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CNBB defende democracia e alerta para “graves retrocessos” no Brasil

Em carta, entidade também aponta avanços, como fortalecimento do SUS

Daniel­la Almei­da — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 01/01/2026 — 14:22
Brasília
Brasília (DF), 14/02/2024 - O bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Ricardo Hoepers, durante o lançamento da Campanha da Fraternidade 2024, com o tema Fraternidade e Amizade Social e o lema “Vós sois todos irmãos e irmãs”. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Repro­dução: © Marce­lo Camargo/Agência Brasil

A Con­fer­ên­cia Nacional dos Bis­pos do Brasil (CNBB) man­i­festou “grave pre­ocu­pação” com alguns retro­ces­sos no cam­po da éti­ca e do cuida­do com os pobres. A Car­ta de Ano-Novo de lid­er­anças católi­cas foi pub­li­ca­da na últi­ma segun­da-feira (29). 

Sobre a democ­ra­cia no país, a enti­dade afir­ma que o ano de 2025 foi mar­ca­do por “pro­fun­das ten­sões e retro­ces­sos soci­ais” que frag­ilizaram a con­fi­ança nas insti­tu­ições.

“No âmbito da con­vivên­cia democráti­ca, o ano de 2025 foi mar­ca­do por pro­fun­das ten­sões e retro­ces­sos soci­ais, que deixaram feri­das aber­tas no teci­do social. Algu­mas exper­iên­cias frag­ilizaram seri­amente a con­fi­ança nas insti­tu­ições e desafi­aram as pes­soas de boa von­tade, que acred­i­tam numa sociedade mais jus­ta e fra­ter­na”, diz a men­sagem.

Para a enti­dade, a democ­ra­cia é um “patrimônio do povo brasileiro” que exige cuida­do, diál­o­go e respeito aos freios e con­trape­sos insti­tu­cionais.

“A democ­ra­cia, com sua exigên­cia de diál­o­go, suas insti­tu­ições, seus freios e con­trape­sos, é patrimônio do povo brasileiro e pre­cisa de cuida­do e pro­moção. Emb­o­ra imper­fei­ta, ela é ter­reno fér­til onde a justiça e a ver­dade podem se abraçar (cf. Sl 85,10) e flo­rescer.”

A enti­dade defende que a nação deve reen­con­trar o cam­in­ho da paci­fi­cação, do diál­o­go e do respeito mútuo.

Desafios à ética

O bal­anço críti­co de 2025 dos bis­pos brasileiros apon­ta que a con­vivên­cia democráti­ca foi prej­u­di­ca­da por inter­ess­es econômi­cos e dis­putas de poder que enfraque­ce­r­am mecan­is­mos essen­ci­ais de con­t­role.

Entre os pon­tos cita­dos pela Igre­ja, desta­cam-se:

  • Con­du­ta de autori­dades: o tex­to denun­cia “a per­da de deco­ro e a fal­ta de respon­s­abil­i­dade por parte de algu­mas autori­dades, espe­cial­mente do nos­so Con­gres­so Nacional”.
  • Enfraque­c­i­men­to da éti­ca e o aumen­to da cor­rupção na vida públi­ca;
  • Frag­iliza­ção dos mecan­is­mos democráti­cos, por causa de inter­ess­es econômi­cos e dis­putas de poder;
  • Flex­i­bi­liza­ção de mar­cos legais: a CNBB crit­i­ca as mudanças na Lei da Ficha Limpa e na Lei Ger­al do Licen­ci­a­men­to Ambi­en­tal;
  • Ameaças à pro­teção ambi­en­tal e aos povos orig­inários e tradi­cionais, neste últi­mo caso, com a aprovação do mar­co tem­po­ral no Con­gres­so Nacional;
  • Vio­lên­cia e intol­erân­cia: a men­sagem con­de­na o dis­cur­so de ódio, a manip­u­lação da ver­dade e o aumen­to, espe­cial­mente, de crimes como o fem­i­nicí­dio;
  • Paga­men­to de juros e amor­ti­za­ções da dívi­da: deixa o país sem capaci­dade de maior inves­ti­men­to em áreas como edu­cação, saúde, mora­dia e segu­rança;
  • Desigual­dade social, que con­tin­ua mar­gin­al­izan­do muitos;
  • Uso de dro­gas e o cresci­men­to de “econo­mias ilíc­i­tas”.

