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Terreiros de Santo Amaro se unem contra o racismo religioso

Repro­dução: © Joéd­son Alves/Agência Brasil

Celebração na cidade baiana mostra resistência do povo afro-brasileiro


Pub­li­ca­do em 05/03/2023 — 18:06 Por Daniel Mel­lo — Envi­a­do Espe­cial — San­to Amaro da Purifi­cação (BA)

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No ano seguinte à pro­mul­gação da Lei Áurea, que acabou com a escravidão legal no Brasil, em 1889, João de Obá orga­ni­zou uma cel­e­bração em San­to Amaro da Purifi­cação, no Recôn­ca­vo Baiano: o Bem­bé do Mer­ca­do. A fes­ta reuniu os pescadores e os ter­reiros de can­domblé para denun­ciar, no dia 13 de Maio, as condições em que a chama­da abolição deixou a pop­u­lação negra, sem nen­hu­ma reparação pelo seque­stro das pop­u­lações africanas e pelos anos de tra­bal­hos força­dos.

Santo Amaro (BA), 28/02/2023 - Terreiros de Santo Amaro (BA) se unem contra racismo, Babá Sérgio, da Associação religiosa Ilê Yá Oman posa para foto em eu terreiro. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Repro­dução: Joéd­son Alves/Agência Brasil

“Não é a comem­o­ração do 13 de Maio, da supos­ta abolição da Prince­sa Isabel. O Bem­bé do Mer­ca­do é a afir­mação da resistên­cia do nos­so povo. Quan­do hou­ve a supos­ta abolição no 13 de Maio de 1888, eles [negros] não tin­ham ter­ra. Ficaram todos à deri­va. E muitos se sub­me­ter­am a con­tin­uar com a vida de escra­vo porque não tin­ha ter­ra, não tin­ha como com­er”, expli­ca Babá Sér­gio, do Ilê Oman, que é dire­tor de comu­ni­cação da asso­ci­ação que reúne 60 ter­reiros do municí­pio para cuidar da orga­ni­za­ção do Bem­bé do Mer­ca­do.

Os pescadores que con­struíram essa man­i­fes­tação eram, segun­do Sér­gio, aque­les que bus­cav­am for­mas de sobre­vivên­cia sem ter aces­so à ter­ra. “Eles tiraram [o sus­ten­to] do mar, porque o mar não tem dono”, con­ta.

Patrimônio cultural

Santo Amaro (BA), 28/02/2023 - Terreiros de Santo Amaro (BA) se unem contra racismo, māe Lidu (c), posa para foto com suas filhas de santo em eu terreiro Ilê Axé Igbalé. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Repro­dução: Māe Lidu ©, posa para foto com suas fil­has de san­to no ter­reiro Ilê Axé Igbalé. Joéd­son Alves/Agência Brasil

O Bem­bé foi recon­heci­do como patrimônio ima­te­r­i­al pelo Insti­tu­to do Patrimônio Artís­ti­co e Cul­tur­al da Bahia, em 2012, e pelo Insti­tu­to do Patrimônio Históri­co e Artís­ti­co Nacional (Iphan), em 2019. A cel­e­bração envolve a real­iza­ção de obri­gações reli­giosas, com ded­i­cações a Exu, Ieman­já e Oxum, e tam­bém man­i­fes­tações cul­tur­ais afro-brasileiras, como a capoeira e o sam­ba de roda. As fes­tas ocor­rem em pon­tos cen­trais da cidade de San­to Amaro, municí­pio fun­da­do no sécu­lo XVI em um local que era habita­do orig­i­nal­mente por povos indí­ge­nas.

Mais do que uma fes­ta históri­ca, o Bem­bé é uma orga­ni­za­ção dos ter­reiros de San­to Amaro para preser­var a cul­tura local e faz­er resistên­cia con­tra a vio­lên­cia do racis­mo que afe­ta as religiões de matriz africana. Um proces­so que, segun­do Babá Sér­gio, se apro­fun­dou no últi­mo gov­er­no, do ex-pres­i­dente Jair Bol­sonaro.

“A gente lutou, pediu a Deus e aos orixás, aos voduns e aos encan­ta­dos. No últi­mo gov­er­no, hou­ve muitos ataques aos nos­sos ter­reiros. A gente quase foi ban­ido pela for­ma de sacral­iza­ção dos ani­mais por uma perseguição à nos­sa reli­giosi­dade. Os frig­orí­fi­cos, os abate­douros, [matam] mil­hares de aves. Mas o prob­le­ma é porque é o can­domblé, porque é de negro”, crit­i­ca o respon­sáv­el pelo ter­reiro fun­da­do em 1933.

