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Com aumento da fome, sociedade se mobiliza para atender vulneráveis

Repro­dução: © Cole­ti­vo Banquetaço/Divulgação

Entidades acreditam que têm papel importante na construção de soluções


Pub­li­ca­do em 21/03/2023 — 06:32 Por Elaine Patri­cia Cruz – Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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Prato vazio: um retrato da fome no Brasil

No final do mês de fevereiro, os irmãos gêmeos Wes­llysson e Wes­l­ley, 21 anos, deixaram Itape­va, cidade que fica quase na divisa entre os esta­dos de São Paulo e do Paraná, em bus­ca de uma vida mel­hor na cidade grande. Ao chegarem na cap­i­tal paulista, sem din­heiro algum, voltaram a se encon­trar com uma vel­ha con­heci­da da infân­cia: a fome.

“Já ficamos qua­tro dias sem com­er nada. Quan­do a gente esta­va lá em Itape­va e decidi­mos sair do mato e ir para a cidade, procu­rar algu­ma coisa para con­seguir chegar em São Paulo, ficamos três dias sem com­er, só beben­do água. Pas­sar fome é hor­rív­el. É uma sen­sação hor­rív­el. É um jeito muito ruim na bar­ri­ga. Ficamos meio ton­tos, dá preguiça, dá moleza no cor­po. Você não con­segue pen­sar dire­ito. É ruim”, con­tou Wes­l­ley San­tos Sil­va.

Mes­mo des­ti­no encon­trou Yara Angel Andrade Lucas, 20 anos, quan­do deixou a cidade mineira de Poços de Cal­das e chegou à cap­i­tal paulista. Até então, ela descon­hecia a fome. “Depois que vim para cá é que con­heci essa situ­ação de rua”, con­tou à reportagem da Agên­cia Brasil.

“Era difí­cil porque não con­hecia esse fato de pedir as coisas. Não era um hábito meu. E começan­do a viv­er na rua, a gente aprende. Quan­do eu cheguei em São Paulo, eu pas­sei fome, mas depois dis­so, não mais. É uma sen­sação hor­rív­el [sen­tir fome]. Você estar com fome e não con­seguir pedir ou ter ver­gonha pelo fato de estar naque­la situ­ação, isso mexe com nos­so sen­ti­men­to”, expli­cou.

“Depois, quan­do a gente recebe um ali­men­to, é um alívio total porque a bar­ri­ga doía, sen­tia dor de cabeça. Fora psi­co­logi­ca­mente tam­bém porque pas­sei por uma situ­ação que não pas­sa­va antes, de pas­sar fome, que não pas­sa pela cabeça de ninguém”, afir­mou.

A cabeleireira Thais Oliveira Cav­al­cante, 31 anos, morado­ra da zona leste paulis­tana, se esforça para que seus qua­tro fil­hos nun­ca sin­tam a fome que ela viven­ciou na infân­cia. “Como eu já pas­sei por isso, ten­tei ao máx­i­mo evi­tar que eles pas­sas­sem tam­bém”, desta­cou.

Ela afir­ma que a vida ficou mais difí­cil e o din­heiro mais escas­so durante a pan­demia de covid-19, quan­do as pes­soas deixaram de procu­rar o serviço de cabeleireira. O salário do mari­do era sufi­ciente ape­nas para pagar o aluguel e despe­sas da casa que, inclu­sive, chegaram a ficar atrasadas. “Ele segurou o aluguel. Cheg­amos até a atrasar alguns [meses]”, con­tou. Mas os fil­hos [que tem entre 3 e 13 anos] não deixaram de com­er nesse perío­do.

“Difi­cul­dade extrema não [tive­mos]. Mas às vezes não con­seguia com­prar tudo e pre­cisa­va da aju­da de alguém. Chega a ser humil­hante, na ver­dade. A gente sabe que a gente dev­e­ria con­tar com a aju­da do gov­er­no já que a gente paga pra isso tam­bém. Só que, infe­liz­mente, nem sem­pre a gente é aju­da­do. Então, a sen­sação é bem ruim, é de humil­hação mes­mo, de impotên­cia”, desta­cou.

