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Crescem casos de ataques em escolas: especialistas dizem o que fazer

Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Antes incomum no país, crimes têm aumentado


Pub­li­ca­do em 07/04/2023 — 07:20 Por Léo Rodrigues – Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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Há doze anos, um jovem de 23 anos inva­diu a esco­la onde havia estu­da­do no bair­ro de Realen­go, na zona oeste do Rio de Janeiro, e pro­duz­iu um mas­sacre que chocou o país: arma­do com dois revólveres, ele dis­parou con­tra os alunos, matan­do doze deles e come­tendo suicí­dio em segui­da. Na época, o episó­dio assus­ta­dor foi trata­do pela impren­sa como de fato era até então: algo fora do comum no Brasil. Há alguns anos, no entan­to, a ocor­rên­cia de diver­sos casos sim­i­lares tem exigi­do atenção das autori­dades e ger­a­do pre­ocu­pação em pesquisadores, que apon­tam cam­in­hos para enfrentar esse cenário.

Anteon­tem (5) uma creche em Blu­me­nau (SC) se tornou alvo de um homem de 25 anos que tirou a vida de qua­tro cri­anças. Nesse caso, inves­ti­gações pre­lim­inares não apon­taram nen­hum vín­cu­lo do agres­sor com a insti­tu­ição. Há menos de dez dias, out­ro ataque cau­sou uma morte e deixou cin­co pes­soas feri­das na Esco­la Estad­ual Thomazia Mon­toro, no bair­ro Vila Sônia, em São Paulo. O crime foi cometi­do por um de seus alunos, de 13 anos.

Nos últi­mos anos, out­ros episó­dios sim­i­lares que tiver­am grande reper­cussão no país tam­bém foram pro­movi­dos por estu­dantes ou ex-estu­dantes, como os reg­istra­dos em Aracruz (ES) no ano pas­sa­do e em Suzano (SP) em 2019.

Ataques pelo país

De acor­do com mapea­men­to da Uni­ver­si­dade Estad­ual de Camp­inas (Uni­camp) sobre casos de ataques em esco­las por alunos ou ex-alunos, o primeiro episó­dio foi reg­istra­do em 2002. À época, um ado­les­cente de 17 anos dis­parou con­tra duas cole­gas den­tro da sala de aula de uma esco­la par­tic­u­lar de Sal­vador. O lev­an­ta­men­to da Uni­camp deixa de fora episó­dios de vio­lên­cia não plane­ja­dos, que podem ocor­rer, por exem­p­lo, em decor­rên­cia de uma briga.

Foram lis­tadas 22 ocor­rên­cias des­de 2002, sendo que em uma ocasião o ataque envolveu duas esco­las. Em três episó­dios, o crime foi cometi­do em dupla. Em cin­co, os ati­radores se sui­ci­daram na sequên­cia. Ao todo, 30 pes­soas mor­reram, sendo 23 estu­dantes, cin­co pro­fes­sores e dois fun­cionários das esco­las.

Do total de casos, 13 (mais da metade) estão con­cen­tra­dos ape­nas nos últi­mos dois anos.

Extremismo de direita

A pre­ocu­pação com a situ­ação lev­ou o pro­fes­sor da Fac­ul­dade de Edu­cação da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP), Daniel Cara, a coor­denar a cri­ação de um grupo for­ma­do por 11 pesquisadores de uni­ver­si­dades de diver­sos esta­dos do país. No final do ano pas­sa­do, eles elab­o­raram um doc­u­men­to anal­isan­do o cenário e pro­pon­do estraté­gias conc­re­tas para a ação gov­er­na­men­tal.

Segun­do os pesquisadores, ess­es casos devem ser clas­si­fi­ca­dos como extrem­is­mo de dire­i­ta, pois envolvem coop­tação de ado­les­centes por gru­pos neon­azis­tas que se apoiam na ideia de suprema­cia bran­ca e mas­culi­na e os estim­u­lam a realizar os ataques. Ess­es gru­pos dis­sem­i­nam um dis­cur­so que val­oriza o pre­con­ceito, a dis­crim­i­nação, o uso de força e que enco­ra­ja dire­ta e indi­re­ta­mente atos agres­sivos e vio­len­tos. Para os pesquisadores, medi­das de pre­venção só serão efi­cazes se atu­arem sobre esse cenário.

