...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Entretenimento / Carnaval paulista: Elis Trindade, rainha do maracatu

Carnaval paulista: Elis Trindade, rainha do maracatu

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Elis faz as coreografias do grupo de afoxé N’Goma Ti Kambimda


Pub­li­ca­do em 05/02/2023 — 13:50 Por Lety­cia Bond — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

ouvir:

No mês em que a ale­gria toma con­ta das ruas por causa do car­naval, a Agên­cia Brasil pub­li­ca uma série de entre­vis­tas com per­son­al­i­dades que expres­sam a história, a cul­tura e o espíri­to da fes­ta que mobi­liza comu­nidades de norte a sul do país. 

Elis Sibere dos San­tos Monte Trindade de Souza tem nome de rain­ha e é. Nasci­da em 4 de setem­bro de 1981, em Ipo­ju­ca, Per­nam­bu­co, ela faz as core­ografias do grupo de afoxé N’Go­ma Ti Kam­bim­da. Ela é a rain­ha da Nação Cam­bin­da, de mara­catu, um dos rit­mos pop­u­lares do Nordeste. A nação sai às ruas com um grupo de 35 a 40 pes­soas, sendo que há dois por­ta-estandartes, rei e rain­ha; o pálio, que pro­tege ambos, mas prin­ci­pal­mente a rain­ha; as damas da coroa; a dama do paço; prince­sas africanas; as prince­sas europeias; um feiti­ceiro, que é quem pro­tege a nação, com ervas; as baianas e o grupo do rit­mo, que tem dois regentes que se revezam. O grupo tem instru­men­tos tradi­cionais do mara­catu, como o mineiro, a caixa, o agbê.

Elis é casa­da com Vitor da Trindade e sente a respon­s­abil­i­dade que é dar, com ele, con­tinuidade às diver­sas ativi­dades do Teatro Pop­u­lar Solano Trindade, sendo a nação ape­nas uma delas. O espaço fica em Embu das Artes, em São Paulo, fun­da­do pela artista plás­ti­ca, escrito­ra e coreó­grafa Raquel Trindade, com­pan­heira de Solano Trindade, poeta, pin­tor, ator, dra­matur­go, cineas­ta e mil­i­tante do movi­men­to negro e do Par­tido Comu­nista.

Durante a reta final da licen­ciatu­ra em dança, con­cluí­da em 2015, pela Fac­ul­dade Paulista de Artes, Elis recu­per­ou a história de Maria Mar­gari­da da Trindade, mul­her negra que lev­ou o con­hec­i­men­to das danças brasileiras às ter­apias pro­postas por Nise da Sil­veira. Alu­na de Carl Jung, cri­ador da psi­colo­gia analíti­ca, Nise foi uma psiquia­tra que gan­hou recon­hec­i­men­to mundi­al por rev­olu­cionar o trata­men­to men­tal no Brasil.

A dançarina Elis Trindade é rainha do Maracatu Ouro do Congo, da família de Solano Trindade, em Embu das Artes.
Repro­dução: A dança­ri­na Elis Trindade é rain­ha do Mara­catu Ouro do Con­go, da família de Solano Trindade, em Embu das Artes. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

Agên­cia Brasil: Como começou sua história com a cul­tura pop­u­lar e o car­naval? É des­de peque­na?

Elis Trindade: É bem engraça­do que, quan­do você fez essa per­gun­ta, me vier­am coisas da memória de infân­cia que eu não asso­ci­a­va dire­ta­mente à cul­tura pop­u­lar. Vou me apre­sen­tar: sou Elis Trindade, uma pes­soa negra, de família negra. A maior parte da min­ha família tem con­ta­to com a músi­ca, com a arte, mas a gente não enten­dia isso como profis­são, do jeito que eu faço hoje, do jeito que meu irmão, Gus­ta­vo, faz hoje. Ele está em Per­nam­bu­co, é can­tor. Eu só vim a me enten­der como artista quan­do cheguei em São Paulo. Mas faz­er essas vivên­cias de cul­tura pop­u­lar, eu já fazia há muito tem­po, e por incen­ti­vo da família, porque a gente vai para a igre­ja e dança pas­to­ril, e porque a maio­r­ia das pes­soas da min­ha família é católi­ca. E os mara­ca­tus saíam na época de Natal. A gente par­tic­i­pa­va de quadrilhas jun­i­nas des­de a esco­la.