Wes­llysson, Wes­l­ley, Yara e Thais tem uma história comum a muitos brasileiros: a exper­iên­cia com a fome. Emb­o­ra não este­jam clas­si­fi­ca­dos no nív­el mais grave de inse­gu­rança ali­men­tar, todos eles ain­da enfrentam difi­cul­dades e incertezas sobre o futuro. E esse uni­ver­so é comum à maio­r­ia dos brasileiros. Ape­nas 44% da pop­u­lação brasileira se encon­tra atual­mente em um nív­el de segu­rança ali­men­tar, ou seja, com capaci­dade para se ali­men­tar sau­dav­el­mente, poden­do com­prar os ali­men­tos que quer e fazen­do todas as refeições diárias – o que inclui ain­da todos os mem­bros de sua família.

“Há três níveis de inse­gu­rança ali­men­tar: a leve, a mod­er­a­da e a grave. A leve é uma família que tem ali­men­tos, mas ela não tem segu­rança de que vai ter o ali­men­to na próx­i­ma sem­ana, por exem­p­lo. A inse­gu­rança ali­men­tar mod­er­a­da é quan­do não se tem o sufi­ciente para ali­men­tar todos os mem­bros da família, já tem algu­ma restrição ali­men­tar seja do tipo de ali­men­to seja na quan­ti­dade de refeições. O ter­ceiro nív­el é a inse­gu­rança ali­men­tar grave que é o que chamamos de fome, que é a família que não tem ali­men­tos e con­segue faz­er, no máx­i­mo, uma refeição por dia — quan­do con­segue. São famílias que todo dia acor­dam com dúvi­da se vão con­seguir com­er naque­le dia”, expli­cou Rodri­go “Kiko” Afon­so, dire­tor exec­u­ti­vo da Ação da Cidada­nia.

É nesse ter­ceiro nív­el de inse­gu­rança ali­men­tar que se encon­tram 33 mil­hões de pes­soas hoje no país. “Essa situ­ação é muito grave: é o pior esta­do de fome da história do Brasil. E, de fato, é algo que pre­cisa de mui­ta força políti­ca, mas prin­ci­pal­mente, de mobi­liza­ção da sociedade para que isso seja rever­tido em cur­to pra­zo”, disse Afon­so em entre­vista à Agên­cia Brasil.

Sociedade mobilizada

Foi por meio de doações e de tra­bal­hos que são desen­volvi­dos pela sociedade civ­il que Wes­llysson, Wes­l­ley, Yara e Thais con­seguiram se ali­men­tar no perío­do de maior difi­cul­dade. Os irmãos, por exem­p­lo, ao chegarem em São Paulo fam­intos, se depararam com um cam­in­hão que fazia uma dis­tribuição de comi­da à noite para moradores que vivem sob os viadu­tos na cidade de São Paulo.

“No primeiro dia em que cheg­amos aqui [em São Paulo], a gente nem sabia onde esta­va. Ficamos sem com­er. Quan­do foi à noite, fomos para debaixo de um viadu­to e tin­ha uma pes­soa dis­tribuin­do comi­da de um cam­in­hão. A gente esta­va deses­per­a­do de fome. Peg­amos comi­da e comem­os”, con­tou Wes­l­ley.

Após se ali­menta­rem, eles tiver­am forças para cam­in­har até a Paróquia de São Miguel Arcan­jo, na zona leste, onde pud­er­am encon­trar uma figu­ra que já con­heci­am pela tele­visão: o padre Julio Lan­cel­lot­ti, da Pas­toral do Povo da Rua da Arquid­io­cese de São Paulo. Foi por meio do padre e do tra­bal­ho social que é desen­volvi­do na paróquia e em out­ros pon­tos da cidade que ambos con­seguiram um tra­bal­ho como jar­dineiro e uma casa para morar.

Enquan­to não ini­ci­am o novo tra­bal­ho, eles vão fazen­do suas refeições gra­tuita­mente por meio de uma ação que é ofer­e­ci­da pela igre­ja. “Já pas­samos bas­tante difi­cul­dade. Até maus tratos, quan­do a gente era menor, a gente sofreu. Pas­sar fome é não ter o que com­er em casa, às vezes tra­bal­har só para com­er. Mas aqui [na paróquia] é comi­da boa, de ver­dade. Dão café da man­hã, almoço, café da tarde e jan­ta”, expli­cou Wes­llysson.