“É necessário com­preen­der que o proces­so de coop­tação pela extrema-dire­i­ta se dá por meio de inter­ações vir­tu­ais, em que o ado­les­cente ou jovem é expos­to com fre­quên­cia ao con­teú­do extrem­ista difun­di­do em aplica­tivos de men­sagens, jogos, fóruns de dis­cussão e redes soci­ais”, reg­is­tra o doc­u­men­to.

A pre­sença de sím­bo­los asso­ci­a­dos a ide­olo­gias de extrema-dire­i­ta tem sido recor­rente nestes atos vio­len­tos. O autor de um ataque real­iza­do em fevereiro deste ano com bom­bas caseiras em uma esco­la em Monte Mor (SP), que não resul­tou em mor­tos ou feri­dos, ves­tia uma braçadeira com a suás­ti­ca nazista. Arti­go sim­i­lar foi usa­do no mas­sacre que deixou qua­tro mor­tos e diver­sos feri­dos em duas esco­las de Aracruz em novem­bro do ano pas­sa­do. O jovem respon­sáv­el pelo episó­dio de vio­lên­cia usa­va sobre a man­ga de sua roupa camu­fla­da uma braçadeira com um emble­ma que era usa­do por nazis­tas alemães.

Siege mask

No recente ataque reg­istra­do na Vila Sônia, em São Paulo, assim como no de Aracruz no ano pas­sa­do, o autor ves­tia ain­da uma más­cara de esquele­to. Usa­da pelo per­son­agem Ghost da fran­quia de jogos Call Of Duty, ela é con­heci­da como siege mask e se pop­u­lar­i­zou em fóruns de gamers extrem­is­tas para depois se tornar um apara­to de iden­ti­fi­cação de sim­pa­ti­zantes neon­azis­tas em todo o mun­do. É hoje uma mar­ca em atos da extrema-dire­i­ta.

Ela aparece, por exem­p­lo, em janeiro de 2021 na invasão do Capitólio, edifí­cio que abri­ga o Con­gres­so dos Esta­dos Unidos, por uma mul­ti­dão descon­tente com a der­ro­ta do ex-pres­i­dente Don­ald Trump nas eleições pres­i­den­ci­ais do país. Esteve pre­sente tam­bém nos atos anti­democráti­cos ocor­ri­dos em Brasília no dia 8 de janeiro desse ano. Ima­gens de câmeras de segu­rança cap­taram a imagem de um homem uti­lizan­do a más­cara em meio ao grupo de apoiadores do ex-pres­i­dente Jair Bol­sonaro que depredaram o Palá­cio do Planal­to e defendi­am uma inter­venção mil­i­tar para depor o recém-ini­ci­a­do gov­er­no do pres­i­dente Luiz Iná­cio Lula da Sil­va.

Segun­do sus­ten­tam alguns pesquisadores, a siege mask foi ado­ta­da por gru­pos de extrema-dire­i­ta por suas semel­hanças com a caveira que era usa­da como emble­ma pela Totenkopf, uma divisão da SS, orga­ni­za­ção para­mil­i­tar lig­a­da ao Par­tido Nazista que atu­ou dire­ta­mente no Holo­caus­to. Essa más­cara tam­bém está asso­ci­a­da com o mas­sacre real­iza­do por uma dupla que deixou oito mor­tos em 2019 na Esco­la Estad­ual Raul Brasil, em Suzano. Um dos respon­sáveis pelo crime a uti­liza­va em fotos com­par­til­hadas nas redes soci­ais.

“Sensação de pertencimento”

A edu­cado­ra Tel­ma Vin­ha, coor­de­nado­ra da pesquisa real­iza­da pela Uni­camp, obser­va que há um per­fil mais fre­quente entre os autores dos ataques: home­ns jovens bran­cos geral­mente com baixa autoes­ti­ma e sem pop­u­lar­i­dade na esco­la. “Não são pop­u­lares na tur­ma. Eles têm muitas relações vir­tu­ais, mas não tan­to pres­en­ci­ais. E nutrem uma fal­ta de per­spec­ti­va, de propósi­to em ter­mos de futuro”, pon­tu­ou em entre­vista lev­a­da ao ar no dia 30 de março pela TV Uni­camp.

A pesquisado­ra tam­bém afir­ma ser comum a existên­cia de transtornos men­tais não diag­nos­ti­ca­dos ou sem o dev­i­do acom­pan­hamen­to. Ess­es quadros podem se desen­volver ou se agravar pela difi­cul­dade de rela­ciona­men­to nas esco­las, o que pode ocor­rer, por exem­p­lo, com os que são alvos de bul­ly­ing. Alguns tam­bém vivem situ­ações pro­lon­gadas de exposição a proces­sos vio­len­tos em casa, incluin­do neg­ligên­cias famil­iares e autori­taris­mo parental, o que con­tribuem para desen­volver um per­fil de agres­sivi­dade no âmbito domés­ti­co.

