque a gente está falan­do de reparação cul­tur­al, de um per­son­agem pouquís­si­mo con­heci­do do grande públi­co. Até mes­mo em Per­nam­bu­co, os per­nam­bu­canos não con­hecem a força desse homem, um dos maiores líderes quilom­bo­las do Brasil”, disse o car­navale­sco à Agên­cia Brasil.

“Quan­do pen­so em enre­do, pen­so prin­ci­pal­mente em pau­tas atu­ais que dia­loguem com a esco­la e que pro­por­cionem a fan­ta­sia. Um enre­do bom pre­cisa pro­por­cionar a fan­ta­sia, pre­cisa tirar o com­po­nente do lugar-comum. Essa lin­ha de enre­do tem sido muito impor­tante, e eu vejo um mar­co quan­do a gente con­segue com o enre­do como a Rosa Maria Egipcía­ca levar essa matéria para as esco­las públi­cas. A esco­la de sam­ba tem essa função de ser tam­bém um lugar, de ser um espaço de edu­cação”, afir­mou Zanon, ao recor­dar que, nos anos 60, o car­navale­sco Fer­nan­do Pam­plona, do Salgueiro, desen­volveu enre­dos sobre Zumbi dos Pal­mares, Chi­ca da Sil­va e colo­cou ess­es per­son­agens em um lugar de con­hec­i­men­to que não era apren­di­do na esco­la nor­mal.

“É um cam­in­ho que eu gos­to muito, inclu­sive é um dos maiores val­ores den­tro de uma esco­la de sam­ba, ser esse espaço de trans­for­mação, de edu­cação, de recon­hec­i­men­to enquan­to nação e de descon­stru­ir esse imag­inário brasileiro”, desta­cou.

De acor­do com o car­navale­sco, a rep­re­sen­ta­tivi­dade de Malun­guin­ho aumen­ta quan­do se anal­isa a exten­são ter­ri­to­r­i­al em que o per­son­agem atu­a­va. “É o maior líder quilom­bo­la, porque o quilom­bo [dele] cor­ta des­de Per­nam­bu­co até a Paraí­ba, toda a Zona da Mata. É um quilom­bo itin­er­ante, difer­ente, até porque ele apren­deu com os indí­ge­nas a téc­ni­ca de faz­er e des­faz­er ocas, de faz­er armadil­has, que lá eles chamam de estrepes, para os algo­zes não os encon­trarem. É um per­son­agem que sobre­vive den­tro da oral­i­dade do povo, dos cân­ti­cos can­ta­dos den­tro do Catim­bó.”

A escol­ha tem tam­bém um toque mís­ti­co. Segun­do Zanon, o enre­do Malun­guin­ho veio da pesquisa que já tin­ha feito no perío­do pandêmi­co sobre o Catim­bó e sobre a Jure­ma, a plan­ta Acá­cia, usa­da em uma tradição reli­giosa de tomar o chá, que começou sendo usa­da por indí­ge­nas das regiões Norte e Nordeste. Quan­do a equipe da esco­la fazia a comem­o­ração pelo títu­lo de campeã de 2024 em um sítio em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, cer­ca­do por uma mata, do nada começou a apare­cer uma fumaça muito den­sa. “O meu pai de san­to falou que era algum sinal. Eu me lem­brei da pesquisa e que Catim­bó que sig­nifi­ca fumaça de mato, não fumaça no mato”, con­tou, rev­e­lando como foi a opção pelo enre­do.

“Me lem­brei da pesquisa e falei que este ano a gente tin­ha que falar na Jure­ma e em Catim­bó. Sou um car­navale­sco muito mís­ti­co, sou sem­pre aten­to aos sinais”, disse Zanon, lem­bran­do que isso tam­bém ocor­reu com o enre­do Rosa Maria Egipcía­ca, quan­do a esco­la foi vice-campeã em 2023. “Sem­pre tem um sinal. Este foi um sinal. Apre­sen­tei o enre­do jun­to à esco­la e eles gostaram”, afir­mou, referindo-se à escol­ha para 2025.

