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Ainda Estou Aqui chega “vencedor” ao Oscar, dizem estudiosos

Longa brasileiro ganhou 38 prêmios e teve impacto na memória do país

Luiz Clau­dio Fer­reira — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 02/03/2025 — 09:44
Brasília
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Brasília (DF), 23/01/2025 - Cena do filme Ainda estou aqui. Foto: Alile Dara Onawale/Sony Picutres
Repro­dução: © Alile Dara Onawale/Sony Picutres

Reper­cussões nacionais e inter­na­cionais de difer­entes car­ac­terís­ti­cas. Públi­cos emo­ciona­dos e curiosos sobre o que foi a ditadu­ra mil­i­tar no Brasil (1964 — 1985). Cin­e­ma brasileiro recon­heci­do ao tratar do impacto do autori­taris­mo (que ain­da hoje ameaça democ­ra­cias)… São vari­a­dos os motivos que fazem o filme Ain­da Estou Aqui, de Wal­ter Salles, já chegar vence­dor ao Oscar, neste domin­go (2), avaliam estu­diosos. Mes­mo se não vierem estat­ue­tas.

Brasília (DF), 23/01/2025 - Atriz do filme Ainda estou aqui, Fernanda Torres. Foto: oficialfernandatorres/Instagram
Repro­dução: Atriz do filme Ain­da estou aqui, Fer­nan­da Tor­res — oficialfernandatorres/Instagram

»Sai­ba mais sobre as indi­cações do filme

Inspi­ra­da em livro de 2015 com escri­ta biográ­fi­ca de mes­mo títu­lo, de auto­ria do escritor Marce­lo Rubens Pai­va, a obra foi lança­da em 2024 e lev­ou mais de cin­co mil­hões de pes­soas ao cin­e­ma. Em caso de vitória neste domin­go, será a primeira estat­ue­ta para o Brasil. Em 1960, porém, o lon­ga brasileiro Orfeu Negro venceu na cat­e­go­ria de mel­hor filme estrangeiro, mas o filme rep­re­sen­ta­va a França (do dire­tor Mar­cel Camus).

»Sai­ba mais sobre o livro Ain­da estou aqui, que será dis­tribuí­do em esco­las

Marce­lo Rubens Pai­va é um dos cin­co fil­hos da advo­ga­da e ativista Eunice Pai­va (1929 — 2018).e do ex-dep­uta­do Rubens Pai­va (1929 — 1971), que teve o manda­to cas­sa­do e depois foi persegui­do, rap­ta­do, tor­tu­ra­do e mor­to por agentes da ditadu­ra (da Aeronáu­ti­ca e do Exérci­to).

Até ago­ra, o lon­ga rece­beu 38 prêmios nacionais e inter­na­cionais, entre eles, o Prêmio Goya e o Globo de Ouro de Mel­hor Atriz. No Oscar, foi indi­ca­do em três cat­e­go­rias mel­hor filme, mel­hor atriz, para Fer­nan­do Tor­res, e mel­hor filme inter­na­cional.

Presente

Em ger­al, estu­diosos ouvi­dos pela Agên­cia Brasil expli­cam que remex­er no pas­sa­do de uma for­ma difer­ente, em diál­o­go com um pre­sente atribu­la­do, mobi­liza críti­ca e o públi­co, o que já, de antemão, rep­re­sen­ta vitória.

De acor­do com o pro­fes­sor Arthur Autran, da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de São Car­los (UFS­Car), e que lid­era grupo de pesquisa sobre cin­e­ma e audio­vi­su­al na Améri­ca Lati­na, a reper­cussão é “enorme” em diver­sos níveis, inde­pen­den­te­mente se o lon­ga rece­ber algum Oscar neste domin­go.

Há o que o pesquisador chama de uma “reper­cussão social”.

“O filme se tornou, de fato, uma espé­cie de even­to. Muitas pes­soas se inter­es­saram pelo cin­e­ma brasileiro”, expli­ca.

