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Maioria das mortes por tumores no Brasil atinge pessoas de baixa renda

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Mais escolaridade e atenção primária à saúde podem melhorar quadro


Pub­li­ca­do em 04/02/2023 — 07:55 Por Lud­mil­la Souza – Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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Mais da metade das mortes por tumores no Brasil (55%) ocorre entre pes­soas com baixa esco­lar­i­dade e baixa ren­da, rev­ela estu­do do Obser­vatório de Atenção Primária da Umane, com base no últi­mo lev­an­ta­men­to do Sis­tema de Infor­mação sobre Mor­tal­i­dade (SIM) do Min­istério da Saúde de 2020. A Umane é uma asso­ci­ação civ­il inde­pen­dente, sem fins lucra­tivos, volta­da para a artic­u­lação e fomen­to de ini­cia­ti­vas de apoio ao desen­volvi­men­to do Sis­tema Úni­co de Saúde (SUS).

Segun­do os dados do SIM, das 229.300 pes­soas que mor­reram por neo­plasias (malig­nas ou benig­nas) no Brasil em 2020, 126.555 (55%) tin­ham até 7 anos de estu­do; 20% tin­ham entre 8 e 11 anos de esco­lar­i­dade e 9,2% tin­ham entre 12 anos ou mais de estu­do. Os dados mostram que a mor­tal­i­dade é maior entre os que têm menos esco­lar­i­dade e ren­da.

A maio­r­ia (52%) das mortes por neo­plasias (malig­nas ou benig­nas) são de home­ns e 48%, de mul­heres, e 59,2% das víti­mas têm mais de 65 anos de idade.

A mel­ho­ria glob­al da qual­i­dade de vida pode­ria evi­tar parte dess­es casos, afir­ma a dire­to­ra de Comu­ni­cação da Sociedade Brasileira de Med­i­c­i­na de Família e Comu­nidade, Rafaela Alves Pacheco, que é médi­ca san­i­tarista e pro­fes­so­ra da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Per­nam­bu­co.

“Os cânceres são múlti­p­los, mas têm uma relação muito próx­i­ma com a qual­i­dade de vida, a orga­ni­za­ção das cidades, a preser­vação dos bio­mas, a ali­men­tação, as condições emo­cionais, de tra­bal­ho e de aces­so aos dire­itos humanos, assim como com a edu­cação, o trans­porte, a qual­i­dade de vida e os aces­sos à saúde. Todas essas per­spec­ti­vas vão nos aprox­i­mar ou dis­tan­ciar de um cuida­do efe­ti­vo em relação aos cânceres de um modo ger­al”, diz Rafaela.

Para a espe­cial­ista, a atenção primária à saúde, a med­i­c­i­na de família e comu­nidade podem mel­ho­rar esse quadro. “É pre­ciso garan­tir o cuida­do inte­gral em saúde, a pre­venção, a pro­moção e o aces­so [a trata­men­tos] em qual­quer situ­ação do câncer. Então, é garan­tir o for­t­alec­i­men­to dos sis­temas de saúde”, recomen­da.

Segun­do a médi­ca, o câncer não escol­he classe social, mas as pop­u­lações pobres sofrem mais. “Em relação ao câncer, todas as class­es soci­ais são atingi­das, mas exis­tem os rincões de pobreza e mis­éria. Então, é bas­tante difer­ente para quem é mais pobre e não tem aces­so e, por con­seguinte, acabam ten­do maior incidên­cia de cânceres, de um modo ger­al.”

De acor­do com a espe­cial­ista, a solução são ações de equidade em saúde. “Pre­cisa dar mais para quem pre­cisa mais. Se temos pop­u­lações que são mais vul­neráveis aos cânceres, estas pre­cis­arão ter aporte de recur­sos e de providên­cias san­itárias e soci­ais difer­en­ci­a­dos. Nesse sen­ti­do, for­t­ale­cer o sis­tema uni­ver­sal de saúde é for­t­ale­cer a atenção primária, com as equipes de estraté­gia de saúde da família que estão mais próx­i­mas de onde as pes­soas moram e tra­bal­ham.”

Promoção à saúde

Na visão da san­i­tarista, é pre­ciso garan­tir que esse públi­co ten­ha aporte maior de pro­moção à saúde, bem como fácil aces­so aos serviços de atenção primária em saúde. “Na per­spec­ti­va da pre­venção de saúde, pre­cisamos ter pro­to­co­los estru­tu­ra­dos, lin­has de cuida­do que farão a detecção pre­coce, o ras­trea­men­to basea­do em evidên­cias e pro­to­co­los clíni­cos, quan­do real­mente são necessários e podem diminuir tan­to a mor­bidade quan­to a mor­tal­i­dade, inclu­sive garan­ti­n­do cuida­dos palia­tivos, garan­ti­n­do que o paciente con­si­ga ter uma sobre­v­i­da e uma qual­i­dade de vida diante do que é pos­sív­el.”