Cenário nacional

Ape­sar das críti­cas, a car­ta tam­bém elen­ca vitórias cel­e­bradas em 2025, no Brasil. No cam­po social e econômi­co, a Igre­ja Católi­ca desta­cou o for­t­alec­i­men­to do Sis­tema Úni­co de Saúde (SUS), por meio do aumen­to da taxa de médi­cos por habi­tante.

No cam­po econômi­co, a CNBB val­ori­zou a que­da da taxa de desem­prego, a esta­bil­i­dade da inflação e o rel­a­ti­vo cresci­men­to do Pro­du­to Inter­no Bru­to (PIB). Como fato mar­cante no comér­cio de bens e serviços em 2025, a insti­tu­ição não esque­ceu da “reti­ra­da de algu­mas tar­i­fas norte-amer­i­canas sobre vários pro­du­tos brasileiros”, nego­ci­a­da pelo gov­er­no fed­er­al, e “a aber­tu­ra de novos mer­ca­dos inter­na­cionais”.

No setor ambi­en­tal, os bis­pos destacaram o pro­tag­o­nis­mo do Brasil em ener­gias ren­ováveis e a real­iza­ção da 30ª Con­fer­ên­cia das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáti­cas (COP30) em Belém, o que reforçou o com­pro­mis­so com o cuida­do do plan­e­ta Ter­ra e com­bate à crise climáti­ca. “Reafir­mamos que nen­hum pro­je­to políti­co pode se sobre­por à vida, ao respeito à pes­soa humana, à justiça social e ao cuida­do com a casa comum.”

Tam­bém foram men­cionadas como exper­iên­cias pos­i­ti­vas a tax­ação de grandes for­tu­nas e a mobi­liza­ção pop­u­lar sobre a redução da jor­na­da de tra­bal­ho, a chama­da escala 6x1, com a real­iza­ção de um plebisc­i­to pop­u­lar.

Valores cristãos

Como insti­tu­ição que reúne os bis­pos da Igre­ja Católi­ca no país, a men­sagem reafir­ma a posição firme da Igre­ja con­tra qual­quer ini­cia­ti­va de legal­iza­ção do abor­to e defende a “sacral­i­dade da vida des­de a con­cepção até o seu fim nat­ur­al” como o primeiro dos dire­itos e dom gra­tu­ito de Deus.

Os bis­pos vão além e ressaltam out­ros aspec­tos con­tem­porâ­neos que devem ser obser­va­dos em defe­sa da vida humana.

“Defend­er a vida, con­tu­do, impli­ca tam­bém lutar con­tra a fome, a mis­éria e a desigual­dade. Defend­er a vida sig­nifi­ca cri­ar condições para que ‘todos ten­ham vida e vida em abundân­cia’ (Jo 10,10)”, frisa a CNBB.

O tex­to ter­mi­na com a citação do son­ho de dom Helder Câmara e a poe­sia de Thi­a­go de Mel­lo para reforçar que, emb­o­ra o cenário atu­al apre­sente difi­cul­dades, a esper­ança deve ser a força trans­for­mado­ra para 2026. “Faz escuro, mas eu can­to, porque a man­hã vai chegar.”

A car­ta é assi­na­da pelo pres­i­dente da CNBB e arce­bis­po de Por­to Ale­gre, dom Jaime Cardeal Spen­gler; pelo arce­bis­po de Goiâ­nia e 1º vice-pres­i­dente da insti­tu­ição, dom João Justi­no de Medeiros Sil­va; pelo 2º vice-pres­i­dente da enti­dade e arce­bis­po de Olin­da e Recife, dom Paulo Jack­son Nóbre­ga de Sousa; e pelo secretário-ger­al da con­fer­ên­cia e bis­po aux­il­iar de Brasília, dom Ricar­do Hoepers (foto).

O que é a CNBB

Fun­da­da em 1952, a Con­fer­ên­cia Nacional dos Bis­pos do Brasil (CNBB) tem a função de coor­denar a ação evan­ge­lizado­ra e pas­toral da Igre­ja Católi­ca e pro­mover o bem comum e a justiça social.

Como parte da Igre­ja Católi­ca, a CNBB atua em questões reli­giosas, mas tam­bém tem voz ati­va na sociedade civ­il e comu­mente tra­ta de temas de dire­itos humanos, éti­ca e políti­ca, em espe­cial nas cam­pan­has anu­ais da frater­nidade. As ini­cia­ti­vas são real­izadas durante o perío­do da Quares­ma cristã.

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