A história de Malun­guin­ho tem ain­da out­ra parte inter­es­sante. Na déca­da de 80, o pro­fes­sor Mar­cos Car­val­ho desco­briu um fato históri­co da existên­cia do líder: era um reg­istro poli­cial da morte de Malun­guin­ho. “Então, tem um per­son­agem que sobre­vive den­tro da oral­i­dade e ago­ra está na his­to­ri­ografia nacional. A gente pre­tende ele­var ele den­tro desse pan­teão dos grandes heróis nacionais”, indi­cou.

Na rep­re­sen­tação ter­re­na do homem encar­na­do, o líder quilom­bo­la se chama­va João Batista e será apre­sen­ta­do no iní­cio do des­file. “Ele viveu aqui enquan­to João Batista, que é o nos­so primeiro setor. Essa figu­ra quilom­bo­la, líder revoltoso com aque­la sociedade, o líder políti­co que lutou pelo povo dele, que taca­va fogo nos canavi­ais e era o pavor dos tira­nos”, desta­cou.

Rio de Janeiro (RJ), 05/02/2025 - Detalhe de carro alegórico, no barracão da Escola de Samba Unidos do Viradouro, na Cidade do Samba, zona portuária. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: Detal­he de car­ro alegóri­co da Viradouro, que con­tará a história de Malun­guin­ho, um líder quilom­bo­la ain­da pouco con­heci­do — Tânia Rêgo/Agência Brasil

Na sequên­cia, a Viradouro pas­sa a mostrar os três mun­dos, que é quan­do João Batista se trans­for­ma em ser encan­ta­do, uma enti­dade espir­i­tu­al. “Ele sobre­vive ness­es três mun­dos. Tem a capaci­dade de ser um curan­deiro, quan­do pas­sa a ser um cabo­clo, porque apren­deu com os indí­ge­nas o seg­re­do das ervas. Mestre, quan­do con­hece essa erva que é a Jure­ma sagra­da e Exu Trun­queiro, quan­do tem a chave, enquan­to em vida, para abrir as sen­za­las. Ago­ra, enquan­to encan­ta­do, é a enti­dade que fecha os cor­pos e abre o cam­in­ho”, disse Zanon, ao apre­sen­tar as evoluções do per­son­agem.

E, quan­do se per­gun­ta se ele vai abrir o cam­in­ho para o campe­ona­to, a respos­ta de Zanon é ime­di­a­ta: “Com certeza. A chave já está na mão dele, e a gente está fazen­do de tudo. É um tra­bal­ho muito sério. A gente está con­ver­san­do quase diari­a­mente, tra­bal­han­do com as casas de Per­nam­bu­co, fez uma pesquisa muito séria e um tra­bal­ho espir­i­tu­al tam­bém muito sério. Eu falo que esse enre­do está cer­ca­do de todos os lados. His­tori­ca­mente, porque a gente tem os reg­istros, e espir­i­tual­mente, porque a gente está indo na fonte para faz­er todos os tra­bal­hos”, detal­hou o car­navale­sco, ao explicar a bus­ca da segu­rança, que demon­stra respeito pela história. E a questão espir­i­tu­al é impor­tante para o resul­ta­do da esco­la, acres­cen­tou.

A dire­to­ra de ateliê, Alessan­dra Reis, rev­el­ou que parte da segu­rança espir­i­tu­al que a Viradouro bus­cou está pre­sente no bar­racão. “Hoje tem a pre­sença do Malun­guin­ho no bar­racão. Ele está sen­ta­do aqui e vai ser cuida­do diari­a­mente, como foi ensi­na­do lá em Recife para a gente den­tro de um jure­meiro. A posição em que ele está no bar­racão, o Tar­cí­sio parou para ouvir. ‘Quero ficar na esquer­da’, então ele está lá na esquer­da, onde pediu. Essa é uma das for­mas que têm dado cer­to e são de muito respeito. Aca­ba todo o bar­racão respei­tan­do e seguin­do”, disse Alessan­dra.

