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Estudo prevê substituição de roedor em testes antiveneno de serpentes

Projeto poderá ser colocado em prática a partir de março de 2026

Alana Gan­dra — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 22/10/2025 — 07:12
Rio de Janeiro
Cobra naja de 1,5 metro que picou um estudante de veterinária em Brasília e está no Zoológico da capital federal
Repro­dução: © Ivan Mattos/Zoológico de Brasília

Pesquisa da biólo­ga Rena­ta Nor­bert, do Insti­tu­to Nacional de Con­t­role da Qual­i­dade em Saúde, da Fun­dação Oswal­do Cruz (INCQS/Fiocruz), sobre a sub­sti­tu­ição de camundon­gos por ensaios in vit­ro para con­t­role da qual­i­dade de soros con­tra o veneno de cobras do gênero Both­rops, foi pre­mi­a­do pela Sociedade Europeia para Alter­na­ti­va de Testes em Ani­mais, no 13º Con­gres­so Mundi­al de Alter­na­ti­vas ao Uso de Ani­mais.

O tra­bal­ho obteve tam­bém menção hon­rosa do Cen­tro Nacional para a Sub­sti­tu­ição, Refi­na­men­to e Redução de Ani­mais em Pesquisa, orga­ni­za­ção cien­tí­fi­ca britâni­ca.

Both­rops é um gênero de ser­pentes da família Viperi­dae, pop­u­lar­mente denom­i­nadas de jarara­cas, cotiaras e uru­tus. A pic­a­da dessa ser­pente é a cau­sado­ra do maior número de aci­dentes com cobras no Brasil. Somente este ano, o Depar­ta­men­to de Infor­máti­ca do Sis­tema Úni­co de Saúde (Data­SUS) reg­istrou 12 mil aci­dentes desse tipo.

Em entre­vista para a Agên­cia Brasil, Rena­ta Nor­bert disse que o estu­do vem sendo desen­volvi­do há algum tem­po porque, des­de 2001, o INCQS vem fazen­do ape­los para a sub­sti­tu­ição dess­es ani­mais, não só para evi­tar o sofri­men­to da espé­cie nos testes, mas tam­bém porque a pesquisa demon­strou resul­ta­dos mais rápi­dos e mais baratos.

Segun­do Rena­ta, a cadeia pro­du­ti­va antive­neno englo­ba muitas eta­pas. Em todas elas, des­de a pro­dução, há um con­t­role inter­no para asse­gu­rar a qual­i­dade.

Ao final da pro­dução, o lote vai para teste no INCQS, onde tam­bém é uti­liza­da uma grande quan­ti­dade de camundon­gos visan­do a lib­er­ação do pro­du­to para o Pro­gra­ma Nacional de Imu­niza­ção (PNI) para a pop­u­lação brasileira.

“Nós con­seguimos avançar na fase de pré-val­i­dação que, até o momen­to, no mun­do inteiro, não existe para antive­nenos. Existe para cos­méti­cos, existe para out­ros pro­du­tos. Para antive­nenos, é a primeira pesquisa que chega à fase de pré-val­i­dação”, acen­tu­ou Rena­ta.

Ago­ra, o estu­do está na últi­ma fase, que abrange a repro­dutibil­i­dade de out­ros lab­o­ratórios para ates­tar a robustez do méto­do. “Os out­ros lab­o­ratórios vão tes­tar a metodolo­gia que a gente pré-vali­dou para obser­var se eles con­seguem obter os mes­mos resul­ta­dos. Acho que esse foi o maior difer­en­cial do nos­so tra­bal­ho:  avançar um pas­so a mais na val­i­dação”.

Metodologia

A sub­sti­tu­ição de camundon­gos por célu­las Vero, cul­ti­vadas em lab­o­ratório, poderá ser ado­ta­da tam­bém por pro­du­tores, o que evi­tará o uso de roe­dores. A metodolo­gia in vit­ro pre­vê o uso dessas célu­las Vero que, após serem fix­adas em pla­cas, recebem uma mis­tu­ra de soro com veneno.

Caso as célu­las per­maneçam intac­tas, o soro está aprova­do porque inibiu a ação do veneno. Qual­quer efeito tóx­i­co, ao con­trário, sig­nifi­ca que o soro foi reprova­do.

Depois dessa eta­pa, a meta é sub­me­ter o resul­ta­do da pesquisa para a far­ma­copeia brasileira, de modo a  colocá-lo em práti­ca. “A gente quer sair da pesquisa e aplicá-la na práti­ca”, diz a espe­cial­ista.