Yara tam­bém foi ben­e­fi­ci­a­da pelo tra­bal­ho do padre Julio. Ela ain­da não con­seguiu um emprego e vive, atual­mente, em um abri­go para pes­soas trans, local­iza­do na zona norte da cap­i­tal. Mas com a aju­da do sac­er­dote, con­segue realizar todas as suas refeições.

“Tem vários núcleos aqui em São Paulo que fornecem ali­men­tos para essas pes­soas que estão em situ­ação de rua e onde mui­ta gente tem esse abri­go para poder com­er, poder pas­sar um tem­po, ver questões de doc­u­men­tos. Em São Paulo tem bas­tante aju­da, prin­ci­pal­mente aqui com o padre Julio, que é uma refer­ên­cia”, disse.

Já Thais, no perío­do de maior difi­cul­dade da pan­demia, rece­beu aju­da de ami­gos e de enti­dades que doavam ces­tas bási­cas, como a Ação da Cidada­nia. É por isso que seus fil­hos não pas­saram fome.

“Tive aju­da de ONGs, tive aju­da de ami­gos, de con­heci­dos, de família. Nos primeiros meses de pan­demia, fiquei prati­ca­mente tran­ca­da den­tro de casa até porque min­has meni­nas eram bebês na época. Fiquei a pan­demia sem pas­sar fome, mas na neces­si­dade”, afir­mou.

No momen­to em que o Brasil vol­ta a ter um grande con­tin­gente de pes­soas em situ­ação grave de inse­gu­rança ali­men­tar, é a sociedade civ­il que tem atu­a­do mais osten­si­va­mente na aju­da à pop­u­lação vul­neráv­el. Cada uma a seu modo, elas bus­cam amparar essas pes­soas de for­ma emer­gen­cial, na ten­ta­ti­va de cumprir um pre­ceito con­sti­tu­cional que dev­e­ria ser asse­gu­ra­do a todos os cidadãos por meio de políti­cas públi­cas: o dire­ito humano à ali­men­tação ade­qua­da, arti­go que foi incluí­do na Con­sti­tu­ição Fed­er­al em 2010.

Conheça entidades que atuam no combate à fome

Ação da Cidadania

Rio de Janeiro - Ação da Cidadania lança campanha Natal sem Fome no Aterro do Flamengo(Tomaz Silva/Agência Brasil)
Repro­dução: Rio de Janeiro — Ação da Cidada­nia lança cam­pan­ha Natal sem Fome no Ater­ro do Fla­men­go- Tomaz Silva/Arquivo Agên­cia Brasil

Uma das primeiras orga­ni­za­ções a tra­bal­har com o com­bate à fome no país é a Ação da Cidada­nia, cri­a­da em 1993, a par­tir de um grande chama­do feito pelo sociól­o­go Her­bert de Souza (1935–1997), o Bet­inho. 

“A Ação da Cidada­nia foi, se não a primeira, uma das primeiras orga­ni­za­ções da sociedade civ­il a tratar de maneira especí­fi­ca e pro­fun­da a questão da inse­gu­rança ali­men­tar”, disse Rodri­go “Kiko” Afon­so, dire­tor exec­u­ti­vo da enti­dade.

“Muitas das leg­is­lações que exis­tem hoje são baseadas na luta do Bet­inho de com­bate à fome”, acres­cen­tou, lem­bran­do que o sociól­o­go foi tam­bém um dos ide­al­izadores do Con­sel­ho Nacional de Segu­rança Ali­men­tar e Nutri­cional (Con­sea), órgão cri­a­do em 1993 com a mis­são de aux­il­iar o gov­er­no fed­er­al na definição de políti­cas públi­cas rela­cionadas à segu­rança ali­men­tar e nutri­cional da pop­u­lação, garan­ti­n­do o aces­so à ali­men­tação saudáv­el e ade­qua­da a todos os brasileiros. O Con­sea chegou a ser extin­to em 2019, durante o gov­er­no de Jair Bol­sonaro, mas foi recri­a­do no fim do mês de fevereiro pelo pres­i­dente Luiz Iná­cio Lula da Sil­va.

Con­heci­da prin­ci­pal­mente pelas doações de dona­tivos e por cam­pan­has como o Natal sem Fome, Brasil Sem Fome e o SOS Emergên­cias, a Ação da Cidada­nia atua sem rece­ber quais­quer recur­sos públi­cos.

