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Expansão das facções aumenta a criminalidade nas cidades do interior

Constatação é do Atlas da Violência 2025 divulgado nesta sexta-feira

Dou­glas Cor­rêa — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 08/11/2025 — 10:39
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro - Protesto contra morte de Cláudia Ferreira da Silva. Baleada em operação da PM no Morro da Congonha, Madureira, teve o corpo arrastado durante socorro em viatura policial(Fernando Frazão/Agência Brasil)
Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

A descon­cen­tração da vio­lên­cia letal nas grandes cidades, com a inte­ri­or­iza­ção do crime e o avanço das facções para médias e peque­nas cidades do país é desta­ca­da pelo Atlas da Vio­lên­cia 2025 – Retra­to dos municí­pios brasileiros e dinâmi­ca region­al do crime orga­ni­za­do, divul­ga­do nes­ta sex­ta-feira (7). O lev­an­ta­men­to foi elab­o­ra­do pelo Insti­tu­to de Pesquisa Econômi­ca Apli­ca­da (Ipea), em parce­ria com o Fórum Brasileiro de Segu­rança Públi­ca (FBSP).

O relatório evi­den­cia dois motivos para esse fenô­meno. “Em primeiro lugar, as cidades que eram mais vio­len­tas há 10 anos con­seguiram reduzir a letal­i­dade. Por out­ro aspec­to, em face da inte­ri­or­iza­ção do crime, muitas cidades menores pas­saram a viven­ciar em maior número a vio­lên­cia letal”.

De acor­do com o Atlas, as cap­i­tais como For­t­aleza, São Luís, Goiâ­nia, Cuiabá e o Dis­tri­to Fed­er­al reg­is­traram “reduções supe­ri­ores a 60% nas taxas de homicí­dios entre 2013 e 2023”. Fato que con­trasta com “o avanço da crim­i­nal­i­dade e das dis­putas entre facções em municí­pios médios e inte­ri­ores, espe­cial­mente nas regiões Norte e Nordeste, que pas­saram a con­cen­trar episó­dios de vio­lên­cia antes restri­tos às metrópoles”.

Diminuição dos homicídios

Mes­mo com a ampli­ação ter­ri­to­r­i­al das facções crim­i­nosas, o lev­an­ta­men­to mostra uma con­tin­u­a­da redução dos homicí­dios no país, tendên­cia que se obser­va des­de 2018.

“Em alguns esta­dos, o proces­so começou muito antes, como é o caso de São Paulo, esta­do onde as mortes por causas vio­len­tas vêm dimin­uin­do de for­ma con­tínua há mais de duas décadas”.

Expansão das facções

O relatório indi­ca tam­bém que as facções crim­i­nosas estão pre­sentes em todas as unidades da Fed­er­ação, mas de maneira desigual. “Em alguns esta­dos, a pre­sença de vários gru­pos ali­men­ta dis­putas ter­ri­to­ri­ais inten­sas e letais, como ocorre na Bahia, onde atu­am o Coman­do Ver­mel­ho (CV) e o Primeiro Coman­do da Cap­i­tal (PCC) em aliança com facções locais, como o Bonde do Malu­co e o Coman­do da Paz”.

A mes­ma dis­pu­ta por ter­ritório ocorre tam­bém em Per­nam­bu­co, o esta­do abri­ga pelo menos 12 facções em con­fli­to. Elas são respon­sáveis por impul­sion­ar as altas taxas de homicí­dios no esta­do.

“No Ama­zonas e no Amapá, as guer­ras entre CV, PCC e orga­ni­za­ções region­ais, como a Família Ter­ror do Amapá e o Car­tel do Norte, têm provo­ca­do escal­adas de vio­lên­cia em cidades médias e por­tuárias estratég­i­cas”, apon­ta o Atlas.

Já em out­ras regiões, os con­fli­tos por domínio de ter­ritórios são de baixa inten­si­dade, rev­e­lando uma con­vivên­cia rel­a­ti­va­mente estáv­el entre gru­pos rivais. “É o caso de São Paulo, onde prevalece uma espé­cie de paci­fi­cação, resul­tante do domínio de mer­ca­dos ile­gais por uma úni­ca e poderosa orga­ni­za­ção crim­i­nosa, o PCC”.

