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São Paulo tem carnaval com forró e afro axé em bairros periféricos

Repro­dução: © TV Brasil

Periferias da capital mostram que folia não é feita só de samba


Pub­li­ca­do em 20/02/2023 — 06:06 Por Elaine Patri­cia Cruz – Repórter da Agên­cia Brasil* — São Paulo

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É no rit­mo do for­ró que as ruas de São Miguel Paulista vão cel­e­brar o car­naval em São Paulo nes­ta terça-feira (21). Bair­ro local­iza­do no extremo da zona leste paulis­tana, São Miguel Paulista é um redu­to nordes­ti­no e, durante a maior fes­ta cul­tur­al brasileira, não deixa de mostrar suas raízes para a cidade que os acol­heu.

Foi nesse bair­ro que, em 2012, surgiu o Blo­co do Baião, uma hom­e­nagem ao cen­tenário do grande mestre san­foneiro brasileiro, Luiz Gon­za­ga. O Blo­co do Baião é um dos quase 500 blo­cos car­navale­scos que des­fi­larão pela cap­i­tal paulista entre o pré-car­naval e o pós-car­naval. A maior parte dess­es blo­cos pas­sam pelo cen­tro da cidade, mas ape­sar do menor inves­ti­men­to, há folia rolan­do tam­bém pelas per­ife­rias de São Paulo. Pela zona leste, por exem­p­lo, pas­sarão 68 blo­cos, sendo oito deles somente na sub­prefeitu­ra de São Miguel Paulista.

Bloco do Baião - Carnaval
Repro­dução: Blo­co do Baião vem cel­e­brar a tradição pop­u­lar nordes­ti­na- Car­naval — TV Brasil

O Blo­co do Baião foi cri­a­do para rep­re­sen­tar e cel­e­brar a tradição pop­u­lar nordes­ti­na. Todos os anos, ele sai em corte­jo com san­foneiros, zabum­beiros, tri­an­guleiros, rabequeiros e uma ala de frente for­ma­da por Lampião e Maria Boni­ta. “O for­ró é uma sequên­cia de rit­mos nordes­ti­nos. Den­tro dele existe o xote, o xax­a­do, o baião, o coco, o arras­ta-pé. E isso é o Blo­co do Baião. Foi uma for­ma de não deixar acabar essa cul­tura, de não deixar acabar com essa tradição”, expli­cou Wag­n­er Ufrack­er da Sil­va, mais con­heci­do como Zé da Lua, fun­dador do Blo­co do Baião.

“Os moradores aqui [de São Miguel Paulista], em sua maio­r­ia, não têm condições de ir para o Sam­bó­dro­mo. Então temos aqui blo­cos com uma diver­si­dade muito grande. O Blo­co do Baião rep­re­sen­ta a cul­tura nordes­ti­na. Tem o blo­co dos ser­tane­jos, da cul­tura afro-brasileira, do sam­ba” detal­ha. “Aqui em São Miguel Paulista, por exem­p­lo, a gente não tem locais de entreten­i­men­to como em out­ros lugares da cidade. É muito car­ente. Então faze­mos um Car­naval volta­do para a família e para a cri­ança­da”.

Neste ano, o blo­co vai hom­e­nagear dois mestres da cul­tura do bair­ro: Sacha Arcan­jo e Alzi­ra Viana, que fun­daram a Praça do For­ró e tam­bém aju­daram a cri­ar o Blo­co do Baião.

Alzira e Sacha no Carnaval de São Paulo
Repro­dução: Alzi­ra e Sacha são os hom­e­nagea­d­os deste ano do Blo­co do Baião — TV Brasil

“Meu pai era for­rozeiro. Onde ele ia, ele me lev­a­va. Com cin­co anos de idade eu já esta­va no for­ró”, con­tou Alzi­ra, em entre­vista à TV Brasil. “O for­ró já tin­ha dom­i­na­do a min­ha cabeça, não tin­ha mais como voltar atrás. Pegou no sangue”, diz.