Tel­ma obser­va que a coop­tação tem ocor­ri­do por meio de jogos online, onde há chats para­le­los. Dali, se deslo­cam para fóruns e redes soci­ais onde há incen­ti­vo de vio­lên­cia e dis­cur­sos mis­ógi­nos e racis­tas. No ambi­ente vir­tu­al, ess­es jovens podem exper­i­men­tar uma sen­sação de per­tenci­men­to a um grupo que não pos­suem na esco­la. O cresci­men­to dos ataques tam­bém tem sido rela­ciona­do como um pos­sív­el des­do­bra­men­tos da pan­demia de covid-19. Isso porque o con­sumo de jogos eletrôni­cos cresceu durante os perío­dos de iso­la­men­to social, o que deixaria os jovens mais expos­tos à coop­tação por gru­pos que propagam dis­cur­sos de ódio.

Segun­do a edu­cado­ra, na maio­r­ia das vezes, não se tratam de crimes pas­sion­ais, moti­va­dos uni­ca­mente por vin­gança ou rai­va des­en­cadea­da por um trata­men­to rece­bido. Os autores plane­jam faz­er o maior número de víti­mas, pois têm como obje­ti­vo a bus­ca por noto­riedade públi­ca e recon­hec­i­men­to da comu­nidade vir­tu­al.

“Mes­mo agin­do de for­ma iso­la­da, acred­i­tam que fazem parte de um movi­men­to, se sen­tem parte de algo maior”, expli­ca.

Ela tam­bém ressalta que o Brasil não está viven­do um fenô­meno iso­la­do, mas que casos com car­ac­terís­ti­cas muito sim­i­lares tam­bém estão sendo reg­istra­dos em out­ros país­es.

Nos Esta­dos Unidos, onde mas­sacres pro­duzi­dos por jovens em esco­las ocor­rem há mais tem­po e com mais fre­quên­cia, um lev­an­ta­men­to real­iza­do pelo jor­nal Wash­ing­ton Post mapeou 377 inci­dentes des­de 1999. Con­sideran­do somente 2021 e 2022, foram 88, quase um quar­to do total.

No Brasil, de acor­do com o mapea­men­to da Uni­camp, os ataques reg­istra­dos des­de 2002 acon­te­ce­r­am em 19 esco­las públi­cas, entre estad­u­ais e munic­i­pais, e em qua­tro par­tic­u­lares. Segun­do Tel­ma, os per­fis das insti­tu­ições são dis­tin­tos. Por isso, não há razão para respon­s­abi­lizá-las. Ela con­ta que já con­heceu pro­fes­sores que se per­gun­tavam se fiz­er­am algo de erra­do.

“Não há nada que explique porque acon­te­ceu em deter­mi­na­da esco­la e não em out­ra. Pode acon­te­cer em qual­quer lugar. Tem esco­las local­izadas em regiões mais vio­len­tas dos que as que foram ata­cadas. Ataques ocor­rem em esco­las com difer­entes níveis de estru­tu­ra”, pon­dera.

Caminhos

Após os últi­mos ataques, o gov­er­no paulista se apres­sou em anun­ciar algu­mas medi­das, entre elas a alo­cação de poli­ci­ais den­tro das esco­las e a ampli­ação de inves­ti­men­to em um pro­gra­ma de medi­ação de con­fli­tos nas unidades de ensi­no. Em San­ta Cata­ri­na, o prefeito de Blu­me­nau prom­e­teu a cri­ação de um pro­to­co­lo de pre­venção para evi­tar novos casos.

A reper­cussão dos casos recentes tam­bém lev­ou a adoção de medi­das em out­ros esta­dos. O gov­er­no do Rio de Janeiro anun­ciou a cri­ação de um Comitê Per­ma­nente de Segu­rança Esco­lar com rep­re­sen­tantes da Segu­rança Públi­ca e da Edu­cação para atu­ar na pre­venção às situ­ações de vio­lên­cia nas esco­las públi­cas e pri­vadas.

Por sua vez, o gov­er­no fed­er­al criou um grupo inter­min­is­te­r­i­al para anal­is­ar pro­postas de políti­cas públi­cas.

Edição: Heloisa Cristal­do

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