O mes­mo acon­tece tam­bém em Minas Gerais. O esta­do tam­bém “abri­ga diver­sas facções frag­men­tadas, mas com menor grau de con­fli­to aber­to, e San­ta Cata­ri­na, cuja atu­ação do Primeiro Grupo Catari­nense (PGC) ocorre em um cenário de vio­lên­cia mais con­tro­la­da e pon­tu­al”.

Diversidades de estratégias

O Atlas da Vio­lên­cia 2025 tam­bém desta­ca para o que chama de “diver­si­dade de estraté­gias entre os gru­pos crim­i­nosos”.  Segun­do o doc­u­men­to, os gru­pos crim­i­nosos com “estru­turas mais estáveis e voltadas ao lucro ten­dem a con­ter o uso da vio­lên­cia osten­si­va, enquan­to orga­ni­za­ções menores e frag­men­tadas recor­rem com mais fre­quên­cia a con­fron­tos arma­dos para afir­mar poder e man­ter o con­t­role ter­ri­to­r­i­al”.

Infiltração em atividades lícitas

O lev­an­ta­men­to aler­ta para o fato do crime orga­ni­za­do se infil­trar em ativi­dades pro­du­ti­vas líc­i­tas e na gestão públi­ca. Esse fenô­meno, segun­do o Atlas, “ameaça o Esta­do Democráti­co de Dire­ito, com expan­sões na políti­ca, nas ativi­dades pro­du­ti­vas líc­i­tas e na gestão e con­tratos das admin­is­trações públi­cas. Essa expan­são econômi­ca e insti­tu­cional das facções, segun­do os autores, rep­re­sen­ta uma das faces mais perigosas do crime orga­ni­za­do con­tem­porâ­neo”.

No cam­in­ho con­trário dessa expan­são do crime orga­ni­za­do, o relatório iden­ti­fi­ca avanços em políti­cas públi­cas qual­i­fi­cadas de segu­rança, que os do doc­u­men­to chamam de “rev­olução invisív­el na segu­rança públi­ca”. “A par­tir da déca­da de 2010, essa trans­for­mação tem engloba­do cada vez mais esta­dos e municí­pios, com­bi­nan­do ações pre­ven­ti­vas, qual­i­fi­cação poli­cial e o uso de inteligên­cia integra­da”.

Dados de homicídios

Enquan­to os municí­pios grandes (mais de 500 mil habi­tantes) tiver­am, em 2023, taxa média de 23,6 homicí­dios por 100 mil habi­tantes, as cidades médias (entre 100 mil e 500 mil habi­tantes) apre­sen­taram taxa média de 24,2 por 100 mil e as peque­nas (até 100 mil habi­tantes) de 20 homicí­dios por 100 mil habi­tantes.

Os números mostram que os 20 municí­pios mais vio­len­tos do país pos­suíam, em média, pop­u­lação de 330 mil habi­tantes e uma média das taxas de homicí­dio esti­madas de 65,4, o que é quase três vezes da média nacional. Por out­ro lado, a média das taxas de homicí­dio esti­madas no grupo dos 20 municí­pios com menor letal­i­dade era de 3,8. Por­tan­to, com­para­n­do os 20 municí­pios mais e menos vio­len­tos do país, a prevalên­cia de homicí­dio no primeiro grupo foi 17 vezes maior do que no últi­mo grupo – uma difer­ença maior do que aque­la entre a taxa de homicí­dio do Brasil e da Europa, em que essa relação é de 10,4 vezes.

Em 1.548 (29,6%) dos 5.237 municí­pios clas­si­fi­ca­dos como pequenos não hou­ve nen­hum homicí­dio esti­ma­do (reg­istra­do ou ocul­to). Entre os de taman­ho médio, foram encon­tra­dos 10 com taxas aci­ma de 60 homicí­dios por 100 mil habi­tantes. No out­ro extremo, 51 municí­pios médios apre­sen­taram taxas menores de 10 homicí­dios esti­ma­dos por cem mil habi­tantes. Já entre os 46 clas­si­fi­ca­dos como grandes, oito apre­sen­taram taxas abaixo de 10.