Brasília (DF), 01/03/2025 - Bloco de carnaval, Vai quem fica, nas ruas de Brasília. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Repro­dução: Brasília (DF), 01/03/2025 — Foliã se fan­ta­sia de Fer­nan­da Tor­res gan­han­do o Oscar no blo­co de car­naval, Vai quem fica, nas ruas de Brasília. — Joéd­son Alves/Agência Brasil

Para ele, isso evi­den­te­mente cria um cli­ma bas­tante pos­i­ti­vo e, mes­mo sem uti­lizar dire­ta­mente de recur­sos públi­cos, é uma expressão da políti­ca públi­ca brasileira para o audio­vi­su­al.

Out­ra vitória do filme para o país cita­da pelo pro­fes­sor é a val­oriza­ção da memória nacional. “(O assas­si­na­to de Rubens Pai­va) Foi um crime prat­i­ca­do pela ditadu­ra mil­i­tar brasileira. O filme é trazi­do de uma for­ma muito emo­cio­nante e can­dente. Hou­ve mui­ta com­petên­cia em recon­tar essa tragé­dia brasileira e traz­er isso de uma for­ma nar­ra­ti­va­mente muito poderosa”, diz Autran.

O filme, em si mes­mo, segun­do anal­isa o espe­cial­ista, ao traz­er uma nar­ra­ti­va poderosa, colo­ca luz sobre o cin­e­ma brasileiro.

“Nós temos voz”

Out­ra estu­diosa, a pro­fes­so­ra de artes cêni­cas Dirce Wal­trick do Ama­rante, da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de San­ta Cata­ri­na (UFSC), iden­ti­fi­ca que a vis­i­bil­i­dade fora do Brasil sig­nifi­ca uma vitória expres­si­va para a arte brasileira.

“Nós temos con­segui­do erguer a nos­sa voz. É uma voz fal­a­da em por­tuguês, de um país per­iféri­co como o Brasil. Uma voz que tem sido ouvi­da”, expli­ca a pesquisado­ra.

O alcance do filme, de acor­do com o que Dirce Wal­trick entende, tem trazi­do reper­cussão às pro­duções brasileiras na arte. “Esse filme é impor­tan­tís­si­mo em razão dessa temáti­ca e tem muitas chances de vencer no Oscar. De toda for­ma, eu acho um filme fun­da­men­tal, uma vira­da de chave para a nos­sa cul­tura”.

Para a pro­fes­so­ra, a função da obra de arte é de fato mex­er e per­tur­bar.

“As pes­soas se sen­tem insti­gadas a ir atrás e a saber mais sobre quem foi Eunice Pai­va, que lutou pelo dire­ito dos indí­ge­nas (o que é menos abor­da­do no filme)”.

De olho no presente

Para o pro­fes­sor de história Mar­co Pes­tana, da Uni­ver­si­dade Fed­er­al Flu­mi­nense (UFF), pesquisador do tema da ditadu­ra, o filme tem difer­entes méri­tos, como o de, mes­mo tratan­do de um perío­do obscuro, con­seguir dialog­ar de maneira dire­ta com o pre­sente. “É um filme que, nes­sa con­jun­tu­ra, tem cumpri­do um papel impor­tante”.

Em um cenário de expan­são de cor­rentes autoritárias pelo mun­do, como ele avalia a ascen­são do extrem­is­mo em país­es de difer­entes con­ti­nentes, o lon­ga apre­sen­ta-se como uma lin­guagem uni­ver­sal e que pode ser com­preen­di­da além do cenário do pas­sa­do brasileiro. 

Segun­do con­sid­era Pes­tana, esse avanço políti­co foi con­quis­ta­do por uma dis­pu­ta ide­ológ­i­ca fer­ren­ha, inclu­sive com uma ideia rever­ber­a­da e fal­sa de que have­ria tran­quil­i­dade no Brasil e que tin­ham prob­le­mas com a polí­cia e com a justiça quem esta­va fazen­do algo de erra­do. “Isso é parte da con­strução ide­ológ­i­ca de val­oriza­ção desse perío­do”, expli­ca.