“A gente põe lá um arras­ta-pé, um xote, que o pes­soal curte bem, e dá para faz­er a mes­ma magia do car­naval. E esta­mos com o Blo­co do Baião fazen­do isso”, con­tou Sacha.

Alzi­ra desta­ca que o for­ró é mes­mo um rit­mo que apaixona as pes­soas. “O for­ró não nasceu para mor­rer, mas para ficar. O for­ró é vida. Só quem dança e que toca é que sabe”, pon­tua.

Diversidade cultural

As per­ife­rias de São Paulo mostram que o car­naval brasileiro não é feito só de march­in­has, sam­ba ou axé. Há espaço para todo rit­mo, todo tipo de fes­ta, todo tipo de man­i­fes­tação. Esse tam­bém é o caso do Blo­co Afro É Di San­to, que per­corre as ruas de M´Boi Mir­im, na zona sul paulis­tana. Surgi­do em 2010, o blo­co tem como base o sam­ba-reg­gae e rit­mos de origem afro-brasileira.

“Neste ano, o nos­so tema é Águas de Axé nos Cam­in­hos do Blo­co Afro É Di San­to. Nos­so blo­co tem dois patronos: Oxalá e Oxum, que são orixás. Uma de nos­sas car­ac­terís­ti­cas é traz­er, para os tam­bores, os rit­mos das religiões de matrizes africanas e, a par­tir daí, nos encon­trar­mos tan­to na nos­sa fé quan­to no rit­mo. A par­tir da nos­sa ances­tral­i­dade, do que a gente é o que a gente faz no ter­ritório, vamos can­tan­do e resistin­do con­tra todas essas vio­lên­cias que a gente sofreu e vem sofren­do ao lon­go do tem­po”, disse Andrea Souza de Oliveira, co-fun­dado­ra do blo­co.

O corte­jo per­corre as ruas do M´Boi Mir­im sem­pre nas segun­das-feiras de car­naval. “Nós somos um blo­co afir­ma­ti­vo per­iféri­co, um blo­co afro. Esse é o Blo­co Afro É Di San­to, com essa iden­ti­dade afro-brasileira e que tem como influên­cia o sam­ba e o reg­gae, inspi­ra­dos nos blo­cos de Sal­vador, nos toques de ter­reiro e na con­sciên­cia de afir­mação negra e de cul­tura anti-racista”, descreveu Mestre Rabi Batuqueiro, fun­dador do blo­co.

“As pes­soas que a gente con­vi­dou para faz­er parte do blo­co tam­bém vêm desse meio cul­tur­al, da cul­tura que usa as ruas para se man­i­fes­tar, para mostrar o que a gente faz, de onde a gente veio. A rua é nos­so lugar de expressão”, falou Mestre Rabi.

Descentralização

O car­naval de rua é uma fes­ta democráti­ca e, em São Paulo, ele tem cam­in­hado para tam­bém ser descen­tral­iza­do, amplian­do a ideia de ocu­pação da cidade.

Dos 475 blo­cos pre­vis­tos para des­fi­lar neste ano no car­naval de Rua de São Paulo, 123 vão ocor­rer nas per­ife­rias da cidade, infor­mou a Sec­re­taria Munic­i­pal de Cul­tura. A expec­ta­ti­va da prefeitu­ra é que cer­ca de 300 mil pes­soas acom­pan­hem o car­naval per­iféri­co. Essa pre­visão, infor­mou a sec­re­taria, descon­sid­era a região cen­tral, a Vila Mar­i­ana e Pin­heiros, bair­ros que con­cen­tram atual­mente a maio­r­ia dos blo­cos da cidade.

“Entre os des­files na per­ife­ria estão blo­cos em Ita­que­ra, Gra­jaú, São Miguel Paulista, Sapopem­ba, Brasilân­dia, Pir­i­tu­ba, Gua­ianas­es, M’Boi Mir­im, Cidade Tiradentes e Ermeli­no Mataraz­zo. Enquan­to o cen­tro con­cen­tra megablo­cos, os bair­ros per­iféri­cos têm maior quan­ti­dade de blo­cos pequenos e region­ais”, infor­mou a sec­re­taria, por meio de nota.