“Nos­sos recur­sos vêm de doações de pes­soas físi­cas, de empre­sas e de orga­ni­za­ções nacionais e inter­na­cionais. O úni­co recur­so públi­co que pode trafe­gar pela Ação da Cidada­nia é por lei de incen­ti­vo”, disse Afon­so.

Rio de Janeiro - Ação da Cidadania lança campanha Natal sem Fome no Aterro do Flamengo(Tomaz Silva/Agência Brasil)
Repro­dução: Rio de Janeiro — Ação da Cidada­nia lança cam­pan­ha Natal sem Fome no Ater­ro do Fla­men­go — Tomaz Silva/Arquivo Agên­cia Brasil

O tra­bal­ho desen­volvi­do pela orga­ni­za­ção, no entan­to, não se resume a essas cam­pan­has. “Hoje somos uma potên­cia nesse proces­so de luta con­tra a fome. A gente não só dis­tribui ces­tas, que é como nor­mal­mente somos con­heci­dos. A gente é uma das prin­ci­pais enti­dades brasileiras na questão de políti­cas públi­cas e lutas de advo­ca­cy na área de segu­rança ali­men­tar. Tam­bém somos uma potên­cia na área de for­mação de lid­er­anças e agentes públi­cos na temáti­ca de segu­rança ali­men­tar no Brasil”, ressaltou.

No futuro, desta­cou Afon­so, a orga­ni­za­ção pre­tende mon­tar a maior rede de ban­co de ali­men­tos de coz­in­ha solidária do Brasil.

“A Ação da Cidada­nia, pela história que tem, con­seguiu super­ar o desafio da sobre­vivên­cia. Hoje con­seguimos sobre­viv­er com as doações recor­rentes que a gente recebe de pes­soas físi­cas e insti­tu­ições. Além dis­so, con­seguimos cri­ar um fun­do pat­ri­mo­ni­al da Ação da Cidada­nia, chama­do de Fun­do Bet­inho, que con­segue garan­tir a sus­tentabil­i­dade da orga­ni­za­ção no lon­go pra­zo.”

“O nos­so desafio e da sociedade como um todo é chegar a um mod­e­lo de cap­tação de recur­sos e de atu­ação que garan­ta a inde­pendên­cia da orga­ni­za­ção para que ela pos­sa atu­ar em suas temáti­cas de for­ma inde­pen­dente e con­tínua. Nós, feliz­mente, con­seguimos isso”, falou Afon­so.

Coletivo Banquetaço

São Paulo (SP) - ESPECIAL - Ação do Coletivo Banquetaço em 27 de fevereiro na cidade de Mauá, na Grande São Paul - Foto: Coletivo Banquetaço/Divulgação
Repro­dução: São Paulo (SP) — Ação do Cole­ti­vo Ban­que­taço em 27 de fevereiro na cidade de Mauá, na Grande São Paulo — Foto: Cole­ti­vo Banquetaço/Divulgação

Em out­ubro de 2017, o então prefeito de São Paulo, João Doria, anun­ciou que pre­tendia incluir na meren­da esco­lar a far­i­na­ta – uma far­in­ha fei­ta com ali­men­tos per­to da val­i­dade que seri­am descar­ta­dos por pro­du­tores ou revende­dores. À época, o gov­er­no ale­gou que a far­i­na­ta era como um “ali­men­to com­ple­to”, com pro­teí­nas, vit­a­m­i­nas e min­erais e que seria ofer­e­ci­da em for­ma de bis­coitos e tam­bém usa­da em pães, bolos e mas­sas. 

O anún­cio ger­ou polêmi­ca e dessas críti­cas acabou surgin­do Cole­ti­vo Ban­que­taço. For­ma­do por pes­soas lig­adas à área de ali­men­tação, como chefes de coz­in­ha famosos, meren­deiras, coz­in­heiras e pes­soas que estu­dam nutrição e gas­trono­mia, o cole­ti­vo surgiu como uma críti­ca ao pro­je­to de Doria.