Rafaela desta­ca que nem todas essas dimen­sões são da área de tra­bal­ho da atenção primária à saúde. “Estão em out­ros níveis de atenção, mas podem e devem estar de for­ma conec­ta­da com a atenção primária à saúde, com o mel­hor para cada uma dessas situ­ações.”

A médi­ca ressalta que exis­tem políti­cas públi­cas que visam aumen­tar o aces­so da pop­u­lação de baixa esco­lar­i­dade às infor­mações, mas que a com­plex­i­dade dos prob­le­mas neces­si­ta de ações inter­se­to­ri­ais. “O prob­le­ma é san­itário, mas tam­bém é ambi­en­tal e social. Então nós vamos pre­cis­ar de muitas mãos, e de muitos setores da sociedade civ­il orga­ni­za­da e das políti­cas públi­cas que este­jam atuan­do con­jun­ta­mente”.

A médi­ca apon­ta uma série de fatores que devem ocor­rer jun­to com os cuida­dos em edu­cação e saúde. “O próprio sis­tema edu­ca­cional brasileiro pode e deve aju­dar, sobre­tu­do com as cri­anças, ado­les­centes e adul­tos jovens, garan­ti­n­do esse con­hec­i­men­to, esse automon­i­tora­men­to, a mel­ho­ra da própria esco­lar­i­dade, o que vai faz­er tam­bém com que o aces­so à própria edu­cação e à saúde acon­teça de for­ma mais par­til­ha­da e impac­tante. A garan­tia da ali­men­tação saudáv­el, de ativi­dade físi­cas, do com­bate ao tabag­is­mo, da mel­ho­ra dos índices pon­derais, na per­spec­ti­va da obesi­dade”, exem­pli­fi­ca Rafaela.

Para ela, o con­t­role e a mel­ho­ra ali­men­tar tam­bém dizem respeito ao com­bate ao uso de agrotóx­i­cos e adi­tivos quími­cos e ao con­t­role da poluição do ar, das águas e das flo­restas.  “Com o respeito aos nos­sos bio­mas, a garan­tia de políti­cas públi­cas indu­toras de aces­so à ali­men­tação saudáv­el, à comi­da de ver­dade, que não seja reple­ta de ultra­proces­sa­dos, para que haja mel­ho­ra metabóli­ca e de bem-estar. Pre­cisamos diminuir o sal na ali­men­tação, de um modo ger­al. Não é só o saleiro da pes­soa, pre­cisa ter um regra­men­to que garan­ta que as opções disponíveis sejam de fato com­patíveis com a saúde de boa parte da pop­u­lação.”

Rafaela lem­bra que o Brasil tem grande número de hiperten­sos e dia­béti­cos e que estes são fatores para o surg­i­men­to de cânceres e out­ros adoec­i­men­tos. “A ali­men­tação mel­ho­ran­do, tor­na-se menos infla­matória e menos can­cerí­ge­na”, desta­ca.

Papel dos agentes

O médi­co Gilber­to Amor­im, da Oncolo­gia D’Or do Rio de Janeiro, ressalta que muitos dos fatores de risco para difer­entes tipos de câncer podem ser de algu­ma maneira mod­i­fi­ca­dos ou reduzi­dos e que, para isso, o agente de saúde tem papel fun­da­men­tal.

“A pop­u­lação com baixa esco­lar­i­dade pre­cisa con­hecer mais ess­es fatores de risco e, aí, o alcance dos agentes de saúde é maior do que de qual­quer out­ro profis­sion­al da área. Por exem­p­lo, a obesi­dade é um fator de risco para vários tipos de doença. Por isso, é fun­da­men­tal que o agente de saúde alerte aque­la pes­soa sobre os riscos para o dia­betes e doenças vas­cu­lares e tam­bém para vários cânceres”, diz o oncol­o­gista.

De acor­do com o oncol­o­gista, o agente bási­co de saúde alcança essa pop­u­lação mais des­fa­vore­ci­da porque tem uma lin­guagem que é fácil de ser enten­di­da, menos rebus­ca­da do que a dos médi­cos, e con­seguem ter uma capi­lar­i­dade incrív­el no Brasil inteiro. “Eles podem falar de muitas coisas e con­tribuir para reduzir o risco de deter­mi­na­dos tipos de câncer.”

As medi­das de pre­venção para os tipos de câncer mais preva­lentes em adul­tos são, de modo ger­al, rela­cionadas ao con­t­role dos prin­ci­pais fatores de risco, como tabag­is­mo, con­sumo exces­si­vo de álcool, ali­men­tação inad­e­qua­da e obesi­dade.

Edição: Nádia Fran­co

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