“A gente está falan­do do sagra­do, e essa enti­dade existe mes­mo. A gente sente que ela está con­duzin­do. Ela se comu­ni­ca, se man­i­fes­ta, sopra nos nos­sos ouvi­dos, em son­hos, a equipe toda e quem é sen­sív­el, claro que a gente respei­ta quem não tem crença, mas quem é sen­sív­el sente essa ener­gia, a gente pre­cisa respeitar e ten­tar ao máx­i­mo alcançar porque é ele o hom­e­nagea­do”, con­cluiu Zanon.

Reação dos componentes

O enre­do foi bem rece­bido pelos com­po­nentes da Viradouro, que têm se empol­ga­do com as histórias con­tadas pela esco­la. “Isso tam­bém é uma for­ma de se pen­sar a esco­la. Todo ano, quan­do ter­mi­na o car­naval, recebe­mos uma série de men­sagens do que o públi­co e a esco­la querem. Você já começa a saber qual é o cli­ma do que eles estão esperan­do. Faço essa avali­ação e já se sabe se é por um cam­in­ho mais mís­ti­co ou mais históri­co.”

É a par­tir dessa análise que o enre­do é definido. “A esco­la pre­cisa estar prepara­da para vestir aque­le per­son­agem daque­le ano. Eles serão os artis­tas que vão ence­nar aque­le papel na aveni­da. Se eles não se sen­tirem con­fortáveis ou defend­en­do aque­la ideia, eles não vão sair bem nesse papel”, com­ple­tou Alessan­dra.

“A jure­ma é uma árvore sagra­da, um pau de ciên­cia, como eles chamam. É uma [plan­ta] acá­cia. Eles extraem dessa árvore o chá sagra­do do toré dos pajés. Segun­do a tri­bo Funiô, que é a nos­sa refer­ên­cia mor, no sen­ti­do da nos­sa pesquisa, cada tri­bo tem as suas lendas, ela era uma meni­na, uma jovem pre­des­ti­na­da ao dom de cura, cura­va as pes­soas den­tro da tri­bo. Um dia ela foge para a mata, e aí o pajé vai ao encon­tro dela e ela se trans­for­ma em uma árvore de onde se extrai esse chá que é uma espé­cie de princí­pio ati­vo, como a auas­ca, e que a gente tomou e tam­bém nesse proces­so.”

Man­ter o bar­racão com o tra­bal­ho cansati­vo que cos­tu­ma haver durante a preparação do car­naval é uma tare­fa difí­cil que é desem­pen­ha­da pela Alessan­dra. Ain­da mais quan­do o enre­do do ano ante­ri­or insiste em se man­ter forte na lem­brança. Segun­do ela, este ano, a equipe está mais séria, talvez em função do respeito ao per­son­agem hom­e­nagea­do. “Eles estão como se fos­sem operários de um tra­bal­ho que não tem essa ale­gria que o car­naval tem.”

Ain­da assim, ape­sar do tra­bal­ho inten­so, foi mais fácil do que os out­ros car­navais, acres­cen­tou Alessan­dra. “Ele [Zanon] tem uma equipe inteira que o ouve. Isso é graças ao fato de ele  ser um car­navale­sco que tem o dom da audição. Ele para para ouvir, mes­mo que não ten­ha a ver com o enre­do.”

Para fora do bar­racão, a equipe de car­naval preparou tam­bém um glossário musi­cal com pon­tos do Malun­guin­ho, músi­cas entoadas para a enti­dade. Disponív­el nos serviços de stream­ing de músi­ca, pod­cast e vídeo, a lista cos­tu­ma ser ouvi­da pelos profis­sion­ais que tra­bal­ham no bar­racão. Tar­cí­sio disse que muitos dess­es pon­tos ele ouviu de sen­hor­in­has que trans­mitem a cul­tura oral­mente. A esco­la fez uma seleção entre mais de 100 pon­tos e gravou com o seu car­ro de som.

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d