O Ilê Oman está atual­mente fecha­do, em luto de um ano pela morte da matri­ar­ca mãe Lydia, em dezem­bro de 2022. Lydia ficou 48 anos à frente da casa e dedi­cou 70 dos 86 anos que viveu ao can­domblé.

Babá Sér­gio recon­hece a del­i­cadeza de lid­er­anças reli­giosas se posi­cionarem politi­ca­mente. No entan­to, ele enx­er­ga que cer­tos momen­tos exigem atu­ação. “A gente não pode colo­car a reli­giosi­dade em políti­ca de homem, em políti­ca par­tidária. Mas, de uma for­ma ou de out­ra, a gente tem que falar, porque é a políti­ca que nos move”, enfa­ti­za.

Por isso, ele espera que o gov­er­no do pres­i­dente Luiz Iná­cio Lula da Sil­va tra­ga um respiro para o povo de san­to. “A nos­sa esper­ança era viv­er com menos perseguição. Isso nós vamos con­seguir, eu ten­ho certeza”, diz.

“Botar pé firme e lutar”

Santo Amaro (BA), 28/02/2023 - Terreiros de Santo Amaro (BA) se unem contra racismo, māe Williana de Odé, posa para foto em eu terreiro Ilê axé Ojú Igbô Odé. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Repro­dução: Māe Williana de Odé, em eu ter­reiro Ilê axé Ojú Igbô Odé — Joéd­son Alves/Agência Brasil

A iaque­querê (mãe peque­na) do Ilê Axe Igbalê, mãe Lyn­du se assus­ta com a pro­porção da perseguição aos ter­reiros e seguidores do can­domblé nos últi­mos anos.

“Muito pre­con­ceito reli­gioso. A gente se veste com a roupa do san­to para poder faz­er as coisas que tem que faz­er. E mui­ta gente des­faz da gente, da nos­sa religião, da nos­sa matriz africana. A gente faz as cam­in­hadas aqui para ver se aca­ba com isso”, diz em refer­ên­cia às man­i­fes­tações con­tra o pre­con­ceito orga­ni­zadas pelos ter­reiros na cidade.

Os fiéis, segun­do a mãe de san­to, se esforçam para con­cil­iar as práti­cas ances­trais com o respeito à comu­nidade e ao meio ambi­ente. “A gente não mexe com ninguém. Cumpre as obri­gações. A gente não polui o rio. Quan­do a gente leva um pre­sente para a pra­ia, a gente não joga fras­co de per­fume. A gente não joga saco plás­ti­co. Nada dis­so nós faze­mos, temos todos os cuida­dos”, expli­cou.

Ape­sar da dis­crim­i­nação, mãe Lyn­du defende que os cos­tumes têm que ser man­ti­dos. “A resistên­cia da gente é botar pé firme, chamar por deus e lutar”, resume. “O povo fale ou não fale, cri­tique ou não cri­tique, nós temos que con­tin­uar. Não podemos parar com nos­sa cul­tura, com nos­so axé, com nos­sas raízes. Temos que con­tin­uar lutan­do”, acres­cen­ta sobre a dis­posição em man­ter viva a religião.

“Sofre­mos muitos ataques, dis­crim­i­nação. As pes­soas não nos respeitam. E, depois do gov­er­no pas­sa­do, ficou pior a situ­ação”, avalia Williana de Odé do ter­reiro Ilê Axé Oju Igbo Odé e que tam­bém faz parte da dire­to­ria da asso­ci­ação do Bem­bé do Mer­ca­do. Mas a mãe de san­to tam­bém não se intim­i­da com a hos­til­i­dade racista. “Eu vis­to min­ha roupa, boto min­has con­tas e saio pela rua. Mas tem muitas pes­soas que nem falam que são do can­domblé”, diz.

Para enfrentar essa situ­ação, Williana tem con­fi­ança na união dos prat­i­cantes da religião. “Esta­mos nos unin­do cada vez mais. E temos sem­pre reuniões, através do pai Pote [pres­i­dente da asso­ci­ação] e do Bem­bé do Mer­ca­do. Esta­mos sem­pre nes­sa questão de nos unir para estar­mos nos setores, fazen­do os tra­bal­hos, para via­jar, [e para a] cam­in­ha­da con­tra a intol­erân­cia reli­giosa”, ressalta.

Edição: Valéria Aguiar

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