Operação Contenção

Rio de Janeiro (RJ), 31/10/2025 - Moradores, familiares e representantes da sociedade civil se reúnem na comunidade da Vila Cruzeiro para manifestação de repúdio à Operação Contenção que deixou 121 mortos. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ), 31/10/2025 — Moradores, famil­iares e rep­re­sen­tantes da sociedade civ­il se reúnem na comu­nidade da Vila Cruzeiro para man­i­fes­tação de repú­dio à Oper­ação Con­tenção que deixou 121 mor­tos. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil — Tânia Rêgo/Agência Brasil

O Atlas da Vio­lên­cia 2025 traz críti­ca ao gov­er­no do Rio, por causa da Oper­ação Con­tenção real­iza­da no dia 28 de out­ubro nos com­plex­os da Pen­ha e do Alemão. A con­clusão do relatório descreve que “muitos gov­er­nos con­tin­u­am a ofer­e­cer à sociedade como supos­ta solução para o enfrenta­men­to ao crime orga­ni­za­do, ações que con­tribuem neg­a­ti­va­mente para a segu­rança públi­ca, como o espetácu­lo midiáti­co da Oper­ação no Com­plexo do Alemão”, aler­ta.

“Há pelo menos 40 anos, essas ações poli­ci­ais baseadas na bru­tal­i­dade e no entra e sai nas comu­nidades se reptem sem qual­quer sinal de efe­tivi­dade no sen­ti­do de reduzir o poder do CV, muito pelo con­trário. Como resul­ta­do da oper­ação 121 pes­soas foram mor­tas, 118 armas foram apreen­di­das e 113 pes­soas foram pre­sas, dos quais 54 pos­suíam algu­ma ano­tação crim­i­nal”.

O lev­an­ta­men­to tra­ta ain­da do cus­to social da oper­ação que vai muito além da per­da de vidas humanas, incluin­do a de qua­tro poli­ci­ais.

“Além dos danos mate­ri­ais e destru­ição de val­ores econômi­cos, com a per­da no comér­cio, trans­porte, esco­las, pos­tos de saúde – e no lim­ite o Rio de Janeiro prati­ca­mente para­do – as cenas de guer­ra cer­ta­mente fiz­er­am aumen­tar a sen­sação de inse­gu­rança, o que trará reflex­os adver­sos futur­os”.

Cita tam­bém que entre os mor­tos, 39 eram ori­un­dos de out­ros esta­dos e pos­sivel­mente inte­grantes do CV. Fato esse que chama a atenção para dois pon­tos:

“Em primeiro lugar, o ‘tra­bal­ho’ remo­to e a inte­gração nacional das maiores redes crim­i­nais nos reme­tem à neces­si­dade urgente de uma ampla inte­gração e inter­op­er­abil­i­dade entre as agên­cias do sis­tema de segu­rança públi­ca no país. Em segun­do, as autori­dades devem estar aten­tas à reper­cussão que essas mortes podem ger­ar sobre o mer­ca­do crim­i­nal e even­tu­ais dis­putas, sobre­tu­do no Pará, Ama­zonas, na Bahia, no Ceará e Goiás”.

Nota da Polícia Militar do RJ

A  Sec­re­taria de Esta­do de Polí­cia Mil­i­tar (SEPM) infor­mou por meio de nota que, “no âmbito da insti­tu­ição, a cor­po­ração atua de maneira osten­si­va no perímetro das comu­nidades e seus aces­sos e real­iza oper­ações plane­jadas para desmo­bi­lizar as facções crim­i­nosas e pren­der seus inte­grantes”.

“O desafio da Polí­cia Mil­i­tar no cenário urbano se reflete em números. Somente este ano, a cor­po­ração já pren­deu mais de 29 mil pes­soas e apreen­deu mais de 4.300 ado­les­centes infratores. Tam­bém foram apreen­di­das mais de 4.200 armas de fogo, den­tre estas 695 fuzis. Ain­da este ano, a cor­po­ração removeu mais de 4.400 qui­los de mate­ri­ais de mais de 3.700 pon­tos com bar­ri­cadas nas vias de todo o Esta­do do Rio de Janeiro”, acres­cen­tou a SEPM .

A nota con­clui que Polí­cia Mil­i­tar con­tin­uará seguirá com inves­ti­men­tos em “tec­nolo­gia, Inteligên­cia e estraté­gia para com­bat­er o crime orga­ni­za­do e pren­der seus inte­grantes, bus­can­do ele­var a sen­sação de segu­rança dos cidadãos flu­mi­nens­es”.

*Tex­to alter­ado às 13h40 para acrésci­mo de infor­mação

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