Min­ha família tem até um blo­co de car­naval. É o blo­co da família Tomé. Todo ano sai na pra­ia de Por­to de Gal­in­has, em Per­nam­bu­co. Neste ano, con­seguimos jun­tar mais pes­soas da família, porque teve o primeiro encon­tro em um lugar que é muito sig­ni­fica­ti­vo para nós, que é um quilom­bo, onde meu pri­mo mora, de Mas­san­gana, Três Marias. É aí que eu começo a enten­der que min­ha família já fazia isso e eu saía muito peque­na nos blo­quin­hos de car­naval do bair­ro. Isso é mar­avil­hoso.

E tam­bém tem out­ra relação, de quan­do eu vou crescen­do, de quan­do ia para o Galo da Madru­ga­da. O Galo da Madru­ga­da é um even­to. A gente chega, de ver­dade, de man­hã, toma um café com mun­gun­zá, fru­tas da época, azeitonas. É muito lig­a­do à far­tu­ra. Esse car­naval começou assim, pra mim, lá na cidade de Ipo­ju­ca, onde a gente ia a esse bair­ro, onde eu mora­va, que se chama Rurópo­lis. A gente fazia os blo­quin­hos e eu sem­pre saía de más­cara.

A dançarina Elis Trindade é rainha do Maracatu Ouro do Congo, da família de Solano Trindade, em Embu das Artes.
Repro­dução: Patrimônios do Car­naval — Rove­na Rosa/Agência Brasil

O “sair de más­cara” é tam­bém um out­ro even­to do car­naval. Más­cara ou la ursa, como a gente chama lá. Este even­to era a opor­tu­nidade de a gente se trans­for­mar debaixo de uma más­cara, para ninguém da comu­nidade te recon­hecer. Então, você vai com um grupo de pes­soas sem uma bate­ria, mas vai tocan­do em balde, bacia, qual­quer instru­men­to que faça  barul­ho, na quen­ga [cas­ca] do coco ou na pal­ma, ou só can­tan­do, e ia à por­ta de cada pes­soa.

Cada pes­soa ten­ta­va adi­v­in­har quem era a pes­soa debaixo da más­cara. E a gente, que esta­va debaixo da más­cara, tin­ha a obri­gação de mudar o jeito de andar, não podia falar, para viz­in­ho não recon­hecer. Ele tin­ha que dar din­heiro ou algu­ma fru­ta. E a gente tin­ha uma músi­ca muito forte, um refrão, que era A la ursa quer din­heiro. Quem não dá é pirangueiro. Depois, sen­ta­va debaixo de uma árvore, comia todas as fru­tas, pega­va o din­heiro, com­pra­va refrig­er­ante, suco, qual­quer coisa, e era nos­sa diver­são. O maio­ral era aque­le que ninguém desco­bria quem era. A gente sen­ta­va na praça, tira­va a más­cara, não tin­ha como reg­is­trar, porque não tin­ha celu­lar, mas era um grande even­to.

Meu avô é Antônio. Seu Antônio é o even­to do bair­ro. Todo mun­do que pas­sa vai pedir a bênção na por­ta da casa dele. A min­ha família é muito impor­tante em relação a tudo isso. E não tem muito como sep­a­rar e diz­er que ago­ra vai ser essa fes­ta ou vai ser essa out­ra. Porque pode acon­te­cer, em algum momen­to, que a gente comem­o­re algu­ma fes­ta que não é exata­mente daque­la data, porque a gente gos­ta de fes­ta. Então, a gente comem­o­ra tudo e a qual­quer momen­to.