O pro­fes­sor entende que o filme mostra que aque­le perío­do não era exata­mente uma era de ouro para o Brasil. “Evi­den­te­mente dialo­ga (e con­tes­ta) com esse imag­inário que a extrema-dire­i­ta ten­ta fomen­tar”.

Direitos

Naque­le cenário da obra, o filme desta­ca o impacto da ação repres­si­va sobre um mem­bro da família. “E como isso tem con­se­quên­cias para o con­jun­to daque­la família, não só naque­le momen­to, e como é um impacto de lon­ga duração. Não deixa de mostrar o momen­to da luta e o em que a família con­segue o ates­ta­do de óbito”, expli­ca.

Sobre o dire­ito da família, a advo­ga­da Ari­adne Maran­hão recon­hece que o filme traz vis­i­bil­i­dade ao tema da morte pre­sum­i­da.

“O recon­hec­i­men­to ante­ci­pa­do da morte foi um avanço que garan­tiu não ape­nas segu­rança jurídi­ca, mas um alívio necessário para que essas famílias seguis­sem com suas vidas den­tro do orde­na­men­to”, expli­ca.

Ela entende que a reper­cussão do filme Ain­da Estou Aqui, no âmbito do dire­ito de famílias e sucessões, é rel­e­vante, já que evi­den­ciou como o con­tex­to históri­co impactou dire­ta­mente as estru­turas famil­iares e a autono­mia das mul­heres. 

“Como sabe­mos, por sécu­los, as mul­heres foram silen­ci­adas e rel­e­gadas ao papel de zelado­ras da família, sem voz, para par­tic­i­par das decisões que mol­davam suas próprias vidas”. Para a espe­cial­ista, o filme retra­ta essa real­i­dade sob a óti­ca de Eunice Pai­va.

“A arte desem­pen­ha um papel fun­da­men­tal para aler­tar a sociedade sobre os seus dire­itos”.

“Fura a bolha”

O pro­fes­sor de história Mar­co Pes­tana, da UFF, argu­men­ta que o filme con­segue ter reper­cussão até com pes­soas que não con­heci­am ou com­preen­di­am as vio­lên­cias per­pe­tradas pelos agentes da ditadu­ra. Com Oscar ou sem, há uma vitória nesse sen­ti­do.

“Furou a bol­ha. Em algu­ma medi­da, isso tem relação com a estraté­gia nar­ra­ti­va de poli­ti­zar pelo viés do cotid­i­ano, da vida famil­iar”.

No enten­der do pro­fes­sor Arthur Autran, da UFS­Car, a esse respeito, hou­ve um esforço do filme de ten­tar falar para um públi­co o mais amp­lo pos­sív­el den­tro do Brasil e fora do Brasil tam­bém. Ain­da que, con­forme os espe­cial­is­tas, com lim­i­tações a “quem não quer ouvir”. Ele lem­brou que Marce­lo Rubens Pai­va, que é cadeirante, foi ata­ca­do quan­do esta­va em um blo­co de car­naval.

Brasília (DF), 23/09/2024 - Cena do filme Ainda estou aqui. Foto: Alile Dara Onawale/Sony Pictures
Repro­dução: Brasília (DF), 23/09/2024 — Cena do filme Ain­da estou aqui.- Alile Dara Onawale/Sony Pic­tures

Justiça

Depois que o filme foi lança­do, o Supre­mo Tri­bunal Fed­er­al (STF) resolveu anal­is­ar o proces­so que esta­va com trâmite para­do há uma déca­da. Ago­ra, a Corte anun­ciou que vai jul­gar se a Lei da Anis­tia se apli­ca aos crimes de seque­stro e cárcere pri­va­do cometi­dos durante a ditadu­ra mil­i­tar a par­tir das inves­ti­gações da morte do ex-dep­uta­do Rubens Pai­va.

Mar­co Pes­tana avalia que a decisão tem relação com o filme e a con­jun­tu­ra. “O STF soube ler (o momen­to) e enten­deu que era momen­to para pau­tar isso”.

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