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Profissionais do SUS receberão treinamento em cuidados paliativos

Objetivo é oferecer mais qualidade de vida a quem tem doença grave

Alana Gan­dra — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 09/12/2025 — 08:02
Rio de Janeiro
Nova sala de cuidados paliativos do Inca. Foto: Divulgação/Inca
Repro­dução: © Divulgação/Inca

Profis­sion­ais de serviços de atenção primária à saúde serão treina­dos para atu­ar em cuida­dos palia­tivos, com o obje­ti­vo de pro­por­cionar mais qual­i­dade de vida às pes­soas com doenças graves. O novo ciclo do Pro­je­to Cuida­dos Palia­tivos começa em 2026 em 20 esta­dos. O pro­je­to é uma parce­ria do Min­istério da Saúde e do Hos­pi­tal Sírio-Libanês, por meio do Pro­gra­ma de Apoio ao Desen­volvi­men­to Insti­tu­cional do Sis­tema Úni­co de Saúde (Proa­di-SUS). 

Em entre­vista à Agên­cia Brasil, a palia­tivista e coor­de­nado­ra médi­ca do pro­je­to no Sírio-Libanês, Maria Perez, infor­mou que o primeiro encon­tro com as 20 sec­re­tarias estad­u­ais de Saúde já foi real­iza­do. Ela expli­cou que a com­preen­são mais fre­quente sobre os cuida­dos palia­tivos é que eles são uti­liza­dos ape­nas em pacientes ter­mi­nais, sem chance de cura. Mas isso não é cor­re­to. 

De acor­do com a Orga­ni­za­ção Mundi­al da Saúde (OMS), essa é uma abor­dagem que foca a questão de qual­i­dade de vida, olhan­do não só os sin­tomas físi­cos, mas tam­bém questões emo­cionais, soci­ais, espir­i­tu­ais dos pacientes e seus famil­iares, bené­fi­ca a todos os por­ta­dores de doenças graves. Ess­es cuida­dos devem ser ofer­e­ci­dos jun­to com o trata­men­to especí­fi­co para a doença de base que o paciente tiv­er

“Quan­do a gente fala em abor­dagem de cuida­dos palia­tivos, não neces­si­ta nec­es­sari­a­mente que seja um espe­cial­ista em cuida­dos palia­tivos atuan­do. Mas que ten­ha esse olhar, pen­san­do na qual­i­dade de vida, trazen­do a pes­soa para o cen­tro do cuida­do, ter sem­pre uma atenção na comu­ni­cação e no mane­jo de sin­tomas”, afir­mou Maria Perez.

Para ela, isso dev­e­ria acon­te­cer des­de o diag­nós­ti­co de uma doença ameaçado­ra da vida. “Os pacientes pre­cisam muito dessa abor­dagem de cuida­dos palia­tivos. Que ela seja ofer­ta­da no momen­to da ter­mi­nal­i­dade, mas não só”, acres­cen­tou.

O pro­je­to Cuida­dos Palia­tivos, via Proa­di-SUS, começou a ser desen­volvi­do no Hos­pi­tal Sírio-Libanês em 2020, envol­ven­do profis­sion­ais de hos­pi­tais, ambu­latórios de espe­cial­i­dades e serviços de atendi­men­to domi­cil­iar. Mais de 10 mil profis­sion­ais de saúde do SUS par­tic­i­param de capac­i­tações ofer­tadas por meio do pro­je­to e mais de 12 mil pacientes com deman­das de cuida­dos palia­tivos foram iden­ti­fi­ca­dos por ess­es serviços de saúde.

A ini­cia­ti­va é foca­da na capac­i­tação e na imple­men­tação de novos pro­to­co­los para aten­der a esse per­fil de paciente. Em 2024, após o lança­men­to da Políti­ca Nacional de Cuida­dos Palia­tivos, o pro­gra­ma foi refor­mu­la­do, trans­for­man­do-se em pro­je­to de apoio à políti­ca.

“Aí, a gente pas­sou a tra­bal­har não só hos­pi­tais, ambu­latórios de espe­cial­i­dades e serviços de atendi­men­to, mas tam­bém unidades de Pron­to Atendi­men­to (UPAs) e Serviços de Atendi­men­to Móv­el de Urgên­cia (Samus), que têm atu­ação mais próx­i­ma às sec­re­tarias estad­u­ais de Saúde”, disse

No ciclo ini­ci­a­do em 2024, mais de 150 serviços de saúde de 19 esta­dos e do Dis­tri­to Fed­er­al par­tic­i­param do pro­je­to, entre eles UPAs e serviços de Atendi­men­to Médi­co de Urgên­cia (Samus). Como se tratam de serviços de atendi­men­to emer­gen­cial, Maria Perez con­ta que a primeira impressão foi de estran­hamen­to. “Mas à medi­da que as equipes foram enten­den­do o con­ceito cor­re­to de cuida­dos palia­tivos, foram perceben­do que já aten­di­am essas pes­soas, com crises de dor e fal­ta de ar e que acionam o Samu”, acres­cen­tou.

