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Comunidades e povos tradicionais é tema da redação do Enem 2022

Repro­dução: © Mar­cel­lo Casal Jr / Agên­cia Brasil

Para especialistas, exame apresentou tema “eternamente contemporâneo”


Pub­li­ca­do em 13/11/2022 — 17:56 Por Pedro Peduzzi — Agên­cia Brasil — Brasília

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O tema da redação do Exame Nacional do Ensi­no Médio (Enem) de 2022 é “Desafios para a val­oriza­ção de comu­nidades e povos tradi­cionais no Brasil”, con­forme divul­ga­do pelo Min­istério da Edu­cação. O tema vale para as duas ver­sões do Enem: impres­sa e em com­puta­dor.

Espe­cial­ista em redação e mestre em lit­er­atu­ra indí­ge­na pela Uni­ver­si­dade de Brasília (UnB), a pro­fes­so­ra Ana Clara Oliveira avalia que o tema deste ano segue as tradições do Enem, com “uma pega­da social muito forte” e tratan­do de um recorte muito especí­fi­co: os povos e comu­nidades tradi­cionais.

“Mais do que se restringir a ess­es povos, o tema abrange os desafios que o resto da sociedade tem para val­orizá-los”, disse à Agên­cia Brasil a pro­fes­so­ra do cursin­ho de redação online Coru­jan­do.

Eter­na­mente con­tem­porâ­neo

“Como sem­pre, o Enem foi muito bem na escol­ha temáti­ca”, acres­cen­tou a pro­fes­so­ra for­ma­da em Letras pela UnB. Segun­do ela, tra­ta-se de um tema “eter­na­mente con­tem­porâ­neo”, mas que gan­ha ain­da mais força dev­i­do à situ­ação atu­al do país – de luta de povos indí­ge­nas e tradi­cionais em defe­sa de suas ter­ras e cul­turas – e tam­bém dev­i­do às recentes mudanças políti­cas, em um momen­to em que tão difer­entes visões de sociedade se con­frontam.

“É um tema con­tem­porâ­neo a qual­quer momen­to na história do nos­so país. Sem­pre foi e con­tin­uará sendo cada vez mais con­tem­porâ­neo, em espe­cial com essa recente val­oriza­ção [do tema, nacional e inter­na­cional­mente]. A acad­e­mia tem presta­do mui­ta atenção no tema, e há políti­cas sendo anun­ci­adas visan­do a val­oriza­ção dess­es povos; para que as lín­guas nati­vas não mor­ram e para que as comu­nidades sejam preser­vadas”, argu­men­tou.

Prob­le­ma social silen­ci­a­do

Mestre em Lin­guís­ti­ca e fun­dado­ra do cur­so de redação @lumaeponto, a pro­fes­so­ra Luma Dit­trich tam­bém não ficou sur­preen­di­da com o tema. “Foi exata­mente o que esperá­va­mos: um prob­le­ma social silen­ci­a­do; um tema-prob­le­ma que segue a mes­ma tendên­cia dos últi­mos anos”, disse ela à Agên­cia Brasil.

Segun­do Luma, o nív­el de difi­cul­dade está, em ger­al, mais rela­ciona­do às habil­i­dades esper­adas do can­dida­to do que pro­pri­a­mente com o tema. “O Enem não espera que o can­dida­to demon­stre con­hec­i­men­to sobre o tema, mas sim capaci­dade de leitu­ra e reflexão. Por­tan­to, os can­didatos que enten­der­am sobre o prob­le­ma que está den­tro do tema e argu­men­taram refletindo sobre ele se der­am bem”, disse.

Estereóti­pos

A pro­fes­so­ra Ana Clara enu­mer­ou alguns argu­men­tos-chave que podem aju­dar nes­sa dis­ser­tação argu­men­ta­ti­va. Ela aler­ta sobre algu­mas armadil­has que podem diminuir as notas dos can­didatos, em espe­cial rela­cionadas ao uso de estereóti­pos para se referir a povos ou comu­nidades tradi­cionais.

“Pode-se falar sobre reser­vas, leis de pro­teção, insti­tu­ições for­madas para garan­tir a pro­teção das comu­nidades. O prob­le­ma é que, infe­liz­mente, a parte especí­fi­ca da val­oriza­ção dess­es povos não é muito abor­da­da para os estu­dantes em suas roti­nas acadêmi­cas. No caso dos indí­ge­nas, sem­pre vis­tos como enti­dade do pas­sa­do. Nesse sen­ti­do, o que é mostra­do aos estu­dantes, des­de quan­do ain­da cri­anças, são for­mas estigma­ti­zadas, com cocares, boche­chas pin­tadas e um barul­hin­ho feito com tap­in­has na boca, algo que ninguém sabe de onde foi tira­do, mas que virou som car­ac­terís­ti­cos para designá-los”, disse.