O car­naval de rua sem­pre exis­tiu nas comu­nidades mais per­iféri­c­as da cidade. Mas ele gan­hou impul­so nos últi­mos anos, com o surg­i­men­to de novos blo­cos e for­mas de cel­e­bração. “Os blo­cos de Car­naval sem­pre exi­s­ti­ram nas per­ife­rias, mas é fato que nos últi­mos 10 ou 15 anos, aumen­tou muito a pre­sença dess­es blo­cos nos bair­ros de per­ife­ria”, disse Tiara­ju Pablo D´Andrea, pro­fes­sor da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP) e da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de São Paulo (Unife­sp) e coor­de­nador do Cen­tro de Estu­dos Per­iféri­cos.

Em entre­vista à TV Brasil, ele apon­tou três prin­ci­pais hipóte­ses para esse cresci­men­to do Car­naval per­iféri­co. Uma delas, disse ele, é o que ele chama de “pri­mav­era cul­tur­al per­iféri­ca”, com a pro­lif­er­ação de cole­tivos cul­tur­ais e artís­ti­cos nas per­ife­rias de São Paulo. Uma segun­da hipótese, diz ele, tem relação com os movi­men­tos pop­u­lares e soci­ais de ocu­pação de espaços públi­cos. E, por fim, ele desta­ca o fato das esco­las de sam­ba não estarem mais con­seguin­do agluti­nar a mas­sa que quer cur­tir o car­naval. “Ás vezes as esco­las de sam­ba têm um for­ma­to um pouco mais rígi­do. É uma com­petição ou pre­cisa pagar fan­ta­sia ou pre­cisa ter assiduidade nos ensaios. Por isso, a pop­u­lação, de for­ma ger­al, aca­ba preferindo algo mais leve, descom­pro­mis­sa­do e sem neces­si­dade de se pagar por fan­tasias”, disse ele.

Uma car­ac­terís­ti­ca desse car­naval, desta­cou ele, é ser mais het­erogê­neo, uma for­ma de expres­sar as diver­sas raízes cul­tur­ais da pop­u­lação que vive longe do cen­tro. “É na per­ife­ria que habi­ta a classe tra­bal­hado­ra brasileira, a pop­u­lação mais empo­bre­ci­da do pon­to de vista cul­tur­al ou das relações soci­ais e é na per­ife­ria que há uma cer­ta inter­cul­tur­al­i­dade, uma het­ero­genei­dade no que se ref­ere às raízes cul­tur­ais. Isso se expres­sa na maneira como as per­ife­rias mostram sua cul­tura e, no car­naval, isso não seria difer­ente”, con­clui.

“São Miguel Paulista é um bair­ro emi­nen­te­mente nordes­ti­no e é óbvio que, em uma de suas expressões car­navalescas, ele iria reivin­dicar essa origem, essa musi­cal­i­dade que vem do Nordeste brasileiro. A zona sul de São Paulo tem uma pre­sença negra muito evi­dente e que se expres­sa tam­bém na defe­sa das tradições e da origem africana. Vale destacar ain­da out­ras reivin­di­cações que vêm sendo feitas por meio do car­naval: há blo­cos que defen­d­em a chama­da cul­tura tradi­cional, blo­cos que defen­d­em a cul­tura indí­ge­na e blo­cos que vão quer­er can­tar aqui­lo que as pes­soas gostam de escu­tar. Então a gente vai ter blo­co car­navale­sco que can­ta músi­ca ser­tane­ja, que é muito escu­ta­da nas per­ife­rias. Esta­mos ven­do que, por meio do Car­naval, uma série de gos­tos e for­mas musi­cais estão se expres­san­do”, disse o pro­fes­sor.

*Em colab­o­ração com Priscila Kerche e Thi­a­go Padovan, da TV Brasil

Edição: Aline Leal

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