As quadrilhas e as fan­far­ras, acho que são duas coisas que fazem o car­naval de Per­nam­bu­co durar o ano inteiro. Tem gente que fala ou a mídia inteira fala assim: o car­naval de Per­nam­bu­co é o ano inteiro. Mas é que 7 de Setem­bro é out­ro grande even­to. Temos várias fan­far­ras e eu já saí nelas por dois, três anos, depois que pas­sei a morar em Embu das Artes. Eu tira­va férias do meu tra­bal­ho no perío­do do 7 de Setem­bro só para des­fi­lar na min­ha esco­la. Porque eu era rain­ha de bate­ria, ou algu­ma pas­sista, ou algum destaque na esco­la. Min­ha últi­ma esco­la foi a Domin­gos de Albu­querque. Ain­da sou apaixon­a­da por ela. Tem pro­fes­sores muito potentes, que não deix­am a pete­ca cair. Eu fazia esporte lá, meu pro­fes­sor tra­bal­ha­va em out­ra esco­la, par­tic­u­lar, e as bolas de lá, ele trazia para min­ha esco­la. E os instru­men­tos da out­ra esco­la que não servi­am, ele trazia, e a gente apren­dia a faz­er a manutenção dos instru­men­tos, porque só tín­hamos os instru­men­tos que eram restos da esco­la par­tic­u­lar.

Eu toquei pouco nas fan­far­ras de lá e, quan­do toquei, toquei sur­do. Segurei bem o sur­do, mas a parte que eu gosta­va mes­mo era de dançar. Fui incen­ti­va­da tam­bém a faz­er aula de músi­ca, porque tem uma esco­la munic­i­pal de músi­ca que faz todos os even­tos, tan­to da prefeitu­ra quan­to da igre­ja, tudo que é inau­gu­ração, que é a ban­da munic­i­pal. O meu avô de con­sid­er­ação, que mora na mes­ma rua do meu avô, toca­va nes­sa ban­da e me incen­ti­va­va a ir. Então, fiz um tem­po de clar­inete. Acha­va boni­to mes­mo era o sax­o­fone, mas desisti, porque não era muito per­to da min­ha casa, era duas vezes na sem­ana.

Em Per­nam­bu­co, a gente cam­in­ha por muitos lugares. Ia dançar quadrilha em lugares que eram muito bizarros, porque, para pas­sar, às vezes o ônibus fica­va ato­la­do. E a gente toda mon­ta­da de quadrilha, descia e ia empurrar o ônibus. Chegá­va­mos no lugar cheios de lama. Limpá­va­mos os pés e iamos lá dançar. E a gente não rece­bia nada, nen­hum real. Vai faz­er fig­uri­no? Faz a rifa, alguém aju­da a com­prar.

Agên­cia Brasil: Pode falar sobre a feitu­ra das roupas, a indu­men­tária? A gente sabe que, em mara­catu rur­al, as golas são uma tra­bal­heira.

A dançarina Elis Trindade é rainha do Maracatu Ouro do Congo, da família de Solano Trindade, em Embu das Artes.
Repro­dução: Elis Trindade con­sid­era impor­tante cos­tu­rar a própria ves­ti­men­ta. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

Elis Trindade: Se você for a uma loja para com­prar uma coisa que já está pronta, você vai dançar com a ener­gia do out­ro. Porque você não vai saber se a ener­gia, naque­le momen­to, é de “estou ten­do praz­er de faz­er esse fig­uri­no” ou se a pes­soa que está con­fec­cio­nan­do não gos­ta do car­naval porque odeia o barul­ho, a bagunça e tudo do car­naval. Então, você vai vestir a roupa que foi fei­ta por uma pes­soa não gostaria que você fos­se ao car­naval. Exis­tem as pes­soas que disponi­bi­lizam dias e horas de sua vida para con­fec­cionar sua roupa e, aí, é o lado opos­to, que você nun­ca vai saber, porque ener­gia é algo que você pega, você sente. Você nun­ca vai saber quem fez sua roupa. Então, vá faz­er sua própria roupa. Tem várias mães que sen­tam na por­ta de casa à tarde e aju­dam a bor­dar sua roupa, pre­gar ou remen­dar, ajus­tar, faz­er seu acessório de cabeça.