Argu­men­tações

“Infe­liz­mente essas pop­u­lações acabam não sendo vis­tas como pes­soas que usam roupas, estu­dam, tra­bal­ham no cotid­i­ano e estão inseri­das na civil­i­dade. São estigma­ti­zadas e apre­sen­tadas nec­es­sari­a­mente como aque­la pes­soa na flo­res­ta, nua, fazen­do rit­u­ais. É uma visão muito destor­ci­da que a pop­u­lação, de for­ma ger­al, tem e que a esco­la per­pet­ua dire­ta ou indi­re­ta­mente. Sem falar nas situ­ações em que, na roti­na esco­lar, a cul­tura indí­ge­na é apre­sen­ta­da de for­ma gen­er­al­iza­da, como se todos fos­sem iguais, e, por vezes, roman­ti­za­da”, acres­cen­tou em meio a sug­estões sobre como tra­bal­har o tema.

Pro­fes­sor do cur­so de redação online Me Sal­va!, Fil­ipe Vuaden disse que, por abrir pos­si­bil­i­dades para a abor­dagem de difer­entes povos e comu­nidades tradi­cionais, o tema do Enem deste ano abre um grande leque de argu­men­tações.

“Em ter­mos de difi­cul­dade, é um tema bas­tante acessív­el porque abre a pos­si­bil­i­dade de o can­dida­to dire­cionar para difer­entes povos ou comu­nidades tradi­cionais, como ribeir­in­hos, quilom­bo­las, pan­taneiros, caipi­ras, ser­tane­jos, o que amplia as pos­si­bil­i­dades de o can­dida­to ter algu­ma refer­ên­cia para mobi­lizar o tex­to”, disse ele ao lem­brar que a mídia tem noti­ci­a­do larga­mente os povos indí­ge­nas por con­ta de serem alvos de con­fli­tos com fazen­deiros, madeireiros e grileiros.

Pro­pos­ta de inter­venção

“Há muito o que lem­brar na hora da pro­va e levar para o tex­to, mas ten­do como estraté­gia prin­ci­pal o domínio das com­petên­cias de avali­ação da pro­va. É pre­ciso ter ciên­cia de que, em algum momen­to do tex­to, é fun­da­men­tal faz­er refer­ên­cia a uma out­ra área de con­hec­i­men­to ou dis­ci­plina, de for­ma a aju­dar no embasa­men­to da argu­men­tação”, disse.

Vuaden acres­cen­ta ser tam­bém acon­sel­háv­el a apre­sen­tação de uma “boa pro­pos­ta de inter­venção para a abor­dagem que foi dada ao prob­le­ma”. “No caso, como pen­samos em desafios para val­oriza­ção dess­es povos e comu­nidades, o can­dida­to tem de pen­sar em uma maneira de val­orizar ou super­ar ess­es desafios. Pode tam­bém usar infor­mações históri­c­as, porque des­de o perío­do da col­o­niza­ção brasileira os povos tradi­cionais vêm enfrentan­do prob­le­mas para man­terem suas cul­turas e tradições vivas”.

Bor­bo­le­ta e mari­posas

Entre as pro­postas de inter­venção, a pro­fes­so­ra Ana Clara desta­ca a bus­ca por rep­re­sen­ta­tivi­dade no ambi­ente políti­co. “Esta é uma questão vital, uma vez que a fal­ta de rep­re­sen­ta­tivi­dade é bas­tante explíci­ta não só na políti­ca, mas tam­bém em nov­e­las, livros. Sem rep­re­sen­ta­tivi­dade, uma bor­bo­le­ta rodea­da por mari­posas con­tin­uará sendo mari­posa, como dizia uma poe­t­i­za que adoro que é a Rupi Kaur”, argu­men­tou a pro­fes­so­ra do Coru­jan­do.

Com­petên­cias

Segun­do o Insti­tu­to Nacional de Estu­dos e Pesquisas Edu­ca­cionais Aní­sio Teix­eira (Inep), o tex­to apre­sen­ta­do deve ser, em regra, dis­ser­ta­ti­vo-argu­men­ta­ti­vo. Ou seja, as ideias defen­di­das pre­cisam estar embasadas por expli­cações fun­da­men­tadas e por argu­men­tações sobre o assun­to. Para tan­to, é apre­sen­ta­da uma situ­ação-prob­le­ma, além de tex­tos moti­vadores, a par­tir dos quais os con­ceitos devem ser desen­volvi­dos, em até 30 lin­has.

“As redações são avali­adas de acor­do com cin­co com­petên­cias. A nota pode chegar a 1.000 pon­tos. Por out­ro lado, há critérios que con­fer­em nota zero, como fuga ao tema, exten­são total de até sete lin­has, tre­cho delib­er­ada­mente desconec­ta­do do tema pro­pos­to, não obe­diên­cia à estru­tu­ra dis­ser­ta­ti­vo-argu­men­ta­ti­va e desre­speito à seriedade do exame”, infor­mou, em nota, o insti­tu­to.

*Matéria alter­a­da às 19h05 para cor­reção de erro de dig­i­tação e out­ras ade­quações no tex­to.

Edição: Fer­nan­da Cruz

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