“A gente teve a par­tic­i­pação de 49 hos­pi­tais, 54 serviços de atendi­men­to domi­cil­iar, 11 ambu­latórios, 19 UPAs e 16 Samus espal­ha­dos pelo Brasil. Ago­ra, esta­mos esperan­do a indi­cação das sec­re­tarias sobre quais são os serviços que vão par­tic­i­par no próx­i­mo ano”, disse a espe­cial­ista. A expec­ta­ti­va é que, ao final de 2026, o pro­je­to dev­erá alcançar um terço das macror­regiões do país.

A par­tir de ago­ra, com a ação mais próx­i­ma às sec­re­tarias estad­u­ais de Saúde, a ideia é for­t­ale­cer o tra­bal­ho em toda a rede. “Porque daí a gente con­segue garan­tir ou bus­car essa con­tinuidade de cuida­do, essa qual­i­dade assis­ten­cial”, disse ain­da Maria Perez.

Pioneirismo

Um dos primeiros serviços a rece­ber o pro­je­to foi o Samu 192 — Region­al do Alto Vale do Paraí­ba, no esta­do de São Paulo. Para Rita de Cás­sia Duarte, enfer­meira e super­vi­so­ra do Serviço de Atendi­men­to Móv­el de Urgên­cia (Samu) no Vale do Paraí­ba, a ini­cia­ti­va  foi um divi­sor de águas, trazen­do bene­fí­cios para o serviço, para a pop­u­lação e toda a atenção bási­ca.

“Para os profis­sion­ais que atu­am com urgên­cia e emergên­cia, cuida­dos palia­tivos eram algo muito novo. De maneira ger­al, o foco desse profis­sion­al sem­pre foi sal­var vidas e lidar com situ­ações de risco ime­di­a­to, e não acom­pan­har pacientes com condições irre­ver­síveis. Havia uma difi­cul­dade em enten­der que há lim­i­tação e que, em alguns casos, não haverá inter­venções cura­ti­vas, mas, ain­da assim, haverá cuida­do, acol­hi­men­to e atenção a um per­fil especí­fi­co de paciente”, disse Rita de Cás­sia.

Avanços

Maria Perez avaliou que o Brasil tem avança­do muito na pau­ta de cuida­dos palia­tivos. “Antiga­mente, a gente fala­va e a pes­soa não sabia nem do que está­va­mos falan­do. Hoje em dia, como o assun­to tem esta­do mais na mídia, os profis­sion­ais têm procu­ra­do enten­der”.

De acor­do com a espe­cial­ista, um dos prin­ci­pais pon­tos tra­bal­ha­dos na capac­i­tação é a iden­ti­fi­cação da deman­da, para que os profis­sion­ais con­sigam iden­ti­ficar os pacientes que pre­cisam dess­es cuida­dos e qual a mel­hor for­ma de ofer­ecê-los. A for­mação parte de fer­ra­men­tas com base cien­tí­fi­ca, mas tam­bém ressalta a importân­cia de haver  “um momen­to para con­ver­sar com o paciente e famil­iares para enten­der as condições biográ­fi­cas e de val­ores, do que é impor­tante para o paciente, o que é qual­i­dade de vida para ele”, enfa­ti­zou.

Jun­tan­do essas infor­mações com o paciente e a família, o profis­sion­al poderá enten­der qual é o mel­hor trata­men­to para aque­la pes­soa. “É o que a gente chama de cuida­do cen­tra­do na pes­soa: tem a ver com a história de vida do paciente e seus val­ores, não só com questões biológ­i­cas”. A par­tir daí, o profis­sion­al deve faz­er o plane­ja­men­to de cuida­dos, con­sideran­do a doença de base do paciente e as pos­si­bil­i­dades de trata­men­to, com a relação risco bene­fí­cio de cada uma delas.

A Orga­ni­za­ção Mundi­al da Saúde (OMS) ori­en­ta que cuida­dos palia­tivos con­stituem uma abor­dagem volta­da para reduzir o sofri­men­to de pacientes com doenças que ameaçam a vida, pro­por­cio­nan­do a mel­hor qual­i­dade de vida, inclu­sive no final da existên­cia dessa pes­soa. Esti­ma-se que mais de 73 mil­hões de pes­soas no mun­do neces­si­tam de cuida­dos palia­tivos a cada ano. Ain­da de acor­do com a OMS, cer­ca de 20 mil­hões de pes­soas mor­rem anual­mente com dor e sofri­men­to dev­i­do à fal­ta de aces­so a cuida­dos palia­tivos e ao alívio da dor.

O pro­je­to resul­tou na pro­dução e pub­li­cação de um Man­u­al de Cuida­dos Palia­tivos, ado­ta­do como refer­ên­cia na apre­sen­tação da nova políti­ca no SUS, pub­li­ca­do em 2023.

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