Tin­ha uma cos­tureira no meu bair­ro, a Nal­va, que era mar­avil­hosa. Fazia tudo de todo mun­do. Eu nun­ca a vi sair com a roupa que fez, ela sem­pre saía sim­ples, com shorts e camiset­inha, um bril­hin­ho no ros­to, mas gosta­va de ver todo mun­do pron­to.

Até hoje, em Nazaré da Mata (PE), todo mun­do con­tin­ua fazen­do a con­fecção de seu acessório. Tem gente que não está mais sain­do no car­naval, mas já saiu muitos anos. Prin­ci­pal­mente os costeiros dos cabo­c­los de lança, que dão muito tra­bal­ho. É fio a fio, agul­ha a agul­ha. Então, enquan­to você tá ven­do aque­le desen­ho se trans­for­mar, é muito difer­ente de você chegar na loja e com­prar. Tem uma ener­gia difer­ente. Você vai ter orgul­ho de vestir e diz­er assim: fui eu que fiz.

Acho que a gente, de algu­ma for­ma, tem que tocar no fig­uri­no ou faz­er o proces­so de cri­ação. Eu sou uma pes­soa que não sabe usar máquina de cos­tu­ra, mas adoro entre­gar teci­do e olhar o teci­do ser trans­for­ma­do. Pen­so no proces­so de cri­ação da roupa. Ela pre­cisa girar? Como vai ficar no meu cor­po?

Agên­cia Brasil: O que você acha que pux­ou da família Trindade, que é tão forte aqui tam­bém? O que acha que absorveu, em ter­mos de cul­tura brasileira que é cola­da nas práti­cas deles?

Elis Trindade: Atrav­es­sar a ponte, atrav­es­sar o mar foi uma coisa muito incrív­el. Eu con­heci min­ha sogra, Raquel, em Per­nam­bu­co. Ela esta­va em um hotel, tin­ha ido plan­tar um baobá. Era a Bien­al do Livro Afro­brasileiro, os 100 anos de Solano Trindade. Eu tra­bal­ha­va no hotel, rece­bia as pes­soas da área super luxo. Neste perío­do, eu fui proibi­da de fol­gar e fiquei com mui­ta rai­va no começo. Falei que era a min­ha fol­ga, mas eles falaram que chegari­am umas pes­soas que eu pre­cisa­va rece­ber. Eram da área super luxo, da qual eu era super­vi­so­ra. Rece­bi e os con­heci lá, con­heci a história de Solano Trindade a par­tir dela [Raquel], que já mora­va aqui em São Paulo e foi pra lá tam­bém, recon­tar a história. Se você anda pelas ruas de Recife, a está­tua de Solano Trindade está lá, mas a maio­r­ia das pes­soas não sabe quem é ele.

Con­ver­sei com min­ha sogra sobre várias coisas da cul­tura e ela foi me dan­do vários toques sobre o que era isso. No momen­to, não imag­inei que viesse para São Paulo, pois era o últi­mo lugar que eu que­ria vir na vida. Aí, o Vitor me pediu em casa­men­to, no primeiro dia em que me viu, e eu aceit­ei e vim para cá. Antes eu era uma pes­soa aves­sa ao casa­men­to.