“A far­i­na­ta até pode­ria ali­men­tar, mas era uma ração. Ela seria só para nutrir o cor­po: é como dar uma ração para um pas­sar­in­ho ou para um ani­mal. Vai matar a fome, mas a fome tem muito mais a ver com a neces­si­dade de com­par­til­hamen­to de mesa, com a qual­i­dade do ali­men­to que se come, em como você come”, expli­cou Maria Clau­dia Gavi­o­li, con­heci­da como Clau Gavi­o­li, asses­so­ra de comu­ni­cação da orga­ni­za­ção.

“O Ban­que­taço é um cole­ti­vo para influên­cia de políti­cas públi­cas. Ele tra­bal­ha com a ideia de for­t­ale­cer a defe­sa do dire­ito humano à ali­men­tação ade­qua­da. Quan­do a gente fala em ali­men­tação ade­qua­da, esta­mos falan­do de comi­da e não sim­ples­mente de ingre­di­entes ou ali­men­to. Quan­do comem­os, a gente leva em con­sid­er­ação que existe uma cul­tura ali­men­tar para que as pes­soas comam de acor­do com aqui­lo que elas apren­der­am em suas comu­nidades, com aqui­lo que faz bem para nutrir o cor­po fisi­ca­mente e que faça sen­ti­do como comi­da”, disse.

São Paulo (SP) - ESPECIAL - Ação do Coletivo Banquetaço em 27 de fevereiro na cidade de Mauá, na Grande São Paul - Foto: Coletivo Banquetaço/Divulgação
Repro­dução: São Paulo (SP) — Ação do Cole­ti­vo Ban­que­taço em 27 de fevereiro na cidade de Mauá, na Grande São Paul — Foto: Cole­ti­vo Banquetaço/Divulgação

Para lutar con­tra a ideia da far­i­na­ta, as pes­soas que for­mam o cole­ti­vo decidi­ram que, em vez de ofer­e­cer ração às pes­soas, ofer­e­ce­ri­am um ban­quete com “comi­da, entreten­i­men­to e cul­tura”.

“A ideia do Ban­que­taço é que não seja ofer­e­ci­da ape­nas comi­da de qual­i­dade, ou seja, limpa, jus­ta, com qual­i­dade e vin­da do pro­du­tor que está próx­i­mo, sem ser ultra­proces­sa­da ou indus­tri­al­iza­da. Além da comi­da, a ideia é pro­mover uma grande con­frat­er­niza­ção entre as pes­soas, com­par­til­han­do o ali­men­to e o entreten­i­men­to”, afir­mou.

As ações pro­movi­das pelo cole­ti­vo são pon­tu­ais, sem data defini­da. No mês pas­sa­do, por exem­p­lo, foi pro­movi­do um even­to para cel­e­brar o retorno do Con­sea.

“Quan­do ele [o ex-pres­i­dente Jair Bol­sonaro] des­fez o Con­sea, ime­di­ata­mente as pes­soas começaram a se mobi­lizar e foi apre­sen­ta­da a ideia de realizar um Ban­que­taço, no dia 27 de fevereiro de 2019, aqui na cidade de São Paulo, na Praça da Repúbli­ca. Foi um suces­so. Por isso, nesse ano de 2023, a gente repetiu o mes­mo even­to, tam­bém no dia 27 de fevereiro, e veio a cal­har com o pres­i­dente Lula [Luiz Iná­cio Lula da Sil­va] dizen­do que ia rein­sta­lar os Con­seas. Então, no últi­mo dia 27, fize­mos uma fes­ta para comem­o­rar.”

São Paulo (SP) - ESPECIAL - Ação do Coletivo Banquetaço em 27 de fevereiro na cidade de Mauá, na Grande São Paul - Foto: Coletivo Banquetaço/Divulgação
Repro­dução: Ban­que­taço  , por Cole­ti­vo Banquetaço/Divulgação

As ações tam­bém vari­am poden­do ser um ban­que­taço ou um mar­mi­taço, depen­den­do da ocasião. O que elas têm em comum é que sem­pre são gra­tu­itas, artic­u­ladas por gru­pos no What­sApp e real­izadas por meio de doações.