Serão mon­ta­dos kits de ensaios para que os lab­o­ratórios pos­sam realizar a metodolo­gia e ver­i­ficar os resul­ta­dos, fazen­do-se ain­da a com­para­ção entre os resul­ta­dos apre­sen­ta­dos pelos lab­o­ratórios. “Com os dados, a gente faz a estatís­ti­ca e vê a repro­dutibil­i­dade, se eles con­seguem obter os mes­mos resul­ta­dos que a gente con­seguiu no INCQS”, frisa Rena­ta. Ess­es resul­ta­dos serão pub­li­ca­dos e sub­meti­dos aos órgãos reg­u­ladores. “O nos­so son­ho é faz­er um estu­do maior, que incluísse até lab­o­ratórios fora do Brasil porque essas ser­pentes Both­rops exis­tem em out­ros país­es, como a Cos­ta Rica, por exem­p­lo. Não se limi­tam ao Brasil”, acres­cen­ta.

Para Rena­ta Nor­bert, o recon­hec­i­men­to inter­na­cional obti­do pelo estu­do foi um estí­mu­lo a mais para dar prossegui­men­to à pesquisa. Ela acred­i­ta que — par­tir de março de 2026 — o pro­je­to poderá ser colo­ca­do em práti­ca.

Ganhos

Em dezem­bro deste ano, Rena­ta irá se reunir com os pro­du­tores e um número maior de pes­soas inter­es­sadas na mul­ti­pli­cação desse con­hec­i­men­to visan­do colocá-lo  em práti­ca. Ela quer ten­tar a expan­são do pro­je­to para o exte­ri­or. A pre­mi­ação con­tribuiu para isso. A biólo­ga do INCQS reforçou que o méto­do é mais rápi­do e bara­to do que uti­lizan­do os camundon­gos. “Chega a reduzir em até 69% o cus­to”, frisou.  

Assim, isso se expli­ca porque é necessário um número muito grande de roe­dores cri­a­dos no Insti­tu­to de Ciên­cia e Tec­nolo­gia em Bio­mod­e­los (ICTB/Fiocruz) e chegam até a fase adul­ta para que pos­sam ser uti­liza­dos em pesquisas.

Rena­ta Nor­bert expli­cou que o teste para antive­neno causa muito sofri­men­to aos ani­mais usa­dos em grande quan­ti­dade, e que, após esse méto­do, são sac­ri­fi­ca­dos. “Tra­ta-se de um teste lon­go e doloroso, sem aneste­sia”, esclarece. Daí a razão de a pesquisa bus­car sua sub­sti­tu­ição por ensaios in vit­ro.

O méto­do desen­volvi­do pela biólo­ga no INCQS “é sim­ples e rápi­do. A gente lib­era o resul­ta­do em uma sem­ana, enquan­to os camundon­gos lev­am pelo menos um mês na pro­dução até chegarem à fase adul­ta. Depois, ain­da vão para o INCQS para acli­matar e ficam dias no lab­o­ratório, antes de serem exper­i­men­ta­dos. O nos­so méto­do é sim­ples, então dá uma difer­ença grande. Após a val­i­dação, vai ser um gan­ho muito grande”, asse­gu­ra.

O INCQS já uti­liza a metodolo­gia de célu­las para lib­er­ação de vaci­nas. Para venenos, o estu­do de Rena­ta  é pio­neiro. Ela pre­tende esten­der a pesquisa inter­na­cional­mente para out­ros tipos de ser­pente Both­rops “porque, se ela é efe­ti­va para Both­rops jarara­ca, tam­bém pode ser para Both­rops Asper, encon­tra­da na Améri­ca Cen­tral e no norte da Améri­ca do Sul. Na Cos­ta Rica, por exem­p­lo, seria muito impor­tante”.

Envenenamento

Para o INCQS, as ser­pentes Both­rops são respon­sáveis por cer­ca de 90% dos casos de enve­ne­na­men­to por cobras em humanos no Brasil. Além da pos­si­bil­i­dade de levar a pes­soa a óbito, a peçon­ha dess­es répteis pode causar hemor­ra­gia, necroses ou mes­mo amputações dos mem­bros afe­ta­dos.

Ape­sar dis­so, o enve­ne­na­men­to por Both­rops não des­per­ta o inter­esse com­er­cial da indús­tria far­ma­cêu­ti­ca pri­va­da, infor­mou o Insti­tu­to Nacional de Con­t­role da Qual­i­dade em Saúde. Daí, a Orga­ni­za­ção Mundi­al de Saúde (OMS) o clas­si­fi­ca como doença trop­i­cal neg­li­gen­ci­a­da.

O antive­neno e os ensaios para ver­i­ficar sua qual­i­dade são feitos pelas unidades do Sis­tema Úni­co de Saúde (SUS), como o INCQS/Fiocruz, Insti­tu­to Vital Brasil,  Insti­tu­to Butan­tan e a Fun­dação Eze­quiel Dias.

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