Min­ha lig­ação com a família Trindade é a de aproveitar mais sobre a cul­tura brasileira, mas não só como diver­são. O Vitor disse que min­ha voz é o que a cul­tura pop­u­lar pede. Então, come­cei fazen­do vocal na ban­da dele e depois fiquei aju­dan­do mais na pro­dução. Ele me con­vi­dou para dançar. Eu fica­va com medo de dançar soz­in­ha, porque sem­pre dan­cei no cole­ti­vo. Dança­va no mara­catu e na família, é tudo cole­ti­vo. Eu sou um bam­buzal, e um bam­buzal não fica soz­in­ho. Eu me enten­do como um bam­bu, que tam­bém não é uma for­t­aleza. A dança vem me for­t­ale­cen­do. Vim para São Paulo no final de 2008 pra 2009, quan­do aceit­ei casar com o Vitor.

Agên­cia Brasil: Você pode falar sobre o blo­co daqui, que tem sim­i­lar­i­dades com o mara­catu de Nazaré da Mata?

Elis Trindade: Durante o perío­do em que eu esta­va em Per­nam­bu­co, tin­ha Maria Car­oli­na, que é min­ha pri­ma, fil­ha da min­ha tia Ângela. Car­ol tem uma família de mara­ca­tus. Nun­ca me importei muito, mas sem­pre vi que era uma coisa mar­avil­hosa, de bril­hos, porque gos­to de bril­ho. Eu disse que era neste grupo que que­ria dançar. Só que min­ha cidade fica­va muito dis­tante. E Ipo­ju­ca não tem tradição de mara­catu.

Quan­do vi a família Trindade, aqui em São Paulo, fui e voltei para Nazaré da Mata, onde con­heço algu­mas famílias de mara­catu. A gente foi lá pra con­ver­sar, porque, na ver­dade, quan­do a gente pen­sa na frase de Solano Trindade, tem que pesquis­ar na fonte de origem e devolver ao povo em for­ma de arte. A gente pre­cisa­va ter con­ta­to com essas pes­soas de lá, que foram seus antepas­sa­dos e tiver­am con­ta­to com Solano.

Encon­tramos esse grupo, que já esta­va fazen­do mais de cem anos. Na época, só dançavam os home­ns. Algu­mas relações do mara­catu tin­ham conexão com a calun­ga. E eu disse: Gente, mas eu adoro boneca. Então, mara­catu é o meu lugar. Fui fazen­do esse que­bra-cabeça. Por que uma mul­her for­ma­da, grande, fica­va brin­can­do com as bonecas escon­di­da? Quan­do eu brin­ca­va com as bonecas na rua, as pes­soas falavam que eu já era grande para brin­car de boneca. Então, eu brin­ca­va no meu quar­to com as bonecas. Quan­do encon­trei o mara­catu com as calun­gas, fiquei mar­avil­ha­da. E disse: quero dançar aí para segu­rar a boneca. Mas não vim a São Paulo para ser dama do paço, vim e fui rain­ha. Primeiro, fui rain­ha do Blo­co da Cam­bin­da, que é o blo­co de car­naval de rua da min­ha sogra aqui em Embu das Artes, e antes eu dança­va no mara­catu..

Nun­ca quis ficar à frente do mara­catu, sem­pre quis ficar lá atrás. Porque rain­ha é uma só. Eu tin­ha impressão de que, ao ficar como rain­ha, eu ia ficar só lá na frente, em uma respon­s­abil­i­dade de mostrar que sou o poder para as pes­soas que estão atrás de mim. E só depois fui enten­der essa relação. No mara­catu de Nazaré da Mata, enten­di que começa­va com todos os home­ns dançan­do. A estru­tu­ra é muito pare­ci­da com a gente, porque tem rei, rain­ha, prince­sas europeias. E, aí, Mateus e Cati­ri­na, que eu não enten­dia como do mara­catu. O moço que aten­deu a gente era Cati­ri­na, e ela tam­bém tin­ha a função de se mon­tar, e tam­bém pare­cia uma calun­ga, porque esta­va com o ros­to todo pin­ta­do. A função era ali­men­tar o grupo, andar na frente, limpar o lugar. E era uma boneca tam­bém.