“É tudo via What­sApp e cada um no seu pedaço, uma cen­tral­iza­ção descen­tral­iza­da: a gente está lá no What­sApp, mas a gente sai falan­do com a cole­ga do Piauí, ao mes­mo tem­po com a do Rio de Janeiro, aqui em São Paulo. Tem muitos home­ns tam­bém. Mas a grande maio­r­ia é a mul­her­a­da, que quer coz­in­har e vai atrás das coisas. Tem lá o grupo que cui­da da comu­ni­cação, que cui­da de doações, da coz­in­ha. E tem o grupo de cada esta­do”, expli­cou.

“Organi­ca­mente, as coisas vão acon­te­cen­do. A gente inclu­sive fala que é aí que a mág­i­ca acon­tece porque é mui­ta gente envolvi­da, bus­can­do comi­da de todos os lados. Um bus­ca um ingre­di­ente aqui, o out­ro bus­ca um rela­ciona­men­to do out­ro lado, o out­ro bus­ca a água. E aí a coisa rola. Mas sem­pre com a ideia de faz­er uma inter­venção públi­ca para sen­si­bi­lizar a sociedade”, disse Clau.

Paróquia São Miguel Arcanjo

São Paulo, 03/03/2023, Padre Júlio Lancellotti na Paróquia de São Miguel Arcanjo, na Mooca, zona leste da capital. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­dução: São Paulo, 03/03/2023, Padre Júlio Lan­cel­lot­ti na Paróquia de São Miguel Arcan­jo, na Mooca, zona leste da cap­i­tal. Foto: Rove­na Rosa/Agência Brasil

Talvez a pes­soa mais con­heci­da atual­mente no Brasil pelo tra­bal­ho de com­bate à fome seja o padre Julio Lan­cel­lot­ti, que atua na Paróquia de São Miguel Arcan­jo, na zona leste da cap­i­tal paulista. Com mais de 40 anos de tra­bal­ho com a pop­u­lação em situ­ação de rua, o padre é a figu­ra de refer­ên­cia quan­do o assun­to é resolver questões que afligem a pop­u­lação mais vul­neráv­el: seja para encon­trar um pra­to de comi­da, seja para aju­dar a con­seguir um emprego, para cobrar o Poder Públi­co ou para ofer­e­cer um con­for­to espir­i­tu­al.

Enquan­to con­ver­sa­va com a reportagem da Agên­cia Brasil, o padre foi inter­rompi­do numerosas vezes e, em nen­hu­ma delas, deixou de aten­der quem pre­cisa­va de aju­da. “Con­vive­mos todos os dias com cer­ca de 500 a 600 pes­soas”, disse.

“Par­til­hamos o pão que nós mes­mos faze­mos. Pro­duz­i­mos cer­ca de 3 mil pães por dia que são par­til­ha­dos em vários pon­tos da cidade. Na Casa de Oração tam­bém temos o almoço: são entre 500 e 700 mar­mi­tex [ofer­e­ci­dos todos os dias]”, con­tou.

Tudo isso é ofer­e­ci­do pela igre­ja por meio de doações. “São tudo doações, mutirões, que a gente faz para jun­tar. A gente não tem nada ofi­cial [de gov­er­nos]”, desta­cou.

“A ali­men­tação é um pre­tex­to para con­viv­er. O nos­so obje­ti­vo é a con­vivên­cia. A ali­men­tação é uma neces­si­dade obje­ti­va, mas não somos dis­tribuidores de comi­da. O ali­men­to é uma for­ma de aprox­i­mação, uma for­ma de estar jun­to e per­to e de, jun­tos, lutar­mos para super­ar os prob­le­mas que atingem essa pop­u­lação.”

Prob­le­mas que, segun­do o padre, só serão super­a­dos quan­do o Brasil con­seguir dis­tribuir a ren­da. 

“A fome é um dos sin­tomas da desigual­dade. A desigual­dade pro­duz fome, aban­dono, mis­éria, fal­ta de mora­dia, fal­ta de pos­si­bil­i­dade de tra­bal­ho. Todas essas questões estão lig­adas umas com as out­ras. Com o ali­men­to, nós nos rela­cionamos. É uma for­ma de nos rela­cion­ar­mos e de diz­er para o out­ro que ele é impor­tante para mim.”

Encontrar caminhos

São Paulo (SP),16/03/2023 - Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) acampam na calçada do Viaduto do Chá, em à Prefeitura de São Paulo, para cobrar que o prefeito Ricardo Nunes cumpra promessas de construção de moradias
Repro­dução: São Paulo (SP),16/03/2023 — Inte­grantes do Movi­men­to dos Tra­bal­hadores Sem Teto (MTST) acam­pam na calça­da do Viadu­to do Chá, em frente à prefeitu­ra de São Paulo — Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Ape­sar da grande aju­da que ofer­e­cem às pes­soas e às famílias vul­neráveis, os movi­men­tos, cole­tivos e orga­ni­za­ções civis recon­hecem que o tra­bal­ho que desen­volvem tem um caráter emer­gen­cial e não resolve o prob­le­ma da fome no país.

“A gente tem que se olhar não como uma enti­dade que sub­sti­tua o Esta­do em seus deveres. O Esta­do é obri­ga­do a resolver ess­es prob­le­mas, não nós. Nós aju­damos porque quer­e­mos sal­var vidas. A gente entende que a incom­petên­cia, a ingerên­cia e as difi­cul­dades do Poder Públi­co acon­te­cem e que as emergên­cias são muito grandes para que só o Poder Públi­co aja. Mas quem tem que resolver, quem é respon­sáv­el por isso é o Poder Públi­co”, ressaltou Afon­so.

“O Brasil sabe como resolver [o prob­le­ma da fome]. Nós já fize­mos isso. O Brasil saiu de 32 mil­hões de brasileiros [com fome, em 1993] para 4 mil­hões [em 2014] com con­strução de políti­cas públi­cas e von­tade políti­ca de resolver o prob­le­ma. O Bet­inho sem­pre dizia isso, que a fome é um prob­le­ma políti­co, que a fome é um dese­jo políti­co. Ela só acon­tece se o Poder Públi­co quis­er que ela acon­teça. Hoje, o Esta­do brasileiro tem as políti­cas de segu­rança ali­men­tar mais avançadas do mun­do de com­bate à fome. Somos refer­ên­cia no mun­do inteiro por con­ta dessas políti­cas. Mas quan­do elas não são apli­cadas da for­ma cor­re­ta, quan­do elas não são o foco políti­co, a fome vol­ta. E é isso o que acon­te­ceu nos últi­mos anos”, desta­cou o dire­tor do Ação da Cidada­nia.

Clau Gavi­o­li reforça que esse prob­le­ma só será de fato resolvi­do com a dis­tribuição de ren­da. “Como ativista e estu­diosa da área de comi­da, sei que pro­duz­i­mos mais comi­da do que bocas que temos para ali­men­tar. Essa é uma questão de dis­tribuição [de ali­men­to], de políti­cas públi­cas que deem aces­so às pes­soas. Esta­mos falan­do tam­bém de dis­tribuição de ren­da, de dar condições para que as pes­soas pos­sam escol­her aqui­lo que elas querem com­prar. E quan­do você aumen­ta o poder aquis­i­ti­vo do pobre, a primeira coisa que ele mel­ho­ra é a ali­men­tação, que é a questão da sobre­vivên­cia. Ninguém vai com­prar roupa nova antes de por um ali­men­to no pra­to do fil­ho”, desta­cou.

“Real­mente acho que podemos resolver o prob­le­ma da fome porque nos­so prob­le­ma é muito mais de estru­tu­ra, de dis­tribuição de ren­da, de opor­tu­nidades e de aces­so ao ali­men­to, do que de pro­dução de ali­men­to. Comi­da tem. A gente só pre­cisa con­seguir dis­tribuir isso da mel­hor for­ma, dis­tribuir de uma for­ma mais humana, mais con­sciente. Mas temos muito chão para per­cor­rer porque tem mui­ta gente que quer ter mais din­heiro no ban­co, mes­mo que o viz­in­ho não ten­ha o que com­er.”

Para o padre Julio, emb­o­ra a sociedade civ­il não con­si­ga resolver o prob­le­ma da fome, ela tem um papel impor­tante na con­strução de soluções. “A importân­cia é a gente estar orga­ni­za­do para exi­gir respostas, con­stru­ir respostas e encon­trar cam­in­hos”.

Agên­cia Brasil pub­li­ca nes­ta terça-feira (21) a últi­ma parte do espe­cial Pra­to Vazio: um retra­to da fome no Brasil 

Edição: Lílian Beral­do

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