Foi muito bom pas­sar por essa exper­iên­cia, que deixou claro o ensi­na­men­to que min­ha sogra já prepar­a­va. Dan­cei coco lá pou­cas vezes. Aqui dan­cei o coco, o jon­go, que era mais uma pesquisa dos inte­ri­ores, dos quilom­bos, o sam­ba-lenço rur­al, que eu não con­hecia, que foi tam­bém uma pesquisa da Mar­gari­da da Trindade, que era a mãe da min­ha sogra e que lev­ou pro Rio de Janeiro, quan­do tra­bal­ha­va no hos­pi­tal psiquiátri­co. E a família toda faz algo em relação à dança, mas o nos­so car­ro-chefe é esse: o mara­catu.

Fui enten­den­do a força da rain­ha, lá na frente. Ela não está dançan­do soz­in­ha, mes­mo que pareça. Tem mui­ta gente ao lado dela, mui­ta força, tan­to espir­i­tu­al quan­to car­nal. É mui­ta força que a gente pre­cisa ter. A gente é que nem pal­haço: não pode perder o bril­ho, o sor­riso, porque tem uma comu­nidade inteira esperan­do que a gente ten­ha essa força.

No mara­catu, uma coisa que con­sidero muito impor­tante falar é que temos um movi­men­to hoje, de falar da importân­cia das mul­heres no toque do mara­catu. Às vezes, tem meni­na que quer muito estar no mara­catu, e eu sei que a maio­r­ia dos mara­ca­tus de São Paulo tem uma cul­tura do toque que ain­da não tem uma corte. Às vezes, por opção, ou porque ain­da não chegou no lugar do grupo de dança. Se está na sua comu­nidade e tem um mara­catu, vá para essa família, mes­mo se você achar que tem duas mãos esquer­das, como muitas vezes eu pen­sei. Às vezes, o mara­catu não está na força com que você vai tocar o tam­bor, está na força com que vai tocar o gonguê, o agogô, a caixa, o sur­do, o atabaque, está na força do seu quer­er.

Eu não toca­va mara­catu, min­ha sogra não toca­va, mas o nos­so sotaque den­tro da Nação Cam­bin­da foi ela que trouxe de Per­nam­bu­co para cá. E ela traz na oral­i­dade. Ela ouviu a mãe dela falar, ela ouviu os mara­ca­tus pas­sarem na por­ta da casa dela, ela ouviu o boi, o pas­to­ril, e ela sabia do som. Colo­can­do o mara­catu como o cen­tro do umbi­go da mul­her, do ven­tre, dessa primeira boca, que é a mul­her nesse lugar do poder do mara­catu. A nos­sa casa foi segu­ra­da a par­tir dis­so, do entendi­men­to do que é impor­tante você é ouvir.

Se você sabe falar, você vai can­tar. Uma hora, você vai encon­trar o seu rit­mo e, às vezes, o seu rit­mo não é o rit­mo que está naque­le sotaque e naque­le out­ro. Às vezes, você sair do seu bair­ro e andar léguas, que nem eu, que saí de Per­nam­bu­co para vir pra São Paulo, enten­der a potên­cia do mara­catu e voltar pra Per­nam­bu­co, ter um out­ro olhar em relação a isso. Às vezes, a gente não pre­cisa tocar, a gente pre­cisa ouvir e falar menos. Quan­do a gente fala menos, a gente aprende muito mais. Tem muito mestre queren­do falar. E, às vezes, a gente colo­ca o mestre no lugar do “só é o mais vel­ho”. Às vezes, o mestre que está chegan­do é uma cri­ança e você não entende o que o uni­ver­so man­dou para você.

Edição: Maria Clau­dia

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d